Violência Nem Sempre É A Solução
32 Capítulo 32 - As Nichols
Eu devia imaginar que toda aquela alegria do dia anterior traria consequências.
No dia seguinte ao Natal, acordei me sentindo tonta e enjoada. Ou seja, a maldita maldição estava atacando de novo. Grunhi brava e murmurei alguns xingamentos em grego. Como se já não bastasse o pesadelo sinistro da noite anterior que me fizera acordar de madrugada suando e ofegando?
Falando no pesadelo...
Toc. Toc. Toc.
— Lana! Você não vai acordar não? – Camila gritou do outro lado da porta – Já são dez da manhã!
— Não! Eu não vou acordar! – gritei para ela tentando conter o riso – Só acordo se você entrar no quarto e tomar o meu urso de pelúcia!
A porta abriu e Camila entrou no quarto. Eu lancei um sorriso brincalhão a ela e agarrei meu urso, o Teddy, mas ao invés de sorrir de volta, ela me encarou preocupada.
— Ah meus deuses! Você está horrível!– ela disse correndo até a minha cama — É a maldição de novo?
— Hey! Eu estou bem Cam, relaxa! – eu disse animada – Dá até para a gente fazer um piquenique lá fora!
— Claro! Se você quiser pegar um resfriado sinistro...
— Ahn? Por quê?
— Está chovendo criatura! Vai dizer que não ouviu os... – um trovão retumbou ao longe e Camila teve um calafrio -... Raios?
— Vish! O “fabulosa” está com raiva.
Um raio caiu em algum lugar próximo ao palácio e eu comecei a rir sem parar. Camila ficou me olhando com aquela cara de “Você é louca?” e perguntou:
— O que? “Fabulosa”?
— Foi um apelido... Que Hermes deu para ele... E eu achei hilário... Zeus é “fabulosa”! – eu disse entre risadas
Outro raio caiu, dessa vez mais próximo e até Camila começou a rir comigo.
— Você sabe que não pode chamar os deuses dessas coisas, não é? – Camila disse séria depois do nosso ataque de risos – É como pedir para morrer!
— Ah! Qual é! Vai dizer que nunca chamou Zeus de tomadinha, – raio novamente – ou chamou Dionísio de bêbado – e mais outro raio – ou Atena de nerd?
A cada raio que caía, Camila se tremia toda.
— Para com isso, por favor! – ela pediu com a voz assustada – Eu tenho medo de raios!
— Ok! Parei. – então me lembrei do sonho – Cam, você ainda tem aquele sonho da estátua gigante e das garotas de roupas camufladas?
Ela balançou a cabeça afirmativamente e fitou o chão por um momento. Achei melhor explicar logo o porquê de eu ter perguntado aquilo. Eu estava tratando de pesadelos e do segredo mais íntimo dela.
— Ontem eu tive um pesadelo... – eu disse depois de um longo suspiro -... Que me pareceu uma lembrança.
— E o que acontecia? – ela perguntou ainda cabisbaixa
— Bom... Era final de tarde. Eu estava deitada em uma esteira de piquenique e olhava o céu, tentando formar imagens com as nuvens que iam e vinham. Havia um rapaz ao meu lado. Eu rosto dele era um borrão indistinguível, mas de alguma forma, eu sabia que ele me observava. Ele era o meu namorado e o amor da minha vida. “Olhe como o céu está bonito hoje, meu amor”, eu me ouvi comentando e como resposta ele disse em um tom sério e frio: “Laís, eu acho que não devemos mais namorar”. Então eu senti uma dor imensa e profunda no meu peito, eu levantei em um salto e comecei a chorar. Então o sonho começou a ficar embaçado e inaudível e o máximo que consegui ver foi o brilho de um anel de brilhante e o tapa que eu dei no rapaz.
— Só isso? – Camila perguntou me encarando
— Não. – eu disse fitando minhas mãos – Quase no final, a imagem voltou a ficar nítida e eu me vi pegando uma escova de cabelo. Mas quando me olhei no espelho, eu vi aquela garota que eu havia pintado no dia em que você teve aquele pesadelo em que o Vilgax tentava me matar. Aquela garota era eu. – parei por um minuto para reorganizar as ideias e continuei – Eu saí do apartamento onde eu morava e tentei lembrar o nome do Café em que aquele rapaz estava me esperando. Então percebi que estava sendo seguida. Rapidamente, guardei meu MP4 na bolsa que eu levava a tiracolo e escondi o anel de brilhantes no bolso da calça. E então um homem grande, com jaqueta de motoqueiro pulou na minha frente e me encarou. Rapidamente, tentei recuar, mas um outro me agarrou por trás. Eu perguntei: “O que você está fazendo aqui, Gabe?” e ele simplesmente tirou uma pistola da cintura e a apontou para o meu peito.
— Ele atirou em você?
Fiz que sim com a cabeça.
— Mas disse algo antes de fazer isso? – Camila perguntou obviamente interessada
— Ele disse algo como: “Agora o seu querido Arthur não está aqui para protegê-la, garota e como sei que você não vai ser minha, você também não será dele”. E então atirou.
— Você sentiu? A bala?
— Perfurando o meu peito, o pulmão e o coração? Senti. – como vi que a expressão dela não mudou perguntei – Você também sente a dor de entrar em combustão instantânea?
Camila fez que sim com a cabeça e pareceu observar as gotas de água que escorriam pela porta da minha varanda com interesse.
— Ontem à noite eu fui ao Mundo Inferior antes de dormir. – ela disse depois de um longo suspiro – Eu encontrei o Nico, “namorado da Alice”, e ele me chamou de um jeito diferente.
