Violência Nem Sempre É A Solução
20 Capítulo 20 - Segredos
Notas iniciais
Nós não deixamos que Will, Cléo e Sam fossem embora. Estava muito tarde e não era seguro para eles voltarem sozinhos para casa, por isso eles dormiram no palácio. Sam dormiu no meu quarto comigo, Will dormiu no quarto da frente e Cléo no quarto ao lado ao do Oliver. Ele estava super preocupado com ela. Ela ainda não havia acordado do desmaio causado por aquela bombinha de fumaça e ele botava a culpa em mim. Como é que eu ia adivinhar que ela não sabia que aquilo era gás do sono? O pior era que a Sam também não conseguia dormir. Na verdade, só o meu tio e o Richard conseguiram dormir. O resto de nós ficou acordado tentando achar sono para dormir.
Como eu não conseguia dormir, eu fiquei brincando com uma esfera de luz que eu havia criado usando os meus poderes. Eu fiquei jogando-a para cima e para baixo até que de repente, a luz dela começou a tremeluzir. Aquilo era estranho. Eu não me sentia fraca e nem nada, então porque a luz da minha esfera brilhante estava tremeluzindo? Então a luz parou de tremeluzir e revelou a imagem de um garoto pálido, de cabelos e olhos negros. Ele vestia um terno da mesma cor dos seus cabelos e... Espera! Aquilo atrás dele eram ALMAS?
— Oi Lana! – ele acenou
— N-nico? – eu gaguejei surpresa – Você está mandando uma mensagem de Íris do Mundo Inferior?
— É. Eu estou. – ele respondeu indiferente – A Alice está aí? Eu queria falar com ela. Ontem foi aniversário dela né?
— Na verdade foi hoje.
— Não. Foi ontem. Hoje são meia noite e três do dia primeiro de Novembro.
— Enfim... Espera aí que eu vou chamar a Alice.
Sam olhava para a imagem abismada. Ela não tinha ideia de quem era Nico, de como ele havia conseguido mandar mensagens de Íris do Mundo Inferior ou do que nós havíamos falado, afinal, ela só conhecia uma língua. E essa língua não era o inglês.
— O que exatamente... – Sam começou
Mas ela foi interrompida pelo uivo da Srª O’Leary que pulou em cima do Nico e o lambeu. Ela tomou um susto tão grande, que soltou um grito histérico, o que fez Alice e Will entrarem no meu quarto correndo e com as espadas em punho. Ao ver o Nico pela minha esfera brilhante, Alice enrubesceu. Não porque o garoto por quem ela era apaixonada estava olhando para ela e sim porque ele estava olhando para ela e ela estava vestida com um baby doll preto de bolinhas rosa. Felizmente, eu e Sam tínhamos sido espertas e ao invés de estarmos de baby doll ou camisola, nós estávamos com calças de moletom e camisetas tão grandes, que chegavam até a metade das nossas cochas. Alice correu para o seu quarto e voltou minutos depois com uma calça jeans e uma camiseta do “AC-DC”. Assim que ela entrou no meu quarto pela segunda vez, Nico disse:
— Bom dia Alice! Feliz aniversário atrasado.
— Obrigada Nico, mas... Eu não sabia que era possível mandar mensagens de Íris para tão longe! – Alice disse tentando esconder sua felicidade
— Eu também não, mas não custava tentar né? – Nico brincou – Desculpe por não ter ligado mais cedo. É que tem umas coisas sinistras acontecendo aqui no Mundo Inferior e meu pai tem precisado muito da minha ajuda. Ainda bem que ele e a Perséfone foram para o quarto e eu não quero nem saber o que está acontecendo lá. Enfim... Por que você foi para tão longe? Não gosta mais de mim?
— É claro que eu gosto de você! – Alice riu – É que Hélade estava precisando da gente e nós tivemos que vir. Queria que você tivesse vindo para a festa.
— Eu também queria estar aí. Eu sinto sua falta. SRª O’LEARY PARA DE ME LAMBER!
