Notas iniciais
Boa noite, meus caros leitores! Como vão? Espero que esteja tudo bem com vocês. Bem, finalmente consegui concluir a escrita de mais um capítulo dessa história para vocês. Espero que ele esteja do agrado de todos vocês que estão acompanhando. Boa leitura à todos!

As badaladas do sinal de encerramento das aulas do colégio Westbrooks ecoavam até mesmo além dos corredores, podendo ser ouvidas fora dos prédios até os limites da calçada do quarteirão onde se encontrava todo o complexo escolar. Como de costume, bastava o sinal soar e o colégio entrava em euforia com os alunos já empolgados para deixarem a escola e retornarem às suas casas. Vários alunos entre dezesseis e dezoito anos já caminhavam em direção ao estacionamento para pegar seus veículos pessoais, enquanto os demais se dirigiam para os ônibus a serviço da escola ou seguiam seus caminhos a pé.

Após pegar sua mochila em seu armário e enchê-la com seus materiais escolares e os livros necessários para os deveres de casa, Thomas se encaminhou para a saída do prédio principal. Não demorou para que ele fosse alcançado por seus amigos Sarah, George e Stuart. Eles começaram a caminhar juntos e viraram à esquerda na calçada do colégio. Durante boa parte do trajeto, George e Stuart preencheram o tempo com mais conversas sobre filmes e os possíveis indicados ao Oscar que seriam anunciados em alguns dias. Ocasionalmente, Sarah respondia a eles com um ou mais comentários, alguns pontuais e pertinentes sobre a qualidade das obras, enquanto outros eram recheados de piadas mordazes que irritavam seus companheiros de forma divertida. No entanto, para Sarah, a caminhada fora um tanto preocupante, isso porque Thomas permaneceu quieto a todo momento. Não que ele já não fosse assim, como seus amigos já estavam acostumados, mas dados os acontecimentos do dia, seu profundo silêncio estava angustiando sua amiga.

— Thomas, está tudo bem com você? — No momento em que Sarah o chamou, George e Stuart cessaram a conversa e passaram a prestar atenção no amigo.

Thomas se virou para os três e, ao se deparar com três pares de olhares preocupados em sua direção, forçou um sorriso, ainda que tímido, no intuito de acalmá-los.

— Está, está sim. É que hoje foi um dia exaustivo. — Ele tentou parecer o mais normal possível.

— Tem certeza? — Foi George quem se pronunciou desta vez.

— Tenho.

— Não quer conversar sobre o que aconteceu essa manhã? — Stuart manteve um tom empático ao falar.

— Não precisa. O que aconteceu hoje mais cedo já passou e eu soube que o diretor foi notificado pelo próprio professor Steven.

— Mas, Thomas, aqueles garotos pegaram pesado com você hoje. — Sarah continuou.

— Olha, eu sei que o que aconteceu comigo hoje foi muito grave, mas, por favor, não vamos falar disso, não agora. Eu tô tentando deixar isso de lado por enquanto. Amanhã é certo que o diretor vai me chamar e eu conversarei com ele sobre isso, mas, nesse momento, só o que eu quero é deixar esse assunto de lado. Eu juro a vocês que estou bem.

— Se você está dizendo. — Ela murmurou.

— Não se preocupem, eu estou mesmo bem. Mas e aí, dez dólares que o Oscar desse ano vai para o filme do Spielberg? — Ele tentou soar de forma provocante para George e Stuart.

— Pois eu aposto vinte que o Spielberg não leva um esse ano. — George protestou sorridente.

— Nem vem, ao menos um o Spielberg leva. Acha que a academia vai deixar de premiar um dos maiores pilares ainda vivos do cinema? — continuou Thomas.

— O Thomas tá certo, George — respondeu Stuart. — Não tem como o Spielberg não levar ao menos um prêmio, nem que seja um técnico como fotografia ou montagem.

— Vocês superestimam demais o Spielberg. — George se manteve no argumento.

— Falou o fã do “cinquentão com crise de meia-idade” do Thomas Roithman. — interrompeu Sarah, entrando na brincadeira.

Todos começaram a rir juntos conforme cada um acrescentava mais comentários e piadas a respeito do assunto. Thomas e seus amigos continuaram caminhando, mas agora ele interagia mais com eles, embarcando na onda do tema do Oscar e acrescentando uma ou mais informações e opiniões a respeito. Era claro que aquilo não passava de um disfarce que ele havia forjado para fugir do assunto sobre o episódio com Harry e os Hawks naquela manhã. Não haveria problema em dialogar sobre aquilo com seus amigos, pois Thomas sabia que teria todo o apoio incondicional deles. Mas como compartilhar com os amigos as próprias dúvidas e frustrações que ele sentia?

