Notas iniciais
Gostaria de avisar que há muitas linhas em inglês neste capítulo devido à linguagem universal dos sistemas de voo nos aviões.

A multidão que se aglomerava nos portões do aeroporto internacional Afonso Pena fazia parte de uma completa anarquia gerada pelo desespero. Cegos pela esperança de escapar do desastre iminente, muitas das pessoas carregavam consigo molotovs, pedras e facas, que utilizariam assim que o outro ao menos olhasse torto para eles. Os seguranças, alguns policiais e demais funcionários continuavam a proteger as entradas em uma causa perdida. Famílias desarmadas naturalmente ficariam longe do acesso ao interior do aeroporto, já que a maior preocupação delas no momento era manter seus filhos vivos.

Todos os voos haviam sido banidos no país, no entanto, da avenida Rui Barbosa era possível ver os jatos particulares decolando, entre eles havia um Embraer 195 que Fernando Chaves iria pilotar naquela noite. Seu copiloto, Salvador Aguiar, fazia o que podia na cabine da aeronave enquanto Fernando observava o ônibus de embarque se aproximando com os passageiros daquele voo, todos com o medo e a falta de esperança em seus rostos. Havia apenas uma escada móvel proporcionando o acesso ao interior do avião, o que os atrasava ainda mais, além disso, havia uma comissária de bordo instruindo os passageiros. Não se podia carregar as malas e pertences ao compartimento de carga, por isso todos que embarcariam teriam de carregar apenas o que pudessem consigo mesmos.

Para o piloto, tudo aquilo era surreal. Apenas três dias antes estava fazendo um de seus voos de rotina entre Curitiba e Porto Alegre, transportando passageiros com objetivos variados até que todos os veículos de comunicação passaram a notícia de que um asteroide estava a caminho, e que iriam tentar contê-lo enquanto preparavam evacuações para áreas seguras. O presidente, assim como os líderes de cada país, discursaram pela televisão; e policiais e soldados apareciam nas ruas, instalando barricadas e contendo confusões.

No segundo dia todos os sinais de ordem já se desintegravam enquanto governos inteiros eram desligados, deixando apenas uma mensagem para que todos continuassem em suas casas, pois não haveria nenhuma forma de segurança nas ruas... E todos aqueles que mantinham o mundo funcionando costumavam preferir estar com a sua família do que trabalhando. Alguns jornais na TV resistiam, e foi quando nomearam o asteroide: Kûarasy, tupi para a divindade do Sol, pois seu impacto seria na costa brasileira, e seu brilho ao penetrar a atmosfera seria tão intenso que todos que poderiam vê-lo diretamente ficariam cegos de imediato.

Por fim, os mísseis intercontinentais, tanto russos quanto norte-americanos, falharam em desviar a rota da rocha do tamanho de uma pequena cidade que acelerava à medida que se aproximava da Terra, e as buscas pelos bunkers do governo disparavam entre os cidadãos, usando quaisquer meios para se tornar um de seus hóspedes. No entanto, tais instalações nunca ficariam prontas a tempo, e os políticos de Brasília que as encomendaram morreriam pela burocracia que ordenhou a população do país por tanto tempo. Quem iria disputar uma licitação? Do que adiantariam as propinas? E quais trabalhadores iriam estar dispostos a morrer em garantir a segurança de quem sempre se enriqueceu com o dinheiro de outros? Não haveria nenhum bunker nesse país. Tudo o que restava eram rumores e aguardar a morte, ou ir o mais longe possível do impacto, e Fernando era um daqueles que possuía um método de transporte mais rápido do que qualquer veículo nas estradas.

Fernando estava prestes a fechar a porta frontal da lateral do avião quando viu um funcionário separar a escada de embarque e levá-la para longe da aeronave. Não apenas aquele rapaz estava sacrificando o seu lugar no veículo, mas também fazia o seu trabalho apesar das circunstâncias, protegendo a aeronave e todos à bordo de algum risco de colisão. Não havia nada que o piloto pudesse fazer, e por isso, fechou e trancou a porta diante do olhar de insegurança da comissária.

