Notas iniciais
MissLany: Boa noite leitoras queridas!!! *O/*
Eis-me aqui para mais um post. Acredito que este seja o capítulo mais esperado. Então...Ei-lo aí: o encontro.
Apreciem sem moderação Bjus e boa leitura!!!
Nos falamos ao final :))

Em verdade afirmo, não importa o que passe; eu a sinto, quando mais magoado melhor ter amado e perdido do que jamais amado.” (Lord Alfred Tennyson)

Parado dentro do seu veículo em frente à residência dos Collin, Jacob observou a velha mansão branca, impoluta, toda iluminada. Sua boca amargou. Suas mãos travaram uma guerra com o volante, apertando-o com força até sentir os nós dos dedos doerem. Sua mente foi assaltada pelas últimas lembranças que tinha da mansão. Eram nítidas as memórias do último e fatídico dia em que pôs os pés naquela casa. Seus olhos arderam. O velho bolo de ressentimento e de ódio subiu pelo esôfago, lhe sufocando a garganta. Respirou forte.

As antigas recordações só lhe endureciam o coração. Seu ódio era seu aliado, sua fortaleza. Alimentava-se dele como uma cobra do seu próprio veneno. Por quanto tempo quisera voltar? Por quanto tempo pensou em escalar a janela, ou entrar sorrateiramente pela porta dos fundos, com o simples intuito de vê-la? Riu de sua antiga ingenuidade. Agora sabia que nada melhor do que um dia após o outro, como agora, para que o destino lhe proporcionasse alternativa mais vantajosa. Sentiu a satisfação corroer suas entranhas, pois nunca pensara que poria os pés novamente naquela casa, ainda mais que seria recebido com honras.

Com segurança e tranqüilidade, concluiu que deveria entrar, e com um pequeno sinal o empregado abriu-lhe os portões de ferro, cumprimentando-o com um sonoro “boa noite”. Sentindo-se vitorioso, seguiu até a entrada principal.

Desceu do veículo, fechando a porta cuidadosamente, e subiu os degraus da entrada da mansão, como tantas vezes fizera. Mas antes chegava apenas até a varanda da casa, pois não se sentia confortável para entrar na residência pela porta da frente. Cheio de si, segurou a aldabra de bronze e bateu contra a porta monstruosa, não por muito tempo.

- Boa noite. – cumprimentou a empregada que lhe atendeu à porta.

- Boa noite, senhor. – devolveu a moça, timidamente, sem conseguir fitá-lo nos olhos. — O Sr. Collin já o aguarda. – informou, dando-lhe passagem. Jacob não se surpreendeu dos empregados já estarem a par de sua chegada, o que levava a crer que Collin deixara a todos de sobre aviso. Menos mal. Não queria fazer o favor de lhe lembrar que de agora em diante era ele quem dava as ordens. Num aceno de cabeça agradeceu e entrou.

O velho ressentimento pulsou forte dentro do peito e o jovem trincou os dentes ao adentrar a residência. Precisava aplacar toda a tensão que sentia se quisesse que tudo ocorresse conforme o planejado, então decidiu afastar suas recordações tolas da mente e concentrar-se no hoje.

Escrutinando minuciosamente o ambiente, verificou que tudo era exatamente como se lembrava. Nenhuma mudança brusca nos móveis sofisticados, na longa escada com corrimão banhado a bronze, na lareira pré-aquecida, na fileira de fotografias, que trazia bem na entrada do hall a galeria da mais rica aristocracia que dera origem aos Collin.

- Black. – Jacob se viu obrigado a virar-se e cumprimentar, com um pouco de cordialidade, o futuro sogro, que trazia no rosto envelhecido uma saudação fingida.

- Collin. — o jovem respondeu com tom de voz sério e expressão vazia, não correspondendo ao falso entusiasmo do velho.

- Tenho que admirar sua pontualidade, Black. – observou Melfin, com um riso cínico de canto de boca, enquanto mirava o jovem, mas foi interrompido bruscamente.

- Não me admire, Collin. Ambos sabemos o que me traz aqui hoje, então deixemos de nos comportar como velhos amigos que não somos. Finja, porque é isso que estou fazendo, fingindo que lhe suporto. – as feições do velho tornaram-se duras. — E me adiante... – exigiu o jovem com acidez na voz. — Os esponsais foram assinados? – era tudo o que realmente lhe importava no momento, saber se Elize tinha se comprometido.

- Claro. – o velho pigarreou, mas por fim respondeu, voltando à antiga expressão de desprezo. – Ela assinou. – Collin retirou da parte interna do paletó o documento e passou para Black, que sentiu a tensão se dissipar e respirou aliviado, mesmo que imperceptivelmente, ao verificar o nome de Elize no local designado para sua assinatura. Evitou passar o dedo na grafia que tão bem conhecia, e guardou o documento com cuidado.

- Ótimo. – Jacob se ouviu dizer, permitindo que um riso sarcástico lhe escapasse dos lábios. De posse dos esponsais, o jovem sentiu-se repentinamente ansioso. Não havia mais por que esperar. Olhou o relógio de pulso e tornou a encarar Collin. — Se não se incomoda, chame sua filha. Não tenho a noite toda. – murmurou.

Melfin Collin pensou em lhe dar uma resposta à altura. Aquele fedelho de merda não podia lhe tratar daquela maneira! Mas o que fazer, se não se submeter? Chamou uma das empregadas e mandou avisar à filha que descesse. Para ele a situação também era insustentável, portanto não via a hora de por a mão no dinheiro que Jacob lhe prometera, e conseqüentemente se livrar da presença indesejada do índio que tanto desprezava.

As olheiras não eram algo normal no rosto belo de Elize. Nem a maquiagem bem feita disfarçou o cansaço da noite mal dormida. A jovem ainda apresentava uma expressão interrogativa que tomara conta de todo o seu semblante. Elize simplesmente não conseguia esquecer o maldito acordo que o pai fizera. Fora vendida como um objeto, e para isso não existia perdão.

Um sentimento incomum de mal estar alojou-se dentro da jovem, enquanto analisava sua aparência no enorme espelho do quarto. Estava bem vestida como pedia um grande jantar, embora sua única vontade fosse fugir. Mas para onde? Ou melhor, com quem? Desenganou-se do namorado assim que o ouviu conversar com o pai. Riley não passava de um fraco.

