Vinho, cabelo e carinho
1 Único
Notas iniciais
Era sexta-feira, não, já era sábado. Ela sabia que eu estaria acordado, por isso não se importou de bater na porta as duas e quarenta e cinco. Não fiquei nem um pouco surpreso, mas eu realmente não esperava naquela noite. Há última vez que nos vimos, dois meses atrás, tivemos uma pequena discussão, achei que ela passaria mais tempo fingindo estar com raiva.
Logo que abri percebi que desta vez ela teria uma boa desculpa para aparecer tão tarde. Ficou alguns segundos escorada no umbral, olhando para mim, parecia um animalzinho perdido. Seus olhos estavam inchados, ela havia chorado, mas eu não me preocupei, ela era sempre assim. Eu também permaneci calado, ela nunca me escuta e isso sempre acaba acontecendo. O certo a fazer seria dar meia volta e deixar ela entrar por conta própria, eu deveria ter feito isso. Eu a abracei antes que ela me contasse o motivo daquele drama todo. Era sempre assim, eu sou fraco, desse jeito acabo incentivando esse tipo de comportamento.
Coloquei ela para dentro aos prantos, queria saber quando ela ia parar de chorar dessa vez.
— Preciso de um banho. — Ela disse soluçando.
Precisava mesmo.
— Pode ir, eu vou preparar alguma coisa para comer. — Eu disse mesmo sabendo que ela ia recusar meu plano. Naquelas horas ela era como uma criança bem pequena, incapaz de fazer qualquer coisa sozinha. Por algum motivo ela pensava que tinha direito de ser mimada e fazer pirraça.
— Eu vomitei no meu cabelo, você lava para mim?
Meu suspiro de insatisfação não foi o suficiente para que ala percebesse o quanto aquilo era desagradável. Não importava, minha capacidade de dizer não para ela era bem limitada, eu não tinha muita escolha afinal.
A levei até o banheiro e tirei suas roupas. Apesar do que pode parecer não foi nem de longe uma situação romântica. Nenhum de nós dois sentíamos um pingo de constrangimento, aquela não era a primeira vez, mas certamente eu torcia para que fosse a última. Eu ajudei a lavar o cabelo dela e acabei me molhando bastante no processo, ela continuava chorando. Meu shampoo certamente não era tão bom quanto o que ela costumava usar, mesmo assim era o máximo que eu podia fazer no momento. Mesmo contra a vontade dela, depois de lavar seu cabelo a deixei sozinha no banho, queria logo começar a preparar algo na cozinha.
Ela demorou bastante, quando saiu eu já estava quase terminando. Saiu totalmente nua, com a toalha que deveria proteger seu corpo enrolada no cabelo. Passou por trás de mim e me abraçou pelas costas.
— Obrigada por isso. —Ela disse com a voz mais doce do mundo. Quem dera sempre usasse aquela voz comigo.
— Pegue algumas roupas no quarto. — Eu pedi e ela atendeu.
Voltou alguns minutos depois vestindo minhas roupas, uma camiseta sem mangas que nela mais parecia um vestido e uma cueca que nela parecia um short. Foi logo deitando no sofá, o lugar dela.
Ela devia estar sem comer direito já a algum tempo, mas duvido que estivesse mesmo sentindo fome. Já que não comeria por fome, decidi preparar algo gostoso. Corte uma porção de carne bem pequenininho e fritei um bocado de batatas congeladas. Dei a bandeja na mão dela e apanhei na geladeira uma garrafa de vinho que já estava pela metade. A parte fácil estava feita, o pior começava depois das duas primeiras taças de vinho.
A história que ela contou para mim era apenas uma repetição com pequenos detalhes de diferença. Ela começou dizendo que eu estava certo, depois o drama de mais um termino, outro cara que não era o cara certo, outro motivo para tomar a minha companhia pela noite inteira. Eu já não sentia pena dela, mal sentia compaixão, para ser bem sincero, eu me esforçava para não demonstrar como era frustrante ouvir aquilo tudo por tanto tempo. Já não havia nenhum interesse da minha parte naquelas histórias batidas. Eu não fiz perguntas, mesmo assim ela me dava as respostas, aí finalmente ela disse algo interessante.
— Deve ser chato ficar ouvindo isso. — Aposto que ela queria que eu negasse.
— É bem chato sim, mas pelo menos você comeu alguma coisa.
— Devia ter me dito, eu não teria te enchido com isso tudo. — E aqui ela começa a ficar irritada.
— Se quer falar eu não me importo de te ouvir, mas é algo que só vai fazer bem para você. Não vou mentir e dizer que estou gostando.
