Virtude e Insensatez
13 Capítulo 12
Notas iniciais
Essa minha segunda ja começou bombando, e nada melhor que ler, para aplacar o estresse dessa semana que mal começou. Fatão!!!!
Como não poderia deixar de ser meus agradecimentos especiais vão para Yara Bastos e Limog que recomendaram tão lindamente essa fic. Nossa isso nos emociona, pq é uma forma de dizer que essa estoria merece ser lida, mesmo pelas teams Edward, como é o caso da Limog. Obrigadão!!!
Agora...Bora ler? Boa leitura e nos falamos ao final!!! :)
“Não falo, não suspiro, não escrevo seu nome. Mas a lágrima que agora queima a minha face me força a fazê-lo." Lord Byron
Jacob analisava as planilhas de contabilidade em sua mesa, sem dar-lhes a devida atenção. Desde que encontrara Emma na Maison de Margaret, as palavras ditas pela espanhola rodeavam os seus pensamentos incessantemente. E se ele estivesse cometendo um erro terrível? E se não tivesse visto os perigos de se envolver com Elize novamente? Corria ele o risco de se apaixonar pela aristocratazinha altiva mais uma vez?
Lembrou-se de que lera em algum livro que não se ama duas vezes a mesma mulher, e aquietou-se. Não. Ele não cometeria novamente o erro estúpido de iludir-se por Elize. Considerava-se imune aos encantos da jovem, uma vez que estava em situação de vantagem, embora ainda amargasse na pele os efeitos de ter se deixado levar no passado.
E para mostrar que não era o mesmo ingênuo de outrora, Jacob seguia seu inimigo de perto, tornando-se mais cínico, sarcástico, irônico, debochado e dissimulado. Todos os dias o rapaz visitava pontualmente sua noiva na hora do jantar, deixando-a consciente de que era a ele que a moça pertencia agora. Quase sempre ceava apenas com mãe e filha, já que o dono da casa cansou-se de fingir tolerância à presença do índio em sua residência. Quando a empregada anunciava a chegada do jovem, Melfin trancava-se no escritório, e de lá só saía quando se certificava de que o rapaz teria ido embora. Jacob não se aborreceu com tal comportamento, já que abominava a presença do sogro tanto ou mais do que ele.
A Sra. Collin, pelo contrário, revestia-o de gentilezas, notoriamente forçadas. Dava ordens à criadagem para que preparassem enormes banquetes, e sempre que recebia o convidado de honra ressaltava-lhe uma qualidade que não percebera antes. Aos olhos da sogra, subornada pelo pagamento das dívidas da família, Jacob Black era o homem mais pontual, mais elegante, mais galanteador, e mais educado de todos. Jacob, é claro, não fazia jus a tais elogios, muito pelo contrário, nunca deixara sua opinião afiada de lado, principalmente quando se tratava da moral da família Collin. Respondia-lhe sempre de maneira irônica, e não perdia a oportunidade de expor a Sra. Collin ao ridículo na frente da filha e empregados. Ou a mulher era tola demais para entender as intenções do rapaz, ou sábia demais para se importar com elas. Apenas quanto à pontualidade do rapaz Susan tinha razão. Todos os dias Jacob ansiava pelo momento em que estaria frente à frente com Elize, e por isso não se atrasava um instante.
Nos primeiros dias, a moça pareceu disposta a ignorá-lo completamente. Fingia que não ouvia seus comentários, ou que ele sequer estava sentado ao seu lado na mesa de jantar ou no sofá da sala. No entanto bastava que Jacob desferisse duas ou três provocações para que a moça reagisse na mesma proporção. Por vezes Eliza acusava-o de ser tirano. Respondia-lhe de maneira mal-criada, corava de raiva, e até xingava-lhe sem cerimônias, mesmo sabendo que tais impropérios não seriam dignos de serem proferidos por uma jovem da alta-sociedade como ela. As reações de Elize faziam-no sentir-se satisfeito, pois tudo o que mais queria era importuná-la, confundi-la, fazê-la sofrer, todavia, mais do que isso, queria marcar sua presença em todos os dias da vida da jovem.
E assim acontecia. Sempre que a empregada anunciava a chegada de Jacob, o coração de Elize sobressaltava em seu peito. O jovem sempre exalava deboche e alto-confiança, o que mexia com os seus brios. Cada vez que atrevidamente lhe tocava, um tremor perpassava por seu corpo, embora sempre revidasse. Todavia a moça ia dormir sentindo estranhas sensações e odiava-se por se permitir tal fraqueza. Rememorava as palavras, o sorriso cínico, o perfume amadeirado, tudo parecia ficar gravado em sua mente, como se realmente estivesse marcada como propriedade de Jacob Black.
Mas o rapaz não voltou a tentar beijá-la. Às vezes parecia que se atreveria, descendo seu rosto na direção de Elize. No entanto beijava-lhe apenas a face, deixando sua pele formigando no local onde seus lábios recostaram-se levemente, com um decoro que ela sabia que não existia. A moça a todo custo tentava esquecer-se de tais momentos, mas era traída por borboletas que invadiam seu estômago sempre que imaginava quando sentiria os lábios de Jacob nos seus outra vez.
Outro óbice à progressão do relacionamento do casal era a Sra. Collin. A senhora permanecia a noite inteira na companhia dos jovens, tagarelando sobre o casamento, enfatizando o quanto todos aguardavam o momento, e o quanto sua filha seria feliz. Elize constrangia-se da atitude vergonhosa da mãe, mas acrescentava esse a todos os fardos que agora tinha que carregar. Certa noite Susan sugeriu que fizessem um jantar na casa dos Black, para promover a aproximação das famílias, sugestão que Jacob negou veementemente, despertando a curiosidade de Elize.
A moça não sabia que pai e filho não se falavam desde o dia em que Jacob assinara o contrato se comprometendo a casar-se com ela, e que este era mais um motivo para que o rapaz passasse o máximo de tempo possível na fábrica ou na casa dos Collin.
Jacob tentara algumas aproximações, mas Billy mostrara-se verdadeiramente magoado. O rapaz não insistiu, preferindo que o passar do tempo melhorasse o conflito familiar. A distância do pai também lhe tirava a concentração no trabalho, por isso aguardava ansioso a pessoa que chamara por telefone minutos atrás. Depois de alguns instantes, as leves batidas na porta chamaram sua atenção para a jovem que adentrava ao recinto.
- O senhor deseja alguma coisa? – Leah perguntou com tom de voz mais ácido do que o normal. Sua sobrancelha arqueada, demonstrando o quanto estava aborrecida com o rapaz.
- Não haja assim, Lee, por favor... – o jovem pediu, suspirando pesadamente. Embora soubesse lhe dar, como ninguém, com o temperamento da jovem que tinha como irmã, tinha que admitir que ultimamente a moça estivesse cada vez pior, o que o deixava nitidamente cansado.
