Violeta
1 Violeta
Nós crescemos juntas. Não por influência de nossas famílias ou alguma coisa do gênero, apenas tivemos a sorte de morar na mesma área, um pequeno distrito rural a cerca de uma hora da cidade.
Éramos muito unidas, apesar de sermos muito diferentes. Sempre conseguíamos encontrar algum assunto, alguma brincadeira que aliasse nossos interesses, por mais diferentes que fossem. Vivíamos juntas, dormindo na casa uma da outra, correndo pelas ruas. Liz e Eva, como uma dupla perfeita.
É claro, isso acabou quando crescemos. Eva era de uma família rica, atrelada aos bons e velhos costumes da pátria, enquanto eu era da "ralé". Por obra do destino, nós frequentamos as mesmas escolas e a mesma faculdade, e por isso ainda podíamos nos ver, mas era claro que não desejavam mais a minha presença perto de Eva.
Acho que ter continuado me encontrando foi um dos poucos atos de rebeldia de Eva. Ela era uma garota perfeita, em todos os bons e maus sentidos. Ela obedecia as ordens de seu pai somente porque ele era "o homem da casa". Ela desacreditava que poderia aprender matemática e não se interessava em economia ou política, somente porque era uma garota.
Ainda assim, ela nunca duvidava dos fatos que eu contava pra ela. Ela não duvidava que eu entendesse de matemática ou do que eu falava sobre física, não tirava o valor de minhas opiniões políticas, mesmo eu sendo tão garota quanto ela era. Talvez no fundo, ela não desacreditasse me si mesma, apenas se sentia entediada com aquelas conversas.
Ela era linda quando sorria, com o vento batendo em seus cabelos louros. Era gorducha, com olhos de esmeralda e pele muito clara. Ela parecia um anjo para mim, mas eu raramente encontrava quem concordasse comigo.
Ela gostava de passear no bosque, de observar estrelas, gostava de flores e de pequenos animais, do verão e da primavera e de seus longos vestidos rendados. Mas o que ela mais adorava era música.
Ela tinha um tutor desde seus três anos de idade, e a essa altura já era capaz de tocar com maestria as mais belas sinfonias de compositores famigerados, cujos nomes ela me dizia, mas eu jamais fiz questão de lembrar. Ela tocava para mim, e isso era o que eu mais adorava. Senta ao pé de seu piano e fechava meus olhos, enquanto ela dedilhava o instrumento com os dedos leves e produzia os tons maravilhosos. Era engraçado, porque eu só gostava do som de música clássica quando era ela tocando.
Ela havia seguido música na faculdade. Eu havia escolhido artes visuais. Caminhos que apesar de parecem próximos, nos levaram para direções bem diferentes.
Eu conhecia várias pessoas excêntricas. Meus professores, em grande parte, estavam dispostos a quebrar velhos paradigmas e a propor loucuras, e formavam turmas e turmas de ratos de rua, vivendo nos cafés como intelectuais.
Foi graças a essas pessoas que tive o contato com correntes filosóficas e passei a estudar economia, direito e política. Meus veteranos me apresentaram a grupos anarquistas, socialistas e marxistas, e eu bebi em todas essas fontes tentando criar eu mesma uma proposta perfeita que pudesse solucionar todos os problemas que eu via para aquele mundo.
Tantos nomes que eu desconsiderava tornaram-se meus ídolos e guias. Eu queria ser Voltaire, Rousseau, Epicuro, Safo, Sócrates, Darwin, Einstein, Marie Curie. Queria que minha arte fosse vista, que meus textos fossem lidos, que o mundo se transformasse e a pobreza acabasse por fim.
Eu era uma dessas pessoas a quem chamavam promíscua e vadia. Consideravam-me uma prostituta ao ver-me andando nas ruas, porque eu usava roupas masculinas, saía com quem me agradasse e me entregava aos prazeres de ser uma humana. Eu passava a madrugada nos bares, discutia sobre a política, gargalhava alto e me embebedava junto a meus companheiros. Eu vivia uma vida livre como as espirais de fumaça de um cigarro, sob o julgo de uma sociedade que nunca me entendia.
Assim, eu era a escória, e Eva era uma deusa. Um dia, quando a esperava na sombra das árvores para irmos almoçar, ela surpreendeu-me ao aparecer em um traje diferente de seus vestidos habituais. Usava um traje bastante casual, de caminhada. Ela sentou-se ao meu lado e explicou-me que sua família havia decidido que ela deveria se casar, então ela iria escolher seu marido nesse dia, antes que seus pais o fizessem por ela, e que precisava da minha ajuda.
Essa foi a segunda vez que a vi quebrando uma regra. Nunca se pode conhecer verdadeiramente as pessoas, sempre há uma parte de seus corações que fica oculta, sempre há algo de novo e mágico a ser descoberto. Naquele caso, conhecer esse mundo me destruiu um pouco.
Ela me guiou por uma trilha de cascalho em um bosque. Eu não prestei atenção no caminho, não prestei atenção enquanto ela cantarolava, pois estava absolutamente transtornada. A ideia de vê-la casando me machucava. Não queria imaginá-la se casando com um homem qualquer, que poderia transformar sua vida em miséria. Na verdade, eu estava chateada até mesmo com a ideia de vê-la casando com qualquer pessoa que fosse. Até que eu percebi onde ela havia me levado.
Ela estava parada nas margens de um lado, sorrindo, cercada por um semicírculo de violetas. Ela usara as flores para trançar um par de coroas. Eu me abaixei e ela coroou-me com uma delas, depois pousei a outra em seus cabelos louros, beijando de leve sua testa.
-Sim, é claro que eu aceito.
Notas finais
->Dizem que essa tradição se iniciou devido a um poema da poetisa grega Safo, no qual descreve o uso de guirlandas de violetas por ela e a pessoa que amava. A sexualidade da poeta ainda é muito discutida, pois muito pouco de seu trabalho sobreviveu até hoje.
Obrigado por ler. :)
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