Ela franziu as sobrancelhas.
— Você está tão frio, costumava ser mais carinhoso.
— Isso foi nas primeiras vinte sete vezes. — Exagerei para causar impacto, mas acabou sendo um pouco demais. Ela entristeceu a face, não precisou dizer nada para acabar comigo. — Mesmo que eu não goste, você sabe que eu vou continuar cuidando de você. — Eu cedi.
Ela sorriu pela primeira vez naquela noite. Era tudo por causa daquele sorriso, nos segundos que ele durava eu sentia que quase valia a pena aquilo tudo.
Recolhi a taça e a bandeja vazia e coloquei na pia.
— O que estava fazendo antes de eu chegar? — Ela perguntou, mas duvido que estivesse mesmo interessada.
— Falando no telefone com a minha namorada.
— Mentiroso, contou duas mentiras em uma frase.
Que patético, não consigo enganar ela nem um pouquinho.
— Estava trabalhando.
— É claro, o que é dessa vez? — Outra pergunta carregada com latente falta de interesse.
— Estou ilustrando um livro infantil.
Terminei de lavar a louça bem rápido enquanto ela fingia querer saber mais.
— Vamos, vou te colocar na cama.
Ela estendeu os braços e levantou os joelhos. Suspirei mais uma vez antes de pega-la no colo. Por um momento tentei imaginar quantos problemas os pais daquela menina haviam passado quando ela era uma criança de fato. Coloquei ela sobre a minha cama, exatamente do mesmo jeito que eu faria com meus filhos, caso tivesse.
— Por que você ainda tem uma cama tão pequena? — Ela reclamou da última vez também.
— Eu ainda não tirei a licença para poder ter uma de casal.
Eu queria voltar a trabalhar logo, a noite não é tão longa quanto parece, mas eu sabia que ela não ia deixar, então fui logo tomando meu lugar ao lado dela. A cama era mesmo pequena demais para nós dois, tivemos que nos espremer, mas não era uma sensação ruim. Naquele momento eu só conseguia pensar em como ela havia feito para o cabelo dela ficar tão perfumado mesmo usando meu shampoo.
Ficou quietinha depois me chamou pelo nome. Presumi que ela fosse pedir mais uma coisa, então fui logo dizendo.
— Não vou transar com você.
— Eu não ia te pedir isso. — Ela pareceu sincera e nem ficou envergonhada. — Eu só pedi isso uma vez. — Por isso ela não ficou envergonhada.
— Minha resposta continua a mesma.
— Eu já disse que não ia pedir isso.
— O que ia perguntar então?
— Por que você ainda faz isso? — Ela perguntou baixinho segurando forte no meu braço.
Pensei um pouco antes de responder.
— Quem é que sabe.
Ela chorou mais um pouco antes de dormir, o que acabou encurtando ainda mais a noite e eu acabei decidindo dormir também.
Acordei com ela olhando para mim, a testa dela quase encostada na minha.
— Estava sonhando comigo? — Ela perguntou com um sorriso no rosto.
— Não tenho por que sonhar com você quando você está aqui.
— Sabia que se mudasse um pouco seu tom de voz isso até que poderia parecer romântico?
— Eu não quero parecer romântico. Só me deixa dormir mais uns minutos, eu não sou bom com o dia.
Tentei me virar, mas ela me puxou e se jogou por cima de mim usando seu peso para me manter virado para cima.
— Vamos tomar café.
Mesmo em uma hora como aquela eu não conseguia lutar contra as vontades dela.
— Até quando vai ficar dessa vez? — Perguntei enquanto preparava o café.
— Só o final de semana, talvez.
— Talvez? — Talvez eu não aguentaria tanto tempo.
— Prefere que eu fique mais? — Ela falava calmamente enquanto folheava uma revista no sofá.
— Não importa, mas tem que seguir algumas regras. — Ela parou o que estava fazendo e prestou atenção. — Sem celular, não quero ter que ouvir você discutindo com quem quer que seja. Segundo, use roupas, não importa quem eu seja, eu ainda sou um homem, você deve se comportar. Terceiro... —Pensei um pouco. — Bom, são só esses dois mesmo.
— Que rígido, isso aqui parece uma prisão. Eu vou me revoltar.
Eu quase ri, felizmente ela parecia já estar melhor.
Tomamos café e passamos o resto da manhã como gatos no sofá jogados um sobre o outro lendo e trocando caricias. Ela lia uma revista feminina, enquanto eu buscava referencias para ilustração infantil. Eram essas as horas que mais parecíamos um casal, mesmo tendo interesses diferente conseguíamos estar conectados, me pergunto se eu conseguiria um dia encontrar outra pessoa assim.
