Violência Nem Sempre É A Solução

11 Capítulo 11 - Salvar e ser salva.


Notas iniciais
Desculpe o atraso. É que eu tive uns impresvistos aqui em casa, mas aí vai um novo capítulo!

Acordei desesperada. Meus pulmões ainda ardiam e eu tentava desesperadamente enchê-los de ar novamente. Respirei fundo várias vezes e depois relaxei, ofegante. Aos poucos minha respiração e os meus batimentos cardíacos voltaram ao normal. Abri os olhos bem devagar e me vi frente a frente com um garoto moreno, de cabelos cacheados e olhos cor de chocolate. As roupas dele (uma camisa branca com mangas compridas e uma bermuda marrom) estavam encharcadas, ele estava descalço e me olhava preocupado.

— Graças aos deuses você está viva! – ele suspirou aliviado – Por um segundo achei que a tinha perdido para a Morte! Nossa! Você está tremendo de frio!

Ele tinha razão. Por estar toda molhada e a água estar extremamente gelada, eu tremia de frio. A brisa congelante e o meu cabelo encharcado também não ajudavam muito. Meus dentes batiam de frio e eu mal conseguia sentir a ponta dos meus dedos. O garoto pegou um pano escuro, parecido com uma capa e lavou-a até mim, me cobrindo com ela. Ele sentou-se ao meu lado e pôs a mão na minha testa.

— Nossa! – ele disse espantado – Você está queimando em febre! Eu preciso lhe arrumar uma toalha, senão você vai acabar pegando uma pneumonia!

— Q-quem é v-você? – eu gaguejei batendo os dentes

— Ah! É mesmo! Desculpe-me! – ele disse se levantando e parando na minha frente – Meu nome é William. William Jones Rocco.

Foi então que percebi que no braço dele havia um corte. Um corte grande, profundo e que ainda sangrava. Eu o puxei para o meu lado e peguei o braço direito dele (o que estava machucado).

— Hey! Espera aí! O que vai fazer!? – ele disse puxando o braço

— Confie em mim! – eu pedi olhando nos olhos dele – Talvez doa um pouco, mas qualquer coisa é só pedir que eu pare, tudo bem?

Ele hesitou um pouco, mas no final acabou assentindo e me deu o seu braço machucado. Eu rasguei um pedaço da barra do meu vestido e o torci para tirar o excesso de água. Levantei a manga da camisa dele até o ombro e sequei o sangue com o pedaço de tecido que eu tinha na mão. Devagar e com cuidado, eu pus a minha mão no corte. William sufocou um grito e me olhou suplicante. Eu fechei os olhos e deixei que meu poder fluísse para as minhas mãos, curando o corte que havia no braço dele. Faíscas douradas ainda dançavam sobre a sua pele quando eu abri os olhos.

— M-muito obrigado! – ele disse sem jeito – E-eu não sei nem como agradecer! E pensar que eu confundi você com uma serva de Afrodite!

Eu sorri. Aquele garoto havia em salvado. Eu não sabia exatamente como, mas era óbvio que ele pulara na água e lutara com o monstro.

— Como me encontrou? – perguntei

— Ouvi seus gritos e os segui. Eu estava tentando pegar uma coruja branca para a minha irmã, mas não dei sorte. Quando a ouvi gritar, eu corri para cá, mas o monstro já estava entrando na água com você. Eu corri para ver se conseguia pegá-lo antes que ele entrasse completamente, mas não consegui. Por sorte, seu arco e sua aljava estavam no chão e eu disparei três flechas contra ele. Só duas acertaram. – ele contou

— A outra passou de raspão pela minha cabeça. – eu disse pensativa – E o monstro? Morreu?

— No início achei que sim, mas assim que eu pulei na água para te resgatar, ele tentou me pegar pelo braço usando a pinça. Eu consegui escapar, mas ganhei um corte profundo. A sorte foi que quando eu pulei na água, eu levei a minha espada junto e foi com ela que eu fiz o monstro virar pó. Aí eu trouxe você aqui para cima e fiz com que expulsasse toda a água dos seus pulmões. – ele terminou – Mas... O que veio fazer aqui?

— Um garotinho pediu ajuda. Disse que o pai havia sumido e que tinha vindo para cá. Eu vim ver se o encontrava.

— Sozinha?

— É. Minha prima e o meu pégaso queriam vir também, mas eu não deixei.

— Posso te fazer uma pergunta?

— Claro! Agora é a sua vez. Eu já perguntei muito.

— Qual é o seu nome?

— É Lana. Lana... – hesitei um pouco em dizer meu sobrenome -... Shane Johnson.

Eu esperei para que ele gritasse, fugisse ou dissesse que eu era uma mentirosa, mas ao invés disso, ele só disse:

— Então você é a famosa Lana?

— Famosa? – perguntei confusa

— Meus pais falam muito de você e a Jessie também. Aquele pégaso... O Bluesky... Ele é seu, não é?

— É sim. Ele lhes deu trabalho, não foi?

