Virou Simplesmente Amor
22 Encontros e Desencontros
Notas iniciais
Aquele silêncio já durava minutos. Amy já previra que o ruivo teria aquela reação. Estava calado, não escondia a surpresa e preocupação em sua face. Um segredo daquele... Se perguntava como Amy descobrira, ela não deixou clara essa parte. A menina pensava se teria feito o certo contando. Não que não confiasse em Jin, mas era realmente um peso muito grande que eles passaram a dividir.
—Talvez seja realmente melhor você ir.
Jin, antes olhando para qualquer ponto a sua frente, encarou Amy ao seu lado, após a menina largar sua mão.
—E você acha que estarei melhor se eu for pra casa?
—Não, não acho. – O tom de indignação era claro. – Eu só sabia que você teria esse tipo de reação. Você não entende, nem agora, o que eu estava querendo evitar? Percebe, agora, o peso disso? – Amy suspirou e apoiou o rosto em suas mãos.
Jin abraçou a menina. Ela não retribui, mas também não afastou. Ele permaneceu assim, afagou os cabelos rosados e, depois de um bom tempo, tentou afastar aquele clima.
—Então... – Suspirou pesado e se afastou. – Como você disse é melhor eu ir. – Se levantou do sofá e Amy diminuiu o peso que ela fazia de seu rosto nas mãos. – Bom, se eu for assaltado, sequestrado, me perder, alguém me perseguir na rua, enfim, a culpa será sua.
Ele colocou as mãos nos bolsos e, antes que pudesse se afastar demais, Amy o segurou pelo braço. Virou-se para a menina quando ela ficou em pé com a cabeça abaixada.
—Não brinque com esse tipo de coisa.
—Então eu posso ficar no quarto de hóspedes? – Jin sorriu divertido. – Ou vai pedir para o motorista me levar? – Ele sabia que se fosse realmente embora, isso seria a cara da Amy.
—Hóspede? Motorista? Nada disso. – Amy levantou seu rosto, indecifrável. – Você deveria dormir no canil depois de um absurdo desses. – Ela cruzou os braços irritada.
O ruivo riu com a resposta, a rosada apenas sorria, mas não por aquele último momento. Ela sorria por ele ter entendido.
—Vai me ajudar a guardar esse segredo?
Ele acenou a cabeça positivamente.
—Sabe que uma hora ele vai se revelar, né? – Amy temia aquele momento. Ele se aproximou e pegou as mãos da menina. – Você não estará sozinha quando isso acontecer.
Ela o abraçou apertado. Realmente era um peso menos que ela sentia no peito, um peso que agora pertencia ao ruivo, mas que suportaria desde que estivessem juntos.
Amy separou o abraço quando seu telefone tocou. Ela não se lembrava daquele número. Relutou um pouco, mas atendeu. Ficou surpresa, mas feliz com quem era. Ouviu com atenção o que a pessoa disse no outro lado da linha até que...
—O que você está esperando, Darling? Corre logo atrás do seu divo! – E desligou radiante.
Apesar da felicidade, aquilo fora uma ordem, o que deixou o ruivo muito confuso.
—Amy... quantos humores você tem?
Ela ria enquanto voltava a abraçar o namorado muito confuso.
***
De manhã, Amy encontrou o ruivo no jardim, sentado no chão. Parecia perdido nos pensamentos.
—Bom dia! – A rosada anunciou sua chegada.
Jin se virou para olhá-la e sorriu. Respondeu enquanto levantava e foi ao encontro dela.
—Tá tudo bem? – Ela não escondia sua preocupação e tinha um palpite sobre o que poderia estar deixando Jin pensativo.
—Você não acha que tem alguma coisa errada?
—Acho. – Amy o encarava. A resposta era um tanto... óbvia. — Tudo!
—Você não entendeu... – O ruivo virou o rosto e tampou o bocejo com uma das mãos, e continuou. – Estou dizendo que eu não acredito que alguém possa fingir tão bem.
Ela bufou e entrou na casa.
—Amy, agir assim não vai adiantar em nada.