“Atenção”, disse ele em um tom rígido para os passageiros, “iremos decolar em alguns minutos e tentar nos distanciarmos o máximo possível dos efeitos do impacto, como capitão, decidi tentar pousar em Lima. Lá, nós estaremos a uns quatro mil quilômetros da costa brasileira. O voo vai durar em torno de sete a oito horas. Estejam sempre com os cintos afivelados, e prestem toda a atenção no procedimento em caso de pouso de emergência... É bem provável que teremos que fazê-lo.”

Fernando não queria ficar ali para olhar a expressão nos rostos de seus passageiros, então assim que terminou sua fala tratou logo de dar as costas e trancar a porta da cabine assim que entrou. Aguiar parecia tenso, mas tentava ao máximo manter sua atitude profissional, procurava focar nas checagens antes do táxi.

“Algum problema lá atrás?”, perguntou o copiloto.

“Ainda não. Não conseguiu contato com ninguém?”

O capitão finalmente sentou-se em sua poltrona e colocou os cintos. Olhou para o seu relógio de pulso e passou a configurá-lo, logo depois verificou as telas e a fazer a checagem de rotina nos painéis.

“Apenas com um jato indo para a Argentina. Os céus estão em silêncio, tem rumores de alguns radares ainda funcionando, mas a grande maioria está cega.” Aguiar deu uma pausa, e então continuou, em um tom diferente. “Não gosto desse plano, Chaves. Temos muita mata fechada até Lima.”.

“Motor um.” Respondeu Fernando. “Não temos escolha, amigo. É isso ou morrer aqui, pelo menos mantemos um pouco de esperança para as famílias que estão com a gente.”.

“APU... Desligado. Anti-ice, tudo certo.”

“Controle?”

“Check.”

“Flaps?”

“Dez.”

“Spoilers acionados.”

“Esquerda livre.”

“Direita livre.”

“Motor dois.”

O avião lentamente se movia em direção à pista quando o copiloto freou a aeronave de repente, surpreendendo o capitão. Um Cessna 172 cruzou o nariz do Embraer, decolando de forma amadora assim que conseguiu velocidade suficiente.

“Meu Deus do céu...”

“Continue até o final.”

Assim que a aeronave chegou ao começo da pista com o número 33 pintado em seu início, manobrou em um 180º até estar alinhada novamente com a mesma. As luzes da cidade ainda brilhavam intensas, e agora os pilotos podiam ver fumaça e fogo vindo do terminal de embarque.

“É agora... A torre está apagada. Vamos torcer para que não tenha nenhum imbecil no meio da pista.” Disse Fernando.

A aeronave passou a acelerar, se movendo sobre a pista como se aquela fosse uma decolagem assim como todas as outras que já fizera. Os dois pilotos se preocupavam sem qualquer tipo de orientação da torre de controle, que se encontrava totalmente vazio. Tudo o que queriam era não esbarrar em alguma aeronave de menor porte tentando taxiar para a pista enquanto passavam dos oitenta nós.

“V1.”, disse Aguiar.

“Rotação.”

Passados alguns segundos, o nariz do avião se elevava até estar a uma certa distância do chão, finalmente estavam no ar em direção ao sudeste, completaram a curva para o noroeste e então estabilizaram, de onde os passageiros podiam agora olhar para o centro de Curitiba, com a aeronave em uma altitude baixa o suficiente para se ver os veículos sem rumo procurando uma maneira de sair da cidade, além das barricadas e dos focos de incêndio. Helicópteros privados pareciam ir e vir do topo dos prédios.

Chaves e Aguiar continuavam seu ritual, checando os equipamentos por possíveis erros e tentando estabelecer contato com algum tipo de controle, no entanto, tudo o que conseguiam ouvir eram chamados de outras aeronaves que também voavam às cegas. Após um pouco mais de uma hora no ar, já se encontravam voando sobre Maringá a mais de cinco mil e setecentos metros do solo, a uma velocidade de setecentos quilômetros por hora. Aguiar pilotava o avião no momento, por isso Fernando destravou o cinto de segurança e levantou-se do seu assento, “vou checar como estão os passageiros”, disse ele. O copiloto acenou com a sua cabeça em confirmação.