— SRª O’LEARY, SENTA! Boa garota. Agora obedece ao Nico! – Alice ordenou a Srª O’Leary e ela obedeceu — Eu também sinto a sua falta, Nico. Assim que tudo estiver bem aqui, eu volto para a Terra.
A imagem começou a se desfazer e rapidamente Nico disse:
— Até mais Alice! Espero te ver em breve! Não demora hein? Eu estou aqui te esperando.
— Logo nos encontraremos novamente, eu prometo. Até mais Nico! – Alice se despediu acenando para a imagem de Nico
Assim que a imagem de Nico desapareceu por completo, Alice se jogou na minha cama, pegou um travesseiro, o colocou sobre o rosto e sufocou um grito histérico de alegria. Sam revirou os olhos e nos olhou entediada, enquanto eu e Will ríamos do piti histérico da Alice. Camila entrou no quarto se apoiando no batente da porta. Ela estava mais pálida do que o normal (se é que isso é possível), mas mesmo assim sorria. Ela parecia tão mal, que eu fui ajudá-la.
— Camila, o que aconteceu? – eu perguntei preocupada
— Nada. Eu só... Não me sinto muito bem. – ela disse com uma voz rouca e cansada – Quem era o garoto com o Cão Infernal na mensagem de Íris?
— Era o Nico. O garoto por quem a Alice é apaixonada. – eu disse
— Não sou não! – Alice protestou tirando o travesseiro da cara – Ele é um cara legal, só isso!
— Não foi isso que você falou há um minuto. – Sam implicou
Alice fuzilou a Sam com os olhos. Camila riu e tentou ir até as duas, mas suas pernas vacilaram e ela teria caído se eu não a tivesse segurado.
— Will! – eu chamei – Me ajuda aqui!
Ele nem sequer se mexeu. Os seus olhos estavam ocupados demais olhando fixamente para o rosto da Sam. Aquilo estava ficando estranho. O que estava acontecendo com o meu Will? Alice estalou os dedos na frente do rosto dele e ele “acordou” meio assustado.
— Ahn? O que foi? – ele perguntou debilmente
Aí ele se tocou no que estava acontecendo. Camila estava apoiada em mim e mal tinha forças para levantar a própria cabeça. Will a pegou no colo, a levou até o quarto dela (que ficava ao lado do meu) e a deitou na cama. Eu pus a mão na testa dela para ver se ela estava com febre. Não, não era isso.
— Camila, me diz o que aconteceu, por favor. – eu pedi sentando ao lado dela na cama
— I will to say if Sam and William go away (tradução: “eu vou dizer se a Sam e o William forem embora”). – Camila disse em inglês para que Sam e Will não entendessem – It’s my secret (é o meu segredo).
— Sam. Will. Acho melhor vocês irem dormir. A noite foi muito agitada e vocês devem estar morrendo de sono. Deixa que eu e a Alice vamos cuidar da Camila. – eu pedi disfarçadamente
Sam deu boa noite para a gente e foi embora bocejando para o meu quarto, enquanto Will me deu um beijo e saiu do quarto sorrindo. Nós ajudamos Camila a se sentar.
— Sam e Will já foram agora fala. O que aconteceu? – eu perguntei a Camila
Lágrimas começaram a rolar pelas suas bochechas e ela nos olhou com um olhar suplicante. Eu não tinha ideia do que estava acontecendo. Por que Camila estava chorando? O que havia acontecido? Então ela respirou fundo e limpou as lágrimas com as costas das mãos.
— Quando eu fui presa pela primeira vez, eu consegui fugir usando as sombras. – ela começou a explicar com uma voz repleta de dor – Só que assim que eu cheguei em casa, eu caí no chão desmaiada. Meus pais acabaram descobrindo que eu tinha uma doença rara e sem cura e que dali a no máximo um mês eu iria morrer. Eles ficaram desesperados e pediram aos deuses que me salvassem. O pedido deles foi ouvido e no dia em que eu devia morrer, eu melhorei. Mas depois disso, foi como se eu não fosse mais eu mesma. Na primeira noite depois disso, eu tive um pesadelo terrível e quando acordei a estatueta de Hades estava embaixo do meu travesseiro...
