Violet Solis - Next Dimension

1 Capítulo I - Não Conte Com Isso, Alaster


Esta é apenas uma história imaginária de Violet Solis… E não são todas?



É engraçado como nós olhamos para o Sol e nem imaginamos que ele é o mesmo que os primeiros humanos viram. Reis, generais, comediantes. Para mim é impossível não pensar nisso; o universo é vasto e minha mente é muito curiosa. No final de tudo, ninguém é dono do Sol.

​Violet suspirou fundo e se levantou do tapete de flores onde estava deitada. Espreguiçou-se olhando diretamente para a luz, a radiação parecendo acariciar seu rosto.

​— Todos nós precisamos dele — murmurou, olhando para as flores ao lado.

​A jovem seguiu o caminho para casa, rodopiando com os braços abertos. Lá dentro, como esperado, viu Elijah sentado em sua poltrona, lendo um livro sob o calor da lareira. O silêncio era sua companhia de sempre.

​— Está um lindo dia lá fora — disse ela, interrompendo a leitura dele.

​— Ah, sim, que bom, Violet — concordou ele, virando o rosto em sua direção.

​Ela se aproximou, sentando-se no sofá ao lado.

​— Por que você não aproveita seu dia de folga para nós sairmos? Sei lá, ir ao cinema com sua pupila preferida? — sugeriu, piscando um olho.

​— Você é minha única pupila.

​Violet jogou a cabeça no encosto do sofá, rendendo-se, frustrada. Elijah suspirou com um meio sorriso.

​— Mas... acho que devemos tirar um tempo para diversão.

​— Ah, ótimo! Eu garanto que não vai se arrepender — respondeu ela, com um sorriso genuíno.

​— Esta noite — afirmou ele.

​— Certo, Eli. Vou adorar ver você gritando na montanha-russa.

​— Nada mais me surpreende, querida.

​— Eu aposto que sim — provocou a pupila, levantando-se. — Você...

​Ela parou de falar abruptamente. Uma pontada violenta atingiu sua têmpora, e Violet levou a mão à cabeça, cerrando os dentes.

​— Violet? Tudo bem? — perguntou Elijah, levantando-se rápido e apoiando as mãos nas costas da jovem.

​O mundo ao redor dela sumiu. De repente, ela se viu caída no chão frio, em uma visão em primeira pessoa. O ambiente parecia um grande museu, repleto de armaduras antigas e vitrines que protegiam papéis de tratados históricos. O ar ali parecia pesado, carregado de fumaça ou poeira.

​Em instantes, a visão se desfez. O teto da sala de Elijah voltou ao foco e a dor começou a desaparecer aos poucos. Violet desabou de volta no sofá, puxando o ar para os pulmões, tentando acalmar o coração acelerado.


— Vou buscar um copo d'água.

— Não, não precisa. Eu já estou bem — interrompeu ela, segurando de leve o braço dele.

O mentor sentou-se ao lado dela, fitando seu rosto com atenção.

— O que você sentiu? — perguntou Elijah, batendo o punho contra a palma da outra mão, devagar.

— Eu senti uma energia... — Violet fez uma pausa, fechando os olhos, procurando as palavras certas para descrever o inexplicável.

— Uma energia maligna?

— Não. É como se eu estivesse sentindo a dor dele.

— Dele? — questionou o mentor, arqueando as sobrancelhas.

— Eu tive uma visão através dos olhos de outra pessoa. Eu estava caída em uma sala cheia de armaduras, com papéis de tratados históricos protegidos por vitrines de vidro...

Elijah ficou em silêncio, o corpo tenso, esperando que ela continuasse.

— Mas não era apenas uma dor física — terminou Violet, e uma lágrima solitária escapou, escorrendo pelo seu rosto. — Era uma confusão mental profunda. Tristeza. E muito ódio.

Ela limpou a bochecha de imediato, incomodada. Aquele sentimento avassalador que a invadira não era seu, era completamente involuntário.


+++


Na penumbra do corredor, Vihaan entrou na sala para investigar o barulho, empunhando um taco de beisebol. Ele parou abruptamente ao ver um homem caído à sua frente. Vestindo apenas um dhoti, o desconhecido se levantou devagar, um pouco atordoado, finalmente revelando seu rosto: era um homem de um metro e oitenta, de longos cabelos loiros e intensos olhos azuis. Ele fixou o olhar no rapaz, que o encarava de volta, confuso.

— Senhor, você está bêbado? — perguntou Vihaan, com a voz baixa, porém compreensiva. — A loja fechou faz uma hora.

O homem apenas olhou para os lados, tentando reconhecer o ambiente.