O barulho da porta da cabine se abrindo atraiu os olhares da maioria dos passageiros, que esticaram suas cabeças para olhar em direção a Fernando, esperando más notícias. A comissária de bordo, Luana, se aproximou do capitão, e lhe entregou uma prancheta: o avião, com capacidade para cem pessoas, estava carregando apenas vinte e sete. Uma voz no fundo com a sentença “está tudo bem, capitão?” foi o gatilho para dezenas de perguntas semelhantes de vários outros passageiros. Sabia que não podia demonstrar a sua falta de confiança no espaço aéreo sem qualquer tipo de regulação, porém também não poderia afirmar que tudo estava indo bem, pois seria uma mentira óbvia.

“Estamos voando sem nenhum contato com os aeroportos ou os radares, estamos dependendo do contato visual e dos sistemas via satélite. Há outros aviões na mesma situação, e estamos nos coordenando para que não haja nenhum risco de se aproximarmos muito uns dos outros.”

Um rapaz calvo aparentando estar em seus quarenta anos deixou sua poltrona e caminhou até Fernando, era um típico pai de família, pele escura vestindo uma camiseta polo laranja, a poltrona ao lado da sua havia uma mulher em torno da mesma idade, segurando a mão de uma garotinha de nove anos, com um arco branco em seus cabelos escuros. A comissária de bordo também se aproximou em uma preocupação com a segurança do piloto, porém acalmou-se ao perceber que o homem não parecia ser uma ameaça.

“Temos combustível para chegar até o Peru?”, perguntou. A expressão do rapaz era a de quem não queria preocupar as demais famílias a bordo, porém a preocupação com a sua própria família o forçava a fazer tal pergunta.

“Temos mais do que o suficiente. Estamos de tanque cheio só para o caso de não conseguirmos pousar na primeira tentativa. Fique tranquilo que iremos fazer tudo o que pudermos, só peço que fiquem em seus assentos e fiquem em alerta para qualquer uma das luzes do painel.” Fernando então apontou para o ícone, em especial o de apertar os cintos, e então voltou à cabine.

O avião passou a subir até estar em dez mil metros de altitude onde havia uma menor resistência do ar. Quando Fernando entrou na cabine, ouvia uma voz desconhecida do rádio, com quem Aguiar se comunicava, mais um dos inúmeros aviões que tentavam fazer o mesmo caminho. O capitão sentou-se e colocou os cintos, esperando em silêncio até que o seu copiloto terminasse.

“Acabei de ter uma conversa com um piloto de um Learjet.” Contou Aguiar. “Combustível vai levá-lo até a Bolívia, mal conseguiu chegar ao aeroporto. Disse que as ruas estão tomadas por pessoas tentando escapar de alguma forma, mas também há muita gente se comendo, se matando.”.

“Tivemos sorte em sair a tempo de CWB. Se ficássemos lá por mais alguns minutos, aquele grupo provavelmente tentaria sabotar o avião pra poder entrar.”

Um dos vários silêncios momentâneos que aconteciam naquela cabine desde a decolagem se instalou por alguns minutos até que Fernando o quebrou, meio que inconscientemente ao estar com seus pensamentos em outro lugar.

“Você tem família?”

Aguiar, pego de surpresa, levou alguns segundos para responder.

“Minha esposa está com a minha sogra. Eles moram no interior, em uma chácara... Em Santa Catarina... Talvez as montanhas ajudem a proteger do calor... E você?”

“É quase a mesma coisa, família toda reunida... Meu filho e minha esposa estão com os avós. Tentei trazê-los comigo, mas... As estradas são inúteis...”

“É, eu... Tive a mesma situação... Olha, acho que precisamos nos focar nisso aqui, eu sei que é difícil, com tanta coisa em mente, mas temos várias famílias aqui atrás, e... Pelo menos por eles a gente pode fazer alguma coisa.”

“Não, eu sei disso... Eu sei.”

"Aguenta firme, amigo."

Mais vozes distantes ecoavam no canal de comunicação, porém ambos não respondiam à elas. Fernando checou o relógio e viu que dentro de uma hora, pelo menos segundo a última previsão, ocorreria o impacto. As primeiras cidades a serem atingidas seriam Arraial do Cabo, Búzios e Cabo Frio, no estado de Rio de Janeiro, todas seriam totalmente arrasadas do mapa por ondas de calor, poeira superaquecida, ondas de choque, terremotos e, finalmente, inundadas por megatsunamis.