Não sei explicar, mas sempre fui fascinado pelo cabelo dela, sempre que estava perto, meus dedos se mexiam por conta própria, ela era mesmo como um gato sendo afagado pelo dono. Por mim isso podia durar para sempre, mas estava feliz com um final de semana.
Como havíamos dormido pouco, pegamos no sono logo após o almoço. Dormimos no sofá, mesmo ele sendo menor que a cama. Dali dava para sentir a brisa vindo da varanda, dessa vez eu acordei antes, o rosto dela sobre meu peito, minha camisa toda babada, tive a chance de brincar um pouco com o cabelo dela já que dormindo ela ficava quieta. Queria poder pintar a cena, não toda só o rosto dela, tão desprotegida, sem maquiagem, com o cabelo bagunçado, babando sobre mim, ela com certeza jamais permitiria.
Quando ela acordou eu já havia feito duas tranças fininhas no cabelo dela, foram as primeiras tranças que fiz na vida e fiquei bem satisfeito com o resultado. Quando percebeu que havia babado em mim ela esboçou o que me pareceu um pouco de vergonha, não pude segurar, a cara dela me fez rir, logo depois ela mordeu meu braço e aquelas expressões tão raras desapareceram.
Ficamos discutindo sobre o jantar, não tinha muita variedade na geladeira, tinha um mercado não muito longe, mas ela sugeriu algo diferente:
— Vamos pedir alguma coisa — disse ela. — Não quero sair de casa, mas também não quero ficar aqui sozinha.
— Eu não tenho telefone.
— Vamos usar o meu celular. Como você faz se quiser pedir uma pizza?
— Eu só faço isso quando a vizinha vem aqui.
— Tá falando daquela ruiva gostosona do corredor?
— É a única que você conhece. — Eu odiava aquele linguajar dela.
— Ela vem aqui? Diz ai você já comeu ela?
— Será que você pode ser mais cuidadosa com as palavras? — Quando ela começava a falar assim queria dizer que estava ficando irritada e queria me deixar irritado também.
— Não vai responder? Está tentando me deixar com ciúme?
— Que inferno, você vai mesmo insistir nisso? — Me levantei e fui até a cozinha, o assunto me incomodava muito e eu sabia que ela não ia me deixar em paz.
— Responde à pergunta! Você comeu ela ou não? — Ela gritou bem alto. Era assim que ela era, viciada em amor, doente, ciumenta.
— Não! — Eu gritei de volta.
Mesmo que só pudesse ouvir a versão dela, as histórias sobre seus términos, eu nunca tive dúvidas de que era ela a constante que no cálculo sempre fazia chegar ao mesmo resultado. Aposto que ela sabia também. Tomei um copo de agua para me acalmar, eu não tinha motivos para ficar nervoso, ela era a intrusa, se metendo na minha vida como se tivesse algum direito, mas ela só fazia isso por que eu permitia. Tudo bem, uma vez que eu sou tão disfuncional para relacionamentos quanto ela.
Ante que eu conseguisse colocar a cabeça no lugar ela me abraçou por trás.
— Me desculpa. — Ela disse com aquela voz doce de novo.
Claro que não, não se meta na minha vida.
— Tudo bem. Você sabe que quando começa com essas coisas me deixa nervoso.
Conversar de costas para ela era mais fácil, mas eu podia imaginar seus olhos.
— Eu fico com medo de você arrumar uma namorada e me deixar para trás, eu não saberia o que fazer.
Isso não é problema meu, você deveria cuidar de si mesma.
— Você sabe que eu não vou a lugar nenhum.
— Você devia, sabe disso, não é? Não pode me deixar controlar sua vida. Sabe que eu acabo estragando tudo. Poderia fazer uma mulher feliz.
Não é que eu não queira, eu não sou o suficiente.
— Vou pensar nisso, só deixa esse assunto de lado.
Depois que o clima voltou ao normal ela resolveu botar o plano em ação e pedir algo para comer. Eu não me opus, mas poderia já que ela teria que ligar o celular para isso. Mal começou a falar das opções, o celular fez um som e ela ficou calada por alguns segundos. Quando percebeu minha cara irritada observando ela deu um sorriso sem graça e continuou com.
— O que foi que aconteceu? — Interrompi o que ela dizia, já me faltava paciência.
— Nada, foi só uma mensagem.
— É dele? — Eu já sabia que sim, estava perdendo o ânimo.
— Ele quer conversar. — Ela disse se sentando no sofá ao meu lado.
— O que pretende fazer?
