Violência Nem Sempre É A Solução
23 Capítulo 23 - Dia perfeito
Notas iniciais
— Para onde você está me levando? – eu perguntei ao Will
— É surpresa, cachinhos dourados! Hey! Não tire a venda! Deixa de ser curiosa! – ele brigou
Era loucura eu ter topado sair com o Will escondida. Apenas Aquiles havia me visto sair do palácio com o Will e nós o fizemos prometer que não ia contar a ninguém. A esta altura, Camila e Alice já deviam ter pirado com o meu sumiço e o meu tio Robbie devia estar montando uma equipe de resgate para me procurar. Claro que eu não queria preocupar ninguém, mas eu não consegui dizer não ao Will quando ele pediu que eu fugisse sorrateiramente do palácio com ele, sem dizer para ninguém onde íamos, pois afinal, eu não sabia para onde íamos, ele havia dito que era surpresa e tinha posto uma venda nos meus olhos. Confesso que eu odiava ficar de venda. Não poder ver nada era um dos piores castigos para mim, mas ele queria me fazer uma surpresa. Eu não podia estragar tudo. Ele me puxava pelas mãos e me guiava até um lugar que eu não fazia ideia de onde era. Eu sentia o cheiro de diversas flores diferentes e a brisa gostosa de final de primavera, o que devia significar que estávamos em um campo.
— Falta muito? – eu perguntei em um misto de agonia e ansiedade
— Não. Apenas dois passos. – Will brincou
Depois que dei os dois passos, levei as mãos às amarras da venda, mas Will me poupou desse trabalho e as tirou para mim. Meus olhos se arregalaram e eu sufoquei um grito histérico enquanto abraçava ao Will. Diante de nós havia simplesmente, uma toalha estendida no chão com uma jarra de suco de morango, bolo de chocolate, uma tigela de frutas e um prato de brigadeiros, além de um prato com sanduíches de patê de atum e mistos-quentes cortados em forma de coração. Era a coisa mais fofa, meiga e bonita que alguém já havia feito para mim em toda a minha vida.
— Obrigada Will! Você é o melhor namorado do mundo! – eu exclamei enchendo-o de beijos
— Mas quem disse que acabou? Vem cá! – ele disse me puxando pelo braço
Ainda tinha mais? Será que tinha como ficar melhor? Will tirou um canivete de dentro do bolso e parou diante de um belo carvalho que fazia sombra para o nosso piquenique.
— O que você vai fazer? – perguntei preocupada – Você sabe que uma ninfa vive nessa árvore não é?
— Sei. Ela foi dar um passeio e me deixou fazer o que vou fazer. Ela é a única ninfa que segue os caminhos de Afrodite. Dizem até que ela foi criada pela própria deusa. É a “árvore dos apaixonados”. Segundo o que sei, ela muda com o tempo, conforme nos apaixonamos por pessoas diferentes. Está vendo as marcas no tronco dela?
Realmente, em todo o tronco da árvore, haviam corações entalhados na sua madeira com as iniciais dos apaixonados dentro. Habilidosamente, Will entalhou um coração no espaço que sobrava no tronco e escreveu as letras “L e W” dentro. O “L” pareceu tremeluzir de leve e se transformar em um “S”, mas era impossível. Só podia ser uma ilusão de ótica, um truque da minha mente.
— E agora? Eu não mereço nada por isso não? – Will disse agarrando minha cintura
Eu sorri, puxei seu rosto para perto do meu e o beijei apaixonadamente. Então, de repente, eu ouvi o som de um galho se quebrando. Eu o larguei, assustada, e procurei quem teria feito aquele som. Havia uma mulher com a pele levemente esverdeada e os cabelos e olhos cor de mel, parada diante de nós. Enfeitando seu cabelo, havia uma coroa de flores e ela usava um vestido que parecia ser feito com a folhagem do carvalho. Seus pés estavam descalços e um sátiro abraçava a cintura dela.
— M-me desculpe moça, ou melhor, senhorita ninfa. – eu disse meio sem graça
— Não precisa se desculpar garota. – a ninfa disse sorridente – Quem devia pedir desculpas seria eu, por atrapalhar vocês dois. Meu nome é Penélope e este é Thiago, meu namorado. Sou a ninfa desse carvalho aí.
— Eu sou Lana e esse é o William, meu namorado.