Enquanto trabalhavam em silêncio, um som ensurdecedor os pegou de surpresa, berrando para chamar toda a atenção possível dos tripulantes: era o próprio sistema da aeronave.

TRAFFIC. TRAFFIC.

Os dois pilotos pularam no susto, seus olhos escaneavam os instrumentos, enquanto a voz automatizada e feminina continuava o alerta. Aguiar olhou para a janela e viu luzes de navegação no horizonte, quase em paralelo com o Embraer, parecia distante, porém sabia que nessas situações nada era o que parecia.

CLIMB. CLIMB.

Com o piloto automático desativado, Fernando colocou as suas mãos no manete da aeronave e, com cuidado, o puxou para si. Na tela logo à frente conseguia ver a direção para onde estava guiando a aeronave, no entanto, o sistema continuou a ordená-los.

INCREASE CLIMB. INCREASE CLIMB.

“Vamos lá...” Murmurava Aguiar enquanto Fernando subia ainda mais.

ADJUST.

Fernando estabilizou a aeronave, levando-a a ficar reto com o horizonte novamente. Para a felicidade dos dois, as tão esperadas palavras daquele mesmo sistema surgiram após alguns segundos.

CLEAR OF CONFLICT.

“Consegue ver ele?” Perguntou Fernando, soltando a respiração que havia segurado no momento de insegurança.

“Estava vindo pelo sul, deve ter passado por baixo de nós e deve estar aparecendo na sua janela a esse ponto.”

Sentiu um frio na barriga ao soltar os cintos para olhar para baixo através da janela, o avião que quase havia se chocado contra eles estava muito mais perto do que imaginava e seguia quase a mesma direção que seu avião, apenas alguns graus de diferença e lentamente se distanciando. Apesar da escuridão, conseguiu identificar a aeronave como um 737 branco com manchas alaranjadas, parte de alguma companhia aérea. Mais de seis minutos se passaram com a dupla tentando contatar o 737, porém não houve qualquer resposta. O avião que conseguiam olhar pela janela tinha uma capacidade para até duzentas pessoas, e mesmo assim não conseguiam falar com apenas uma delas.

Os minutos se passavam e o avião lentamente se distanciava, com aquele 737 em sua janela, Fernando não conseguia parar de pensar no caso de um voo grego onze anos antes quando toda a tripulação e os passageiros simplesmente ficaram inconscientes até que o combustível acabasse e a aeronave impactasse o solo matando todos a bordo. Uma morte sem dor. Não conseguia deixar de pensar que aquele avião estivesse despressurizado diante do nervosismo durante as preparações para o voo naquelas circunstâncias, sabendo que a morte era provavelmente certa independente do que se fizesse...

Foi então que se sentiu paralisado ao perceber: Seria induzir hipóxia em todos a bordo o objetivo daquele voo à sua frente?

Vários minutos se passaram e os dois aviões se encontravam sobre o Mato Grosso do Sul quando o alarme do relógio de pulso do capitão invadiu o silêncio na cabine. Aguiar olhou para o dispositivo e então para Fernando, a expressão em seu rosto já lhe contava o motivo pelo qual o alarme de seu relógio disparava, a impressão que tinham era a de que o som ficasse cada vez mais abafado, e como se o tempo ficasse mais devagar. O céu ficou ligeiramente mais claro, porém não conseguiam ver nada a sudeste, dada a direção em que o avião seguia. Fernando checou o 737 fantasma apenas para perceber que ele agora se distanciava ao oeste e perdia altitude, provavelmente devido à falta de combustível.

Luana bateu na porta da cabine e a abriu, com seus olhos avermelhados de como quem tentava o máximo evitar o choro, sua voz se distorcia diante da sentença ao gaguejar.

“Os passageiros... Estamos vendo uma luz ao sudeste.”

“Aconteceu.”, disse Aguiar.

