Virtude e Insensatez
9 Capítulo 8
Notas iniciais
Estou imensamente feliz por todos os novos comentários, valeu meninas vcs são show...Em especial agradeço a Key (K Alex) essa amiga querida que conheci nesse mundo de fic e autora de She Wolf. Vcs não tem noção de como ela enche minha bola, elogiando V&I e CA, além de ser a revisora oficial da fic, sempre tirando um tempinho dessa vida corrida para corrigir meus textos. Eu sei que ja te agradeci inumeras vezes Key, mas em especial esses ultimos dias, pq sei o quanto vc correu, sinceramente obrigada amiga!!!
E a tensão continua, apreciem sem moderação :)
Bjus e boa leitura,nos encontramos ao final!!!
“O amor só é amor, se não se dobra a obstáculos e não se curva às vicissitudes...” (William Shakespeare)
Rilley estava exausto. O turno que começara há doze horas parecia não ter fim. No dia anterior, assim que chegara em casa do jantar com Elize, mal pudera descansar e fora chamado com urgência ao hospital, e desde então passara horas consecutivas atendendo aos pacientes, sem ao menos descansar um segundo. Precisava de uma boa noite de sono e de um bom banho. Sabia que nem assim se livraria do cheiro de sangue misturado a éter. Mas não se importava, e era teimoso demais para voltar para casa antes de ser invadido pela sensação de dever cumprido.
Respirou forte e largou as luvas descartáveis num lixeiro próximo. Acabara de atender a uma senhora que estava à beira da morte. A parada cardiorrespiratória deixara a mulher cianótica, mas com seus procedimentos médicos, e com o uso do desfibrilador*, foi capaz de conseguir retardar o momento cabal.
A despeito de todo o seu empenho, e mesmo sabendo que um homem honesto deveria viver dos proventos de sua profissão, fora incapaz de cobrar pelo tratamento, e se recusou a receber qualquer pagamento, afinal, pelo que vira, a família pouco dispunha se quer para se alimentar. Além do mais, fizera o juramento de salvar vidas, sem restrições, e para o jovem médico a medicina era mais do que uma simples profissão. Era o seu dom.
O tempo frio proporcionava o surto de pneumonia, que sem o cuidado devido, acabava por desencadear a tuberculose. E não havia lugar mais propício para proliferação da doença do que a úmida cidade de Forks. Checou o relógio de pulso, e mesmo cansado, decidiu que faria mais uma ronda no hospital antes de findar o seu turno. Visitou alguns leitos, receitou alguns medicamentos e por fim aproveitou o instante livre para tomar uma xícara de café forte e preto, com um pedaço de bolo, primeira refeição que fazia no dia.
Dr. Carlisle, médico experiente e coordenador do hospital, saía de uma cirurgia quando observou o rapaz, com a expressão estafada e imensas olheiras, sentar-se em uma cadeira na pequena cantina do hospital.
Desde que o vira pela primeira vez, reconheceu de imediato algo de si mesmo no jovem médico. Não era apenas o profissionalismo, ética e disciplina que motivavam o rapaz. Riley seguia a profissão, não com o intuito de ter prestígio ou de ganhar dinheiro, fazendo fortuna às custas dos mais debilitados, mas com o raro ideal de salvar vidas, algo que lhe era vocacionado. Contudo, às vezes esquecia-se de que não deveria relegar sua própria vida em prol do seu ideal.
- Vejo que o amigo precisa de algumas horas de sono... – observou Carlisle, puxando uma cadeira e sentando-se ao lado do jovem médico, que deixou escapar um sorriso tímido de canto de boca.
- Nada que alguns goles de café não resolvam... – o rapaz respondeu, e tentou endireitar-se na cadeira, com o intuito de mostrar que não estava tão cansado quanto supunha o coordenador, no entanto, contrariando suas palavras, abriu a boca num longo bocejo.
Apesar do orgulho que sentia ao ver a atitude altruísta do rapaz, em quem enxergava seu claro substituto, Carlisle intentou repreendê-lo a voltar para casa, contudo sua intenção foi interrompida por uma das enfermeiras, que de modo um tanto brusco se aproximou dos médicos, trazendo um recado para o mais novo.