— Senhor, vou pedir que se retire. A polícia já está a caminho. A menos que não queira problemas, é melhor ir embora.

Sem dizer uma única palavra e com o rosto totalmente sem expressão, o desconhecido começou a caminhar para a frente. Conforme ele se aproximava, Vihaan dava passos para trás — mais por segurança do que para dar passagem. O invasor, contudo, continuou avançando direto em sua direção.

— Senhor, afaste-se, ou eu terei que me defender! — alertou o rapaz, recuando ainda mais.

Mas os avisos não adiantaram. O homem continuou marchando em sua direção.

— Eu avisei — finalizou Vihaan, desferindo um golpe com o taco.

O homem apenas ergueu a mão. O taco de beisebol estancou no ar, travado por uma força invisível que o impedia de avançar. Antes que o rapaz pudesse reagir, o desconhecido tocou dois dedos na testa de Vihaan, fazendo-o entrar imediatamente em estado de transe.

Em questão de minutos, uma enxurrada de memórias do rapaz passou diante dos olhos azuis do loiro. Assim que extraiu todas as informações de que precisava, Vihaan desmaiou. O invasor o amparou no ar e o deitou com cuidado no chão.

— Obrigado pela ajuda, Vihaan — agradeceu ele, com uma voz serena.

O homem virou-se e voltou para a sala de antiguidades, caminhando direto em direção à caixa de onde havia saído.

Ao sair do estabelecimento, o desconhecido sentiu o calor solar no rosto, o que lhe arrancou um leve sorriso. Ele voltou o olhar para a rua movimentada, observando as pessoas que entravam e saíam dos comércios locais. Contudo, o que realmente chamava sua atenção não era o movimento, mas sim um pequeno artefato que quase todos carregavam nas mãos — até mesmo as crianças. Graças às memórias de Vihaan, ele sabia o nome daquela tecnologia: o aparelho celular.

Caminhando pelas calçadas, o homem absorvia o novo mundo ao seu redor. Havia anúncios luminosos por todos os lados, vídeos, fotos coloridas e até cenas que o faziam andar mais devagar, intrigado, como animais de estimação sendo empurrados em carrinhos de bebê e vestindo roupas.

Incomodado com a cacofonia da cidade, ele tampou os ouvidos, buscando desesperadamente um momento de silêncio. Por que este mundo ficou tão barulhento?, pensou.

Fechou os olhos e respirou fundo. Concentrou-se no ritmo da própria respiração, inspirando e expirando devagar, buscando o silêncio no fundo de sua mente. Aos poucos, o loiro conseguiu se acalmar.

Com a mente finalmente em paz, seu corpo começou a levitar, erguendo-se lentamente acima da calçada. O efeito foi imediato: pedestres pararam horrorizados, alguns gritando de susto, enquanto outros, rapidamente, puxaram seus celulares para gravar o impossível. Alheio ao caos abaixo, o homem continuou subindo em direção ao céu, até sumir completamente, camuflado pelo brilho intenso da luz solar.


***


No banco do passageiro, Violet esperava por seu mentor para darem início à investigação. Elijah entrou no carro logo em seguida, girando a chave na ignição. O motor rugiu ao mesmo tempo em que o rádio ganhava vida, transmitindo notícias locais em volume baixo.

— Para onde nós vamos? — perguntou Violet, enquanto ele engatava a marcha e dava a partida.

— Você disse que viu armaduras e tratados antigos — respondeu Elijah, atento ao retrovisor antes de sair com o carro. — Por aqui, só existe um lugar que bate com essa descrição: a casa de leilão de antiguidades.

— Perfeito. Já temos um ponto de partida.

Enquanto Elijah dirigia, o locutor do rádio interrompeu a programação com um plantão urgente:

— Interrompemos nossa programação para uma notícia inacreditável no centro da cidade! Testemunhas relatam que um homem trajando roupas exóticas flutuou no ar e desapareceu sob a luz do Sol…

Violet e Elijah se entreolharam, sentindo que o mistério havia escalado rápido demais. No entanto, o rádio continuou:

— Mas há uma pegadinha nisso tudo! — exclamou o radialista, mudando o tom para algo mais descontraído. Elijah juntou as sobrancelhas, confuso. — Na verdade, toda essa cena foi uma apresentação surpresa de um grupo de mágicos internacionais que veio visitar o país! Uma ilusão de ótica impressionante que pegou todo mundo de surpresa…

Enquanto o locutor continuava a falar, detalhando a suposta "performance", Violet quebrou o silêncio dentro do veículo, olhando fixamente para o mentor:

— Pelo visto, Eli... alguém já agiu antes de nós.