Mas a quem estava tentando enganar? No fundo sabia que também era uma covarde, pois não conseguiria viver com menos do que o seu dinheiro lhe permitia. Isso, por si só, era motivo suficiente para permanecer e servir-se como sacrifício. Convenceu-se de que sua situação não seria melhor do que agora se saísse por aí, sem rumo. Estaria presa a miséria ainda pior.

Um sobressalto lhe sacudiu quando a porta foi aberta. Pelo reflexo do espelho viu a figura da mãe entrar apressadamente no quarto. O rosto pálido e assustado contrastava drasticamente com o sorriso que trazia nos lábios. O que pretendia a mãe? Elize rezava para que a Sra. Collin não estivesse tão conformada ao ponto de agir como se nada houvesse acontecido.

- Você está linda, Elize. – sussurrou, numa tentativa apática de fazê-la sentir-se melhor. Elize fitou a mãe por alguns segundos, vasculhando no rosto anguloso algum sinal que lhe indicasse complacência. Mas decepcionou-se. A mulher era a materialização do conformismo, o que a incomodava.

- Estou pronta para o negócio. – foi a resposta sem emoção.

A Sra. Collin ajeitou-lhe os cabelos lisos e soltos, sem lhe dar atenção.

- Você fica incrivelmente delicada com esse tom de azul. Combina exatamente com o tom claro da sua pele. – a mãe a ignorou, e passou a falar do vestido azul royal que escolhera para vestir. Elize, pelo espelho, focou as orbes cor de mel na figura da mulher que a gerara, e no íntimo também a desprezou. Desprezou a fraqueza que ela carregava, desprezou o orgulho que trazia, preferindo sacrificar a filha a ter que viver sem dinheiro. A mãe a encarou pelo espelho, e suspirou audivelmente. – Não faça essa cara, Elize. Você sequer conhece o seu noivo, para parecer tão infeliz. – falou a mãe inesperadamente.

- E a senhora quer melhor motivo para que eu me sinta desse jeito? – a moça rebateu, tentando transparecer em sua voz toda a insatisfação que sentia com a situação. Chocou-se com a ausência de compaixão da mãe, por isso a respondeu de forma seca.

- Toda jovem da sua idade sonha em se casar... – a mãe continuava com o teatro, demonstrando que de forma velada concordava com as atrocidades do pai.

- Com um homem que ela escolha para o seu futuro. – Elize esticou a mão, e apanhou o brinco de cristal sobre o criado mudo.

- Se for o homem que seu pai escolheu, então será o melhor para você. – sussurrou a mãe, deitando as mãos sobre os ombros de Elize, como se a acalmasse. A jovem quase riu. Então era isso, o pai ditava as ordens e ela apenas devia obedecê-las.

- A senhora não vê o quanto tudo isso é absurdo? Ele me vendeu! – Elize falou, sentindo um bolo formar-se na garganta, impedindo-a de respirar.

- Não é bem assim... – amenizou a mãe de forma terna. – Ele apenas está cuidando para que você tenha o futuro que merece. – enfatizou fervorosamente.

- Eu não posso crer que a senhora sinceramente acredite nisso. – a Sra. Collin não lhe respondeu nada. — Ele está garantindo o futuro dele. – contradisse Elize rispidamente, fazendo a mulher arregalar os olhos por suas maneiras bruscas.

- Você não deveria falar desse jeito, Elize. – repreendeu Susan, sua expressão maleável tornando-se séria. — Apesar de tudo ele é seu pai.

- Me nego a pensar no homem que me vendeu nestes termos. – bufou. – Por que em minhas veias corre seu sangue não significa que me sinto filha de alguém que cometeu tamanho desatino a meu respeito.

- Não diga isso, filha. Sabe que só está falando da boca para fora. Além disso, está fazendo uma tempestade num copo d’água. Todo casamento é um negócio, acostume-se com o fato. — desceu a mão pela lateral do rosto de Elize. — Verá que tenho razão e um dia agradecerá ao seu pai pelo arranjo.

- Nunca. — Elize encolerizou-se. – Eu nunca vou perdoá-lo. A senhora talvez, um dia, mas ele... Nunca!

- Você não sabe o que está dizendo. – embora reprimida pelo rompante de Elize, Susan continuava seu discurso, agora com a expressão sofrida. – Eu também estou sofrendo, ou você acha mesmo que estou feliz com toda essa situação?- Elize surpreendeu-se e contemplou repentinamente o olhar triste da mãe. Recostou-se na cadeira e esperou o seu desabafo. – Eu a pouparia, se pudesse... Mas Deus sabe que não posso!

Subitamente Elize sentiu-se vencida. Talvez estivesse sendo rigorosa demais com a mulher que a trouxera ao mundo e a criara com todo amor e carinho, embora com certa distância. Sentiu uma angústia crescer dentro do peito, pois definitivamente não poderia voltar atrás. Não só a sua estabilidade financeira, mas a felicidade da mãe dependia do sacrifício que em breve faria.

Mas não estava de mãos completamente amarradas. Havia algo que poderia, e estava disposta a fazer. Sim, tornaria a vida do infeliz que a comprara num verdadeiro inferno. Seria a pior esposa para este homem, e o faria se arrepender todos os dias por tê-la comprado, como faria.

Delicadamente Elize aproximou-se da mãe e a beijou no rosto.

- Eu sei, mãe. Eu sei.- sussurrou.

A mulher consolou-se nos braços da filha até ouvir batidas na porta do quarto. Era a empregada, avisando-as de que o Sr. Collin e seu convidado as aguardavam. Elize respirou forte, focando todos os seus maus sentimentos no homem que a esperava. Era injusto, ela no fundo sabia, porém mais confortável, atribuir a culpa por seus infortúnios a um desconhecido, do que à inércia da sua mãe, ou à sua própria covardia. O pai, por sua vez, não seria poupado do seu julgamento. Talvez Deus tivesse misericórdia da sua alma e a fizesse justiça.

Por alguns instantes pensou que pessoa vil seria capaz de barganhar o próprio casamento. Quem era este, que parecia não ter capacidade de conseguir uma esposa por seus próprios méritos, tendo de lançar mão do dinheiro? Quem era o homem que se aproveitava da má situação da sua família para roubar o resto de dignidade da sua vida?