- Com licença. Tenho um recado para o Dr. Rilley. – começou, e após um gesto de concordância do rapaz continuou. – O Sr. Collin ligou. Pediu para que fosse à sua casa com o máximo de urgência.
- Algo aconteceu com sua filha, Elize? – o rapaz questionou, juntando as sobrancelhas com a expressão alterada. A moça era a única pessoa no mundo que seria capaz de fazê-lo se afastar de seus pacientes.
- Ele nada acrescentou. — a enfermeira deu de ombros. — Apenas mandou que eu lhe passasse o recado o mais rápido possível. – a mulher finalizou, e voltou para os seus afazeres. A enfermeira ficara aborrecida com o tom autoritário usado pelo sogro de Rilley ao telefone, mas não descontaria no rapaz, que sempre se comportava de maneira cordial com todos.
- Não quero vê-lo aqui tão cedo... – Carlisle aproveitou a oportunidade para recomendar, de forma séria e afável ao mesmo tempo, enquanto o jovem se punha de pé, quase que num pulo. Riley sorriu, sentindo que não poderia concordar com sinceridade, e despediu-se do amigo.
O rapaz dirigiu-se o mais rápido possível à residência dos Collin, temendo que algo de grave tivesse acontecido à sua amada. Não havia se despedido da jovem devidamente na noite passada, estava contrariado com a impertinência de Jacob Black, e agora se arrependia de tal atitude. Esperava sinceramente que não fosse nada sério, se não, talvez fosse incapaz de se perdoar por ser tão intolerante.
Quando finalmente chegou à casa de Elize, não bateu a porta sequer duas vezes, e já foi recepcionado por uma das empregadas da casa. Cumprimentou-a educadamente, como sempre fazia, e adentrou. A residência estava estranhamente silenciosa, exceto por Max, que veio alegremente cheirar-lhe a mão, enquanto abanava o rabo em boas vindas. Tudo mais estava quieto, e isso não era normal, principalmente por ser a hora em que a família deveria estar fazendo suas refeições.
Com poucas palavras a empregada o conduziu até o escritório, onde informou que o Sr. Collin o aguardava. Abriu a porta do cômodo, e anunciou a presença do convidado. Melfin Collin estava majestosamente sentado na cadeira principal do escritório. Ordenou com um gesto de mão e expressão enfadada que a serviçal se retirasse, e mandou, da mesma maneira, que o jovem se aproximasse. Riley obedeceu, com passos hesitantes, e com um pedido de licença polido sentou-se em frente ao sogro, do outro lado do birô.
- Creio que não faz idéia do porquê o chamei até aqui. – Melfin começou com a voz monótona, ainda encarando o rapaz com desagrado, que com um gesto de cabeça concordou. – Como não sou um homem de rodeios, vou direto ao assunto. Minha filha irá se casar.
Rilley arqueou levemente as sobrancelhas, e a expressão de surpresa aos poucos foi sendo substituída por um leve sorriso em seus lábios finos.
- Bem... Eu e Elize ainda não havíamos conversado sobre o assunto... – o rapaz pigarreou e começou, um pouco sem jeito. – Mas caso seja da vontade dela, e o senhor me permitir, farei a proposta o mais breve possível...
Collin encarou o jovem com desprezo. As feições esbranquiçadas e cansadas do rapaz, aliadas ao cheiro de hospital, que lhe impregnava até os cabelos meticulosamente penteados, só lhe provocaram asco. Pensou que, de fato, havia tomado a decisão correta. Riley não passava de um garoto despretensioso, não possuía predicados suficientes para conduzir a vida da sua filha, arriscaria dizer que nem saberia lidar com os arroubos do temperamento forte dela. Elize não carregava só o sobrenome Collin, carregava também o sangue e a fibra que Rilley nunca sonhara em ter.
- Acho que você me entendeu mal, meu rapaz. – o velho sibilou. — Minha filha se casará, mas não será com você. – disse, de forma seca, sem qualquer sentimento de piedade.
- Como? – Rilley questionou claramente confuso. Piscou os olhos e sentiu um zumbido em seu ouvido. O futuro sogro estaria lhe pregando uma peça, de certo, pensou o médico inocentemente.
