Vinte Quilômetros por Segundo
1 Lights in the Sky
Aquela madrugada talvez fosse a mais calma desde os tempos do Império. As luzes ainda brilhavam, porém por toda a baía do Guanabara, não se podia ouvir o eco das turbinas dos aviões, ou dos tiros nas favelas, ou dos carros nas ruas. Talvez os que aceitaram seu destino resolveram dormir em uma tentativa ingênua de evitar o fim, se aproximando a mais de vinte quilômetros por segundo e aumentando de velocidade à medida que se aproximava dali.
Muitos dos prédios nas orlas das praias estavam vazios, e quem possuía dinheiro havia tentado escapar, enfrentando o maior êxodo da história da humanidade sendo arruinado pelo caos das estradas que nunca haviam sido feitas para tal evento. A grande maioria, entretanto, havia se concentrado em diversas igrejas, até mesmo montando uma festa de fim do mundo; qualquer coisa seria bem vinda desde que não os lembrassem das circunstâncias. Os vôos em sua maioria haviam sido cancelados, porém muitos pilotos decolavam ilegalmente, trazendo consigo a maior quantidade de pessoas que podiam.
Uma jovem moça, pelo seu laptop, assistia o último episódio da série de televisão que acompanhava. Brincou para os amigos que não morreria sem saber do final e havia pulado duas temporadas apenas por isso. Rafaela tinha vinte e dois anos, e fazia caretas sem perceber ao descobrir que dois dos personagens que gostava haviam morrido em um dos episódios que havia pulado; e finalmente estava nos últimos minutos do finale. A protagonista havia salvo seus amigos, depois de todo o sofrimento e depois de todas as pessoas que se machucaram, agora o futuro parecia não ser um problema, e tudo estaria sob controle; era o pior final feliz que havia visto.
Seu pai estava no andar de baixo, na cozinha, fazendo todo tipo de barulho enquanto gritava termos chulos. Rafaela finalmente desceu para encontrá-lo enchendo um grande freezer ao despejar inúmeros cubos de gelos de sacos plásticos. “Finalmente”, ele disse, “isso vai te manter segura”.
“Isso não vai adiantar.”
A discussão foi breve, mas ela sabia que ele não iria desistir. Entrou no aparelho, enterrando-se entre os cubos de gelo que pareciam cortar sua pele como facas esquecidas no congelador. As luzes na janela brilharam em amarelo como se o Sol houvesse nascido em poucos segundos, e assistiu enquanto seu pai se apressava em fechar a tampa. Em vinte segundos ouviu os gritos não somente de seu pai, mas o que parecia o de toda a vizinhança em conjunto, logo todo o ruído de tijolo e madeira quebrando-se se instalava enquanto a onda térmica incendiava os seres vivos da cidade.
Já podia sentir o calor de fora irradiando das paredes do freezer, porém passados três minutos, tudo pareceu sacudir ao seu redor. Era como estar deitada no banco traseiro de um ônibus cujas superfícies a queimavam enquanto se locomovia em uma rua de terra repleta de pedras. Finalmente ouviu o que pareceu ser toda a estrutura da casa cedendo, escutou as telhas, e até as ripas de madeira do forro. Seu caixão, porém, parecia intacto.
O terremoto havia cessado. Ouvia gritos distantes. Estalos altos de madeiras em chama. Silêncio. Pelo menos vinte e oito minutos haviam se passado e Rafaela tentava respirar em meio à água morna que havia tomado o freezer. Todos os cubos de gelo haviam derretido com o calor do lado de fora, e logo o que havia ajudado-a a sobreviver tentava matá-la. Quando finalmente pensou em abrir a porta para tentar escapar, um som ensurdecedor atingiu a região, e novamente seu corpo se debatia contra as paredes de forma violenta enquanto corredores inteiros de canhões enfileirados pareciam estar sendo disparados ao lado da casa, tais “canhões” eram nada mais que os sons do asteróide penetrando a atmosfera momentos antes do impacto, sons que apenas chegavam ali vários minutos depois que havia ocorrido.
O zumbido em seus ouvidos tornou o mundo exterior mudo, sendo os últimos sons que ouvira os que provavelmente surgiam dos prédios de apartamentos sendo demolidos pela grande parede de pressão atmosférica varrendo qualquer prédio de vários andares em seu caminho como se fossem palha. A dor das queimaduras se tornava intensa, sentia-as em suas pernas, suas mãos e braços, porém a escuridão no interior de seu abrigo impedia que ela os vissem.
