Violão, lua e poesia
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Incertezas
E talvez nós não temos
O que precisamos.
E talvez nós não precisamos
Do que já temos.
E talvez não voamos
Com medo de cair.
E talvez caímos porquê
Não sabemos voar.
E talvez amamos porquê
Já odiamos uns aos outros.
E talvez odiamos porquê
O amor é a equação que
Não conseguimos resolver.
E talvez exista vida inteligente na terra.
E talvez a utopia em que
Se baseiam necessite de
Outra utopia.
E talvez não exista
Nada além
Do além do nada.
Sem nada
Televisão sem graça.
Sem gosto a cachaça.
Sem fogo, sem fumaça.
Sem mato ninguém caça.
Sem abelha nenhum mel.
Sem careca pra chapéu.
Sem deus dono de céu.
Sem tribunal pra réu.
Sem corda pra puxar.
Sem diabo pra tentar.
Sem caminho para andar.
Sem você pra me amar.
Sem água pra beber.
Sem dia pra nascer.
Sem olhos para ver.
Sem fome pra comer.
Sem linha de tricô.
Sem trilhos de metrô.
Sem Sol para se pôr.
Sem ter que sentir dor.
Sem sono pra dormir.
Sem som para ouvir.
Sem piada pra sorrir.
Sem motivos para agir.
Sem avião no ar.
Sem peixes lá no mar.
Sem jogos de azar.
Sem inferno pra queimar.
Sem cidade ou endereço.
Sem final, meio ou começo.
Sem estátuas de gesso.
Sem nada que tem preço.
Sem Hitler, sem nazista.
Sem Karl, sem comunista.
Sem Rússia socialista.
Sem ONU pacifista.
Sem estrela ou cometa.
Sem asteróide ou planeta.
Sem prótese ou muleta.
Sem sorte na roleta.
Sem fórmula de coca-cola.
Sem interesse na escola.
Sem o tal vírus Ebola.
Sem as lágrimas da cebola.
Sem óasis em deserto.
Sem estar errado ou certo.
Sem te ver de longe ou perto.
Sem incômodos de inseto.
Sem vida, sem poesia.
Sem hora, sem dia.
Sem sangue, com anemia.
Sem pulos, sem folia.
Sem prisão ou liberdade.
Sem estado ou cidade.
Sem coragem ou covarde.
Sem silêncio, só alarde.
Sem pegar em meu pé.
Sem coar o café.
Carro sem marcha-ré.
Espelho meu sem Zé.
Oh, meu caro Picasso,
Isto é que é um traço?
–São as linhas como um laço,
Entrelinhas do compasso!
Lamúria desnecessária
Do amor vem à saudade
Que causa tristeza e solidão,
Trazendo ao coração
Sofrimento e ansiedade.
Mas e a tal felicidade?
Esconde-se por maldade.
Levando-me ao desespero
Que antecede primeiro
A profunda escuridão.
E o pobre vaga-lume,
Que é meu grande amigo,
Às vezes se vê confundido
No escuro, no perigo,
Ao me guiar pelas serenas
Veredas da noite morena
Cheias de trevas e aflição
Que pouco a pouco vai transformando
Em rocha meu coração sangrando,
Que ainda bate se esforçando
Em inútil labor moribundo
Por fútil sentimento imundo
Que me acorrenta ao inferno
Onde reside o meu sofrimento eterno
Pelo crime que cometi:
Te amei, te desejei, te quis.
Veja que...
Não são todas as palavras suficientes para explicar.
Nem todas as pessoas são traiçoeiras como o mar.
Poucas pessoas foram feitas para amar.
Nem todo coração é de pedra.
Nem tudo foi feito para que se entenda.
Nem todo nada é vazio.
Nem todo gelo é frio.
Nem toda selva tem leão.
Nem todo mar tem tubarão.
Nem todo fogo é capaz de queimar.
Nem toda escola é capaz de ensinar.
Nem toda copa o Brasil vai ganhar.
Nem toda estrela consegue brilhar.
Nem todo eu quer você.
Só uma parte!
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