Elize descobriria em breve. Por hora, vestiu sua máscara habitual de indiferença e finalmente desceu, seguida pela Sra. Collin.

Do alto da escada, Elize tinha uma visão privilegiada, mas ironicamente não avistou ninguém, nem seu pai, nem qualquer outra pessoa. Desceu todos os degraus com o coração aos pulos, muito embora estivesse longe de demonstrar qualquer sinal de fraqueza. Já estava quase ao pé do último degrau, e ainda assim não via ninguém.

Seus olhos discretamente varriam o lugar. Pensou até que o maldito estivesse atrasado, mas então parou subitamente quando viu o perfil de um homem. Seu braço estendido recebendo um copo de bebida da mão do seu pai a paralisou. O sangue pareceu congelar em suas veias, como se estivesse petrificado. Sentiu uma repentina faltar de ar.

— Finalmente. – o pai virou-se para ela assim que a viu. — Aproxime-se, filha. Garanto que terá uma bela surpresa. — o pai sorriu cinicamente, imprimindo um tom impaciente na voz.

Elize quis recuar, mas sua curiosidade era maior, aguçada pelo tom sarcástico empregado na fala de Melfin Collin.

Deu mais um passo, e então teve de se segurar no corrimão da escada. O convidado virou-se em sua direção, e Elize não acreditava em quem seus olhos acabavam de reconhecer. Um som ininteligível escapou-lhe a boca, e para seu infortúnio seus olhos ficaram presos na imensidão negra do olhar sombrio de Jacob Black.

- O-o que ele está fazendo aqui? — indagou ao pai, depois de alguns segundos de surpresa, enquanto mantinha os olhos no índio. Seu corpo foi incapaz de qualquer reação, ainda permanecia paralisada em seu lugar.

- Boa noite para a senhorita também. — Jacob cumprimentou num tom irônico, já que a moça não tinha lhe dirigido a palavra. Collin intentou interromper, mas antes mesmo que pudesse abrir e fechar a boca, o jovem continuou. Entendendo a atitude do índio, o velho ficou em silêncio, deixando que ele tomasse a frente. — Sei que parece surpresa, mas estou aqui para firmar o compromisso que assumimos. – completou, lembrando-se dos esponsais em seu bolso e da assinatura de Elize atestando a sua concordância. Não conteve o ar de presunção ao continuar fitando-a.

A moça, por sua vez, não entendia a confusão de sentimentos que a tomava. Porque, de todos os homens da face da tarde, aquele era o último que ela imaginava que a estaria esperando na sala, junto ao seu pai. Temeu sequer imaginar as intenções que se escondiam por trás do sorriso debochado e do olhar frio de Jacob Black.

Elize arfou e desesperadamente voltou os olhos para o pai, que se mantinha imparcial.

- O senhor poderia me acompanhar, um momento? – pediu com certa urgência na voz, na verdade quase suplicou ao pai.

- É claro, filha. – o pai respondeu prontamente, fingindo não entender a avalanche de sentimentos que inundava a jovem. – Com licença. – cumprimentou o futuro genro, e se retirou até o seu escritório, sendo seguido a poucos passos por Elize, que caminhava sem se atrever a olhar novamente na direção do convidado.

- Ora, mas que grata surpresa! – falou a Sra. Collin, enquanto caminhava para perto do jovem, que a encarava com os olhos estreitos. Assim que reconheceu quem era o futuro noivo da filha, também congelou em seu lugar. Mas agora, já recuperada, não se fez de rogada ante a necessidade da união entre os dois. – Fico feliz em saber que é o senhor o noivo da minha filha, Sr. Black, que já foi praticamente da família.

- Fiz parte da criadagem, a senhora quer dizer... – Jacob a contradisse, com ironia. A quem aquela senhora queria enganar?, pensou o jovem. Susan pigarreou, e sorriu sem jeito, passando as mãos nervosamente pelos cabelos arrumadíssimos.

- Não quer se sentar, meu caro? – sugeriu, apontando educadamente para o confortável sofá que fazia parte da mobília da sala de estar principal da casa. Jacob agradeceu com um aceno de cabeça, e a acompanhou.

No escritório, Elize sequer esperou que a porta fosse fechada atrás de si, para que começasse suas queixas ao pai.

- O senhor ficou louco?! Como pôde fazer isso comigo? – perguntou, com o tom de voz elevado.

- Não sei a que está se referindo, querida. – o pai continuava a dissimular, até mesmo agradando-se um pouco com a situação. Anos atrás a filha o expusera ao ridículo com o seu interesse por um indiozinho medíocre. Agora era a vez dela de sentir-se humilhada, muito embora o dinheiro fosse a única razão para descer tão baixo.

- Aquele homem nos odeia! Não vê que só quer se vingar da nossa família? – indagou, lembrando-se da forma como Jacob fora tratado pela sua família e por ela própria. Sabia que o rapaz era orgulhoso o suficiente para nunca mais por os pés em sua casa, a não ser para dispensar-lhes o mesmo tratamento. Tremeu quando lembrou-se do olhar de indiferença do jovem há noites atrás. Quis chorar, mas conteve as lágrimas, que marejavam em seus olhos.

- Não seja estúpida! É nítido que o imbecil do Black ainda nutre um amorzinho platônico por você. – respondeu Collin, sentando-se em uma poltrona e acendendo um charuto. Se soubesse que um dia a união entre sua filha e o bugre fosse tão vantajosa, talvez não tivesse se oposto tanto no passado.

- O senhor está enganado! Ele me despreza! – Elize desabafou, sentindo tristeza por sua conclusão fatídica, já que o encontro que ocorreu no Newton’s só corroborava essa certeza.

- Mas não era isso que você queria? Casar-se com aquele índio sem berço, por um simples capricho? – o pai provocou e Elize não o respondeu. – Pois agora que o faça, mas por uma boa razão.

- Não irei... – antes que a moça continuasse, Melfin a interrompeu.

- Tarde demais para lamentações. Você assinou aquele contrato, e por livre e espontânea vontade. – levantou-se da poltrona, e se aproximou da filha. – Agora se contenha e cumpra o seu papel de maneira adequada. – completou, em tom ríspido. – E veja o lado bom... – satirizou. — Será ainda mais rica do que sua família.