- Foi isso mesmo que você ouviu. Elize se casará com outro. – Collin continuou com tom de azedume e sem rodeios. A verdade é que se deliciava com cada palavra cruel que proferia.
- Mas... – o rapaz tentou buscar palavras, no entanto não as encontrava. Era como se sentisse uma tranca na garganta, que o impedia de argumentar. – Nós temos um compromisso... O senhor não pode fazer isso... — se ouviu dizer por fim.
- Já está feito, meu rapaz. Chamei-o aqui apenas para lhe informar a situação. Considere o compromisso com minha filha cancelado. — Collin decretou.
Rilley encarava Melfin Collin atônito. Toda a cena parecia surreal aos seus olhos. Teve vontade de gritar, esmurrar, de se comportar como qualquer homem de sangue quente nas veias... Mas não conseguia esboçar qualquer reação. Via-se perdendo o amor de sua vida, mas o que faria contra a vontade do seu próprio pai? Haveria de ter uma solução, pensou. Não se dando por vencido, interpelou ao velho.
- Posso ao menos falar com sua filha? Creio que ela não concordaria com essa situação.
O olhar gélido do velho Collin o teria fulminado, se pudesse.
- A proposta do outro cavalheiro foi por demais vantajosa para que minha filha perca seu tempo ouvindo o que quer que você tenha a dizer.
A incredulidade estampou-se nas feições de Rilley. A raiva fervilhou em seu interior ao encarar o velho novamente. Sentiu a súbita vontade de agarrar-lhe pelo pescoço, entretanto fora educado na parcimônia, de modo que a violência estava fora de cogitação, mesmo que isso implicasse em se conformar com a impotência de não lutar por Elize.
- Deixe-me então apresentá-la a minha proposta. – o jovem insistiu, em tom triste. – Garanto que somando-a aos sentimentos que nutrimos um pelo outro, ela decidirá ao meu favor.
O sorriso maquiavélico de Melfin Collin assustou o rapaz, que deixou os ombros caírem. Até o momento, sempre fora educado e cordial com o jovem médico, agora se revelava outra pessoa, um homem insensível e cruel. O que motivara tal mudança de comportamento?
- Sentimentos! – sorriu em deboche, pendendo o corpo impoluto mais para frente, a ponto de fitar bem de perto o jovem médico. – Não julgue precipitadamente que minha filha nutra qualquer sentimento por sua pessoa. Aceitou o namoro apenas por lhe ser conveniente, nada mais. Agora, como tal compromisso se tornou um inconveniente, não fará questão em descartá-lo.
Melfin atingiu, em cheio, o seu objetivo, pois suas palavras inflamaram o parco orgulho do jovem. O rapaz sentiu seus olhos arderem e lacrimejarem, mas logo disfarçou sua emoção. Com dificuldade recompôs-se.
- Como namorado de Elize tenho ao menos o direito de saber se essa é realmente a sua vontade! – Rilley exigiu, aumentando seu tom de voz, mas logo se arrependendo por tal imprudência.
- Você não tem direito algum, garoto. Quem manda na vida da minha filha sou eu, e na sua, os seus pais, ou estou enganado? – Rilley nada respondeu então Collin continuou. – Encontrei-me com eles durante essa semana, e me disseram que não eram tão desejosos da união entre você e minha filha, a ponto de aceitarem as minhas condições.
- Eu não sabia... – Rilley balbuciou, mas foi interrompido.
- Como vê, nossa conversa só se prolonga inutilmente. Está disposto a contrariar a vontade de seus pais? – mais uma vez o rapaz nada respondeu. – Então nossos assuntos em comum terminam por aqui.
- Espere! – o jovem suplicou. – Dê-me um tempo. Posso conversar com meus pais a respeito... Arranjarei uma solução... Tenho condições de manter minha família com meus próprios proventos, tenho certeza!
A voz de Rilley foi interrompida pela gargalhada alta de Collin.
- Proventos? – indagou sardonicamente o velho. – Você acha mesmo que o mísero salário que é pago a você no hospital seria suficiente para arcar com todas as despesas da minha filha? – Collin não deixou Rilley falar. – É óbvio que não! E Elize não deixará o lar dos pais para passar necessidades com um esposo qualquer. Por tanto, meu caro, considere seu namoro com minha filha acabado. – Collin concluiu, em tom de satisfação.