— E como era esse pesadelo? Você ainda se lembra? – Alice perguntou interrompendo-a
— Lembro por que não o tive só uma vez. Ás vezes quando eu medito, para descansar a mente e organizar as ideias, eu revejo as mesmas cenas. Eu me lembro de estar em um lugar estranho onde havia várias pilhas e montanhas de algo parecido com ferro, bronze celestial e cobre.
— E você estava sozinha? – eu perguntei
— Não. Havia algumas garotas comigo. Elas tinham a mesma idade que eu, vestiam uma roupa camuflada e carregavam aljavas cheias de flechas nas costas, além de um arco cada uma. Apenas duas delas pareciam ser mais velhas e ter lá pelos 20 e poucos anos. Uma tinha os cabelos castanhos e ondulados e usava um diadema, enquanto a outra tinha os olhos azuis como os da Alice e o cabelo dela era preto e disforme. Mas além dessas garotas, ainda havia um menino. Ele devia ter uns 15 anos e tinha os olhos verdes-mar e os cabelos negros.
— E o que acontecia lá? – Alice perguntou
— Eu ouvia alguém dizer para ninguém pegar em nada. Era meio confuso, pois todo mundo falava em inglês. Aí eu via a estatueta de Hades no topo de uma pilha de ferro. Não sei por que razão eu a peguei, mas com certeza devia ser importante, pois um autônomo gigantesco feito de bronze celestial se levantava e vinha nos atacar. As garotas disparavam dezenas de flechas contra ele, mas elas não lhe causavam dano algum. Apenas ricocheteavam no corpo dele. Eu queria ajudar, mas o garoto que estava comigo não queria deixar. Era como se ele fosse meu protetor. Meu anjo da guarda. O problema era que se eu não agisse logo, todos iriam morrer. Então eu corri até o autônomo e sacrifiquei minha vida, explodindo-o de dentro para fora.
— Mas... Como? Como você o implodiu? – eu perguntei confusa
— Ele estava sobrecarregado e havia uma portinhola embaixo do pé dele, onde as engrenagens e o forno que o aquecia — e lhe dava energia – ficavam. Eu não me lembro exatamente do que fiz, só lembro de sentir meu corpo se queimando aos poucos e a vida se esvaindo de mim com a mesma rapidez com que a correnteza de um riacho pode levar uma pessoa.
— Mas eu ainda não entendi por que você está tão mal! – Alice disse
— Meditar gasta muita energia e eu fui até o Mundo Inferior hoje. Eu precisava ver os meus pais. Saber como eles estavam e matar as saudades. Não se pode viajar nas sombras quando se está cansado, mas eu ignorei a regra e fui assim mesmo. Agora eu estou sofrendo as consequências.
— Eu acho melhor você descansar Camila. – eu aconselhei – Durma um pouco. De manhã nos falamos.
Demos boa noite uma para a outra e fomos para os nossos quartos para dormir. Sam já estava dormindo quando eu cheguei. Os seus cachos vermelhos se espalhavam pelo travesseiro e as sardas a faziam parecer uma pessoa fofa, mas experimente mexer com ela. É capaz de você perder no mínimo um dedo.
De início, eu não consegui dormir. As pessoas que Camila havia descrito. Eu as conhecia. Não todas, mas o garoto e a garota do cabelo disforme... A descrição deles me lembrava muito a Thalia e o Percy. Talvez as garotas de roupas camufladas e de arco e flechas, fossem as caçadoras de Ártemis. Mas... Como isso era possível? Camila nunca havia ido a Terra! Não tinha como ela conhecê-los! Era impossível! As perguntas persistiram na minha cabeça, procurando uma resposta lógica ou ilógica, mas não havia. A estatueta de Hades era a única coisa que unia o pesadelo á realidade. E se aquilo não fosse apenas um sonho? E se fossem memórias? Ou uma visão do futuro? Quanto mais eu me esforçava para conseguir as respostas dessas perguntas, mais delas apareciam.
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