— Escutem, vocês querem nos acompanhar em um piquenique? – Will perguntou gentilmente
— Eu adoraria! – Thiago, o sátiro, disse – O que você acha Penny?
A ninfa assentiu e sentou conosco na toalha do piquenique. Enquanto eu e Will nos servíamos com os sanduíches e o bolo, Penélope e Thiago comiam as frutas da tigela e bebiam o suco de morango. Depois de comermos, começamos a conversar e eu só fui me lembrar de que o tempo estava passando, quando vi o céu se tingir com um leve tom
alaranjado e o sol se pondo no horizonte.
— Will! – eu exclamei me levantando em um pulo – Já é pôr do sol! Eu preciso ir para o palácio! As meninas devem estar desesperadas me procurando!
Despedimos-nos de Penélope e Thiago e apostamos uma corrida de volta para o palácio. No meio do caminho, Will me agarrou pela cintura e me jogou nos seus ombros fazendo com que eu me assustasse e caísse no riso, enquanto batia de leve nas suas costas e pedia que ele me soltasse. Foi só quando ele viu a cara furiosa do meu tio e de Richard que ele me pôs no chão.
— Oi tio Robbie! Oi Rick! – eu disse animada
— Do que você nos chamou? – Richard disse levantando uma sobrancelha
— De tio Robbie e Rick. Eu me lembro de minha mãe chamar seu pai assim e a tia Kate te chamava de Rick, assim como a Alice.
— Onde você estava!? – meu tio perguntou preocupado – Da próxima vez, me avise para onde vai!
— Eu só saí com o Will! Não foi nada demais! E eu avisei a Aquiles que eu estava saindo!
Richard parecia querer fuzilar o Will com os olhos e este, apenas retribuía o olhar de desprezo infinito. Parecia que a qualquer momento, um podia pular no pescoço do outro. Percebendo isso, meu tio o puxou para dentro e deixou que eu e Will nos despedíssemos. Will me deu um beijo na testa, um abraço apertado e disse para eu me cuidar antes de sair correndo para o vilarejo onde morava.
— Dê lembranças à Jessie! – eu gritei para ele antes que ele desaparecesse em meio às casas
Assim que pus o pé para dentro do palácio, Camila e Alice começaram a me encher de perguntas.
— Onde você estava?
— Por que demorou tanto?
— Queria deixar a gente louca é? Não deixou nem um bilhete!
— Por que não nos avisou que ia sair?
Eu fiz com que elas me seguissem até o meu quarto e me joguei na cama, enquanto elas me olhavam, furiosas.
— Não vai responder nossas perguntas não, mocinha? – Alice ironizou
— Eu estava em um piquenique com o Will, um sátiro e a ninfa da “árvore dos apaixonados”. Demorei porque perdi a noção do tempo e não avisei nada porque o Will me pediu isso. – eu expliquei
— Isso explica porque você está tão arrumada assim! – Camila brincou – Cabelo arrumado, vestido bonito e unhas feitas.
Isso era verdade. Eu só me arrumava tanto assim, quando ia sair com o Will ou quando ia para uma festa. Fora isso, eu preferia usar apenas calças de moletom e camisetas largas e confortáveis. Meu cabelo vivia desarrumado e minhas unhas demoravam muito tempo para ver esmalte. Mas nesse momento, eu usava um vestido branco de babados com estampa floral e um cintinho fino na cintura. Minhas unhas estavam pintadas no estilo francesinha e o meu cabelo estava solto, mas penteado para um lado só.
— Aposto que quando vocês duas estavam na Terra, os meninos só ficavam de olho em você, hein Lana! – Camila zoou
— Nem era assim. – Alice disse em um tom mais sério – A Lana usava óculos e roupas de nerd. Nós tentamos ajudar ela a se vestir direito e conseguir um namorado, mas quando o garoto mais bonito do colégio a pediu em namoro, ela recusou e disse que preferia ficar sozinha.
— Eu disse aquilo porque ele só queria namorar comigo por interesse! – eu disse em minha defesa
Ficamos discutindo durante um bom tempo até que Oliver nos chamou para jantar. Depois de um bom banho e de um jantar maravilhoso eu me joguei na minha cama e fiquei pensando naquele carvalho e no coração que Will havia entalhado. Será que tinha sido mesmo uma ilusão de ótica ou aquele “L” tinha se transformado mesmo em um “S”? Fiquei pensando nisso até que finalmente caí no sono.
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