***


Não demorou muito para que Elijah chegasse à loja de antiguidades. Mas, ao parar o veículo, ele já avistou uma figura conhecida logo à frente, acompanhada por mais duas pessoas. Assim que o carro estacionou de lado, Violet foi a primeira a saltar, antes mesmo que seu mentor pudesse dizer qualquer coisa. Elijah desceu logo em seguida, caminhando na direção deles sem hesitar.

​As três pessoas vestiam uniformes laranjas idênticos, da calça à jaqueta, ostentando um brasão do Sol do lado esquerdo do peito.

​— Olá, Elijah. Violet — cumprimentou o conhecido, adiantando-se.

​— Alaster, como vai? — perguntou Violet, em um tom amigável.

​— Que confusão aconteceu por aqui... — Alaster suspirou, balançando a cabeça. — Vocês têm ideia do que nós tivemos que fazer para conseguir esconder a verdade?

​— Eu já sei de tudo — cortou Elijah, direto.

​— Nós já interrogamos o rapaz da loja — continuou Alaster, ignorando a rispidez do mentor. — Tudo o que ele lembra é de ter vindo averiguar um barulho e, quando deu por si, acordou caído no chão. Não viu rostos, não viu nada.

​— Isso é ótimo... — ironizou Elijah, cruzando os braços.

​— Rapazes, deem-nos um minuto — ordenou Alaster ao seu grupo.

​Elijah olhou para a pupila e acenou com a cabeça. Violet entendeu o comando em silêncio e obedeceu. Os subordinados de Alaster e a jovem se afastaram, deixando os dois líderes completamente a sós na calçada.

— Oi, Violet. Meu nome é Ezequiel — disse o rapaz, estendendo a mão para ela com energia.

A jovem apertou a mão dele, forçando um sorriso simpático no rosto.

— Aquela ali é a minha colega, Sara. Diga oi, Sara!

Sara se aproximou de Violet com um caminhar lento e um olhar totalmente neutro. Ela a encarou fixamente por alguns segundos, em um silêncio que começou a deixar Violet genuinamente desconfortável. Então, Sara esboçou um sorriso de canto e jogou o cabelo para o lado, quebrando o gelo.

— Desculpe o meu jeito. É que eu gosto de olhar bem nos olhos das pessoas antes de conhecê-las... Dizem que eles são o reflexo da nossa alma.

— E o que você viu? — perguntou Violet, semicerrando os olhos, desafiando o olhar da outra.

— Vi que você é uma garota cheia de mistérios — respondeu Sara, enigmática.

— E qual de nós não é? — interrompeu Ezequiel, abrindo os braços. — É o que nós somos, e foi exatamente isso que nos fez estar onde estamos agora.

— Você não é misterioso, Ezequiel, é só bobo e previsível — comentou Sara, sem rodeios.

— Eu, previsível? — O rapaz soltou uma gargalhada genuína. — É o que iremos ver quando eu capturar aquele cara sozinho!

— Se você for enfrentar ele, vai é fazer xixi nas calças e chorar pela mamãe — zombou ela, fechando as mãos em punhos e girando-as na frente dos olhos, imitando um bebê chorão.

Violet deu um sorriso contido, cruzando os braços enquanto observava a discussão infantil dos dois. Por um instante, o peso da visão em sua mente pareceu diminuir.

— E você, Violet, o que acha desse cara? — perguntou Ezequiel, mudando o foco para ela.

— Eu sei tanto quanto vocês — respondeu Violet de prontidão. Ela pensou rápido, mas manteve a voz totalmente tranquila para não levantar suspeitas.

— Olha, Violet, eu não tinha comentado antes, mas gostei muito do seu look — disse Sara, deixando de lado o tom de brincadeira de antes. — Essa gravata, o sobretudo e a saia... combinam muito com você.

— Obrigada! Fui eu mesma que escolhi o visual — agradeceu Violet, genuinamente surpresa com o elogio.

— Eu até usaria saia, mas infelizmente no nosso setor eles exigem calça de brim pesada — comentou Sara, cruzando os braços com uma ponta de frustração e indignação. — Será que o seu mentor não tem vaga para mais uma funcionária, não? Eu aceitaria o emprego na hora só para mudar o guarda-roupa.

— Acho que você não ia querer o Eli como chefe — brincou Violet, rindo. — Ele te faria ler livros antigos perto da lareira o dia inteirinho.

— Ainda assim, parece melhor do que ficar trancada em um quarto branco o dia todo — rebateu Sara, com um suspiro pesado.

— Todo trabalho tem suas desvantagens — ponderou Violet.

— Isso é verdade, Violet — concordou a agente de laranja, dando de ombros.