Desde que Leah soubera do seu noivado com a Srta. Collin, cortara relações com o rapaz. Apenas o encarava com a expressão raivosa e entortava o rosto, sendo mal criada. Jacob não sabia que a notícia do seu noivado causara a Leah imensa tristeza, pois nunca acreditara que os sentimentos da jovem por ele fossem algo além do fraternal. Todavia enganara-se redondamente. Uma amiga, que era filha de um dos membros do conselho da tribo, telefonou para a moça contando a novidade, e aquela fora a noite mais triste da sua vida. Chorou amargamente durante horas, e amaldiçoou a moça branca que roubara o homem da sua vida.
- Como quer que eu me comporte, ãn? Você vai se casar com aquela...
- Leah! – repreendeu Jacob antes que a jovem disparasse algum xingamento.
- Isso mesmo, aquela branquela! – Leah fungou frustrada. – Pensa que não me lembro de quando éramos mais novos? Eu via você andando atrás dela como um cachorrinho!- após um breve hiato a nativa acrescentou. — Pensei que tivesse orgulho de ser um Quileute... – provocou, como era contumaz, e Jacob estreitou levemente os olhos, evitando chatear-se, pois sabia que a jovem iria disparar mais uma onda de inconformismo. — Mas não... – continuou Leah. – Parece que não se lembra do que esses brancos desgraçados fizeram com você...
- Não precisa me lembrar de nada, Leah. Eu, mais do que ninguém, sei exatamente o que eles são capazes de fazer. — deferiu seriamente, cobrindo seu rosto com o velho ressentimento, deixando seu olhar vagar para as antigas lembranças que habitavam dentro de si e que vinham a tona todas as vezes que tal assunto era mencionado.
- Pois não parece. – zombou, mostrando impaciência.
Jacob voltou lentamente seu olhar para a jovem exasperada à sua frente.
- Eu não preciso que aceite minhas decisões, apenas que as respeite. — Leah pareceu chocar-se levemente com a resposta, que a deixou momentaneamente sem reação. A jovem teve vontade de xingá-lo, mas preferiu recompor-se, mirando-o com agressividade.
- Diga o que quer de uma vez. Tio Billy está me esperando. – disse rispidamente, temendo que sua raiva acabasse por culminar em sua tristeza profunda.
- Então ele veio à fábrica? – indagou Jacob, levemente aliviado. Fazia uma semana que não via seu pai, nem em casa, nem na Tecidos Black. Parecia que o velho índio estava evitando um confronto com o filho a todo o custo.
- Sim. Mais alguma coisa? – perguntou a moça, com a mão livre na cintura, enquanto a outra segurava a agenda do dono da fábrica, cujos dedos batiam nervosamente contra a capa.
- Não. Obrigada. – Jacob respondeu secamente, sem paciência para lhe dar com os rompantes da jovem. Certamente o mau humor de Leah passaria, assim como o de todos os Quileutes, que reprovavam seu comportamento indigno, já que o casamento inter-racial não era visto com bons olhos pelos membros da tribo. De qualquer forma, no momento tudo o que queria era saber notícias sobre o seu pai.
- Se me der licença... – Leah pediu, e mais uma vez encarou-o com furor latente, e logo se retirou.
A quietude da sala fora interrompida por Sam Uley, que entrou segundos depois de Leah ter saído.
- Estou precisando dos balancetes da semana... – informou, apontando para a pilha de papéis espalhada sobre a mesa de Jacob. O jovem Black soltou um suspiro audível, jogando a caneta que segurava sobre a mesa. – O que houve, meu amigo?- indagou Sam com uma ruga de preocupação.
- Estou cansando, Sam. Parece que estou lutando contra todas as pessoas que estimo... — Jacob deixou a cabeça cair levemente para frente, correndo os dedos morenos pelos cabelos negros.
- Desculpe-me, Jacob, mas você está... – observou Sam, com um sorriso fraco, sentando-se na cadeira de frente para o birô do jovem.
- Não vou desistir, Sam. Não agora, que estou tão perto... Nem que todos me odeiem por isso!- mencionou de forma enfática, deixando claro que suas intenções vieram para ficar. Só colocaria um ponto final em tudo, quando se vingasse de Elize da forma como ela merecia, pensou sombriamente.
- Ei! Deixe-me fora desse grupo... – falou, levantando as mãos, conotando um tom leve à conversa. – Seu padrinho de casamento estará no cartório pontualmente! – apoiou o amigo. Não concordava com a sua atitude, mas não o deixaria sozinho em um momento tão importante.
- Obrigado! Mas não posso dizer o mesmo do meu pai... Billy sequer olha nos meus olhos. — confessou com tom de ressentimento. — Até Leah está de mau humor por causa disso. — ponderou, enquanto Sam o olha fixamente por uns segundos.
- Leah tem uma verdadeira veneração por você... Não é difícil imaginar que tenha ficado possessa com a novidade. Ela nutre um amor platônico por você, Jake.
- Leah e eu somos como irmãos. – disse.
- Essa é a sua visão, mas não condiz com a realidade. – Sam insistiu. Jacob balançou a cabeça em discordância, negando-se a acreditar no amigo. O jovem pensou que talvez o amigo estivesse confundido o ciúme de irmã que a jovem sentia por ele, com aquele sentimento de posse que uma melhor teria em relação ao seu homem. — Em todo o caso... – acrescentou Sam, mudando de assunto. — Tudo vai se ajeitar, Jake, acredite. Além disso... Billy está demonstrando certo avanço...- comentou Sam.
- Como assim?- inquiriu curioso.
- Bem... Emilly me disse que ele esteve ontem na casa que está reformando. Pensou que não haveria ninguém no final da tarde. Mas a Emm o pegou no flagra verificando a pintura das paredes e a construção da cerca.
Jacob sorriu satisfeito. Aquela era a melhor notícia que recebera em muito tempo. Havia mandado restaurar uma antiga residência, onde moraria com sua futura esposa, e além dos homens contratados para a obra, apenas Sue e Emilly comprometeram-se com a decoração final. Perguntaram se a dona da casa não teria interesse em participar, mas o jovem negou veementemente. Disse que seria mais uma surpresa para a noiva. E seria, ah, se seria!
...
- Tem certeza, Reverendo? – a Sra. Collin perguntava ao telefone, com a voz levemente frustrada. – Se o Sr. Black lhe pediu sigilo, pode me dizer. – enfatizou a mulher. — Garanto que não direi uma palavra à minha filha. – prometeu, e num gesto que revelava mais do que apreensão, fitou a filha de esguelha sentada no sofá do outro lado da sala.
A moça apenas girou os olhos, cansada com a insistência da mãe, que parecia não ter limites. Faltavam apenas dois dias para o casamento, e Susan não se agüentava em si por não descobrir, até o momento, onde seria realizada a cerimônia religiosa. Ligara para todas as igrejas de Forks e das cidades vizinhas. Entrara em contato com os principais salões de festa da região. Mas nada. Nenhum desses lugares lhe deu qualquer informação sobre o casamento da sua filha. Elize pressentia que era muito melhor permanecer na ignorância, pois imaginara que, se o rapaz lhe preparava uma surpresa, não seria nada bom. Muito pelo contrário. Nesses quase quinze dias de encontros diários com Jacob Black aprendera a não esperar nada de bom do jovem.