Elize permaneceu por alguns segundos sem palavra. Mas por fim fez o que o pai ordenara. Conteve-se e não deixou que as lágrimas descessem, respirou fundo três vezes, e por fim caminhou com Melfin Collin em direção à sala, como um cordeiro a caminho do sacrifício.

Estranhou, ao retornar ao cômodo, ver sua mãe sentada ao lado de Jacob, enquanto a empregada o servia de mais uma dose de uísque. Susan nunca fora mal educada com Jacob quando ele freqüentava a casa, mas também não o tratava com cordialidade. Na verdade nunca escondera que apenas tolerava a aproximação da filha com o índio.

- Diga-me, Jacob, fará a nossa Elize muito feliz, não?! – a Sra. Collin perguntou, enquanto pai e filha se sentavam no sofá oposto aonde eles se encontravam. Elize envergonhou-se intimamente da atitude da mãe, que parecia oferecê-la em uma bandeja de prata para o rapaz que anteriormente tanto desprezava.

- Não se preocupe, Sra. Collin. A tratarei com a mesma deferência com que fui tratado por esta família. – foi a resposta cínica do índio, que encarou a moça com o olhar ressentido, transformando-se rapidamente num olhar provocador.

O sorriso na face de Susan murchou, enquanto um frio corria a espinha de Elize. Jacob Black claramente fazia uma ameaça à sua futura esposa, já que só recebera dor e sofrimento da parte dos Collin. O chefe da família apenas degustava seu charuto, com a expressão enfadada. Parecia pouco se importar com o tratamento que o genro dispensaria à sua filha, desde que tivesse seus milhões como acordado. Irrefutavelmente Collin parecia não nutrir sentimentos por ninguém. Sempre frio, sempre calculista, sempre mesquinho e egocêntrico.

- O que me dizem de jantar? O menu foi escolhido a dedo, Jacob. Tenho certeza de que irá adorar. – falou a Sra. Collin, tentando quebrar a tensão que se instalara. Só alguém com tão pouco senso, ou dona de uma imbecilidade tão absurda, se comportaria com tal fingimento ante a situação, conjecturou Jacob. A mulher portava-se como se nunca dantes houvesse acontecido nada, por isso o jovem a resumia como uma criaturinha abjeta.

- Sim. Tenho certeza de que irei adorar. – respondeu, dando um sentido dúbio às suas palavras.

Seus olhos, na verdade, devoraram cada centímetro de Elize, de parte das suas pernas não cobertas pelo vestido, da cintura fina, dos seios, que se sobressaíam pelo decote discreto, ao seu belo rosto. Ainda não havia se permitido avaliá-la daquela maneira, ocupado demais em observar as suas feições enquanto absorvia a novidade de que era Jacob o seu noivo misterioso. Agora, entretanto, analisando-a sentada ao lado do pai, evitando encará-lo, julgou que realmente fizera um ótimo negócio. Se vingaria daquela família medíocre, e ainda teria em sua cama uma bela mulher, para ele a mais bela de todas, não podia negar. Observando-a, concluiu que a moça com certeza estava em choque, o que lhe dava certa satisfação. Fazê-la sofrer por sua causa era o seu objetivo principal.

Ao adentrarem à imensa sala de jantar, Jacob reconheceu uma das antigas empregadas da casa trazendo algum dos itens do jantar. Assim que a senhora, que era a cozinheira da família há muitos anos, o reconheceu, abriu um imenso sorriso em sua face robusta.

- Corina! – Jacob sorriu, aproximando-se e a abraçando.

- Jake! Como você cresceu, menino! E se tornou um belo homem! – respondeu a senhora, admirando o rapaz que vira crescer diante dos seus olhos.

Melfin e a esposa encaravam a cena com ares de reprovação. Tinham diante dos olhos a prova cabal de que uma das poucas coisas da vida que o dinheiro não podia comprar era a nobreza. Elize, por sua vez, sentiu uma centelha de esperança brilhar em seu coração. Aquele parecia ser o seu Jacob, tão afável e cheio de vida, que um dia teve o prazer de conhecer.

Mas quando o rapaz voltou-se para a família, e viu a expressão de desprezo no rosto dos mais velhos, sua face voltou a tornar-se sombria. A cozinheira com certeza merecia mais cordialidade do que os donos da casa, pensou Jacob.

Melfin Collin tomou seu lugar na cabeceira da mesa, e mãe e filha sentaram-se nos assentos ao seu lado. Antes que Elize se sentasse, porém, Jacob puxara a cadeira com cavalheirismo, olhando-a de maneira sedutora, descendo os olhos sobre o justo vestido que acentuava suas curvas, em seguida sentou-se ao seu lado. A jovem se surpreendeu com tal gesto, pois desconhecia o lado refinado do nativo. Na verdade nunca imaginou que ele o tivesse. Surpreendeu-se ainda mais, porém, quando o jantar foi servido. O rapaz portava corretamente os talhares, diferenciando-os conforme cada prato servido. Sentado ao lado de Elize, Jacob deixou escapar um pequeno sorriso, vendo-a observá-lo de canto de olho. A moça percebeu que fora flagrada e enrubesceu.

Em certas ocasiões, Jacob esbarrava propositalmente o braço no corpo de Elize, e ela reagia afastando-se imperceptivelmente na cadeira, por raiva e vergonha. Raiva por não ter forças de reagir à situação. Vergonha por ser incapaz de evitar em sentir uma corrente elétrica perpassando por seu corpo cada vez que sua pele tocava a dele. Seria possível que seu corpo reagisse daquela maneira ao menor contato com o índio? Será que aquilo significava que ainda o desejava? Absorta, negava-se a acreditar que cogitara tal idéia.

- Soube que a Tecidos Black abrirá uma unidade no Canadá, é verdade? – questionou Melfin Collin, quando todos já se serviam da sobremesa. — Incrível... Mesmo com a recessão causada pela Guerra vocês conseguem expandir seus negócios tão facilmente! — Jacob sabia que não se tratava de um elogio, mas apenas de uma constatação de alguém cujo maior interesse era dinheiro e poder, por isso não se surpreendeu com o comentário do futuro sogro.