—Então tá. O que você quer que eu faça? Sabendo de tudo que te contei? – A garota se virou de braços cruzados e impaciente.
—Bom, como você já está se envolvendo... Eu tentaria tirar a prova real se estivesse no seu lugar.
—Como?
—Não é tratando a garota mal que você vai conseguir...
Amy se surpreendeu com a resposta do ruivo. Sentiu-se ofendida, mas, antes que pudesse dizer algo, sua mãe apareceu indo para a cozinha.
—Bom dia! – Sorriu com simpatia e Jin retribuiu. – Já tomaram café?
Apenas ele respondeu, negando com a cabeça.
—Mô... – Amy o segurou – Você me deve uma, tá? – e o ameaçou antes de seguir para o cozinha.
***
Da janela do carro atrás do motorista, podia ser visto a movimentação da rua crescendo aos poucos, enquanto as pessoas saíam de casa para seus respectivos trabalhos, como um dia qualquer. Mas não era nada disso que Peter observava. Sua visão era do passado. Lágrimas escorrendo pela pele rosa... O desespero daqueles que não sabiam... A esperança para alguém escondido atrás de si...
Na outra janela, o homem forçava a garganta, como se houvesse uma coceira o incomodando. Crimson passou a ignorar a rua e as memórias e tornou a observar seu ex-colega. Duel percebeu e sorriu cinicamente para o outro.
—Será como nos velhos tempos, amigo.
Von Crimson retribuiu o sorriso.
—Quem sabe do futuro, “Amigo”? – Peter fez questão de enfatizar.
Mais alguns minutos de silêncio se fizeram presentes até o destino. Erudon esperava por eles em frente a um restaurante ainda fechado.
—Eu não sabia que teria um “encontrão” da turma da faculdade como recepção de boas-vindas. – Disse Duel após sair do carro de Crimson.
O comentário irônico gerou risadas de mesmo tom por parte de Crimson e Erudon.
—Talvez um outro dia. Hoje, só os melhores. – Erudon sorria desde que avistou Duel no carro.
Erudon abriu a porta do restaurante, e entraram. Apenas os três no local. A privacidade era importante, e ali estaria garantida.
—Então, o que lhe trás à cidade, Duel? – Começou Crimson, que se sentou e já servia em sua xícara um pouco de café da garrafa na mesa.
—Voltei para... completar um projeto.
Peter e Erudon se entreolharam rapidamente quando Duel voltou sua atenção para a mesa posta com um prato de torradas. Aqueles anos todos eles monitoraram Duel. Sabiam o que fazia, que locais visitava... Eles sabiam que ele continuou a pesquisa, então também o que planejava. A questão de como, saberiam, talvez, naquele dia.
—O fracasso do nosso projeto, na época, me deixou determinado a identificar os erros que comentemos. O próximo passo será colocar cada peça em seu lugar. De onde não deveria ter sido mexida. – Duel terminou encarando Peter sentado à sua frente.
—Retornar as peças do tabuleiro não fará o jogo ir para frente. Aliás, os peões já agiram.
Erudon era calculista. Observava as reações dos companheiros e já pensava no que poderia fazer, mas esta conversa seria de difícil estratégia.
—Mas os que realmente agem ainda protegem o Rei. – Sorriu para Erudon, que permanecia de pé na cabeceira da mesa. Tornou a olhar “o amigo” da frente. – E como está sua filha? Ela cresceu.
—Sim. Crescida e forte. Linda, claro. – Peter mostrou orgulho, mas tentava esconder sua preocupação.
Duel sorriu com uma lembrança.
—Ela me lembrou nossa conhecida. Realmente parece forte. Parabéns.
Peter acenou com a cabeça.
—E os negócios, Erudon?
A partir de então Duel direcionou a conversa. Dizia apenas o que estaria a seu favor. Ele também era bom estrategista, e planejava cada casa que mexeria seus peões ou as peças fortes para proteger o Rei. Erudon estava impedido de avançar. Em breve tomarias as providencias necessárias.
***
Ao saírem do restaurante, Duel foi para um lado e o Sr. Erudon e Peter pararam em frente aos seus respectivos carros.