Os sentimentos conflitantes que Thomas havia remoído durante o dia ainda persistiam em sua cabeça, especialmente aqueles ligados ao momento em que esteve nos braços de Nicholas. Mesmo que sua visão estivesse turva quando aquilo aconteceu, seus demais sentidos haviam registrado todas as outras sensações que ele captou naquele instante. A satisfação de se sentir realizado nos braços do capitão do time de futebol do colégio ainda era vívida, mas era completamente contrariada por toda a raiva que ele passou a alimentar por Nicholas desde aquela manhã. Mesmo que sua atração ainda fosse forte, Thomas fez votos para si mesmo de que lutaria contra aquilo a todo custo, não importasse como.

Por fim, o grupo chegou a uma grande esquina onde sempre se separavam naquele momento do percurso. George e Stuart virariam à esquerda juntos, atravessando a rua e seguindo em frente até suas casas. Sarah seguiria à direita em linha reta e Thomas continuaria em frente por mais alguns quarteirões.

— Tchau, pessoal! Até amanhã! — falou Stuart.

— Tchau, Sarah! Tchau, Thomas! Vejo vocês amanhã! — disse George.

— Falou, meninos! — respondeu Sarah.

— Até, pessoal! — Thomas acenou ao falar.

Durante os minutos que se sucederam conforme George e Stuart começavam a andar e se afastavam, Sarah e Thomas acompanharam seus passos até eles sumirem de vista. E quando isso finalmente aconteceu, Sarah não perdeu tempo e logo se voltou para seu amigo, encarando-o preocupada.

— Tem certeza de que você está bem? — O carinho em sua voz era genuíno.

— Estou, Sarah, não se preocupe.

— Se precisar de qualquer coisa, me ligue ou para os meninos.

— Pode deixar! Mas não precisa se abalar tanto, eu vou ficar bem.

— Tá bom. — Ela se rendeu.

Sarah se aproximou de Thomas e o abraçou com força. Ela massageou suas costas enquanto ele sorriu tristonho fora da vista dela. Sarah era como uma grande irmã para ele, sempre o zelando e o apoiando, mas nem mesmo seu imenso amor e carinho eram capazes de curar as feridas profundas no âmago de Thomas. Depois de alguns poucos segundos que pareceram uma eternidade naquele abraço repleto de amor fraternal, os dois se separaram.

— Te vejo amanhã! — disse ela, antes de se virar e dar um passo na nova direção que seguiria.

— Até amanhã! — ele respondeu rapidamente antes dela se virar.

Acompanhando com atenção, Thomas viu Sarah dar alguns passos em direção à sua casa e quando ela já havia se distanciado alguns metros, mesmo ainda estando em seu campo de visão, ele retomou sua caminhada e atravessou a rua com cuidado para continuar.

Agora, sem a presença dos amigos, Thomas podia andar livremente em seu próprio ritmo. Ele dedicou o mínimo de atenção necessária à tarefa de andar pela rua sem tropeçar ou esbarrar em qualquer obstáculo que surgisse e passou a concentrar suas energias na segurança de sua mente, retornando ao mundo de seus pensamentos. Ele voltou a mastigar as memórias sobre o bullying que sofreu naquela manhã. Por mais que tentasse se lembrar de Harry com toda a fúria que sentia, era apenas a imagem de Nicholas que vinha à tona. Thomas podia se lembrar com exatidão dos poucos momentos em que ele riu das piadas maldosas de Harry ou do momento em que também riu quando ele bateu o braço na porta do armário, embora algo em seu subconsciente tentasse acalmá-lo dizendo que ele não parecia tão à vontade assim. Será que Nicholas não podia só estar cooperando por conta da pressão social que o time exercia sobre ele?

Aff, balela!”, Thomas pensou. “Se ele fosse mesmo diferente, teria me ajudado, não se juntado ao idiota do Harry. Sarah estava certa. É melhor tirar esse idiota da minha cabeça.

Thomas continuou a caminhada, já bem distante da esquina onde havia se separado dos amigos. O trânsito na rua estava muito tranquilo e parecia que o caminho até sua casa seria um percurso livre de problemas. Contudo, o ronco incessante de uma moto muito potente soou novamente. Era um som que, estranhamente, Thomas acreditava estar o perseguindo desde que deixou o colégio, mas todas as vezes que ele procurava pela moto que o produzia, o condutor parecia virar qualquer esquina para escapar de seu olhar.