- Sim. – respondeu Jacob de forma seca, pontuando apenas o que lhe era conveniente. – A Europa fechou praticamente todas as suas fábricas de tecidos. As poucas que lhes restam vendem apenas o quanto lhe é permitido, o mínimo efetivamente necessário, o que não é muito, já que metade do continente encontra-se em estado de miséria. Os países que eram guarnecidos pela Europa não tiveram outra alternativa, a não ser recorrer à exportação. – conjecturou.

- Vejo que sua família, em detrimento de todos, está gozando de muita sorte, não?! – o velho provocou. Apesar de a guerra transcorrer em outro continente, e os Estados Unidos ainda não declararem sua participação, o que demonstrava-se inevitável, todos sentiam o reflexo do quadro político. O próprio Collin teve imensos prejuízos com a queda do consumo de carne, fato que fora a gota d’água para a sua bancarrota. Era irônico pensar que, o que causou a sua desgraça, fora motivo de fortuna dos Black.

- Não se trata de sorte, Collin. Apenas administramos bem os nossos negócios. Não gastamos nosso dinheiro com futilidades... E aproveitamos as oportunidades. – encarou o velho, com ar de desprezo, depois se voltou para a moça sentada ao seu lado. – E fazemos os melhores investimentos... Sempre! – disse, encarando-a com olhos escrutinadores, sem se importar com os sogros, que assistiam à cena um tanto quanto incomodados. Também não se importou em por uma das mãos na coxa de Elize por debaixo da mesa, o que causou um pequeno sobressalto à jovem, quando deslizou os dedos sobre o tecido que cobria sua sedosa pele.

- Às vezes o que julgamos ser o melhor para nós não se mostra tão vantajoso, Sr. Black. – Elize contra argumentou, encarando-o com a sobrancelha arqueada de forma desafiadora, enquanto retirava a mão do rapaz discretamente da sua coxa, com um belo beliscão, que foi sentido pelo jovem, mas preferiu ignorar e sorriu sardonicamente. — É incrível o pensamento mesquinho do senhor... – disse, e então emendou dissimuladamente. – Encarar a desgraça que abala a humanidade como uma “oportunidade de negócios”... Enquanto bravos soldados morrem defendendo seus países na Guerra, sua família lucra com a produção de tecidos. Que paradoxo, meu Deus! – zombou Elize. Melfin Collin conteve o riso, satisfeito com a atitude da filha. Sabia que dobrá-la seria um castigo e tanto para o Black. Jacob, por sua vez, sorriu cinicamente, adorando a primeira reação pública da jovem na noite.

- Quanto sofismo... – zombou o jovem. — Você estaria coberta de razão, se não fosse a riqueza da qual faz parte que financiasse a Guerra... Se não fosse o conceito deturpado de sua classe que incute na mente dos menos favorecidos a existência de raça superior... Talvez, quem sabe, eu concordaria com suas palavras, minha cara Elize. Mas não consigo, por mais que me esforce, corroborar um pensamento tão medíocre. A vida me ensinou que para que haja um vencedor, haverá sempre um perdedor, e me cansei de fazer parte do segundo grupo. – ele respondeu, e pôde ouvir o pigarro desconcertado de Collin, o que não evitou que acrescentasse voltando-se para Elize. – E não se preocupe. Eu nunca me engano. Não mais... – o rapaz sussurrou no ouvido da Srta. Collin com tom de voz rouco, causando-lhe um arrepio.

- Deixemos a política de lado. Há assuntos tão mais agradáveis a serem discutidos, não é verdade? — interrompeu Susan, sorrindo, embora contrafeita à opinião do índio.

Após o jantar, a família se reuniu na sala de estar, junto à lareira, devido ao frio que se instaurara nessa época do ano. O mal estar era quase palpável, se não fossem as infinitas amenidades que a Sra. Collin tagarelava, obrigando Jacob a pigarrear, quando chegara o momento de selar o compromisso. O rapaz levantou-se solenemente.

- Como tenho a aceitação da Srta. Collin, e a aprovação do seu pai, gostaria que você utilizasse essa simples jóia como símbolo do nosso compromisso. – falou o índio, encarando Elize de maneira presunçosa. Tirou do bolso a caixa forrada de cetim, que continha o anel que comprara mais cedo, e a abriu.

Os olhos de Elize arregalaram-se, e a boca se abriu levemente. O espanto da sua mãe, por sua vez, fora mais audível. O anel de noivado era completamente cravejado de pequenos diamantes, que adornavam uma enorme pedra ao centro. O rapaz fez um gesto e pediu a mão da moça, que a concedeu, ainda boquiaberta com a jóia que ele lhe oferecia.

Jacob levantou-a, e olhando-a nos olhos, deslizou o anel pelo seu dedo. Porém não fora a felicidade que enchera seu coração naquele momento. Tudo o que sentiu foi o velho ressentimento pulsando forte. Porque era o dinheiro que motivava a aceitação da moça, e não sentimentos sinceros.

- Bem... – Collin interrompeu o momento, forçando os noivos a olharem em sua direção. As mãos firmes e quentes de Jacob continuavam em volta da de Elize, acariciando-a sensualmente. – Terá que se apressar, rapaz, caso queira que o casamento seja realizado na data estipulada.

- Não se preocupe, Collin. Tenho tudo sobre controle. – foi a resposta simples do índio, enquanto avaliava as reações de Elize.

- E qual seria essa data, posso ao menos saber? – perguntou Elize, desvencilhando sua mão das de Jacob.

- Dentro de duas semanas. – o jovem a respondeu, com um sorriso sarcástico no rosto.

- Mas... – a moça soprou, assombrada com a iminência da data.

- Tempo suficiente para que corram os proclamas do casamento. – Jacob a interrompeu.

- Nesse caso... Teremos que correr com os preparativos, filha! – a Sra. Collin exclamou, falsamente empolgada.

- Não se preocupem. Arcarei com tudo, no entanto a cerimônia civil será simples, apenas para os amigos mais íntimos. Quanto ao casamento religioso... – o olhar do índio tornou-se mais uma vez sombrio e misterioso. – Correrá por minha conta. Será uma surpresa para a minha noiva. — enquanto falava, pôs a mão na cintura da jovem, deixando Elize constrangida pela proximidade.

- Mas falta tão pouco tempo... Precisamos fazer a lista de convidados, preparar o buffet, distribuir os convites... Oh! Sem falar no vestido da noiva... – Susan falava sem parar.