— Meu filho fará aniversário daqui a dois dias.
— Hum... Um bom momento para festejar.
— Peter, não quero que nada aconteça. A não ser que venha afastar meu filho da ruivinha Sieghart.
Peter sorriu.
— Quanto ao Duel, Erudon, fique despreocupado, ele não é de machucar crianças, mas... Em relação à ruiva, falarei com minha filha. Adolescentes sabem como lidar um com o outro.
Silenciosamente, os dois se despediram.
***
Ao retornar à mansão, observou certa agitação. Sabia que haveria certa resistência para retomar as rédeas da situação, mas não seria tão complicado. Foi de encontro à Rey na sala principal.
— Filha...
— Como ousa me chamar de filha?! O senhor é um monstro! — Rey empurrou seu pai, que a segurou.
Azin entrava na sala, simultaneamente com James.
— Senhora! — Temeu o mordomo.
Azin observava.
— Eu fiz tudo por amor a você. E sabe disso.
— Amor!? O que o senhor entende de amor!?
— No momento em que te peguei no colo dando o último suspiro de vida, não pensei em nada... Só em te salvar. E você está viva, linda, reinando neste mundo, isso só pelas custas de alguém que não merecia viver.
— Hipócrita. Quem é você para julgar quem vive e quem morre?
— Dio, o que ainda faz aqui? — Crimson soltou Rey e se virou para a porta.
— Vim buscar minhas coisas.
— Eu vou com você! — Rey tentou ir perto de Dio.
— Não... Você ainda tem muito o que fazer aqui, filha. E Dio ficará perto de você, não se preocupe, não na mesma casa, mas ainda estará. Ele tem um contrato selado comigo. Não quebrará facilmente.
Dio riu debochadamente.
— Você quem pensa. Agora tem um novo cão de guarda nesta casa. — Ele olhou para Azin — Use-o.
— Estarei à disposição. — Desafiou Azin. — Ainda mais ao lado de uma linda menina.
Rey o encarou.
— Longe de mim. — Pronunciou, vendo Dio ignorando a situação e indo para seu quarto.
— Filha... Sei que está chateada comigo, mas... Se ainda aceitar um conselho do seu pai, esqueça esse verme. Você encontrará alguém melhor e, até lá, pode se divertir.
— Diversão? Você acabou com a minha vida!
— Assim você me ofende, Rey. — Seu pai a olhou — Soube que o Ronan fará aniversário.
— Ótimo momento para festejar! — Exclamou ironicamente. Começou a andar para as escadas.
Peter Von Crimson riu. E concluiu:
— O fato é que o pai dele não quer vê-lo com uma ruivinha que te tirou do campeonato...
Rey parou. Sorriu. Respirou fundo. E continuou a subir. Dio, porém, descia com duas malas nas mãos. Ao ver Rey, olhou imediatamente para Von Crimson.
Desceu as escadas.
— Tchau, queridinho. — Ouviu de Rey.
A essa altura, James já havia desaparecido de Azin observava silenciosamente.
— Você é um monstro e está transformando sua filha em um também. — Disse Dio, a passar por Peter, que o parou com o braço.
— Não me provoque.
***
Arme acordou com seu avô chamando-a. Abriu os olhos ainda sonolenta.
— Fala, vô! — Exclamou, passou a mão no rosto e sentando-se na cama.
— Tem um menino, aquele seu namoradinho magrelo, está te chamando. — O avô deu mais duas batidas na porta e saiu.
Arme deu um pulo e correu para o armário.
— Droga, droga! Como Lass me aparece do nada!?
Bateram novamente na porta.
— Avisa para ele esperar, vô!
— Acho que você avisou tarde, Arme...
— Droga... — A baixinha suspirou — Lass... — Bateu com a palma da mão no rosto.
Ajeitou o babydoll, soltou o ar pela boca na mão para ver se tinha odor, olhou-se no espelho do guarda-roupa e passou a mão rápida no cabelo, tentando abaixar alguns arrepiados.
— Arme? Ainda está aí?
— Espera, Lass!