É só a sua imaginação, Thomas!”, ele disse como um mantra para si mesmo. Então, Thomas virou a cabeça e olhou para trás para se certificar de que a moto era de um cara qualquer fazendo gracinhas para exibir seu brinquedinho. Seus olhos não demoraram a captar a imagem da moto, orientados pela direção do som que ele ouvia. Mas, para seu espanto, a moto estava sendo conduzida por uma figura masculina de corpo avantajado e capacete preto, usando um casaco vermelho, branco e amarelo. Um casaco exatamente igual aos que os membros das equipes esportivas do colégio Westbrooks usavam.

O primeiro instinto de Thomas foi se virar e sair correndo em disparada, mas, mesmo sendo muito rápido, ele não podia competir com uma moto que facilmente o ultrapassou. A moto subiu a calçada e bloqueou seu caminho, colocando-se de lado. O rapaz posicionou o cavalete lateral e equilibrou a moto. Pôs as mãos sobre o capacete e o removeu, sacolejando a cabeça de um lado para o outro, ajeitando naturalmente o cabelo loiro mel. Ele desceu da moto com calma e se colocou de frente para Thomas, abrindo um sorriso tímido que curvou seus lábios rubros e carnudos.

— Oi! — disse Nicholas.

Assim que a moto o ultrapassou e parou em cima da calçada, bloqueando seu caminho, Thomas recuou um passo e paralisou. Seu corpo foi tomado pela adrenalina que o percorria, fazendo seu coração disparar e a tensão pressionar seus músculos. Ele só conseguia pensar no momento do bullying e seu medo era de que aquilo se repetisse, acreditando ser Harry que o havia perseguido até ali só para repetir a dose. Contudo, quando o rapaz tirou o capacete e balançou os cabelos para ajeitá-los, Thomas não pôde evitar sentir um certo alívio ao perceber que se tratava do garoto que fazia seu coração palpitar. Entretanto, Nicholas não deixou de notar que os primeiros instantes do olhar de Thomas para ele ainda carregavam certo pavor.

— Ei, calma. Eu não vim machucar você. — Ele ergueu as mãos à frente e fez um gesto suave, empurrando o ar devagar, em um sinal claro para que Thomas se acalmasse.

— O-o-o quê… O-o que você quer… co-comigo? — balbuciou o jovem de óculos.

— Eu quero conversar com você. Só conversar, tá legal? — Nicholas deu um passo cauteloso em direção ao garoto. Ele o observava atentamente e Thomas parecia um bicho acuado, prestes a fugir.

— Eu não… Eu não quero conversar… com você. — Thomas também deu um passo, mas para trás.

— Olha, eu sei que você tem todos os motivos do mundo para não querer falar comigo. — Ele deu mais um passo à frente, mantendo as mãos ainda erguidas no gesto que buscava amansá-lo. — Mas eu precisava muito falar com você. É Thomas o seu nome, certo?

— Vá… Vá embora! Eu não quero falar com você! — Outro passo para trás.

— Eu só quero me desculpar pelo que aconteceu.

Paralisia total. Thomas ficou atônito com aquelas palavras e seu semblante espantado era a prova de que havia sido completamente pego de surpresa por elas. Vendo que o garoto estava tomado pelo choque, Nicholas deu outro passo em sua direção e, desta vez, ele não recuou.

— Podemos conversar, por favor? — ele implorou.

— Tá… tá bom.

— Olha, sobre o que aconteceu essa manhã… Eu sinto muito. Eu sinto muito mesmo. O Harry ultrapassou todos os limites. Ele não devia ter provocado seus amigos, nem entrado em uma discussão com eles. E ele também não devia ter feito o que fez com você. Por favor, me desculpe!

— Você está… Você está pedindo desculpas pelo Harry?

— Não só pelo Harry, mas também por mim e por todo o meu time. O pessoal do Hawks não devia ter se deixado levar pelo Harry. Eu não devia ter me deixado levar pelo Harry. Quando a gente… Quando tiramos seus óculos… Olha, eu realmente sinto muito. Aquilo foi… Imperdoável. Eu prometo a você que aquilo não acontecerá outra vez. Me desculpa! — Nicholas curvou a cabeça para baixo.

Thomas o encarou por um instante. Era evidente que Nicholas estava sendo sincero ao falar e quando ele curvou a cabeça em um gesto de súplica, isso apenas confirmou a verdade por trás de suas palavras. Por um instante, Thomas olhou para o rapaz à sua frente e a atração que Nicholas ainda exercia sobre ele era intensa. Contudo, apesar do forte desejo de se aproximar dele, Thomas suprimiu isso com toda a sua força de vontade. Seus olhos arregalados se estreitaram em uma expressão zangada e o espanto e o medo foram encobertos por um semblante mais duro e contido. Ele cerrou os punhos e se endireitou em seu lugar, respirando fundo e erguendo o peito ao falar.

— Não! — Sua voz soou firme.