- Posso ao menos vê-la? Despedir-me... – Rilley não conseguia mais ocultar a tristeza em sua voz.
- Creio que ela não deseja vê-lo. – O velho rebateu, certo de que desta vez falava a verdade.
Rilley baixou os olhos, e passou as mãos trêmulas nos cabelos num gesto de nervosismo. Viu-se sem saída, pois jamais contrariaria a vontade de seus pais. Acabava de perder a mulher de sua vida, e não tinha forças para lutar por ela. Sentindo-se mais derrotado do que nunca, se quer conseguia encarar Melfin nos olhos.
- Neste caso... – começou, com a voz trêmula e baixa. – Vejo que não há nada a ser feito... – temendo que as palavras falhassem, apressou-se em continuar. — Peço desculpas ao senhor e à sua filha, por ter-lhes tomado tanto tempo...
Assim que Rilley levantou-se, passos apressados foram ouvidos na escada, mas ele não se importou. Embora transtornado, cumprimentou Melfin polidamente, e se retirou da residência dos Collin, com a intenção íntima de buscar uma solução para a situação.
Collin tomou um gole de uísque, saboreando o gosto da vitória, que fora mais fácil do que imaginara. Voltou a recostar-se na cadeira. Sabia que os passos que ouvira pertenciam a Elize, já que tudo não passava de um desdobramento de seus planos. Acreditava que alguns homens nasciam para dominar, e outros para serem dominados. Rilley, portanto, era uma espécie clara deste último tipo.
Prevendo a inércia do rapaz, e ciente de o quanto isso desagradaria a sua filha, ordenou antecipadamente que a empregada a chamasse ao escritório assim que recebesse a visita de Rilley. Como previsto, a moça ouviu a conversa, e indignada trancou-se em seu quarto.
A jovem ainda refletia sobre a conversa com sua mãe, quando a empregada bateu à sua porta, anunciando que seu pai a chamava. Teve vontade de se recusar, mas na falsa esperança de que ele tivesse desistido do casamento, foi ao seu encontro. Desceu as escadas e estava ao pé do último degrau quando reconheceu a voz abafada de Rilley vinda da porta entreaberta do escritório. Apressou-se, imaginando que ele lhe ofereceria socorro.
Qual não foi sua decepção, ao perceber que o jovem aceitara as ordens do seu pai de maneira tão resoluta. Elize teve vontade de adentrar ao recinto, e contra-argumentar com Melfin mais uma vez, na frente do jovem, mas resignou-se. Por que continuar ao lado de uma pessoa que não brigava por aquilo que queria? Se Rilley a amasse de verdade, tentaria salvá-la de todas as formas, ela concluiu. Mas sabia que o rapaz nunca teria forças para lutar contra a vontade de Melfin, muito menos contra seus próprios pais. Tão diferente de outro jovem, que há anos atrás brigara com afinco contra Melfin Collin por sua causa...
Sentindo-se mais sozinha do que nunca, Elize voltou ao seu quarto em lágrimas. Seu último fio de esperanças havia se dissipado. E agora, o que faria?, perguntou-se.
Ressentida pela falta de atitude do namorado, pegou o contrato sobre a escrivaninha, e num rompante de raiva o assinou. Desceu as escadas com passos firmes, e adentrou ao escritório do pai sem qualquer anúncio. Jogou o pedaço de papel sobre a mesa, e encarou Melfin com ressentimento. Ele apanhou o contrato, e o estudou. Ao ver a assinatura da filha não conteve o riso de satisfação.
- Está aí o que o senhor queria! – a jovem falou exasperada. – Saiba, porém, que terá seu dinheiro... Mas acaba de perder sua única filha! – travou o queixo impedindo que tremesse. Nunca pensara que poderia odiar tanto o pai quanto agora.
Com essas últimas palavras Elize deixou o cômodo, tendo certeza, entretanto, que sua mágoa em nada perturbara o homem a quem um dia chamara de pai.
...