Ela suspirou derrotada, fechou o guarda-roupa e caminhou lentamente até a porta. Abriu-a.
— Olá... — Lass tentou um sorriso.
— Diz pra mim que não combinamos nada. Porque eu me sentirei péssima de ter esquecido algum encontro. — Ela abaixou os olhos.
— Que eu me lembre, não marcamos nada. Mas resolvi vir te ver.
— Você está dizendo que... — Arme abriu um sorriso e abraçou Lass, envolvendo o braço no pescoço do menino — Está me fazendo uma surpresa!
— Não... — Ele se afastou e a olhou confuso — Eu só quis te ver.
Arme reprovou-o com a cabeça.
— Insensível! — Cruzou os braços.
— Não fique assim, sabe que o que eu não tenho de fofo, você tem em dobro. Ainda mais com essa roupa de dormir. — Ele riu.
— Para!
Arme também riu.
— Mas, afinal, o que veio fazer além de me ver.
— Quero leva-la para... Ér... — Agora Lass congelou — Me ajudar a comprar uma roupa para a festa do Ronan. — Coçou a cabeça e virou o rosto envergonhado.
— Que coisa mais linda!! — Arme começou a bater palmas e pular — Eu topo! Espera só eu tomar um banho e já, já nós vamos. — A baixinha se virou — Ah! Terá que me pagar um belo café da manhã, estou faminta!
— Mas são meio dia...
Arme caiu na gargalhada e entrou para o seu quarto.
— Arme! — Chamou Lass olhando para os lados.
— Oi! — A menina o olhou na porta — Diga.
— O que eu faço? Não sei me comportar aqui na sua casa, raramente estive aqui.
— Meu avô está lá embaixo? — Indagou ela, pegando sua roupa.
— Sim... Eu acho.
— Converse com ele, será bom para se conhecerem.
Lass engoliu a seco. Mas concordou.
Arme demorou por volta de trinta minutos e foi tempo necessário para Lass ouvir histórias do Sr. Glenstid e testar seu silêncio absoluto e a movimentação automática da cabeça para concordar com o avô de Arme.
— Vamos!? — A menina apareceu alegre no corredor.
Lass não respondeu, mas se levantou rapidamente, despedindo-se do Sr. Glenstid.
***
Zero acordara cedo, na verdade, nem conseguira dormir. Algo o preocupava desde a chegada de Duel.
— O que ele quer, afinal? Não é somente por causa daquela garota mimada... — Olhou para a porta.
"Você precisa treinar Lin, senão ela pode mudar de lado. E... Assim como Ernas, a Terra sofrerá um grande perigo..."
— Ernas é passado, Grandark. Nossos antepassados pecaram. Denegriram com tudo o que foi feito. O poder transmitido lá, ficou por lá.
"Não tente agir como os humanos. Até em Ernas eles pereceram. Canaban... Serdin... Todos viram suas vidas arderem no fogo."
— A Terra também viu seus desastres, vide o que aconteceu em Pompeia, no ano 79. Se falharmos, para os humanos, aqui na Terra, será apenas mais um vulcão que entrou em erupção e afundou uma cidade.
"Não é tão simples assim, Zero... Há um mistério por trás de uma catástrofe..."
O olho se fechou. Zero tirou o telefone do gancho.
***
Meio dia. O sol se escondia atrás de nuvens carregadas. O tempo mesclava terrivelmente em um céu com nuvens negras e partes ainda azuis e a luz do sol no meio desse caos.
Assim se encontravam os sentimentos de Mari.
Seu telefone havia tocado mais cedo.
— Será que eu devo ir?
Lembrou-se das conversas de Amy e até da conversa que teve com Zero na calçada.
Colocou a mão em seu peito.
— Você é mais confuso do que cálculos matemáticos. Álgebras lineares e números binários. — Suspirou.
Levantou-se.
***
Sieghart estava sonolento. Foi para a janela de seu apartamento. Ainda era cedo, alguns comércios ainda estavam fechados, mas algo lhe chamou a atenção: um trio saía de um estabelecimento, ao longe. Não reconhecera a todos, pois um deles estava de costas, mas dois os rostos eram familiares.