- Peço apenas que sua filha esteja lindamente vestida no cartório para a cerimônia civil, no dia e hora marcados. No mais, providenciarei todo o resto.

Susan não pareceu satisfeita, já que imaginava participar ativamente do casamento da filha. Elize, por sua vez, via seu lindo sonho transformar-se num pesadelo. O homem com quem um dia sonhara em se casar falava do momento mais importante de sua vida como se fosse, realmente, um negócio a ser fechado.

– Já que estamos acertados, creio que os noivos podem se despedir. – propôs Melfin, monotonamente. O que realmente lhe importava era os milhões que Jacob depositaria em sua conta após o casamento. No mais, queria evitar a presença do índio em sua casa o máximo possível.

Jacob concordou com um aceno de cabeça, e ainda com a mão na cintura de Elize a impulsionou para que ela o acompanhasse. A moça pareceu querer resistir. Olhou para o pai, que sinalizou para que a mesma acompanhasse o jovem. Respirou fundo e deixou-se ser levada pelo noivo até a entrada da casa.

- O que pretende com tudo isso, Jacob? – Elize indagou aborrecida, desprendo-se do corpo do rapaz assim que estavam a sós.

- Casar-me com você. O que mais eu poderia querer? – ele a respondeu de maneira debochada.

- Por quê? E depois de tanto tempo...

- Seu pai me mostrou uma oportunidade de negócio que eu não poderia recusar. Apenas isso. Seu sobrenome abrirá as portas que continuam fechadas para os Black. – então com ar pensativo acrescentou. — É inacreditável como as pessoas ainda são preconceituosas... – o tom sardônico a incomodou.

Ela o olhou, sem acreditar. Suas palavras eram frias, como seus olhos. A acidez e a falta de emoção tornavam-no um verdadeiro estranho. Como ele poderia tratá-la daquela maneira depois de tudo que viveram juntos no passado?

- Por que não nos concede um empréstimo? Tenho certeza de que levará pouco tempo para que meu pai se recupere... – Jacob soltou um riso alto, jogando a cabeça para trás, interrompendo a moça, que se calou aborrecida.

- E acha que seu pai não pagará centavo por centavo do que eu lhe emprestei?- era divertido ver que por trás de toda aquela perspicácia Elize lhe proporcionava momentos de pura ingenuidade.

- Eu não entendo... – ela o fitou confusa.

- Sabe qual foi o seu papel na nossa negociação, Elize? – ele começou, enquanto a rodeava. – Você é a minha garantia fiduciária*.

- Pode ser mais claro? – a moça aborreceu-se com a demonstração de conhecimento do rapaz. Antigamente não era ela que parecia ignorante em qualquer assunto.

- Você é apenas a garantia de que seu pai pagará o que me deve... — ele sussurrou em seu ouvido. A jovem tremeu, mas num rompante virou-se e o olhou com ódio. Alheio ao sentimento da jovem, ele completou. – Será minha, e depois do negócio quitado, poderei devolvê-la, como e quando eu quiser...

- Ora, seu cretino... – sentindo-se profundamente ofendida, Elize levantou o braço e tentou desferir um tapa na face do índio, mas ele a deteve segurando a sua mão, e a puxou ainda mais para perto de si, prendendo o braço de Elize nas costas.

- Por que a revolta? Seu pai leu os termos do contrato, e concordou com todos eles. – Jacob não podia se conter, pois tudo o que queria era atingi-la, de todas as formas possíveis.

- Eu o odeio! – a moça gritou, debatendo-se em seus braços inutilmente.

- A recíproca é verdadeira, minha querida. – ele sibilou roucamente, dando uma leve mordiscada no lóbulo da jovem. — Estou feliz que neste ponto combinamos. – riu ironicamente.

O que Elize falara era a mais absoluta verdade naquele momento. Odiou-o do fundo da alma. Odiou-o por tratá-la como um objeto. Odiou-o por roubá-la a sombra de felicidade que pairava sobre sua vida. Odiou-o por não demonstrar nenhum pingo de sentimento por ela.

- Por que não me deixa em paz? – exigiu, com os olhos cheios de lágrima. Mas não se permitiria chorar na sua frente. Por isso respirou fundo e o encarou com altivez.

- Se é o que quer, deixarei sua família na rua da amargura. – disse, em desafio. Mas ela nada respondeu, pois simplesmente não sabia o que dizer. O que seria pior? Ficar a mercê do homem que mais a odiava no mundo, ou enfrentar a bancarrota da sua família? – Conheço-lhe bem demais, Elize, para saber que você prefere sofrer em minhas mãos a perder o que tem.

- Pois está enganado! – a jovem rebateu. – Se soubesse que era você, jamais teria aceitado me casar! – cuspiu as palavras, encarando-o com ferocidade.

- É uma pena que seja tarde demais... Agora você está em minhas mãos, literalmente... – sussurrou, aproximando-se, quase tocando os lábios nos da moça. Levantou a mão e acariciou seu rosto. Elize virou bruscamente a face para evitar o contato, o que fora inútil. Os dedos de Jacob seguraram seu queixo, obrigando-a a entreolhá-lo.

- Você é desprezível. – xingou a moça.

- Um homem desprezível, que saldará as dívidas do seu pai... É um novo conceito para mim. — então roçou-lhe o nariz pela linha do seu queixo, aspirando o doce perfume de flores.

- O que pretende? – ela o deteve, com uma das mãos em seu peito, tentando ganhar algum espaço frente ao contato entre ambos.

- Beijar a minha noiva. Lembrá-la de como meu beijo sempre fora delicioso, desde o primeiro...

As antigas memórias fatalmente inundaram a mente de ambos os jovens.

Flash back on

9 anos atrás...

Era o aniversário de 15 anos de Jacob. O seu pai havia preparado uma pequena festa para o adolescente, numa tentativa de animá-lo após o recente falecimento da sua mãe. Presentes estavam apenas alguns poucos amigos da reserva, comendo em torno da fogueira. O rapaz esboçava alguns pequenos sorrisos com as brincadeiras à sua volta, mas logo em seguida seu olhar se tornava triste novamente.

