Visitas Paranormais
2 Capítulo 2
Notas iniciais
As aulas corriam mas eu não prestava atenção em nada. Passava a caneta mais forte em cima do endereço que escrevi mais cedo. O mesmo que aquele fantasma falou pra mim. Eu acredito em fantasmas, acredito com a mesma força em que acredito que eu respiro.
Levantei os olhos, e olhei os cabelos castanhos claros da Elise. Eram ondulados nas pontas, brilhosos e visivelmente muito bem tratados. Ela é vaidosa, sempre foi, desde que éramos pequenas. Pensei no que tinha visto mais cedo, nunca aconteceu isso. Será que poderia ser ela? E se fosse, porque sua vida terminou de uma forma tão depressiva, sem ninguém com ela? Eu tinha que mudar isso. Mas seria difícil, já que ela encontrava o amor da vida dela uma vez por mês.
Alguém bate na porta, interrompendo a explicação da professora e todos passam a olhar. Por ela, entra o diretor acompanhado de um rapaz, provavelmente aluno novo, pela mochila e a blusa do uniforme.
Seu semblante não era nada bom.
Ouço algumas meninas da sala suspirarem, e começar os cochichos. Pude ouvir o pensamento da Elise daqui: o amor da minha vida.
Sua calça jeans é escura, o que ficou bem bonito com a camisa polo branca do uniforme. Sua pele é bronzeada, como se morasse na praia, um bronzeado bonito e exatamente apropriado. Cabelos da cor chocolate e os olhos verdes claros.
Ah, devo assumir, ele é um gato. Pude ver ele virar os olhos, entediado enquanto segurava na alça da blusa.
— Boa tarde alunos. — O diretor falou, recebendo uma resposta de todos ao mesmo tempo. — Esse é Pedro Parrera e ele é o novo aluno. O recebam bem.
Os cochichos não cessaram mesmo com ele indo escolher um lugar para se sentar.
O segui com os olhos, disfarçadamente.
Espremi os olhos, olhando a sua cadeira e pude notar que sangue começava a sair dali. Era como se a cadeira sangrasse. Mais sangue, e cada vez mais, até começar a escorrer no chão.
— Ajude-o. — Ouço um sussurro e automaticamente dou um grito na sala.
Todos olharam para mim, inclusive o garoto novo. Minha respiração ficou pesada e ainda poderia sentir o gelado no pé da minha orelha, sussurrando. A cadeira não tinha mais sangue, e eu percebi que era mais um dos episódios.
— Ana, você está bem? — Elise perguntou preocupada.
Recebi um olhar reprovador do Pedro, e virei o rosto para a Elise.
— Eu só...- Não tinha explicação. — Esquece.
Os alunos me olhavam como se eu fosse uma aberração. Imagina se soubessem o que eu ouço e vejo. Era por um desses motivos, que eu não digo a ninguém sobre essa maldição que foi lançada pra mim. Me irritava profundamente esses olhares zombando.
{...}
O final das aulas chegaram e eu guardava minhas coisas em silêncio, e o mais rápido que conseguia.
— Amiga, o que está acontecendo com você? — Elise perguntou pela décima vez em menos de duas horas. — Hoje você está muito estranha. Suas pupilas estão dilatadas o dia inteiro. Ana, você está usando drogas!? — Questionou preocupada.
— Elise, pelo amor de Deus. — Encarei seus olhos, e não pude evitar a risada.
— É sério viu. Um tio meu se envolveu com cocaína, e até hoje não consegue sair.
— Eu não uso cocaína. — Fechei minha mochila.
— Viu o menino novo? No intervalo vi a Brenda Peitos ir falar com ele.
Brenda Peitos era o jeito que apelidamos a menina mais abusada da escola. Ela vivia com os decotes a mostra, usando roupas com um número menor para eles poderem saltar pra fora. Todos os garotos da escola babavam por seus peitos, que eram mais fartos do que de muitas meninas. Era impossível competir com ela.
