Visitas Paranormais
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Espero que gostem.
"A dona aranha subiu pela parede. Veio a chuva forte e a derrubou. Já passou a chuva, o Sol já vem surgindo e a dona aranha continua a subir."
Meus olhos arregalaram-se olhando para o teto do meu quarto escuro. A tempestade naquela noite estava forte, o vento soprava alto e as árvores se mexiam como se tivesse um tornado aproximando-se. Engoli em seco quando ouvi a risada de uma criança.
Não tinha criança em casa.
Sentia alguém me observar, mas recusava-me a olhar para o pé da cama.
"Borboletinha, ta na cozinha, fazendo chocolate para a madrinha."
Ela continuava a cantarolar, e minhas mãos já tremiam enquanto em minha testa, o suor frio de uma pessoa apavorada escorria freneticamente.
"Vem, vamos brincar comigo."
Mesmo com os olhos fincados no teto, de reflexo, pude vê-la passando pela minha porta correndo, provavelmente descalço.
Minha respiração começou a ficar descompassada e meus olhos já deixavam as lágrimas escaparem, eu estava em pânico. Fechei os olhos com força.
— É só um sonho, é só um sonho. — Dizia repetitivamente para mim mesma.
Só poderia ser um sonho.
A casa voltou a ficar silenciosa e eu suspirei aliviada por isso. Não tinha mais músicas infantis, nem passos correndo muito menos alguém ali.
Abri os olhos lentamente.
— Tia, preciso te falar o nome do meu assassino!
Seu rosto estava a alguns centímetros do meu. Ela era pálida, seus lábios brancos e desidratados. Cabelos loiros desengrenhados e não eram penteados a muito tempo. Olheiras profundas e um sorriso doentio no rosto, com alguns dentes podres.
{...}
— Anabelle. Anabelle! — Ouvia meu pai gritar. — Ouça-me filha. Anabelle, pelo amor de Deus. Filha! Pare de gritar minha filha. Por favor, pare. — Suplicava desesperado.
Segurei em seus braços e abri os olhos assustadas. Meu pai estava desesperado sentado na cama, com as duas mãos nos meus braços, provavelmente estava me chacoalhando. Minha mãe chorava no batente da porta, mas não queria que eu visse.
— O que houve filha? O que está acontecendo? — Ele perguntou aliviado, acolhendo-me para os seus braços.
Sentia-me aliviada. Aquilo não passava de um sonho, e meus pais estavam ali. Sorri aliviada, por lembrar que aquilo não era real.
Olhei para a minha mãe, e ela também parecia aliviada. Pelo jeito, eu havia feito um verdadeiro escândalo.
Atrás dela, aquela garotinha apareceu novamente acenando para mim. Segurei meu pai com mais força, sentindo minha respiração descompassar novamente e meu coração bater forte contra o peito.
— Ana, o que você está sentindo? — Meu pai perguntou.
Fechei os olhos, colocando meu rosto entre a curva do seu pescoço e seu ombro e agarrei mais forte sua blusa de pijama.
E aquela, foi a primeira visita paranormal que eu tive.
{...}
QUATRO MESES DEPOIS
Encolhi meus ombros assim que cruzei a porta de casa, para a rua. Mesmo com jaqueta e cachecol o frio de São Paulo era difícil de combater.
Arrumei minha mochila nas minhas costas e caminhava pela rua, que por ser quinze para as seis da manhã estava vazia.
Meu nariz chegava a doer, pelo ar gelado que entrava. Coloquei o cachecol entre minha boca e meu nariz para aquece-los. Guardei as mãos nos bolsos e continuei meu caminho.
Todos os dias, quando eu acordava, minha mãe sempre fazia a mesma pergunta.
"Agradeceu por abrir os olhos hoje?"
Eu dizia que sim. Porém, eu não agradecia.
Muitos poderiam achar ingratidão, já que eu estive morta por alguns segundos. Não tinha o do porquê agradecer, desde esse dia minha vida mudou da água para o vinho e minhas noites ficaram mais atormentadas do que nunca. Meus olhos enxergavam, e meus ouvidos ouviam coisas que as outras pessoas não podiam ver ou ouvir. Meu corpo com a sensibilidade de sentir uma presença paranormal, estava acabando com meus dias e fazendo-me desejar nunca ter voltado daquela morte.