— Não. Ele só não pareceu gostar muito de mim. Ele não deixou de jeito nenhum que eu o montasse. Ele é engraçado. É o primeiro pégaso saudável que eu vejo. Ele não gosta de torrões de açúcar e é viciado em maçãs.

— É. Percy falou isso.

— Percy?

— É um amigo meu. Ele é lá da Terra, assim como eu. Ele adora cavalos e é bem parecido com o Igor.

Olhei para o horizonte, pensando nos meus amigos. Gwen, Ben, Kevin, Annabeth, Percy, Julie e Larry. Eu sentia falta deles. Muita falta. Eles eram os únicos que me entendiam, que estavam comigo a todo o momento e que me ajudavam a resolver os meus problemas. Então eu vi algo se mexer na água. Levantei-me em um pulo e busquei uma arma. Não havia nenhuma.

— O que foi Lana? – William perguntou preocupado

— Algo se mexeu na água. Eu vi! – eu murmurei

O “algo” parecia se aproximar de nós. Eu não pude ver muito bem o que era até “ele” parar a cinco metros de nós. Era uma jovem de cabelos negros e olhos verdes. A pele dela era quase transparente e ela vestia uma túnica larga e azul.

— Quem é você? – perguntei desconfiada

— Acalme-se. Sou uma Náiade. – ela explicou – A ninfa deste rio que corre a poucos metros de vocês. Meu nome é Ester. (N/A.: pus esse nome dela porque significa “estrela” e há estrelas- marinhas no mar, certo?)

— Onde EXATAMENTE você estava? – William perguntou desafiadoramente

— Aquele monstro me mantinha prisioneira no fundo do rio, junto com os ossos e restos das coisas que ele comia. Tentei me libertar várias vezes, mas ele sempre conseguia me pegar de novo. – ela disse calmamente – Eu queria lhe agradar por tê-lo matado e me libertado daquela prisão.

A Náiade desapareceu rapidamente e reapareceu, segundos depois com meu arco, minha aljava, minha adaga, a espada de William e algo brilhante, parecido com o chifre do monstro. Ela me devolveu as armas e parou em frente a William.

— Recompensa de batalha. – ela disse entregando a coisa brilhante nas mãos dele – É o chifre do monstro. Ele é feito de diamantes e é ótimo para mandar mensagens de Íris. Agora eu preciso ir! Adeus!

Novamente ela desapareceu, mas dessa vez ela não voltou. Lembrei-me de que tinha prometido a Camila que eu iria buscar as coisas dela em sua antiga casa.

— William. Você sabe onde os Caster moravam? – perguntei

— Era em um vilarejo aqui perto. – ele disse – Mas se você quer ir lá, precisamos atravessar a Floresta Proibida
novamente.

A ideia não me agradava muito, mas de qualquer forma nós teríamos que atravessá-la senão, como íamos voltar para casa?

— Então vamos logo! Tenho a impressão de que depois do pôr do sol essa floresta fica mais sinistra. – eu disse andando na frente

William veio logo atrás. Ele queria ir na frente e me proteger do que tivesse naquela floresta, mas eu não deixei. Eu sabia me proteger sozinha e eu ia mostrar isso a ele.

Quando chegamos ao meio da floresta, duas dracaenaes apareceram no nosso caminho. De início, me assustei um pouco ao ver as duas caudas de cobra que ambas tinham, mas ao ver William desembainhar a espada, eu relaxei.

— Vocêsss acham que vão aonde? – elas sibilaram – Vocêsss sssó vão passsssar por nóssss ssssse nossss matarem primeiro!

— Com prazer! – eu disse avançando com a adaga em punho para cima de uma delas

O primeiro golpe que dei, foi defendido pela dracaenae usando a espada que ela tinha. Ela tentou me derrubar com uma de suas caudas de serpente, mas eu pulei e cortei o seu braço. Ela urrou de dor e tentou me atacar novamente, mas eu fui mais rápida e a desarmei fazendo com que a espada voasse para cima. Peguei a espada no ar e desferi nela um golpe mortal, que a fez virar uma pilha de pó dourado. Sorri e olhei para o lado. William não ia muito bem. Pelo que pude observar, era ele que estava levando a pior. Subi na árvore mais próxima e armei meu arco com uma flecha de bronze celestial. Mirei no peito da dracaenae e disparei. William deu um pulo para trás, assustado, quando a flecha se cravou no peito da dracaenae e a transformou em uma pilha de pó dourado. Em pânico, ele olhou para a árvore onde eu estava.

— C-como você fez isso!? – ele gaguejou enquanto eu descia da árvore – Isso foi incrível!

— Sou de Apolo, esqueceu? Deus dos arqueiros. – eu respondi transformando o arco nos dois anéis novamente – Agora vamos! O tempo passa depressa!

Depois de mais uns sem passos, eu ouvi o sibilo de uma cobra próximo a mim. Por um minuto, achei que eram mais dracaenaes, mas então três basiliscos pularam na nossa frente. Eu soltei um grito apavorado e recuei rapidamente.