— Não? — Nicholas ergueu a cabeça, espantado.

— Não. Olha, Nicholas, eu até… Eu até entendo que você queira pedir desculpas por você e por seu time, mas… pelo Harry? Francamente!

— Então, você não quer desculpar o Harry?

— Eu não quero desculpar ninguém. Eu não tenho que aceitar as desculpas de ninguém. Eu quero mais é que vocês se danem.

— Mas eu…

— Eu o quê? Você achou que vir aqui me pedir desculpas bastaria?

— Eu… Eu pensei…

— Faz quanto tempo que o Harry faz parte do time? Três anos? Bem, esse é o tempo em que ele vem pegando no meu pé e no dos meus amigos. Ele já era um idiota muito antes de entrar para o time de futebol ridículo de vocês, mas depois que ele entrou para os Hawks, a babaquice dele só aumentou. Só que agora ele se escora no time para continuar fazendo chacota comigo e com qualquer outro para se sentir bem.

— Eu não… Eu não sabia que isso acontecia…

— Acontecia há tanto tempo assim?

— É, eu… Me desculpe.

— Você por acaso sabia quem eu era até hoje?

— Eu… Bem, eu…

— Aposto que nem meu nome você sabia direito. Mas só para te lembrar, nós estudamos juntos no Westbrooks desde os quatorze anos. E é desde essa época que eu estou aturando seu time ridículo fazendo piada de mim por conta do Harry. E só por causa disso, por causa dele, que eu não desculpo nenhum de vocês.

— Mas sua raiva é comigo, com o time ou com o Harry?

— É com vocês todos! Será que você não percebe? Desde que o Harry entrou para o time, vocês vivem pegando no pé de qualquer um por influência dele. Será que não percebem que o Harry tá transformando vocês nas marionetes dele? Por acaso você sabe o que os outros alunos falam de vocês quando não estão por perto?

— Não, eu não faço ideia.

— Pois devia. Se soubesse, ia perceber que a fama de vocês não é das melhores.

— Me desculpe!

— Eu não desculpo. Desculpas não adiantam.

— Eu não queria ter…

— Ter o que? Participar do momento em que me fizeram de bolinha de pingue-pongue? Rir de quando me chamaram de bichinha ou quando me assustaram a ponto de eu me machucar batendo meu braço no armário? Ter feito ou não ter feito nada não muda o fato de que você e o restante do time consentiram com o bullying dele. Não adianta dizer que não concordava com aquilo, se você não queria que aquilo tivesse acontecido, devia ter se posicionado contra. Você é ridículo, Nicholas. Só ficou parado feito uma múmia quando tudo aconteceu.

— Ei, eu salvei você de cair.

— Parabéns! Quer uma medalha por isso?

— Ao menos um obrigado.

— Obrigado. Mas da próxima vez, pode me deixar espatifar no chão.

— No fim das contas, você não vai me desculpar, não é?

— Não, eu não vou. Eu sinto muito se isso te chateia, Nicholas, mas eu não posso desculpar alguém que não toma uma posição. Ainda mais você, que é o capitão do time. Você, que deveria ser o primeiro a se manifestar.

— Eu entendo.

— Eu lamento.

— Lamenta? — Nicholas o encarou surpreso.

— Lamento. Você pode não saber disso, mas até certo momento, eu achava você… Bem, eu achava você um cara legal. Mas depois de hoje, você morreu para mim.

— Entendi. Bem, desculpa se te assustei com a moto. Não foi minha intenção.

— Tudo bem. Isso eu desculpo.

— Quanto à minha promessa, ela se mantém. Eu vou manter o time na linha.

— Eu espero, mas você será capaz de lidar com o Harry?

— Você verá! — E Nicholas sorriu para Thomas. Um sorriso tão charmoso que desarmou Thomas e o fez corar. — Até amanhã!

— A-até! — ele respondeu nervoso.

Nicholas voltou para sua moto, montou nela e se equilibrou para colocar o capacete novamente. Ele fechou o cavalete e deu partida nela, assustando Thomas com o ronco do motor. Nicholas saiu da calçada e se preparou para seguir pelo caminho de onde tinha vindo, mas antes de partir, se virou para Thomas, buzinando para ele e acenando com a mão, gesto esse que Thomas respondeu de volta. Por fim, ele acelerou e arrancou com a moto, sumindo rapidamente da vista do jovem de olhos azuis.

Notas finais
E aí, o que acharam do capítulo? Gostaram ou não gostaram? Deixem seus comentários para eu saber o que estão pensando. Muito obrigado por chegar até aqui. Agradeço pela oportunidade dada a mim e a essa história. Obrigado por tudo e até a próxima! Tchau! Atenciosamente, João Vitor Guimarães!