— O pai do Ronan...? — Riu — Tremendo perdedor.
Cerrou os olhos para ver melhor.
— Sempre andando com péssimas companhias... Logo o Peter, esse cara não presta. Se Duel já estivesse na cidade, ele não ficaria saindo de casa assim...
O que Sieghart não sabia, era que o terceiro homem, o qual não identificava, era o próprio Duel.
Tentou dormir e tirou um bom cochilo até sentir fome. Não tinha nada em sua dispensa, por causa das férias, pouco se importou em fazer compras, afinal, os acontecimentos recentes, desde a praia, o tiraram do foco de agir como "uma pessoa normal".
— Preciso falar com Lothos. Aproveito e peço para ela pagar um lanche para mim. — Sorriu maroto.
Não se atentou a hora e saiu. Sua moto estava no estacionamento, havia um carro atrapalhando sua saída. Enfureceu-se e foi o suficiente para empurrar o carro em direção à pilastra.
— Ninguém precisa saber... — Disse, colocando o capacete e saindo.
Ainda não dera meio dia e Sieg parava em frente ao Colégio, foi o primeiro lugar que pensou de Lothos estar, afinal, ainda era dia de semana.
Tocou a campainha e nada. Estranhou. Lothos dera recesso aos professores, mas permanecia no colégio, costume das pessoas normais.
Seu estômago apertou. Tentou ligar para a escola, para a casa de Lothos. Nada.
— Ué? — Uniu as sobrancelhas.
Quando o estômago apertou de novo, decidiu ir comer algo. Montou na moto e cantou pneu.
***
Zero e Mari haviam se encontrado no caminho. O professor havia ligado para Mari, a fazer um pedido.
— Não acredito que você possa estar pensando nisso...
— Junte as peças, Mari... É um tanto...
Ouviram o som drástico de pneu cantando.
— Idiotas... — Murmurou Mari.
Zero apenas observava o motoqueiro se afastar e riu.
— Bem idiota.
Aproximaram-se do portão.
— Liguei para a Lothos e, quando soube que ela não vinha, achei oportuno nos encontrarmos. Assim poderei te mostrar e explicar o que pretendo.
— Por que a mim?
— Porque já conhece a quem estou treinando. E, acredite, por mais longínquo que eu seja, essa menina gosta de familiaridades. E ela já te conhece. Colocar alguém estranho causaria alvoroço. Como já aconteceu... — Lembrou-se Zero dos primeiros dias com Lupus.
Mari estava confusa.
— Ainda não consigo conectar o elo entre essa menina e Duel. E o que Lothos tem a ver. Sinceramente, — Parou, antes de Zero abrir o portão do colégio — não sei porque aceitei.
— Porque deveria aceitar. Não há escolhas. De tudo o que vem acontecendo, eu estou mais perto da verdade do que todos ao nosso redor. Inclusive o idiota motoqueiro que estava aqui uns minutos atrás.
Zero abriu o portão e deu passagem para Mari, que ficou boquiaberta.
***
Lass e Arme estavam indo ao shopping que Ronan havia comentado que teria o estilo de roupa da festa.
— A família desse garoto é muito fresca. Não poderia ser uma roupa normal?! — Lass não estava se sentindo confortável.
— Ah... Será lindo, Lass! — Arme se afagou no braço do menino — Será como o século 19, igual as figuras que vemos nos livros de história, encantador!
Lass suspirou.
— Queria não ter que passar por isso...
Arme resolveu não contrariar, conhecia seu namorado.
— Vou te animar um pouco: Vamos comer!
Lass acabou rindo.
Viram uma lanchonete antes da rua do shopping. Entraram, sentaram-se logo na entrada. Uma grande janela de vidro separava a lanchonete da calçada.
***
Lupus fora buscar Lin, já era cotidiano. A senhora que cuidava de Lin, conhecendo a história da menina, alegrava-se ao ver o desenvolver do relacionamento do casal.
Lupus e Lin ainda não decidiam se oficializava ou não. Era um risco muito grande se auto intitularem namorados.