O dia anterior havia corrido exatamente como Jacob planejara. Durante a manhã, fechara o negócio mais importante da sua vida. À tarde, como prometido, almoçara na casa de seu amigo Sam, e pudera matar a saudade da família que considerava como sua. Após o trabalho na fábrica, voltou para casa a tempo de jantar com sua família. Estranhou a ausência de Billy, mas conjecturou que o pai ainda estivesse aborrecido com os últimos acontecimentos, então resolveu dar-lhe o tempo que precisava para absolver a sua decisão.
Naquela noite, após muito, muito tempo – tempo este quase imensurável -, Jacob dormiu um sono tranqüilo. Ao invés dos pesadelos de costume, teve uma noite sem sonhos. Era o sono dos justos, a que tinha direito, pensou na manhã seguinte quando se acordou. Afinal, finalmente a justiça seria feita, e pelas suas próprias mãos.
Levantou-se muito bem disposto. Após o banho, e devidamente vestido, teve dificuldades em dar o nó da gravata. Olhava para o espelho, tentando concentrar-se no que fazia, mas seus olhos teimavam em correr para uma certa caixa de sapatos, parcialmente escondida no fundo do seu guarda-roupa. Jogou a gravata sobre a cama, e deixou-se vencer pela vontade súbita de pegar a caixa de uma vez por todas. Chegara a hora de enfrentar todos os seus receios.
Abriu a tampa da caixa de uma vez. Por muito tempo temeu sequer tocá-la, como se ali estivesse trancada a sete chaves uma serpente pronta a lhe dar o bote. Mas o recipiente estava completamente vazio, exceto por uma pequena caixinha de madeira, revestida de cetim. Seus dedos hesitaram ao tocar o objeto. Ele a abriu. E tudo o que havia na caixinha que talhara e revestira com suas próprias mãos era um anel de ouro, fino como uma linha, enfeitado com um pequeno diamante, de menos de meio quilate.
Lembrou-se de quando comprara aquela jóia para Elize, e como tivera que economizar praticamente durante um ano inteiro para comprar a aliança, na intenção de pedi-la em casamento. Mas o anel, assim como ele, havia sido rejeitado. Talvez ambos fossem simplórios demais para uma moça tão nobre quanto a herdeira dos Collin.
Fechou a caixa e a jogou em um canto qualquer do guarda-roupa, antes que a destruísse com as próprias mãos, ao lembrar o quanto sofreu por quem não merecia. Pegou a gravata jogada sobre a cama e voltou a se arrumar. Olhando-se no espelho, percebeu que havia sido um tolo por temer um objeto como aquele ínfimo anel. Tudo o que ele constatara era que nada era como antes. Agora ele poderia ter tudo o que queria, e era Elize quem deveria se mostrar merecedora à altura do que poderia lhe proporcionar.
Havia sido um verdadeiro idiota, ao se sacrificar para dar a Elize o melhor que podia na época. Agora, entretanto, lhe mostraria que o máximo que ela desejasse não passaria de migalhas para ele. Poderia comprar tudo, inclusive sua futura esposa. Fingiu não sentir uma pontada de mágoa com esse pensamento, e foi embora.
Ao passar pela sala de jantar, observou Billy tomando o café da manhã sentado à mesa. O pai lhe lançou um olhar de esguelha, o que o fez mudar de idéia quanto a fazer a primeira refeição do dia. Tudo o que menos queria era ouvir um sermão de Billy logo cedo, pela manhã.
Ao invés de dirigir-se à fábrica, entretanto, viajou, com a desculpa de rever velhos e novos clientes. E ninguém, muito menos seu pai, estranharia o fato, já que era comum que o rapaz fizesse viagens quinzenais a outras cidades representando a empresa. Seguiu até a principal joalheria da cidade de Seattle. Estacionou em frente à loja, ajeitou o terno de grife, e adentrou ao lugar. Era impossível não se lembrar como fora tratado da última vez que estivera ali.
- Bom dia! – uma funcionária da loja o cumprimentou de maneira simpática, avaliando-o de cima a baixo, com interesse. – Em que posso ajudá-lo? – perguntou, não escondendo que empenhava mais cortesia à voz do que o necessário.