— Que bom que vocês duas estão se dando bem — interrompeu Ezequiel, aproximando-se com as mãos nos bolsos e um sorriso brincalhão.

— Ah, pronto! Lá vem você estragar a nossa conversa — resmungou Sara, revirando os olhos.

Os dois jovens começaram a discutir novamente por pura birra, enquanto Violet dava mais um de seus sorrisos contidos, entretida com a implicância mútua da dupla.

+++


​— Eu não irei discutir sobre os nossos métodos, Elijah, mas sim sobre este homem — disse Alaster, sem mais enrolação. — Goji concluiu que ele é de fato um humano, mas não um usuário de magia comum ou um magicis hominibus...

​— Olha, Alaster, já vou adiantando: se você não tiver nada a acrescentar sobre esse homem voador da internet, a nossa conversa acabou — avisou Elijah, impaciente.

​— Tenho sim. Mas, antes, o que trouxe você a este caso, Elijah? — Alaster estreitou os olhos, desconfiado.

​— Na verdade, eu só vim comprar um livro antigo nesta loja de antiguidades. No meio do caminho, soube da notícia pelo rádio — afirmou Elijah, sem gaguejar, sustentando o olhar do outro.

​Alaster o avaliou por um momento, mas decidiu prosseguir:

​— Como eu dizia... Goji concluiu que ele não é um mago. Mas sim um humano cósmico.

​— Humano cósmico? — Elijah soltou uma risada seca. — Isso é ridículo, não existe e não tem graça nenhuma.

​— Nós dois sabemos que é possível. Já existiam lendas de que, a cada duzentos anos, nasce um humano com a capacidade de transcender a magia e alcançar o nível de um Deus.

​— Você acredita em Papai Noel também? — debochou Elijah. — E outra: como o Goji, que nunca sai daquela sala escura e enfadonha, vai saber diferenciar o poder de um mago do de uma divindade?

​— O Goji reconhece assinaturas de entidades a anos-luz de distância no universo, você sabe disso.

​— E, ainda assim, são vocês que são mandados para limpar a sujeira que elas deixam na Terra — rebateu Elijah, implacável.

— Olha, Eli…

— Não me chame de Eli — interrompeu Elijah, com a voz gélida.

Alaster engoliu em seco, pigarreando antes de continuar:

— Claro, me desculpe. Como eu ia dizendo... eu não vim aqui para discutir ou arrumar confusão. Na verdade, a situação é tão grave que qualquer ajuda é bem-vinda.

— Alaster, eu não sou mais a ferramenta que os Protetores do Sol podem mandar para caçar criaturas — rebateu Elijah, dando um passo à frente, diminuindo a distância entre os dois. — Você pode treinar a equipe que quiser, mas, no fim das contas, tudo o que você faz é recrutar adolescentes.

Alaster aceitou o insulto, mas continuou, usando sua última carta:

— Eles podem ser adolescentes, Elijah, mas estão protegidos na nossa base. Já a sua pupila... ela está segura com um caçador solitário? Se o Humano Cósmico descobrir o que ela é, você sozinho não vai conseguir pará-lo.

— Violet está muito mais segura comigo do que estaria na falsa sensação de segurança da instituição — afirmou o mentor. — Você se escondeu por muito tempo em um escritório porque tinha medo de ouvir o canto de uma coruja. Acreditava que, se estivesse indo para a batalha e a ouvisse, seria o sinal de que a sua hora chegou.

O protetor do Sol apenas ficou em silêncio, ouvindo as palavras que agora soavam mais como um fato do que como um insulto.

​— O caso é de vocês. Resolvam-no e depois vão comemorar comendo um churrasco. Aqueles garotos merecem — recomendou Elijah, virando-se de costas para encerrar o assunto.

+++


Alaster voltou para perto de seus ajudantes, disfarçando a tensão e demonstrando sua naturalidade habitual através da postura rígida.

— Prodígios, vamos! — ordenou com sua voz firme, sem dar espaço para questionamentos.

Os jovens entraram em formação rapidamente e o seguiram em direção ao veículo laranja. Antes de entrar no carro, contudo, Sara olhou rapidamente para trás e viu Violet e Elijah juntos na calçada, imóveis, observando o grupo partir.

Violet esperou o mentor se aproximar e, assim que abriram as portas do carro, ela quebrou o silêncio:

— Do que vocês estavam falando?

— Nada do que nós não soubéssemos — respondeu Elijah em um tom calmo, girando a chave na ignição.

— O que faremos agora? — perguntou ela, olhando para a loja de antiguidades que ficava para trás.

— Vamos para casa.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!