- Tudo bem. Meu futuro genro é um homem muito espirituoso. – sorriu a fim de parecer convincente. — Deve ter escolhido uma igreja mais refinada... – a senhora desdenhou, chateada com o silêncio do Reverendo. Odiava se sentir aquém dos acontecimentos. – Sua bênção. – pediu por fim e pôs o telefone no gancho, voltando-se para Elize, que lia um livro, sentada despreocupadamente no sofá, ou fingia estar. – Não diga que também não está ansiosa, Elize. Sei que deve estar se roendo por dentro de curiosidade.
- Enganou-se, minha mãe. – Elize disse, abandonando um pouco a leitura para olhar a mãe. — Nada que diga respeito a este casamento me interessa... – a moça contrapôs. Com a aproximação da data do evento, sua paciência esvaíra-se, junto à sua esperança de que algum milagre lhe salvasse do iminente desastre que seria o casamento com Jacob Black. Se ele ainda nutrisse algum sentimento por ela, pensara Elize, mas não, tudo o que via quando fitava os negros olhos de Jacob era um ódio sem precedentes.
Contrariada, a Sra. Collin retirou-se do recinto, deixando a filha à vontade com a sua leitura, que há muito não estava interessante. Elize lera e relera o mesmo parágrafo quatro vezes, sem conseguir extrair o seu conteúdo. Porém não era só o futuro casamento que lhe tirava a concentração, mas também os acontecimentos do dia anterior.
Desde que havia assumido o compromisso com o Sr. Black, a moça não freqüentava as rodas sociais. No entanto a notícia do seu noivado espalhara-se pela cidade rapidamente, como rastro de pólvora. Enquanto Elize não fazia questão de desfilar seu relacionamento por Forks, Jacob pensava exatamente o contrário. Adoraria ver a expressão das pessoas quando vissem Elize de mãos dadas com um índio. Na verdade adoraria ver a própria Elize, orgulhosa e altiva, tentando disfarçar o desconforto de ser vista tão intimamente com um nativo. Jacob não tinha intenção de facilitar a vida da futura esposa, e para tanto se mostrou ansioso para que estivessem em público, e com um pensamento que ia além do sarcasmo, convidou a moça para um lúdico passeio à tarde. Ela sabia que não adiantaria se negar, então cedeu à sua vontade.
- Não vamos de carro? – Elize franziu levemente o cenho e reprimiu um passo, quando Jacob ofereceu-lhe a mão, não fazendo menção alguma de levá-la para o automóvel estacionado bem à sua porta.
- Não. Imaginei que seria bom se caminhássemos... – Jacob respondeu sem cerimônias, entrelaçando seus dedos nos da jovem, que ousou puxar a mão, mas foi impedida, num gesto brusco. – Estamos noivos, Elize, nada mais normal do que passearmos de mãos dadas, não concorda? – Jacob esclareceu, e deixou um sorriso sarcástico escapar dos lábios. Elize o fitou séria e teve vontade de dizer “não, não concordo”, no entanto, em vez de responder como almejou, trincou os dentes. Todavia, nem a contrariedade impediu que sentisse a boca seca. Umedeceu os lábios com a ponta da língua e deixou que a leve pressão e a forte onda de calor palpitasse em seu coração.
- Por que está me olhando desse jeito? – Elize questionou nitidamente incomodada, quando Jacob desceu seus olhos sobre ela.
- Gosto de imaginar que tipo de peça está vestindo por baixo dessa saia justa e dessa blusa bordada. — Elize pensou que iria sufocar quando sentiu o rosto ferver e seu pulso correr descompassado. Aliviou-se por ter enfeitado o pescoço com um lenço, pois só assim o índio não notaria o pulsar acelerado de sua jugular. Definitivamente Jacob Black era um canalha abusado.
- Não me trate como uma de suas prostitutas, Jacob, por que não o sou. – apontou Elize, crispando os lábios numa expressão de desagrado. — Se esqueceu como se deve tratar uma moça de família, advirto-lhe que se lembre imediatamente.
- Quanta moral incutida em uma única pessoa... — o jovem índio a interrompeu, aproximando-se ao ponto de roçar-lhe levemente a ponta de seu casaco no braço da jovem. — Se bem me lembro, nunca ouvi você queixar-se das vezes em que eu...
- Ora, cale a boca. – Elize disse num rompante, torcendo para que suas pernas não fraquejassem, sucumbindo à volúpia do seu corpo, cujo sangue fervia todas as vezes que ouvia a voz enrouquecida do jovem índio rememorando momentos que a tanto custo tentou esquecer.
- Acalme-se. – ordenou o índio com sarcasmo. – Não é minha intenção excita-la. — então beijou-lhe levemente a face rubra. — Guarde todo esse ardor para o dia em que eu a tiver na minha cama.
A fala faltou a Elize, que abriu levemente a boca num espanto abrupto.
- Respire, Elize, e sorria, você fica bem mais bonita quando sorri. — a falta de reação deixou a jovem mais irritada. Odiava quando não conseguia responder-lhe a altura. Nunca fora inquirida para que não soubesse o que responder, nunca fora julgada para que não se defendesse, e nunca fora insultada para que não soubesse devolver na mesma proporção.
- Se pensa que terá o que quer, está enganado, Sr. Black. Serei sua esposa conforme a lei, mas nunca em sua cama... Não por livre e espontânea vontade! — era uma promessa. Jacob pensou internamente: isso é o que vamos ver! E então voltou a segurar a mão de Elize, que embora resoluta, deixou-se ser levada. — Vamos, desejo acabar de uma vez por todas com esse teatro. Mas se pensa que comprando a mim e à minha família alçará o respeito dos abastados de Forks, está enganado.
Os dois caminharam de mãos dadas pela praça. Não foi difícil atrair a atenção dos curiosos, que os observavam enquanto passeavam, afinal era o índio dono da fábrica de tecidos e a unigênita dos Collin que demonstravam, finalmente, o seu compromisso. Teria sido o passeio prazeroso se não fossem as contradições deploráveis do relacionamento do casal. Não havia delicadeza nos gestos de Jacob. A forma como a conduzia era tão possessiva que não foi difícil Elize se sentir como um objeto. Um objeto caro, diga-se de passagem, a ser exibido pelo seu dono. A prepotência que fazia parte do novo Jacob não lhe permitia indulgências, e isso ele deixava claro.
- Não precisa agir desta maneira. Eu não irei fugir. – Elize disse, referindo-se à forma dominadora com que o noivo se mantinha perto dela, enquanto se dirigiam à principal confeitaria da cidade, onde fariam um lanche.
- Sei o quanto você é inteligente para não tentar tal burrice. – ele respondeu, inclinando a boca ao ouvido da jovem, que sentiu um leve tremor quando os lábios do índio roçaram o lóbulo de sua orelha, embora o gesto não tivesse nenhuma conotação sentimental. Elize afastou ligeiramente o rosto, o que não impediu que Jacob tocasse sua face rubra, arrumando uma mecha desleixada de cabelo atrás de sua orelha. — Apenas entenda que estou cuidando de você. – zombou, e Elize precisou respirar para que o sangue concentrado no rosto circulasse.