O jovem índio estreitou os olhos, lembrando-se da diferença no trato que recebera nessa mesma loja há quatro anos atrás. Fora praticamente escorraçado do lugar pelo próprio dono do estabelecimento, que ao ver um índio de porte físico considerável e roupas humildes adentrar a joalheria, julgou-se na iminência de sofrer um assalto.
Black avistou o mesmo homem, magro e calvo, examinando alguns papéis mais ao fundo da loja. Rememorou a dificuldade que teve de encontrar um anel, por mais humilde que fosse a jóia, em outro lugar da cidade. A raiva turvou os seus olhos, enquanto aproximava-se da atendente, mas em vez de ser-lhe mal educado. Sorriu de modo conquistador, a ponto de fazer a jovem suspirar.
- Bom dia. Estou interessado em comprar um anel. – começou, fingindo uma certa dúvida. A jovem lhe sorriu.
– O senhor tem preferência? Nós temos uma grande variedade. Se disser o que deseja...
- Aí é que está... – falou Jacob, a interrompendo. – Não sei qual jóia se adequaria à beleza da jovem com quem irei me casar... Você poderia me ajudar? – então franziu o cenho como se estivesse confuso.
- Sim, claro. – a moça se afastou, enquanto escolhia algumas peças da vitrine. – Pronto, senhor, olhe esse. — a jovem mostrou o anel sobre a palma da mão. Uma pedra verde cravada entre minúsculos brilhantes.
- Sem dúvida é um anel lindíssimo... – o rapaz falou reticente. — Mas acredito que não.
- Lhe mostrarei outros. – a jovem disse, e sorriu, antes de trazer-lhe vários anéis. Jacob assentiu, enquanto observava a loja requintada.
Diante de todas as jóias, embora lindíssimas, Jacob demonstrava desinteresse. Sabia que não estava sendo honesto com a jovem vendedora, que provavelmente não ganhava muito nas vendas, mas a verdade era que não tinha intenção alguma de comprar a jóia que daria a Elize naquela loja. Não na mesma loja onde fora insultado quatro anos atrás. Não daria ao dono do estabelecimento o prazer de ganhar dinheiro às suas custas. Desde muito cedo aprendeu a dar honra a quem merecesse honra, e aquele homem definitivamente não a merecia.
- Lamento, mas ainda não é este. – o rapaz falou, deixando sua rouca voz soar pelo ambiente, enquanto recostava charmosamente os braços sobre o balcão.
— O senhor tem certeza? Nada o agradou?- a jovem indagou com expressão frustrada.
- Sim. – Jacob lhe respondeu, fitando-a diretamente nos olhos, o que fez a funcionaria enrubescer diante da voz galanteadora.
– Er... Então...- sentindo que titubeava, a vendedora permitiu-se um momento de hiato até recuperar a fala. — Gostaria de falar com o dono do estabelecimento? Talvez ele o faça mudar de opinião... — ousou fazer mais uma tentativa, e o jovem índio acenou afirmativamente com a cabeça. Na verdade era por esse momento que esperava, a hora de confrontar o tal homem.
- Só um minuto.
Afastou-se, andando de costas para não perder o contato visual com o rapaz tão bem afeiçoado, e acabou tropeçando em uma de suas colegas de trabalho, que reclamou. Jacob apenas sorriu, o que deixou a moça ainda mais desconcertada.
Do seu lugar, observou a atendente interpelar o chefe, que a respondeu de forma atravessada, mas cedeu à insistência da funcionária. Quando percebeu que era o jovem Black, futuro dono da Tecidos Black, que o aguardava, o homem franzino enfeitou sua face com um largo sorriso, que em momento algum mostrou-se ser tão verdadeiro quanto as jóias que vendia.
Jacob sabia que todo esse falso carisma se devia à riqueza que sua família conquistara tão rapidamente, o que não passou despercebido por várias cidades do Estado. A fábrica de Tecidos Black era detentora de um prestígio invejável, o que se refletia num bajulamento aos Black que enojava ao jovem índio.
- Olá, Sr. Black. A que devo a honra de tão estimável visita ao meu humilde estabelecimento? – o velho indagou, de maneira simpática, talvez simpático como nunca fora com qualquer outro cliente. — Deseja presentear alguma moça de sua cidade? – emendou de forma insinuante.