Zero também havia ligado para Lupus. O rapaz hesitou. Mas depois do que passou na casa dos Crimson, resolveu restaurar-se com a presença de Lin. Afinal, pensou ele, estar mais perto dela é a melhor maneira de protegê-la.
Pelo menos, parecia ser verdade...
— Vê se não traz minha menina muito tarde, a rua está perigosa! — Avisou a senhora de longe.
Os dois caminhavam, mas um ao lado do outro. Sabiam seus limites.
Até certo caminho, ambos permaneciam em silêncio. Para Lin, era angustiante; para Lupus, um momento para cuidar daquela menina silenciosamente.
— Não vejo a hora de não precisar mais ir a esses treinamentos. Sinto-me melhor. Decidida em que caminho seguir.
Lupus se atentou a suas palavras, mas permaneceu quieto. Ele sabia bem que os treinos eram muito mais do que ajudar aquela menina a se controlar.
— Deveria se ligar mais nos treinos, ao invés de desejar que eles terminem. Nunca estamos perfeitos o bastante para cada batalha, pois todas exigem estratégias diferentes.
— Mas não estou batalhando. — Indignou-se.
— Não? Lutaste comigo todas as vezes que perdia o controle, porque todas as vezes agimos de forma diferente. Pode conseguir se controlar em determinadas situações, mas não em todas. Deveria parar de murmurar.
Lin abaixou o rosto.
Lupus permaneceu observador de tudo ao seu redor.
Caminhavam na rua, até que um ônibus se aproximou muito deles, obrigando-os a subir para a calçada.
Lupus olhou para o lado.
— Lass!? — Parou.
Lin acabou esbarrando nele, por estar perdida em pensamentos. Olhou-o.
Arme estava rindo e desviou o olhar para fora. Abriu os olhos e fechou o semblante assustado. Lass fez a mesma ação em olhar.
— Lupus? — Levantou-se. Parecia-lhe ter faltado o ar.
***
Ronan não dormiu muito depois que teve um súbito despertar. Ao levantar, sua mãe apareceu em seu quarto.
— Filho, bom dia! Como está?
— Bem... – Coçou os olhos – Deveria estar diferente?
— O seu aniversário é este fim de semana, esqueceu?
— Ah... – Suspirou – Ainda bem que é o último, né?
A mãe riu. Mandou um beijo no ar e, antes de sair, pediu:
— Mande uma mensagem para a Elesis, diga que tem uma surpresa para ela.
— O que é?
— Curioso... Uma dama precisa de um belo vestido para dançar com seu cavalheiro.
Ronan se animou.
— É pra já!
— Espera! Ainda é cedo, mande uma mensagem depois do almoço.
Ronan já estava com o celular na mão.
— Pode tratando de tomar um banho e escovar os dentes para tomar café, mocinho. E largue esse celular! Senão quem irá rouba-lo, sou eu. – Os dois riram e a Sra. Erudon desceu.
Ronan não se demorou muito. Olhou para a janela de seu quarto, o tempo não estava muito bom. Pensou em tomar banho de piscina com Elesis, mas descartou tal possibilidade. E, ao pensar na ideia, olhou para a mesma no jardim. Impressionou-se, pois Edel estava nadando.
Desceu para tomar café da manhã. Viu sua mãe ao telefone, talvez falando de alguns preparativos da festa e, quando ouviu o nome da mãe de Amy, teve certeza.
Pela primeira vez, a valsa não seria com a rosada. Era estranho pensar isso, mas tomava Ronan em uma alegria imensa em saber que as valsas anteriores eram apenas demonstrações, mas esta seria oficial.
A idiota tradição dos Erudon tinha seu lado bom...
Preparado o seu café da manhã, saiu de fininho pela porta da cozinha que dava direto no jardim. Aproximou-se de uma mesa perto da piscina.
Edel não havia percebido a chegada do menino e continuava suas braçadas e mergulhadas até o fundo da piscina, ressurgindo metros depois. Ao retornar a respirar viu Ronan sentado comendo torradas e tomando achocolatado.
Nadou até a borda, com um sorriso no rosto deu um simples “bom dia”. Ronan respondeu de boca cheia, o que fez a menina rir.