- Cuidando? – Elize riu sem vontade, já recomposta do leve torpor. — Você é desprezível, Jacob Black.
- E você é tão espirituosa... Vamos lá, sorria, as pessoas estão nos observando. – o tom sarcástico de Jacob só a lembrara da difícil missão de fingir.
Não havia nada de romântico no relacionamento do casal, muito pelo contrário. O exibicionismo do rapaz apenas aborrecia a moça, que demonstrava o quanto cumpria o seu papel de maneira forçada. Os espectadores não notavam a áurea de animosidade que os rodeava, pois ambos imprimiam um contentamento que estavam longe de sentir, o que faziam muito bem. Elize jamais abandonaria a pose de moça aristocrata de vida perfeita.
O passeio gerou o efeito esperado pelo rapaz. Todas as pessoas que os encontravam, principalmente os membros da alta-sociedade, não escondiam a surpresa. Era a confirmação dos rumores de que a filha de um dos homens mais importantes da cidade estava prestes a se casar com um índio, sem classe, cujo dinheiro comprava tudo, menos um sangue nobre.
Mas a pior parte para a moça ainda estava por vir. Elize não imaginava que poderia se sentir pior, até adentrar na confeitaria e pousar seus olhos inadvertidamente em nada mais nada menos do que em seus velhos amigos. Emmet, Rosalie e Rilley estavam sentados ao fundo do estabelecimento, sem se dar conta da presença da jovem e do índio. Elize quis virar-se e correr, fugir, sair daquele lugar o mais rápido possível, mas seu gesto foi impedido pelo braço forte de Jacob, que a segurou antes que ousasse ultrapassar a porta.
- O que houve? Não está pensando em fugir, está? – Jacob desferiu as perguntas, assim que a moça petrificou em seu lugar, e embora estivesse sério, Elize pode notar um sombrio divertimento perpassando em seus olhos crispados. – Não disse que queria acabar com o teatro o mais rápido possível? – debochou, sabendo que a jovem estava incomodada com a presença do ex-namorado, que ele também notara.
- Largue-me. – ordenou Elize. — Deixe-me ir embora. – pediu com o tom carregado de exigência, enquanto tentava inutilmente desprender-lhe o braço.
- Pare com isso! Você está chamando a atenção das pessoas. É isso o que você quer? Que todos vejam o quanto a Srta. Collin é amistosa com seu noivo em público?
- Apenas deixe-me ir. – a jovem insistiu.
- E perder toda a cena? — Jacob sorriu cinicamente. – Não seja ridícula, minha cara.
- Pare de ser intransigente, Jacob, eu... — Elize suavizou a voz e amenizou seu jeito altivo. Sabia que o noivo nunca a escutaria se continuasse a exigir, a ser petulante. Não poderiam medir forças, pelo menos não no momento, pois ele jamais cederia. Então suas mãos tocaram o bíceps do rapaz nervosamente e com o olhar aflito ela o encarou. — Vamos embora. Por favor... – Elize suplicou.
- Nada disso. Está mais do que na hora de você me incluir em sua roda de amizade, a não ser, é claro, que esteja com vergonha de me apresentar aos seus amigos. – o tom de voz era cínico e Elize mal teve tempo de falar, pois Jacob já a conduzia até a mesa onde os conhecidos se sentavam. — Boa tarde! – o jovem índio os cumprimentou de braços dados com Elize, que permanecia de cabeça baixa ao seu lado.
Num primeiro momento eles não se deram conta da aproximação do casal. Mas quando a voz rouca e soberba do índio soou próximo à mesa, os três os miraram diretamente. Elize levantou o olhar levemente, e tentou sorrir, mas foi desencorajada pelo olhar gélido que Rilley a lançou, assim que seus olhares se cruzaram, o que a encheu de tristeza. O ex-namorado a encarava com uma expressão nunca antes vista pela moça. Os olhos sempre cálidos, alegres e bondosos de Rilley, pareciam transtornados, e ao mesmo tempo enojados enquanto a mirava. Elize tentou não se intimidar, mas foi inevitável não se encolher ao lado de Jacob, e desviou o olhar para os outros amigos, mas não antes de perceber que Rilley parecia abatido.
Emmett levantou-se, e estendeu a mão para cumprimentar o jovem índio, mas foi interrompido por sua noiva, que se antecipou, colocando-se ao seu lado, puxando de volta o seu braço.
- Vamos embora, Emmett. Este lugar já foi muito melhor freqüentado... – Rosalie soltou, fitando Elize e o noivo de cima a baixo, declarando sua indiferença. Jacob não se incomodou ante a explícita sessão de preconceito, pois já estava acostumado a lidar com riquinhas que pensavam ser as donas do mundo. Mas Elize não. Nunca fora alvo de tamanho desagrado, e foi impossível não sentir-se mal. Seu coração contraiu-se, causando-lhe dor frente à demonstração de desdém. Desceu os olhos mais uma vez sobre a jovem loira que evitava olhar-lhe nos olhos, e deixou sua mente vagar. Em pensar que há dias atrás Rosalie era uma de suas melhores amigas... Amigas! Repetiu mentalmente.
Emmett mexeu levemente os olhos, num pedido mudo de desculpas, e seguiu a noiva, não antes de tocar o amigo Rilley, que parecia preso em uma espécie de transe encarando a ex-namorada. Por fim o rapaz se levantou e seguiu o casal.
- Quanta educação, não?! – provocou Jacob, enquanto tomava lugar na mesa que os amigos de Elize deixaram para trás, curvando os lábios num sorriso cínico. A moça nada respondeu. Permitiu-se fitar, por um segundo, os três que saíam da confeitaria. Por que agiram com ela daquela maneira? A moça se perguntava de maneira quase inconformada. Rilley deveria estar magoado, mas os outros... A não ser que estivessem tomando as dores do jovem médico, Elize não entendia tal tratamento. Claro que nunca fora ingênua quanto à arrogância de Rosalie, fato que a jovem nunca olvidou esconder, principalmente no que se referia a Jacob Black. Mas não entendia porque Rosalie agia como se o fato de Elize estar com o índio fosse condição para que a moça recebesse o mesmo tratamento, em detrimento dos anos de amizade. Era esta a parte a que a jovem Elize negava-se a entender.
Um garçom se aproximou e Jacob fez o pedido. Elize recusou-se a escolher algo, já que seu estômago permanecia embrulhado, no entanto o rapaz preferiu pedir-lhe algo, mesmo a seu contragosto.
- Não vai comer nada? – indagou o nativo com a voz exigente, enquanto bebericava uma xícara de café quente, com alguns torrões de chocolate.
- Estou sem fome... – a moça respondeu com a voz fraca, enquanto com uma colher mexia o seu chá, que a essas alturas já congelara.
O tilintar dos talheres largados por Jacob bruscamente sobre a louça de porcelana a fez despertar do seu torpor e encará-lo imediatamente.
- Pois coma assim mesmo! – ordenou, com timbre de voz grave, em um tom que só o casal poderia ouvir. – Sei muito bem que está assim por causa daquele seu namoradinho de meia tigela. Não vou tolerar esse tipo de comportamento da sua parte, Elize. Se não me respeita como seu noivo, então finja.