Mais vinte minutos se passaram, e Rafaela estava no seu limite em suportar a temperatura da água que agora deixava de ser morna para ficar cada vez mais quente ao absorver o calor. O pouco ar restante era quente e úmido, e a este ponto não demoraria muito até que sufocasse até a morte, não sabia mais se seu corpo estava molhado pela água ou pelo seu próprio suor. Queimou o seu braço mais uma vez quando o encostou na parede ao tentar retirar sua camiseta, seu grito de dor se continha ali dentro quando percebeu que a substância líquida e quente em seu braço era a borracha da tampa do freezer, derretida. Enrolou a camiseta em suas mãos e fez força para abrir a porta. Estava emperrada, mas depois de várias tentativas conseguiu abrir apenas para encontrar os pedaços de madeira em chamas que não eram mais parte de sua casa. Aparentemente, apesar de tudo o que havia acontecido, os destroços tanto de sua casa quanto os dos vizinhos haviam preensado o freezer em seu lugar, era o único motivo pelo qual estava viva: sorte.
O ar era seco e abafado, sua garganta e pulmão ardiam com o ar não muito diferente do que respirava no freezer. Tal freezer, antes branco, agora estava chamuscado em negro; sabia que estava quente ao toque, em desespero, tentou pendurar-se nos demais destroços, ainda a machucando, porém a um nível menos doloroso. Caminhou pelo que costumava ser o seu quintal e viu que todas as árvores haviam se tornado grandes postes de brasa, e a vegetação que antes ocultava a paisagem simplesmente desaparecera, revelando boa parte da baía. Era como se o céu não existisse mais, e nuvens negras e alaranjadas dominavam em uma imagem que lembrava a descrição de um inferno religioso; não havia uma estrutura em pé, e toda a baía parecia estar plana novamente, com ventos que sopravam tão forte ao serem produzidos pelos incêndios de proporções titânicas que se espalhavam pelas montanhas. Não era a única viva, porém, pois conseguia ouvir gritos distantes de pessoas em pura agonia.
No horizonte ao sudoeste, uma grande escuridão parecia devorar o mundo, não era possível distinguir nada naquela região além da textura nebulosa e dos raios da nuvem de poeira com a exceção surgindo ao passar dos minutos: uma grande muralha se movia pelo oceano, não soube processar o que era de primeira, porém não demorou muito até perceber toda a água que se movia em sua direção, uma hora após o impacto. Na direção contrária, grandes faixas de luz alaranjada brilhavam no céu, muito longe, era tudo aquilo que o impacto havia jogado para o espaço e seu brilho combinado era superior ao da lua cheia.
Rafaela estava a mais de quinhentos quilômetros de distância do ocorrido, com um epicentro muito abaixo do horizonte que podia enxergar, e ainda assim era mais do que o suficiente para matar e destruir tudo pelo caminho.
Não apenas sua família como também todo mundo que conhecera em toda a sua vida estava morto. Todas aquelas lembranças vieram em sua mente, a distraindo da dor das queimaduras mais leves que ardiam como o inferno, ao lado das que eram graves demais para se sentir qualquer coisa. Rafaela havia sobrevivido até aquele ponto, aquilo por si só já era provavelmente o maior milagre que já houvera ocorrido na história da humanidade, mas sentia que morreria em poucos minutos naquela temperatura.
As grandes ondas atingiram Copacabana com seus mais de trezentos metros de altura, maior que qualquer prédio agora já inexistente por ali, e a única coisa que resistia era o Pão de Açúcar, sendo envolvido quase que completamente. A garota viu tudo o que antes era uma grande baía, formada ao longo de milhões de anos, desaparecer em menos de três minutos. Quando chegou a sua vez, sentiu a pressão das águas e uma breve pontada enquanto seu corpo era arremessado contra os destroços, de forma rápida demais para sentir qualquer dor.
O mar invadiu o continente por dezenas de quilômetros. A América do Sul queimou por meses. Os céus se tornaram negros e as plantas, seguidas pela maioria das criaturas, morreram. Tudo aquilo por uma rocha espacial cinco quilômetros de diâmetro menor do que a que havia impactado o planeta sessenta e cinco milhões de anos antes.
Tudo o que havia sido até então seria apenas mais um dos níveis estratigráficos nas rochas da Terra.
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