Porém, ao ver a bela garota, de cabelos castanhos presos num laço de fita, pele branca como a lua, adornada com um vestido azul celeste aproximar-se, seus olhos instantaneamente se iluminaram. A menina parecia o procurar por entre as pessoas, enquanto segurava um presente embrulhado em suas mãos. Mal ele se levantou do seu lugar, ela o avistou. E um sorriso deslumbrante formou-se em seus lábios, provocando a mesma reação no garoto. Ambos se aproximaram apressadamente, ansiosos pelo mínimo contato.

- Parabéns! – a garota exclamou, depois estalou um beijo na bochecha do garoto, que adorou a iniciativa. Elize entregou o embrulho nas mãos do aniversariante.

- Obrigado! Mas como conseguiu vir? – ele questionou, enquanto desembrulhava o presente, ansioso por analisar o seu conteúdo.

- Tive que fazer um pouco de drama para a minha mãe... – piscou o olho, travessa. – Mas vim acompanhada... – apontou para Corina, que se aproximava da mesa de comidas sem dar atenção ao jovem casal. – E tenho hora para voltar... – concluiu, tristonha. Tivera muito trabalho para persuadir a mãe a deixá-la ir à festa de Jacob, pois o garoto não saía mais de casa desde a morte da mãe, o que a preocupava.

Conheciam-se desde os cinco anos de idade, quando a mãe do menino passara a ser empregada da casa dos Collin, e desde o primeiro momento Elize se afeiçoara a ele. Gostava da sua companhia, já que era filha única. Gostava de mostrar-se inteligente para ele, que estudava apenas em casa, com seu pai e irmãos. Gostava de sua disposição para embarcar nas peripécias propostas por ela. Mas, principalmente, gostava do seu jeito carinhoso e atencioso, tão diferente da sua família.

Todos os dias Jacob acompanhava sua mãe até a casa dos Collin, e lá permanecia até o fim do dia, apenas para passar o tempo com Elize. Odiava quando a garota recebia a visita de colegas mais abastados, já que todas as outras crianças brancas pareciam se sentir superiores a ele. Mas não foram poucas as vezes que Elize os respondia de maneira atravessada quando desdenhavam do seu amigo, ou preparava-lhes brincadeiras de mau gosto apenas para se vingar por qualquer tipo de humilhação. Porém, também não foram poucas as vezes que o rapaz recebera castigos por artes praticadas pela menina. Mas bastava que ela lhe desse um beijo no rosto, que ele logo se esquecia do acontecido.

Adentraram juntos à adolescência, e do mesmo modo perceberam as diferenças que o passar do tempo naturalmente lhes proporcionava. Como as meninas desenvolvem-se primeiro que os garotos, fora Elize que começara a olhar para Jacob com outros olhos. Passou a ter vergonha de banhar-se com ele na cachoeira, o que antes sempre faziam, ou se negava a participar de brincadeiras que mantivessem muito contato físico. Aos poucos a garota passou a fazer parte dos sonhos de Jacob, sonhos estes que o deixavam envergonhado. Ele não sabia o motivo, mas a simples presença da menina o enchia de felicidade.

- Se seu tempo é curto, então tratemos de aproveitá-lo. – falou o garoto, puxando Elize pela mão em direção à fogueira. No meio do caminho terminou de desembrulhar o presente, e surpreendeu-se com a blusa de lã que a menina lhe dera.

- Minha mãe está me obrigando a fazer aulas de tricô. Disse que preciso ser uma moça prendada para arranjar um bom casamento... – explicou, sem jeito.

- Foi você quem fez? – o garoto se surpreendeu, e Elize confirmou. – Oh-oh... Acho que ficará no caritó, Lizzie! – brincou, enquanto analisava as tramas que apresentavam falhas nas mangas da camisa. O que o incomodava, porém, era a idéia de Elize casar-se com outro, que fizesse um bom casamento, como a mãe dela dissera. Com certeza não seria com ele.

- Ingrato! — Elize estirou a língua, e cruzou os braços, com raiva.

– Estou brincando. Até que não parece tão ruim... – observou a blusa, estirando-a sobre si. – E prometo que, se não arranjar um bom partido, caso-me com você! – falou em tom de brincadeira, abraçando-a de lado. O coração da garota deu um sobressalto.

Nesse momento o pai do menino o chamou, para que ele recepcionasse outros convidados que o aguardavam. Elize sentou-se só, de frente para a fogueira. Corina trouxe algumas frutas para que a garota se alimentasse, e voltou para a roda dos adultos. A menina ouvia o burburinho das pessoas, os risos, as brincadeiras, e comparava às reuniões enfadonhas que eram oferecidas em sua casa. Um grupo de garotas sentou-se em um tronco de árvores um pouco afastado do seu, e pôs-se a conversar. Ao ouvir um nome sendo citado da boca de uma delas, sua atenção foi capturada.

- Sabe o que darei de presente para o aniversariante? – Leah dizia para as amigas, olhando de esguelha para Elize, para se certificar de que ela estivesse ouvindo. – Um beijo! Acreditam que Jacob nunca beijou uma garota na vida?! – falou sorrindo, e outras a acompanharam. Uma raiva subiu ao rosto de Elize, tornando-o vermelho vivo. Olhou para o outro lado, e avistou Jacob conversando com um grupo de rapazes da sua idade.

Ela era mais nova do que Jacob dois anos, e tinha certeza absoluta de que ele ainda a via como uma criança. Mas Jacob era seu! Ninguém tinha o direito de roubar-lhe o seu primeiro beijo. Isto a pertencia! Era ela que havia reparado pela primeira vez o quanto a pele do garoto era sedosa, o quanto seus cabelos eram macios, o quanto seus olhos eram afáveis, o quanto seu sorriso era reluzente...

Em um rompante, Elize se levantou. Caminhou com passos firmes até Jacob, interrompendo a sua conversa com os amigos.

- Posso falar com você um segundo? – pediu, sentindo sua mão suar frio.

- Claro! – o rapaz concordou a seguindo. Os garotos soltaram algumas gracinhas, as quais Elize não deu importância. Caminhou com o rapaz ao seu lado até recostarem-se a uma árvore nos fundos da casa, onde não podiam ser vistos.

- Eh... – começou, sem saber o que dizer. – Ouvi uma conversa entre as meninas... – o rapaz a fitava, prestando atenção. O que ela faria? Temia mais do que tudo ser rejeitada. Foi aí que uma idéia surgiu na sua cabeça. – Leah disse que irá beijá-lo hoje a noite. – falou de uma vez.