Elize o fitou estática, pois ainda não se acostumara àquela nova persona em quem Jacob se transformara. Antes, nunca havia sequer levantado o tom de voz para a moça. Agora, entretanto, demonstrava até certo nível de rudeza, o que considerava inadmissível.
- O que quer que eu finja, meu senhor? Que estou feliz por ter estragado a minha vida? Que não me importo com os sentimentos dos outros, como é o seu caso? Não pense que não tenho sentimentos, Jacob. Não me tome por você. — entreolhou-o com frieza, e respondeu de modo irritado, se permitindo usar o mesmo tom ríspido que o jovem tinha lhe dirigido.
O rapaz gargalhou, alargando as maçãs perfeitas do rosto, de modo que irritou ainda mais a noiva. Como pôde se enganar tanto com ele? Como o rapaz belo, a quem um dia devotou tanto amor, revelara-se um verdadeiro monstro?
- Sentimentos? Você sequer tem coração, Elize, então não me venha falar de sentimentos. Sei exatamente por que está agindo desta maneira. Está triste por que sua imagem sofreu uma rusga perante a sociedade por unir-se a mim. Sentiu o mau comportamento dos seus “amigos” por que estava acostumada a ser o centro das atenções, não era? Sinto informá-la, mas a partir de agora receberá o tratamento que sempre foi dirigido a mim, minha cara.
- Você é tão sádico... – acusou Elize num rompante, o que foi indiferente ao rapaz, já que o comentário arrancou mais uma de suas gargalhadas cínicas.
- Pois acostume-se! – sibilou, e inclinou o corpo para frente, aproximando-se do rosto da jovem, ao ponto de sentir-lhe o cheiro adocicado de morangos, que tanto adorava. – Eu até tolero seus insultos, os quais me divertem. Mas nunca, em tempo algum, ouse pronunciar tais impropérios na frente de quem quer que seja, pois não haverá condescendência da minha parte, ouviu bem, Elize?
- Não se preocupe. Eu não tenho falsas ilusões sobre a sua pessoa. — disse, erguendo voluntariosamente o queixo.
Nos segundos que se seguiram Elize caiu num silêncio profundo, não contra-argumentou, nem respondeu a qualquer provocação. Aquele dia em público a fez perceber que o rapaz tinha razão. Seria vista como “a esposa de um Quileute”, e não como Elize Collin, e nem todo o dinheiro do mundo seria o bastante para subornar o preconceito que a partir de então seria dirigido à sua pessoa.
Naquela noite Elize não dormira direito. Tivera vários pesadelos, em todos sentia a indiferença de Rosalie e o desprezo de Rilley, por isso acordara diversas vezes durante a madrugada. Todos os tipos de sentimentos pareciam sufocar o seu peito, esmagando-o sem nenhuma compaixão. Sentia-se péssima e se culpava pelo sofrimento estampado nas feições de Rilley. Sentia mágoa pelo comportamento da amiga Rosalie. Sentia medo do futuro que a aguardava como esposa de um nativo. E sentia ódio, muito ódio de Jacob Black.
A manhã arrastara-se preguiçosa, enquanto a moça observava a mãe desesperar-se em busca de informações sobre o casamento. Perto da hora do almoço a empregada anunciou a chegada de Alice, o que a contentou levemente. Com certeza a amiga deixaria o seu dia menos melancólico e a faria rir. Alice era perita na arte do divertimento. Deixou o livro de lado, enquanto observava a amiga sentar-se ao seu lado.
- Soube o que aconteceu ontem, amiga. Eu sinto muito... – Alice lamentou, abraçando confortavelmente Elize. – Rosalie ligou para mim à noite, e contou que havia encontrado com vocês na confeitaria. Dei-lhe uma bela bronca pelo mau comportamento que a dispensou! — contraiu as feições do rosto, deixando-o sério.
- Não se preocupe. – Elize disse, sorrindo fraco. – Estou me acostumando a me decepcionar com as pessoas...
- Releve a atitude de Rosalie, Lizzie. Ambas sabemos que ela tem um bom coração. Apenas se deixa levar às vezes pela aparência. — amenizou a amiga.
- Não nego que fiquei magoada.- Elize confessou. — No entanto... Algo me inquietou muito mais ontem à tarde. – a Srta. Brandon esperou que Elize continuasse. – Rilley... Ele me pareceu tão... Triste... – suspirou, resignada. – Eu esperava que o rompimento o tivesse abalado, mas ontem... Percebi que ele sentiu muito mais do que eu havia imaginado. Acho que o subestimei... Tanta parcimônia, tanta passividade, contrastavam com o Rilley que vi ontem.
Alice permaneceu calada, seus olhos fitavam o chão, o que intrigou Elize. A moça sempre tinha algo a dizer. Por que, então, aquele silêncio repentino?
- O que houve, Alice? – Elize inquiriu, sentindo-se inquieta.
- N-não foi nada... – Alice titubeou e sorriu, tentando disfarçar o leve inconveniente que nitidamente a incomodava.
- Você é uma péssima mentirosa! – Elize acusou. — Ande, diga logo o que ouve...
Alice suspirou, com a expressão derrotada.
- Tudo bem. – assentiu, torcendo as mãos nervosamente sobre o colo. — Eu não deveria dizer se quer uma palavra sobre isso. Mas... — pausou, pensando se deveria, de fato, contar o que sabia a Elize.
- Mas...
- Rilley está péssimo, amiga. Há dias não saía do hospital. Entregou-se ao trabalho feito um desesperado, na tentativa de esquecer... Esquecer os últimos acontecimentos. Não come. Não dorme. Por isso Emmett e Rosalie saíram com ele ontem à tarde. Resolvemos intervir, caso contrário...
Elize sentiu o peso esmagador da culpa, que sabia não ser inteiramente dela, o que não diminuía a sensação avassaladora de se julgar uma péssima pessoa. Tudo que fazia era errado, não importasse o lado que escolhesse. Sempre magoava pessoas que estimava. Essa parecia ser sua sina, ser uma garota má, destruir sonhos e provocar desilusões. Mais do que lamentar sua própria sorte, Elize amargava o dissabor da decepção de que era causadora.
- Por isso não queria lhe contar. Vê-se que ficou preocupada... Você já está passando por uma situação tão difícil...
Num rompante a moça se levantou, sem ao menos esperar que Alice concluísse o seu pensamento.
- Aonde vai? – a amiga arregalou os olhos, perguntando com a expressão confusa.
- Vou sair. — foi a resposta simples de Elize.
- Para onde?
- Se Rilley é vítima, Alice, eu não o sou. Esse papel não me pertence. Vou fazer o que deveria ter feito há muito tempo.
A ansiedade tomava conta da jovem, enquanto aguardava na sala do diretor do hospital. Estava inquieta, sentava-se, levantava-se, caminhava pelo ambiente e voltava a se sentar. Não prestou atenção nos livros de medicina espalhados sobre o birô, ou no armário repleto de medicamentos trancado ao fundo da sala. Seus olhos corriam sempre em direção à porta, cada vez que ouvia passos se aproximando. A impaciência parecia lhe corroer, numa comoção aflitiva de espírito.