Nunca contei a ninguém. Jamais entenderiam, e provavelmente me chamariam de louca. Tinha que aprender a conviver com eles. Já procurei todo o tipo de ajuda na internet e todas acabavam em suicídio. Seria uma mentirosa se dissesse que nunca pensei nisso. Pensava diariamente na morte.
Eu ignorava todos, fingia não vê-los e continuar meu caminho. Mas eles me chamavam, sabiam meu nome e suplicavam ajuda. Viviam comigo diariamente, em qualquer lugar. Estava prestes a enlouquecer.
O que eles queriam comigo?
Cheguei na porta da escola e vi Elise mexendo no seu celular distraída. Aumento meus passos, porém deixo-os silenciosos, vou aproximando-me sem que ela perceba e dou um grito após segurar seu braço.
"Uma idosa estava em sua cadeira de balanço. O jardim não estava sendo tratado, deixando a grama alta e as flores morrerem. O dia estava cinza, e sua tosse parecia responder á aquele clima seco. A idosa estava infeliz, estava com um semblante triste. Solitária. Segurou firme em seu peito, e abriu a boca em busca de ar. Os olhos arregalaram-se espantosos e ao tentar levantar, seus joelhos foram ao chão. Não podia fazer nada para ajuda-la. Segurou firme em seu colar e me olhou, poderia jurar que ela sorriu antes de se entregar a morte."
— Menina! — Elise chamou a minha atenção. — Que cara é essa? — Zombou.
Sorri fraco, tentando entender o que havia acontecido. Eu nunca tinha visto isso antes, nem sentido. Parecia que eu estava ali, era real. Era como se aquela mulher pudesse me olhar.
— Ana, agora é sério. O que foi? — Estalou os dedos na frente dos meus olhos, e eu sai do transe.
— Nada. Não é nada! Só estava pensando se trouxe o trabalho de história.
Olhei para o seu pescoço distraidamente, e vi um colar. O mesmo colar que aquela idosa usava, antes de ter um ataque cardíaco.
— Bonito o colar. — Comentei enquanto andávamos na escola.
— Sim. Minha mãe me deu ontem, tem nossa foto nesse pingente. — Ela segurou em suas mãos, e abriu. Vi a foto das duas e sorri.
— Legal! Vou ao banheiro, te encontro na sala? — Perguntei e ela afirmou com a cabeça.
Eu e Elise eramos amigas desde que nos conhecemos por gente, por nossos pais também serem amigos. Passamos todas as fases juntas. Nunca escondíamos nada uma da outra. Exceto esse meu segredo horrível.
Apoiei minhas mãos na pia do lavatório e encarei meu rosto no espelho. Eu era uma garota normal do segundo ano do ensino médio. Tinha cabelos loiros e olhos castanhos, meu rosto era pálido com as bochechas coradas e meus lábios pequenos. Era uma garota comum.
Movi os olhos para o lado, olhando pelo reflexo uma pessoa parada atrás de mim.
Engulo seco, e já sabia que aquilo não era do meu mundo.
— O que...- Balbuciei. — O que está acontecendo comigo?
Pela primeira vez, tentei contato com eles. Respirava rápido e sentia meu coração bater forte.
O homem estava ensanguentado. A sua camisa sócial branca, era puro sangue e estava rasgada. Sua calça também tinha alguns rasgos e seus cabelos estavam completamente bagunçados.
Nos rosto, haviam hematomas por toda parte.
— Rua Aurora nº 140. Paulo Tristan.
— Que? — Espremi os olhos.
— Rua Aurora nº 140. Paulo Tristan.
— Ana? — A porta abriu brutalmente, fazendo um eco no banheiro. Saltei assustada.
Elise entrou.
— Vamos. Já bateu o sinal. O que há com você hoje em?
Voltei a olhar para a mesma direção. Mas aquele homem não estava mais ali.
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