Mais uma vez Jacob estreitou os olhos, percebendo que o dinheiro, sem dúvidas, podia comprar muitas coisas, inclusive o respeito das pessoas.
- Estou apenas averiguando a qualidade da sua mercadoria. — foi a resposta sem emoção de Jacob.
- E se agradou de algo? – o senhor indagou, parecendo convencido de que faria uma venda maravilhosa.
- Não encontrei nada que despertasse o meu interesse. – o dono da joalheria não conteve a expressão de espanto.
- Mas como, Sr. Black... Temos as melhores jóias da região.- argumentou.
- Não duvido disso. – Jacob correu os olhos despretensiosamente pela loja. — Mas nada me agradou, portanto não tomarei mais o seu tempo. – o jovem respondeu com tom sarcástico na voz, e fez menção de retirar-se, no entanto foi detido pela insistência do dono da loja.
- Sr. Black, espere... Tenho certeza de que encontrarei a jóia perfeita para o senhor... – falou, enquanto retirava do balcão de vidro uma bandeja repleta de anéis cravejados de brilhantes.
- Não insista, meu caro. Se suas jóias são as melhores da região, vejo que terei de encomendar o que desejo em outro país. – desdenhou, sem sequer olhar as jóias que ele expusera.
O velho calou-se de uma vez, com o rosto vermelho de raiva e de vergonha. O rapaz sorriu cinicamente e virou-se na direção da vendedora, que segundo o crachá chamava-se Jéssica, deu-lhe uma nota de cem dólares.
- Pela sua atenção e gentileza. – sussurrou, deixando a jovem rubra. A moça lhe agradeceu com um enorme sorriso, feliz com a idéia de receber uma gorjeta maior do que o seu próprio salário.
Jacob atravessou a rua e adentrou na loja concorrente. Lá, sim, escolhera e comprara o mais caro anel de compromisso, deixando o velho calvo e magro furioso do outro lado da rua, por ter dispensado sua mercadoria, assim que saiu da loja com o embrulho em mãos.
Na viagem de volta, mais uma vez rememorou como tudo agora corria conforme a sua vontade. O primeiro passo para a sua vingança havia sido dado por Collin, com sua aceitação à proposta do jovem. O segundo passo ele havia acabado de dar, comprando o objeto que selaria sua união com Elize. O último passo, entretanto, partiria da jovem, o que o deixava preocupado. Será que Elize aceitaria casar-se com um desconhecido, por ordens de seu pai? Porém, o que mais o aborrecia era saber que, de fato, se ela soubesse quem seria o seu futuro esposo, com certeza se negaria mais uma vez a casar-se com ele.
O jovem índio não sabia, porém, que a moça já havia aceitado as condições impostas pelo pai, e que os obstáculos à união entre ambos viriam de forma inesperada, de onde ele menos imaginava.
* Disfibrilador – um equipamento eletrônico cuja função é reverter um quadro de fibrilação auricular ou ventricular. A reversão ou cardioversão se dá mediante a aplicação de descargas elétricas no paciente, graduadas de acordo com a necessidade. Os choques elétricos em geral são aplicados diretamente ou por meio de eletrodos (Placas metálicas, ou apliques condutivos que variam de tamanho e área conforme a necessidade) colocados na parede torácica. O primeiro equipamento foi elaborado através de Claude Beck em 1947 utilizado em intra-operatório ( desfibrilação interna ). Em 1956 o médico Paul Zoll elabora a teoria e equipamento da desfibrilação externa.
Para nossa fic imaginemos que na década de 40 esse aparelho ja era usado.
Notas finais
É super interessante ler a reações de vcs a cada capítulo.Entendo que Elize não causou boa impressão na ultima postagem, até eu me pego julgando essa moçoila, ja que eu tenho a tendencia de defender Jake e a Lari de defender Elize, mas com um pai e uma mãe desses fica dificil lutar.
Bom é isso, espero que vcs tenham gostado. E não esqueçam. Comentem,indiquem e recomendem, é bem inspirador :)
Bjus e até a próxima!!!!
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