- An? – Jacob indagou, com a expressão espantada.

- Foi isso mesmo que você ouviu. Ela disse que, como você nunca havia beijado uma garota, lhe daria isso de presente... – continuou, olhando para os pés.

- E? – ele indagou.

- Como assim?

- Por que está me dizendo? Não quer que eu a beije? – ele questionou esperançoso.

- Não. Não é isso. Só estive pensando... Não queria que você fizesse feio... – falou, dissimulada.

- Sei... – o rapaz soltou, sem entender.

- Podemos... Podemos aprender juntos, o que acha? – propôs, encabulada. Jacob nada disse, apenas enrubesceu com a atitude da menina. – Para você se mostrar experiente com Leah... Prometo que não direi nada a ninguém. – falou, manhosa.

Jacob nada respondeu. Por que tudo o que mais queria era provar os lábios de Elize, para saber se eram tão macios quanto em seus sonhos. Aproximou-se devagar, até encostar seu corpo ao da garota, prendendo-a contra a árvore. Retirou uma mexa dos seus cabelos que caiam sobre o seu rosto delicado, fechou os olhos e desceu seus lábios vagarosamente até encostar aos dela. Num primeiro momento fora apenas um simples encostar de bocas. Levemente os lábios roçaram um no outro, e se entreabriram. O coração do casal estava aos pulos. Apenas nesse momento se deram conta de que provavam o doce sabor do primeiro amor. Trêmulas, as mãos de Elize envolveram o pescoço do índio, enquanto ele a abraçava com força. A língua do rapaz, curiosa, adentrou os lábios da garota, ansioso por sentir o seu sabor. E era doce, muito doce. Elize abriu ainda mais os lábios, deliciando-se com aquele primeiro momento de intimidade. Seu corpo fervia nos braços de Jacob, e aquele era apenas o primeiro beijo. O garoto sugou sua língua, movimentando os lábios com inexperiência. Antes de perderem o fôlego, as bocas tiveram que se separar.

Encararam-se tímidos, mas não envergonhados pelo que acabavam de fazer. Parecia ser o caminho natural do relacionamento dos dois. Ela sorriu, sem jeito, e ele a abraçou, afagando os seus cabelos.

- E então? Que gosto tem o meu beijo? – Elize questionou, recostando a cabeça no peito de Jacob.

- De morangos... – o rapaz respondeu, sentindo a mesma essência em seus cabelos. Fora a última fruta que Elize degustara.

- Acho que não fará feio com Leah... – ela disse sem encará-lo, enquanto se afastava um pouco. Ele a deteve pelos braços.

- Não quero beijar outra pessoa além de você, Lizzie. – disse, olhando-a nos olhos.

- E eu não deixaria... – a menina respondeu, aproximando-se para provar os lábios quentes de Jacob novamente.

O casal voltou para festa, dessa vez de mãos dadas, sem se importar com o que pudesse parecer. Nenhum compromisso havia sido firmado, mas sabiam, em seus corações, que um pertenceria ao outro para sempre.

Flash back off

Jacob não deu oportunidade para que Elize esboçasse qualquer reação ao seu comentário. Capturou os lábios da moça de forma feroz, quase violenta. Movimentou seus lábios sobre os dela, forçando-os, na intenção de que Elize desse passagem para sua língua ansiosa. No entanto a moça resistia bravamente. De repente Elize entreabriu os lábios, e quando Jacob pareceu sentir o gosto da vitória, uma dor lancinante seguida do gosto de sangue tomou a sua boca.

- Ficou louca?! – exasperou-se, empurrando-a, tocando levemente no corte. Elize acabara de morder seu lábio inferior, com o máximo de força que poderia empregar.

- Então, Jake? Que gosto tem o meu beijo dessa vez? – indagou, devolvendo ao rapaz no mesmo tom de deboche. O ódio ferveu nos olhos do índio.

- Você vai me pagar por tudo, Elize. Pode escrever... – ameaçou, agarrando-a pelo braço.

- Não sou eu que irei pagar, esqueceu... – respondeu, com ironia.

- Bem lembrado. Você é minha, por direito. Eu a comprei! – mencionou, apertando ainda mais o braço da moça.

- Não ainda, Sr. Black. Por tanto vá embora. Terá sua mercadoria, mas só depois do casamento. – soltou-se do aperto de ferro do índio, virou as costas e entrou na residência, deixando-o só.

Maldita! Black gritou em pensamentos. Por que ela sempre o tirava do eixo? Por que era sempre ela a dar a palavra final? Ainda mais corroído pelo ódio, Jacob Black entrou em seu veículo e rumou de volta para sua casa, imaginando mil maneiras de se vingar de Elize por todo o mal que fizera, e continuava a lhe fazer.

*Alienação Fiduciária, é o ato de transferência de um bem móvel ou imóvel do devedor para o credor, em garantia do pagamento da dívida.

Notas finais
MissLany: Eu sou tão suspeita para falar de sse capítulo.
Ele é tão louco, cheio de acontecimentos. Tem de tudo. Ressentimento, provocação, inocência, despeito, insinuações e o beijo *suspira* sem falar na pegada não é? *meabanapapai*
Claro que no primeiro encontro Jake não ia perder a oportunidade de provocar, não é mesmo??? A proposta dele é tornar a vda de Elize um verdadeiro inferno. A verdade é que quem brinca com fogo acaba se queimando, mas para Jake isso é indiferente. O que importa mesmo é provoca-la, e bem que Elize resistiu, ao seu modo. Tascou uma mordida no nosso caramelinho. Ela pode até aceitar a imposição da familia, mas isso não significa dizer que baixará a cabeça para tudo, certo?
O beijo do flash foi fofo né? Ambos terão que lidar, com o passado e o futuro, por isso sempre que achamos necessario,traremos os acontecimentos em flashs, ok?
Bom...Agora é com vcs! Vamos lá, digam o que acharam, comentem, indiquem, recomendem...Isso é importante para gente. Cada review, cada recomendação nos deixa muito felizes.
Portanto faça uma autora feliz, ou melhor duas Hehehehheeh!!!
Bjus e até a proxima:)
P.s- Pra quem curte IAN, STORM está chegando...