— Que jeito? – perguntei tentando esconder a curiosidade
— Ele me chamou de Bianca e de irmã. Algo na minha cabeça pareceu voltar de repente, mas depois sumiu, com a mesma rapidez. Foi como um raio atingindo o chão e sumindo rápido como havia chegado.
Bianca. Eu conhecia aquele nome de algum lugar. Bianca Di Ângelo (N/A.: quem tá com saudades dela bota isso aqui no review – o/). Esse nome não me era estranho. O negócio estava ficando muito tenso. Estava na hora de mudar de assunto.
— Cadê a Alice? – perguntei – Achei que assim que você abrisse a porta ela ia entrar correndo!
— Ela está tentando explicar para o pai dela quem é o Nico. – ela respondeu rindo
— Por quê?
— Ele pediu para eu trazer uma coisa para ela. Ele falou que era presente de Natal.
— E o que era?
— Um colar de prata com pingente de guitarra. Esse garoto é rico ou coisa do tipo?
— Não sei. Só sei que ele é filho de Hades e que tem muito bom gosto. A Alice teve um ataque de histeria?
— Uhum. Não sei como você não acordou com os gritinhos dela. Foi engraçado. Um minuto ela estava gritando e pulando na cama e no seguinte o pai dela apareceu na porta do quarto perguntando o que estava acontecendo e de onde aquele colar havia aparecido.
Começamos a rir imaginando a cena, mas fomos interrompidas subitamente por gritos que vinham do andar de baixo.
— OLIVER! CAMILA! LANA! ALICE! – ouvimos Cléo gritar
Imediatamente, pulei da cama, calcei os meus chinelos e corri para as escadas com Camila logo atrás de mim. No meio do caminho, tropeçamos no Oliver e caímos por cima da Alice. Rapidamente me pus de pé e dei a mão para que Alice levantasse.
— Levanta mulher! – falei para ela puxando-a para cima
Juntas corremos escadaria abaixo. Cléo estava ao pé da escada, o rosto vermelho enterrado no peito de Oliver que a abraçava carinhosamente e passava as mãos pelos seus cabelos. Procurei por Camila por um momento e então percebi que ela ainda estava no terceiro degrau da escada. Ela estava curvada para frente, com uma mão sobre o peito e a outra no corrimão da escada, o rosto contorcido numa careta de dor. Desesperada, corri até ela e fiz com que se sentasse no degrau da escada.
— Camila. – murmurei aflita – O que foi? O que está acontecendo?
— A Sra. Nichols... – ela gemeu pondo a mão, que antes estava no corrimão da escada, na testa -... Ela está... Ela...
— Está morrendo. – Cléo completou entre soluços desvencilhando-se dos braços de Oliver – Vocês precisam me ajudar. Por favor.
As suas últimas palavras foram sussurradas fracamente. Eu sabia que ela estava tentando conter as lágrimas. Ela não queria desmoronar na nossa frente. Vi meu tio passar ao meu lado, discretamente, com o canto do olho.
— O que aconteceu? – ele perguntou franzindo o cenho
— Vamos à casa da Cléo. – Oliver disse
— O quê? Com essa chuva? Estão loucos?
Em resposta, eu, Camila, Alice, Oliver e Cléo fomos para as portas do palácio e saímos sem dizer nem uma palavra sobre o que faríamos.
A chuva estava cruel. O céu antes tão belo e azul de Hélade agora estava negro e cheio de nuvens que deviam estar cheias o suficiente para encher um oceano. Infelizmente, nenhum de nós tinha guarda-chuva e por isso ficamos completamente ensopados antes mesmo de dar cinco passos. Havíamos saído de casa tão às pressas, que eu ainda usava meu velho pijama composto por uma calça de moletom cinza e uma camisa onde estava escrita a frase “Salve os Pandas”, além dos meus chinelos de borracha cor-de-rosa.
— Onde está a Sam? – gritei para Cléo para poder ser ouvida acima do ruído da chuva
— Na floresta! – Cléo gritou de volta – Ela disse que encontrou a flor que prepara o antídoto para a mamãe.
— Não vai dar tempo! – Camila gritou – Eu vou buscá-la! Encontro vocês na casa!
E antes que eu pudesse perguntar do que ela estava falando, ela desapareceu na minha frente. Percebendo a minha expressão de surpresa e incredulidade total, Alice gritou:
— Ela viajou nas sombras! Ela vai ficar bem! Vamos!
...
— Shhh. Está tudo bem Cléo. Vai ficar tudo bem. – Oliver murmurava beijando o topo da cabeça dela – Lana?
— Camila e Sam ainda não voltaram. – respondi tremendo de frio e batendo os dentes – Estou fazendo o melhor que posso.
Carol Nichols estava deitada na sua cama e coberta por seus lençóis favoritos. Alice estava enrolada em uma toalha e Cléo soluçava incontrolavelmente, sendo consolada por Oliver. Eu, no entanto, estava ajoelhada ao lado da cama, colocando um pano molhado na testa da Sra. Nichols, pois ela queimava em febre.
— Peter... Meu amor... Cuidado com a Cléo, querido... – ela murmurava em delírio
E então da sombra das cortinas do quarto, Camila e Sam surgiram. Camila parecia morta de cansaço e Sam estava segurando uma bela flor de pétalas brancas e miolo rosado. Camila se jogou na cadeira mais próxima que encontrou e Sam correu para a cozinha sem falar com ninguém.
— Lana... – Camila murmurou cansada – Use seus poderes para ajudá-la. Ou se não...
Eu assenti e respirei fundo, canalizando os meus poderes. Dane-se a maldição, amigos primeiro, consciência depois.
Assim que toquei a testa da Sra. Nichols, meu corpo protestou, mas eu continuei tentando ajudá-la. O que pareceram segundos depois, eu senti meu corpo escorregando e minha consciência se esvaiu.
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