— Você tem medo de cobras? – William perguntou

Eu assenti assustada. Vamos rever o que aconteceu comigo só hoje: fui quase expulsa do templo de Apolo, recitei uma profecia que não conhecia, ganhei um novo título, fui atacada por um mostro marinho gigantesco, quase morri afogada, lutei com dracaenaes e agora três basiliscos me encaravam com seus olhares reptilianos. Tinha como ficar pior? Sim, tinha. Um deles levantou-se em sua calda e expandiu a coroa de espinhos brancos. Ele ia atacar, eu tinha certeza disso. Recuei tão depressa que acabei tropeçando em uma pedra que saiu sabe deuses de onde e caí de costas no chão. Na queda, acabei torcendo o pé. Os três basiliscos avançaram rapidamente e eu me desesperei. Eles cuspiram fogo e eu fechei os olhos, esperando o pior. Quando abri os olhos, William estava na minha frente e de algum modo não estava queimado. Os basiliscos cuspiram novamente uma coluna de chamas e ele fez um movimento de espiral e depois empurrão para frente. As chamas retornaram a sua origem, ou seja, a boca dos basiliscos e os pulverizou do mesmo modo que um raio pulveriza uma árvore antiga.

— C-como você fez isso!? – eu gaguejei assustada

— Sou de Hefesto. Controlo o fogo. – ele explicou – Vem, levanta! Temos que ir.

— Bem que eu queria, mas acho que torci o pé. – eu disse ignorando a dor no meu pé – Até eu conseguir curá-lo vai demorar um pouco.

Eu sinceramente não estava querendo ser aquele tipo de garota chata que fica querendo que os garotos façam tudo por elas, mas meu pé realmente doía muito e eu observei que ele começava a inchar também. Eu mesma ia usar o meu poder para me curar, só precisava de um tempinho, mas William me pegou no colo e me levou até a casa dos Caster. Claro que eu protestei dezenas de vezes no caminho e pedi para que ele me colocasse no chão, mas ele me ignorou e continuou em frente.

— Por que você fez isso? – perguntei quando ele me pôs no chão finalmente

— Só quis ser cavalheiro, mas acho que você não gostou né? – ele disse tentando abrir a porta da casa abandonada

— Eu não quero ser mal agradecida, mas você não precisava ter feito aquilo. Eu ainda posso andar como uma pessoa normal quer ver? – eu disse dando um passo a frente e quase caindo no chão por causa da dor

— Estou vendo! – William ironizou – Pode andar tanto que quase caiu no chão ao primeiro passo!

Eu lhe lancei um olhar penetrante, do tipo dos que Annabeth dava a Percy quando ele falava demais. William passou meu braço sobre o seu pescoço e fez com que eu me apoiasse nele.

— Já que você quer tanto andar, deixe ao menos eu te ajudar. – ele disse – Finja que eu sou uma muleta.

Eu ia dizer que muletas não falavam e que até elas lutavam melhor que ele, mas deixei para lá. Ele havia salvado a minha vida duas vezes e eu ainda devia uma a ele.

— O que exatamente viemos fazer aqui? – ele perguntou confuso – Essa casa foi abandonada há dois anos quando Camila foi presa e a família foi assassinada.

— Camila foi solta e mora no palácio com a gente agora. – eu expliquei – Eu prometi que ia pegar as coisas dela antes de voltar para casa. Só estou cumprindo a promessa agora.

— Se são as coisas dela que você procura, temos que ir ao último quarto da casa. Era onde ficava o antigo quarto dela.

William me levou ao antigo quarto de Camila. Ele era todo escuro e sombrio. As cortinas estavam rasgadas e os lençóis manchados de sangue. Parte das coisas dela estava no chão e o guarda-roupa parecia ter sido revirado, como se alguém procurasse algo importante nele. Achei uma bolsa debaixo da cama e me soltei de William. Pulei em um pé só até o guarda-roupa e comecei a colocar as coisas de Camila dentro da bolsa. Quando terminei, vi William tentando pegar uma estatueta que estava no criado mudo. Havia um fio finíssimo e quase transparente amarrado a ela. Era uma armadilha.

— William! Não! – eu disse pulando em cima dele para impedi-lo

— O que foi Lana? Eu só ia pegar a estatueta! O que tem demais nisso? – ele perguntou indignado

— É uma armadilha. – expliquei – Elétrica para ser mais correta. Se você tocá-la, irá ser eletrocutado.

— Como sabe disso?

— Meu pai tem uma dessas. Ele a colocou na porta da garagem, para impedir que os ladrões roubassem as nossas armas. Agora vamos. Seus pais já devem estar preocupados com você.

Eu me levantei e dei a mão para William se levantar. Agora estávamos quites. Ele me salvou duas vezes e eu o salvei duas vezes.

Assim que chegamos a casa dos Rocco, Jessie correu para abraçar o irmão. Eu devolvi a capa a William (a qual eu já tinha até esquecido da existência) e me preparei para ir embora. Para minha surpresa, William disse aos pais que me acompanharia e juntos voltamos para o palácio.

Notas finais
E aí? O que acharam do capítulo e do William?