— E o que ela fez, esfregou os peitos na cara dele? — Riamos, enquanto saíamos da sala.
— Obviamente. Mas pela primeira vez, vi um não dando bola pra eles. Talvez ele é gay.
— Ou não gosta de meninas oferecidas. — Dei os ombros.
— Que homem não gosta da Brenda Peitos? — Indagou.
Sou empurrada brutalmente pelas costas, tropeçando algumas vezes até esbarrar em alguém. Nossos corpos bateram fortes na parede e eu bati minha cabeça em seu ombro.
— Droga. Desculpa! — Levantei, pegando minha mochila e olhando para a pessoa que eu...Ah, só pode ser brincadeira.
— Cuidado. Vai acabar se machucando. — Pedro alertou impaciente, pegando sua mochila nervoso.
— Me empurraram....Eu... -Gaguejei.
Ele arqueou suas sobrancelhas, que eram grossas. Olhou por cima do meu ombro, atrás de mim e eu fiz o mesmo. O corredor estava vazio, exceto pela Elise que me olhava espantada.
— Não. Eu...
Ele deu as costas.
— Olha, ta ai uma ideia melhor do que mostrar os peitos. — Elise se aproximou.
— Elise. Alguém me empurrou! — Falei alto e ela estremeceu.
— Ana, ninguém te empurrou.
A rádio da escola começou a chiar e eu segurei no braço da Elise com força. Olhava para os alto falantes e sabia que aquilo não era coisa da minha cabeça.
— Você está me assustando. — Minha amiga cantarolou.
— A Ana está enlouquecendo, a Ana está enlouquecendo. — A voz daquela garotinha cantava, debochando de mim e com risadinhas finas e assustadoras. — Ana, que tal vim brincar comigo? Posso te contar o nome do meu assassino.
— Está ouvindo? — Perguntei séria, com os olhos cheios de lágrimas.
— Ouvindo o que, Anabelle?
— Vamos embora daqui.
{...}
Estava deitada no quarto, já era noite e eu ainda pensava nas coisas que aconteceram hoje. Parece que ficaram mais fortes, eles nunca me tocaram ou me jogaram no chão. As visões nunca foram tão fortes e repetitivas. Alguma coisa aconteceu. Era como se as portas do outro lado, tivessem sido abertas.
Eu precisava procurar alguém. Ou enlouqueceria a qualquer momento.
— Ana, chegamos. — Ouço minha mãe e levanto da cama.
Desde o acidente, eu tive sonhos que ao decorrer dos dias percebia que não eram só sonhos. Eu sentia a presença, sentia o mal e as vezes o bem. Nos últimos dias, a única coisa que eu consigo sentir é o medo.
— Um absurdo! Temos que nos mudar, Luana. Eu cansei de falar isso. — Meu pai reclamava, andando de um lado para o outro enquanto tirava sua gravata.
Seus cabelos negros e curtos, estavam bagunçados e ele não parecia nada feliz.
— Ricardo, acalme-se. Quer que eu faça o que? — Minha mãe apareceu, com uma xícara de café, colocando acima da mesa para o meu pai.
Quando notou minha presença sorriu.
Eu havia herdado os loiros dela, e provavelmente o rosto inteiro. Do meu pai, era só o gênio forte.
— O que aconteceu? — Sentei com eles.
— Um absurdo. Uma falta de segurança, que eu particularmente estou assustado.
— Alguns quarteirões daqui, um homem foi morto a facadas. Dentro da própria casa.
— E o pior é que não sabem aonde estão o assassino! — Meu pai falou intrigado. — Como não sabem? Como alguém esfaqueia outra pessoa até a morte, e ninguém ouve?
— Ninguém mais quer se arriscar, Ricardo.
— Eu quero me mudar daqui. Eu quero ir embora desse bairro. Hoje foi na Rua Aurora, amanhã pode ser na nossa.
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