Mal terminara a conversa com Alice, quando Elize tomou sua decisão. Chegara o momento de enfrentar os seus problemas de frente. Sempre acusou seu ex-namorado de ser uma pessoa covarde, mas fora ela quem não lhe dera a chance de ouvir e de ser ouvido. Seguiu com o motorista até o hospital, e lá teve a sorte de encontrar Dr. Carlisle logo na entrada. O chefe do hospital esboçou um leve sorriso ao vê-la, a cumprimentou assim que se aproximou e a encaminhou para a sua sala.
Há dias Carlisle preocupava-se com o estado de espírito de Rilley. Estimava o rapaz como a um filho, e desejava o melhor para ele. Sabendo que a causa do seu sofrimento era o rompimento do seu relacionamento com a Srta. Collin, Carlisle alegrou-se quando a viu chegando ao hospital. Imaginou na visita uma possibilidade de reconciliação entre o casal. Encaminhou a moça para o seu escritório, e foi em busca do seu braço direito.
Rilley estava na enfermaria avaliando um paciente que receberia alta. Com a desculpa de uma conversa profissional, Carlisle interrompeu o seu trabalho e o acompanhou até a sua sala. Quando a porta do escritório foi aberta, e Rilley fitou Elize de pé, segurando uma pequena bolsa nas mãos, olhando-o com a expressão de insegurança, o rapaz julgou que jamais seria capaz de esquecê-la. A moça era a mais bela de todas, e sempre seria. Sua tez alva contrastava com suas orbes cor de mel. O balançar dos cabelos caídos sobre as costas, os lábios cheios, a silhueta perfeita, davam a exata noção de como Elize era maravilhosa. Seu próprio coração denunciou isto, batendo descompassado. Achou-se tremendamente miserável por tê-la perdido e, portanto, quis recuar, mas foi detido pela mão de Carlisle em suas costas.
- Creio que vocês dois precisam conversar. Prometo que não serão interrompidos. – o médico assegurou. — Demorem o tempo que for preciso. – conclui e retirou-se.
O rapaz pareceu ponderar um pouco. Suspirou, e por fim adentrou à sala, fechando a porta atrás de si. Escorou-se na parede e encarou a ex-namorada, com olhos acusatórios. O silêncio que se seguiu foi por demais incômodo para que Elize pudesse suportar, então o quebrou.
- Precisamos conversar... – a moça começou, sentando-se em uma cadeira, sem tirar os olhos do ex-namorado, cuja aparência demonstrava que estava abatido e visivelmente magro, e não só cansado fisicamente. Existia uma profunda tristeza em seu semblante pálido e nos olhos rasos.
- Tarde demais. – o rapaz rebateu, mirando algum ponto no lado oposto da sala, evitando encarar a ex-namorada. Elize suspirou, mas não se deu por vencida, era apenas o começo.
- Ao menos me ouça, por favor. – pediu singelamente.
- Nada do que falar, Elize, mudará o que aconteceu nos últimos dias. – o rapaz repeliu de forma incisiva.
- Nenhuma palavra que eu disser terá o poder de mudar os fatos, concordo. Mas talvez torne a situação menos difícil.
O rapaz tornou a encará-la e sorriu amargo. Foi inevitável não perceber a acusação em suas pupilas ruídas pelo cansaço.
- Menos difícil para você, eu creio. – contrapôs. — O que quer vindo aqui, Elize? Aliviar a sua consciência? Pois perdeu o seu tempo!
A moça respirou profundamente tentando se controlar. De fato, queria sentir-se menos culpada pelo rompimento, mas estava ali principalmente na tentativa de aliviar a dor que o ex-namorado demonstrava sentir. Talvez se Rilley soubesse que ela fora obrigada a aceitar o compromisso com outro...
- Vá embora, Elize! – o rapaz continuou. – Não me procure. Não desejo vê-la nunca mais! — Rilley imprimiu um tom decidido, embora estivesse mentindo.
O jovem médico nunca imaginou que seria tão difícil dizer tais palavras para Elize. Acaso não fosse mais enérgico, talvez não conseguisse pôr um fim à situação. E só Deus sabia por quanto tempo agüentaria! Sua vontade era render-se a Elize, professar seu amor, tocar mais uma vez em sua mão, e sentir seus lábios... Mas para quê? Essa situação, que tanto o maltratava, só corroborava o óbvio: Elize não o amava.
- Por favor, Rilley, não haja desta maneira. Você não é assim... Não guarda mágoa de ninguém. Você é a melhor pessoa que eu conheço. Bom, íntegro, cuja moral nunca ousei duvidar. Não há uma mancha sequer em seu caráter que o envergonhe. – falou, pondo-se de pé, aproximando-se a passos curtos, mas decididos.
- Pois isso mudou. — Rilley afastou-se da jovem, se colocando no lado oposto. — Você me mudou! – esbravejou, jogando seus sentimentos para o desconhecido e encarando a nova realidade. – Ademais, do que me adianta tanta virtude, honestidade, se você me mostrou que não posso agir como um fraco diante das pessoas? Que foi um erro ter me omitido por tanto tempo? Eu não sou cego, Elize. Acha que não percebia o quanto você ficava diferente na presença daquele índio? Acha que eu não sabia, pelo seu comportamento, que o que tiveram no passado fora muito mais do que um namorico de criança?
A moça surpreendeu-se e arregalou suas orbes claras, sem acreditar nas palavras do rapaz.
- E sabe por que eu me calava, Elize? Por medo de perdê-la! Por medo de exigir de você o mesmo amor que eu lhe devotava, e ser decepcionado. Mas foi exatamente isso o que aconteceu! — Rilley enfiou as mãos no jaleco e fitou o nada. A forma obtusa e desembaraçada como falava levava a jovem a crer que o rapaz guardara aquele desabafo por muito tempo e só agora tivera coragem de confessar-lhe.
- Por que não me falou o que sentia? – Elize tornou a se aproximar, seus olhos buscaram mais uma vez os de Rilley e então acrescentou. — Por que não me procurou depois da conversa com o meu pai? Por que não tomou alguma atitude a respeito? – a moça questionou, tentando buscar alguma esperança. Rilley também tinha sua parcela de culpa, não podia negar.
- De que me adiantaria?- então cerrou suas pálpebras por um instante. — Você não me ama e nunca me amou. — voltou a fitar a jovem num ranço que beirava a incompreensão. — E não culpe a minha falta de atitude, o seu pai, ou seus sentimentos pelo Black. Você, Elize, foi o único empecilho ao nosso relacionamento. – jogou-lhe em rosto. — Decidiu que não me amava e que não me amaria, desde o começo. E eu me esforçava para parecer merecedor dos seus sentimentos... Deus sabe como! — sua voz era um lamento. — Mas não tive chance! Sabe por quê? Por que você não me amou, nem ama o idiota com quem irá se casar. Você só ama a si mesma, Elize Collin! Seus desejos estão acima de qualquer um que cruze o seu caminho. – permitiu se encher de cólera para desferir-lhe palavras tão ferinas, na tentativa de aplacar sua mágoa interior, e nem assim conseguiu. Viu-se perdidamente, irremediavelmente, apaixonado por uma mulher que não lhe merecia.