Era isto. Aquele era o momento. Toda a civilização humana, toda a sua vida até aquele momento, todas as suas emoções, a sua família, tudo o que via naquela cabine, tudo aquilo chegaria ao fim. Não era mais uma situação que se podia aliviar por mentir à si mesmo, de que poderia acordar, de que tudo não passava de um pesadelo. Aquilo estava acontecendo, e se achou um trouxa por pensar que alguma coisa seria diferente da realidade, foi bombardeado pelo fato de que a existência de milhões de pessoas era destruída naquele momento de tal forma como se nunca tivessem existido. Retomou o controle sobre o que sentia, tudo o que podia fazer agora era o seu trabalho.

“Luana, volte e use o cinto. Diga à todos pra usar o cinto, se preparem pra qualquer coisa! Faça tudo como o treinamento diz!”, exclamou Fernando, seus olhos novamente checando as telas no painel de instrumentos.

Doze minutos: foi esse o tempo que tiveram até que o cataclismo os atingisse, mesmo estando a uns mil e novecentos quilômetros do ground zero. Os gritos dos passageiros atrás da porta já eram audíveis, além do barulho enquanto o avião sacudia, Fernando e Aguiar olhavam para a janela e viam que o céu, antes limpo, agora era tomado por uma névoa marrom com pequenas partículas que brilhavam como vaga-lumes.

“Estamos mergulhando!”, gritou Aguiar ao perceber o movimento do avião. Fernando retomou o controle da aeronave e tentava corrigir, porém algo parecia empurrar o Embraer para baixo.

“Mantenham a cabeça baixa! Baixa!”, gritava Luana logo atrás da porta para os passageiros. Não apenas gritos, mas também o choro das crianças a bordo ecoava pela aeronave. Já na cabine, o painel brilhava em vermelho e amarelo quando um som que lembrava o toque de um telefone a disco dos anos oitenta começava a somar ao caos da situação. Aguiar não sabia se prestava mais atenção no livro de procedimentos rápidos em seu colo ou no painel que se acendia a cada novo alarme.

“Fogo no motor direito!”, disse Aguiar.

“Corte o combustível!”

O alarme parou, porém foi até o mesmo retornar. Para o desespero dos dois, o segundo motor agora estava em chamas, e assim que Aguiar cortou o combustível alimentando o motor esquerdo, não conseguiam mais ouvir o barulho dos mesmos: estavam sem nenhum impulso. E agora, sem os motores, a pane elétrica desligava todas as luzes do avião.

“Perdemos eletricidade.”

“A.P.U!”, disse Fernando, Aguiar iniciou a fonte auxiliar, vocalizando o mesmo nome técnico como confirmação.

Aguiar começou a transmitir pelo rádio, sabia que pedir ajuda era em vão, porém ao menos poderia avisar para quem estivesse ouvindo o destino daquela aeronave: “Mayday! Mayday! Mayday! Aqui é Azul 2853! Perdemos os dois motores!

“Algum aeroporto por perto?!”, perguntou Fernando. Aguiar, já esperando aquela pergunta, logo respondeu ao olhar para um mapa. Fernando então passou a despejar todo o combustível que ainda tinha, já prevendo uma explosão ao pousar.

“Já passamos Campo Grande... Aquidauana é muito pequeno... Temos Corumbá!”

“Okay, vamos tentar Corumbá.”

“Consegue ver? Não consigo ver nada!”

Fernando estava ficando cada vez mais ansioso. Para se alinhar com a pista de Corumbá, teriam de fazer uma curva para o oeste, no entanto, haviam pouquíssimas chances de conseguirem se alinhar totalmente em tão pouco tempo. O avião, mesmo sem impulso, agora fazia a curva para a pista de Corumbá, e o vento vindo do leste estava forte demais para manter tudo sob controle.

“Consigo ver a pista! Estamos muito rápido!”

FIVE HUNDRED.

O nariz do avião apontou para baixo por alguns segundos, e então para cima. A comissária continuava a gritar as instruções de emergência para os passageiros na seção logo atrás da cabine. Fernando tentava o máximo não deixar o pânico e o medo tomarem conta do seu dever, mas era muito difícil. Logo, as mensagens de proximidade do solo passaram a ecoar na cabine.