— O que faz a essa hora na piscina? O tempo não está favorável para um banho. – Comentou.
— Não estou a me banhar, Ronan. Estou praticando. E... – Subiu na borda para sentar – Nadar me alivia da pressão.
O menino abaixou os olhos e logo se lembrou que deveria ter uma conversa com Edel.
— Mas o tempo continua feio para nadar. – Insistiu o menino, tentando encontrar o momento certo de puxar o assunto.
— O tempo... – Edel olhou para o céu – Não me assusta e não me impede de nadar.
— E o que te impediria? – O menino achou o momento perfeito. Pelo menos para ele.
Edel suspirou.
— A água, nesse tempo, fica uma delícia. Ainda mais quando o raio do sol ultrapassa a nuvem.
Ronan estranhou a mudança de assunto. E tentou retornar.
— Está tudo bem, Edel?
— Tudo sim. Eu não poderia estar melhor. Afinal, estou sendo acolhida por vocês em um momento difícil da minha vida. Tenho sorte por isso.
— Mas... Não está acontecendo nada? Afinal, você falou que nadar te alivia da pressão... – Ronan tomou um gole de seu achocolatado.
Edel levantou e foi em direção a uma cadeira, onde estava sua toalha.
— Meu irmão tem uma doença grave, Ronan. Preciso encontrar um doador compatível.
— E que doença é essa?
— HPN.
— O que seria isso? – Perguntou Ronan, curioso.
Edel levou sua mente à sua casa. E seus olhos marejaram. Ela olhava para vários pontos, tentando encontrar equilíbrio para não chorar. Olhou para cima. O sol reluziu em seu rosto. A primeira lágrima caiu.
Secou com a toalha. Ronan se levantou, deixando o copo na mesa.
— Edel... Está tudo bem mesmo?
A menina não respondeu. Ronan se aproximou e Edel esticou o braço para manter distância.
— Meu irmão tem Hemoglobinúria Paroxística Noturna, é uma doença rara que ataca os glóbulos vermelhos do sangue e a estrutura óssea, algo assim... – Respirou fundo.
Ronan se aproximou mais. Ao ponto de podê-la abraçar. Edel, por sua vez, virou-se e correu a mergulhar na água.
— Ronan Erudon! – Chamou sua mãe na porta da mansão.
O rapaz virou rapidamente e arregalou os olhos.
— Já falei que não é para comer aí fora, entre imediatamente para tomar um café da manhã decente! Já passou até da hora disso!
Ronan não relutou, olhou brevemente para a menina nadando. E foi buscar suas coisas. Passou pela mãe de cabeça baixa. Terminou seu café da manhã depois da bronca e enviou a mensagem para Elesis.
***
Como Lire pediu para sua mãe busca-la bem cedinho na casa de Arme, pois havia combinado de sair com o Ryan, Elesis também acordou cedo e aproveitou a carona. Arme reclamou um pouco, mas depois da despedida a “festa do pijama”, voltou a dormir.
A ruiva fez o mesmo ao chegar em casa.
Elesis acordara quase na hora do almoço e, por não ter comida, percebeu que Jin não estava em casa.
— Ainda não chegou? – Indagou-se, pois quando chegara cedo em casa, o irmão já não estava – Espero que ele tenha tido juízo na casa daquela coisa.
Elesis bocejou e foi preparar um miojo, pois era o mais prático para a hora.
Seu celular vibrou.
Pode vir aqui em casa?
Tenho uma surpresa para você!
Por favor, ñ faça nada de surpresas... v v
É para a minha festa...
Okay... Acabei de acordar v v
Mas daqui a pouco passo aí. v v
Nem pensar!
Mandarei meu motorista!
Não quero que sofra algo.
Medroso! v v
♥
Isso é cuidado de quem se ama.
Elesis preferiu não responder. “Amar” ainda era um verbo muito difícil de lidar para ela.
Foi tomar um banho e almoçar. Em torno de quarenta minutos, o motorista de Ronan buzinou. Foi tempo suficiente da menina se arrumar.
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