- Isso não é verdade! – a moça rebateu, com os olhos cheios de lágrima. As palavras magoadas de Rilley doíam além do que ela poderia suportar.
- Só não entendo o que estava esperando... Que o Black ficasse o mais rico possível? Ou que eu me cansasse de fazer papel de idiota?
- Você não sabe o que está dizendo, Rilley. Um dia vai se arrepender de todas as acusações que está despejando sobre mim. Eu... Eu não tive opções. – desabafou, sentindo o seu queixo tremer.
- Todos nós temos opção, Elize... — ele contradisse. — A única coisa de que me arrependo é de ter entregado o meu coração para uma pessoa tão fria como você. Mas pode jogá-lo fora... Não preciso mais dele.
Elize poderia detê-lo, tentar contar a Rilley a sua versão dos fatos, convencê-lo de que, de fato, não houve outra alternativa para ela, pois fora comprada. Mas do que a adiantaria, se o rapaz fazia tão mau juízo a seu respeito? Deixou que ele lhe virasse as costas e saísse pela porta da sala, batendo-a com força em seguida.
Sentou-se mais uma vez, e deixou que as lágrimas que tanto segurara agora corressem livremente. Seu encontro com Rilley havia sido desastroso, e surtido o efeito inverso do que imaginava. Pensava que ninguém a odiaria mais do que Jacob Black, mas talvez estivesse enganada. E o que lhe causava mais raiva era que em ambos os casos nunca tivera o direito de ser ouvida. Ambos julgaram-na sem que ao menos pudesse se defender. A mágoa que ambos os rapazes sentiam parecia amordaçá-la irremediavelmente. Será que os dois jamais saberiam as razões que a levaram a abandoná-los?
Jacob esperava impacientemente, tomando a terceira dose de uísque, servida pelas mãos trêmulas da empregada dos Collin que o encarava com certo receio. A expressão de ira do rapaz causava medo em qualquer pessoa com um pouco de senso de auto-preservação. Olhou o relógio de pulso mais uma vez e encarou a Sra. Collin sentada ao seu lado, fulminando-a.
- Espero que sua filha tenha uma boa explicação para tamanho atraso. – soltou, deixando a Sra. Collin momentaneamente sem reação, pelo tom grosseiro e nada cavalheiro empregado.
- Eh... Acredito que a Srta. Alice a tenha detido em sua residência mais do que o esperado... – a senhora desconversou, ignorando o rompante do rapaz, e ciente de que a filha não estava na casa da Srta. Brandon, o que a aterrorizava. Será que Elize cometera algum desatino?
O barulho do trinco da entrada principal girando chamou instantaneamente a atenção de Jacob, que observou Elize abrir a porta e passar por ela com o rosto vermelho e os olhos inchados. Black e Susan perceberam no ato que ela estivera chorando, o que aguçou ainda mais a curiosidade de ambos a respeito do seu paradeiro.
- Já estávamos preocupados, filha. – a mãe se antecipou, aproximando-se com gestos excessivos. – Diga a Alice que você não pode se atrasar dessa maneira a um compromisso com o seu noivo. – completou, fazendo sinal com os olhos para que a filha entendesse que aquele era o álibi que criara. Nunca tinha conhecido o lado dissimulado de sua mãe, até agora. Sempre submissa, fragilizada, de poucas palavras, mas nada disso se aplicava quando se tratava de Jacob Black e do casamento rentável com sua filha. A mulher apática revelava-se intrometida e um tanto quanto atrevida.
Jacob não disse uma palavra, apenas a observou. Sentiu um nó na garganta ao ver a tristeza estampada nos olhos vermelhos da moça e teve que controlar o impulso insano de aninhá-la em seu colo, até que ela confessasse o motivo de tamanha tristeza, o que era no mínimo paradoxal, já que ainda nutria o desejo ardente de vingar-se. Mas o que acontecera? Por que ela parecia ainda mais triste do que o normal?
- Se me derem licença, preciso me trocar. – percebendo o olhar especulador do índio, a moça adiantou-se e disse: — Não se preocupe, não pretendo fazê-lo esperar mais do que o necessário. – sem mais delongas, subiu aos seus aposentos.
A noite transcorreu mais silenciosa do que o normal, exceto pelas intromissões da Sra. Susan. No entanto Jacob não lhes dava a atenção de costume, ocupado demais em estudar o comportamento ausente de Elize. A moça permanecia aérea, e alheia às conversas torpes da mãe, ou às poucas provocações do índio. Ao fim da noite, como de costume, acompanhou o noivo até a entrada da residência. Mas ao invés de ir embora, como sempre, Jacob virou-se e a encarou em silêncio por alguns segundos.
- Por que esteve chorando? – perguntou, pela primeira vez parecendo mais curioso do que debochado.
- Eu lhe devo satisfações até das minhas lágrimas? – a moça rebateu malcriadamente, mas não o desmentiu. Sabia que ficara nítido em sua face assim que chegara que estivera chorando durante boa parte da tarde.
- Você me deve satisfações de tudo, Elize. É minha. Eu a comprei, esqueceu-se? – embora Jacob tivesse imprimido um tom levemente sarcástico, sua voz saiu rouca, sussurrada.
Não era seu intento ser desagradável com a jovem, não quando Elize parecia inegavelmente triste. Admitia que adorava provocá-la, decidiu tornar-lhe a vida um verdadeiro inferno, mas não podia evitar sentir-se miseravelmente atraído pela jovem, quando parecia tão fragilizada. Pensou que apenas por hoje baixaria a guarda e em vez de destratá-la, como de costume, decidiu ser mais gentil, apenas provocações suaves como agora, o que a fez reagir do seu estado de torpor, animando ao jovem.
- E o senhor me deixa esquecer, por acaso?- ela inquiriu sem maiores aspirações. Dado aos últimos acontecimentos, via-se cansada até de medir forças com o jovem índio que sempre a provocava.
- Onde esteve hoje à tarde? – o rapaz suavizou ainda mais o tom rouco e emendou a pergunta, o que não bastou para Elize o responder. O silêncio da jovem o irritou ligeiramente e então acrescentou: – Diga-me de uma vez, Elize. Sabe que descobrirei em um estalar de dedos, se eu quiser.
A moça suspirou, aborrecida, pois sabia que o noivo tinha razão. O jovem parecia sempre conseguir tudo, ter tudo, não se surpreenderia se descobrisse que ela fora encontrar-se com Rilley.
- Estive no hospital. – respondeu de uma vez, convencendo-se de que não adiantava esconder-lhe nada.
- O que... – Jacob começou, preocupado, a princípio, com a idéia de que a noiva estivesse doente. Mas ao observá-la minimamente de cima a baixo, constatou que ela aparentava saúde, embora estivesse triste. Lentamente as peças encaixaram-se em sua cabeça. – Não me diga que... – Jacob travou o maxilar, sentindo a ira se apoderar de sua mente e corpo, transformando sua expressão até então agradável, num semblante sombrio e frio.