TOO LOW, TERRAIN. TOO LOW, TERRAIN.

“Aqui é o capitão! Segurem-se que vai ser difícil!”, a ordem de Fernando foi transmitida por toda a aeronave, mesmo que não houvesse ninguém por grande parte dela.

TOO LOW, TERRAIN. TOO LOW, TERRAIN.

“Eu preciso de flaps! Trem de pouso!”, exclamou Fernando.

Flaps down! Gear down!”, reportava Aguiar.

ONE HUNDRED. PULL UP! PULL UP!

“É agora... Braços no painel quando for a hora. Foi bom voar com você, Aguiar.”

WHOOP WHOOP, PULL UP! PULL UP!

“O sentimento é mútuo.”, respondeu o copiloto.

FIFTY.

FORTY.

“Aaahh!”

THIRTY. TWENTY, TEN-MINIMU-

A velocidade era tamanha que a voz automatizada não conseguia terminar o anúncio sem cortá-lo por um novo, e então todo o sistema elétrico parou de funcionar. O trem de pouso na frente tocou o solo com tamanha força que não resistiu ao peso da aeronave, a cabine passou a deslizar pelo asfalto já preenchido pelos destroços de outras aeronaves, e a estrutura logo cedeu, separando a cabine do resto da aeronave enquanto a inclinação destruía a asa direita. A fuselagem agora rolava por cima do que sobrava da asa esquerda. Chamas se espalhavam pelo interior da estrutura, se despedaçando ainda outra vez da seção dos passageiros, com corpos já sem vida sendo jogados para fora da aeronave como bonecos de pano.

Vinte minutos haviam se passado até que os quatro sobreviventes do voo AD 2853 se encontraram, Luana, a comissária de bordo, Jéssica, uma mulher de trinta e sete anos, e um casal, Guilherme e Mariana. Todas as catorze crianças a bordo, mortas. Os pilotos, mortos. O fogo, que poderia ter sido muito pior se o combustível não tivesse sido despejado, continuava queimando em várias partes do que sobrara da fuselagem. A temperatura ambiente na pista chegava aos trinta e cinco graus, e toda a umidade do ar parecia estar sendo sugada a cada brisa quente.

O céu era nublado com um marrom horrível, e os sobreviventes logo passaram a sofrer com a chuva de pedras incandescentes do tamanho de pequenas uvas. Os quatro sobreviventes conseguiram chegar até um dos prédios das instalações do aeroporto apenas para encontrar diversos corpos de alguma confusão anterior, e pelas janelas era possível ver os inúmeros incêndios consumindo as áreas residenciais ao redor da pista. Era como um inferno bíblico, assim como Luana havia visto nas ilustrações de um livro religioso quando era criança, a diferença, no entanto, era que não haviam anjos nos céus ou pessoas sendo escolhidas por Deus para serem poupadas.

Quarenta minutos depois, os sons de trovões ensurdecedores chegavam no prédio onde estavam abrigados, sons da morte, o tema do exato momento do impacto viajando com quarenta minutos de atraso. Sua força fez com que todos os vidros das janelas se tornassem pequenos projéteis, atingindo Jéssica no rosto, matando-a depois de alguns minutos perdendo sangue. O suor em suas peles se misturavam ao sangue de seus ferimentos, e os efeitos do calor já passavam a matá-los lentamente.

Mais uma hora se passou, com a temperatura passando dos sessenta graus, e Luana era a última a morrer. Era uma morte desconfortável, sentia seu corpo falhando a cada segundo naquele calor, seu suor já não estava presente na pele, estava com uma enxaqueca horrível e seus últimos pensamentos foram sobre Fernando e Aguiar, aqueles que tentaram o que podiam para salvar a sua vida, e haviam conseguido, com um sucesso limitado. Finalmente, a mente havia ficado muito confusa, embaralhada, até que tudo aquilo que conhecia já não existisse mais.

E do silêncio do espaço era possível ver, mesmo que cobertos pela manta de poeira superaquecida, os incêndios que consumiam estados brasileiros inteiros, tão grandes e tão fortes que criavam seus próprios ventos.

Logo, a nuvem de poeira iria atingir cada país até encobrir todo o planeta.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.