- Estive conversando com Rilley. – a moça completou, fitando-lhe nos olhos, sem sequer titubear. Talvez o contrariando se sentisse menos apática diante da situação.
- Você o quê?! – o rapaz esbravejou, encurtando o espaço entre ambos e a segurando pelos ombros, como se suas mãos fossem feitas de ferro. Elize podia sentir a pressão e nem assim se intimidou.
- Ai! Está me machucando... – a moça reclamou, tentando libertar-se.
- Ouça-me bem, Elize, por que esta será a última vez que direi estas palavras. — Jacob sibilou, aproximando bruscamente seu rosto contrariado ao da jovem, que respirava pesadamente dada a forma que a segurava. — Você é minha, entendeu? Minha! — mesmo utilizando um timbre de voz baixo, foi impossível não perceber o tom ríspido, carregado de arrogância. — Não se atreva a cometer nenhuma imprudência, ou eu...
- Ou você o quê? — Elize o interrompeu, decidida a enfrentá-lo. Seus olhos crisparam e ela o encarou sem vulnerabilidade. — O que poderá fazer? Já acabou com a minha vida, Jacob Black. Não há mais nada que possa fazer para me tornar ainda mais infeliz...
- Pois engana-se profundamente pensando desta maneira. Não sabe do que sou capaz... – ameaçou, subindo vagarosamente as mãos, antes presas aos ombros de Elize, para seu pescoço. A jovem sentiu sua pulsação acelerar. – Não me dê motivos para odiá-la, ou odiar, ainda mais, aquele ser patético que atreveu-se a namorar com você.
- Rilley nada tem a ver conosco. Deixe-o fora disso. — pela primeira vez Elize temeu as ameaças de Jacob, não por ela, que pouco importava o que viesse a perecer, pois merecia, mas por Rilley, que não deveria padecer por sua culpa.
- Por que se importa tanto com ele, an? – o rapaz exigiu, chegando ao limite da sua tolerância.
- Ele é apenas um velho amigo... – a moça ironizou, em clara referência à prostituta a quem fora apresentada. – Por que a reação exagerada?
- Não ouse brincar comigo, Elize, não sabe com quem está lhe dando... — Jacob prendeu suas mãos em torno do rosto da jovem.
- Sei exatamente com quem estou lidando, Jacob Black. Não era você que me acusava de ter esquecido o nosso passado? Pois então... Conheço-o bem demais para saber que suas ameaças não surtirão efeito. — Elize seguia provocando-o.
- Você não me conhece, minha cara. Aquele Jacob de outrora morreu há quatro anos atrás. Vai se arrepender por duvidar de mim...
A ameaça causou um calafrio em Elize.
– Se me der licença... Já está tarde... – a moça tentou desvencilhar-se das mãos do índio, sem sucesso.
- Ainda não. – o rapaz moveu a cabeça em negativa, girando-a de um lado para o outro vagarosamente. – Cansei de ser bonzinho, Elize. A partir de agora fará apenas o que for da minha vontade.
Amedrontada e sem ração, a moça sentiu uma das mãos do rapaz prendê-la pela cintura, enquanto a outra permanecia espalmada em sua face. O rapaz colou seu corpo ao da moça, enquanto descia seus lábios até encontrarem-se aos dela, com urgência. A pressão dos lábios quentes do jovem causara-lhe, num primeiro momento, surpresa, o que a impediu de reagir. Depois tentou empurrá-lo, cerrou seus punhos e esmurrou-lhe o peito, sem nenhum sucesso. Jacob segurou as mãos da jovem e num gesto rápido, prendeu-lhe as costas, enquanto seus lábios se moviam sobre os dela, obrigando-a a abrir a boca. Elize cerrou os lábios, resistindo bravamente, no entanto, habilidosamente, Jacob a forçou a abrir a boca. A língua do rapaz a invadiu, quase violentamente, e um tremor percorreu o seu corpo de forma brutal, o que não foi ignorado pelo índio que também sentiu a excitação lhe invadir. O toque impudico quebrou a resistência de Elize, que lentamente foi cedendo, seu corpo amolecendo nos braços de Jacob. O rapaz soltou-lhe as mãos, quando percebeu que ela também correspondia ao beijo. Elize instintivamente lançou seus braços sobre o rapaz. Suas mãos espalmaram-se em seu peito, depois vagarosamente deslizaram sobre o terno do índio, até repousarem delicadamente em seu pescoço. O beijo, que antes era brutal, tornou-se delicado, prazeroso, embora voraz. Os lábios de Jacob eram macios e quentes exatamente como a jovem se lembrava. Sua língua percorria os contornos de sua boca, e entre mordidas em seu lábio, sua língua era levemente sugada pelo índio. Mas Elize parecia querer ainda mais. Seu corpo clamava pelo calor tão conhecido do índio, por isso aconchegou-se ainda mais às formas do rapaz, que deixou escapar um sussurro rouco. O corpo de Elize reagiu instantaneamente ao contato mais íntimo, como sempre ocorria. Um calor obsceno perpassou por todo o seu corpo, e não teve como não continuar correspondendo ao beijo. Jacob puxou-a ainda mais contra o seu corpo, que já respondia conforme seus instintos masculinos, endurecendo entre suas pernas, e aprofundou o beijo cada vez mais.
Porém, quando Elize julgava que estava sonhando, o beijo foi interrompido. O rapaz separou seus lábios dos dela, que permanecia de olhos fechados, e retirou as mãos da moça de seu pescoço. Quando ela abriu os olhos, deparou-se com um sorriso cínico dançando nos lábios do rapaz. Arrependeu-se amargamente por ter correspondido ao beijo e ter se mostrado tão vulnerável.
- Passar bem... – o rapaz cumprimentou, afastando-se e descendo as escadas da entrada com ares de superioridade.
A moça permaneceu paralisada, apenas observando-o se afastar. O que diabos havia acontecido para que perdesse totalmente o seu auto-controle?
Notas finais
Segundo, Jake. Não é impressão. De fato, Jake, a cada capítulo, vai ficando mais ousado, e acreditem ele precisa ser assim. É isso que mantem o foco de sua vingança e consequentemente da estoria. Entendo, contudo, que algumas meninas se surpreenderam com os moldes provocador e vingativo do rapaz, afinal,não é todo o dia que vemos o nosso caramelozinho tão bad! Claro que esta estoria é uma ficção, mas quem nunca se sentiu raiva, ira, ódio, desejo de pagar com a mesma moeda? É justamente nessa atmosfera que ele vive. Não esqueçam ele sofreu , e dor, a gente não se mede não é verdade???
Bom, agora é com vcs. Me digam o que acharam, comentem, indiquem e recomendem! Estamos louquinhas pra saber.
Novidades!!! Querem perguntar algo sobre a estoria, ou sobre esta autora que vos fala? pergunte-me no forms
http://www.formspring.me/MissLany
Prometo ser a mais sincera possivel. Bjus e até a a proxima!!!
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