— Para começar daqui para frente vou seguir suas regras. Deixa eu pedir logo, vai ser pizza mesmo?
Para não perder a cabeça deixei ela sozinha enquanto fazia o pedido, quem sabe ela também resolvesse o outro assunto enquanto eu não estivesse lá para olhar. Fui até o quarto que uso como local de trabalho para dar uma olhada em uma ilustração inacabada. Era o único cômodo da casa que eu não conseguia deixar arrumado, tinha lápis, tinta e pinceis por toda parte, o cheiro também não era bom. Eu tinha muito em que pensar, aquela garota na sala era um problema recorrente, nenhum de nós dois era ainda tão jovem, mas ela gostava de fugir dos seus problemas. Comecei a pensar que eu talvez fosse o motivo, nossa relação podia parecer o que fosse, mas era carregada de veneno, para onde ela iria se não tivesse onde se esconder? Em quem ela se apoiaria se não tivesse a mim? A resposta parecia óbvia.
— Quarenta minutos. — Ela disse entrando no quarto. — Esse lugar ainda é uma zona.
— Gente como eu não consegue trabalhar se não for assim.
— O que vamos fazer hoje? Se tivesse uma TV podíamos ver um filme.
— Pode usar o laptop.
— Mas não tem graça em uma tela pequena.
Que garota problemática.
— Tem um shopping a algumas quadras daqui, podemos ir em um cinema.
— Não, minhas roupas ainda estão cheirando vomito.
— Vou lavar hoje, aí vamos amanhã.
A conversa continuou na sala desse mesmo jeito, eu oferecia uma opção ela rejeitava com qualquer desculpa. Ficamos assim por alguns minutos até que eu me cansei e mudei de assunto.
— Desligou o celular?
— Claro, são as regras.
Eu não tinha pensado antes, mas comecei a desconfiar que a ideia de pedir comida era só uma desculpa para ler suas mensagens. Naquela altura eu não podia me importar menos, eu só não queria ser envolvido naquilo tudo. Não era para o bem dela era para o meu próprio.
— Talvez devesse falar com ele. — Eu finalmente disse.
— O que, tá louco? Ele é um idiota.
— Claro que é, todos são, e daí? — Deitei sobre ela no sofá, dessa vez ela que acariciava meus cabelos. Um pouco de contato para impedir que ela fique irritada.
— Eu não vou voltar para ele, aí o que eu faço se ele começar a chorar?
— Se ele chorar é por que está arrependido de seja lá o que ele tiver feito.
— Eu te contei ontem, você já esqueceu?
— Sei, alguma coisa do trabalho. Sei que não envolve infidelidade nem violência, acabou parecendo coisa de criança. Talvez você seja muito exigente.
Ela pensou por alguns segundos enquanto corria as mãos pela minha cabeça.
— Se eu for exigente... de quem acha que é a culpa?
— Nem vem. Eu não tenho nada a ver com isso.
— Depois do jeito que você me trata. — Usou um tom bem carinhoso. — Como acha que eu vou conseguir conviver com menos?
Nunca me vi como um homem apaixonado, mas provavelmente naquele momento não haveria mais ninguém por quem eu faria tudo que estava disposto a fazer por ela. As vezes era cansativo, as vezes ela dava nos nervos, mesmo assim, o jeito que eu a tratava era bem natural. Comecei a pensar em mim como um idiota, parando para pensar direito que homem estaria assim tão disposto, mesmo comparado aos namorados dela, aqueles que tiveram mais dela do que eu jamais tive, mesmo aqueles caras não eram subjugados como eu. Aquela garota me tinha nas palmas das mãos.
A campainha tocou antes que eu pudesse amadurecer meu raciocínio, mesmo pela metade senti como se fosse um epifania.
— A pizza chegou. — Ela levantou rápido para atender a porta, eu fui pegar o dinheiro.
Enquanto comia, ela falava qualquer coisa que eu não prestei atenção. Estava tentando criar um plano de ação para fugir daquela condição deplorável em que me encontrava. Ela comia como uma criança, derrubando migalhas e sujando o rosto. A cena roubou minha atenção e eu perdi meu raciocínio outra vez.
Ela estava sentada no chão, de costas para a varando de frente para mim no sofá, o cabelo ainda bagunçado do cochilo a tarde e ainda usava as mesmas roupas que pegou emprestadas na noite anterior. Ajeitava a ponta do pedaço de pizza na boca sem destreza alguma, levantando acima do rosto, o queijo caindo pelo queixo. Foi o instante que registrei, um click e ficou imortalizado na minha câmera, desta vez eu estava preparado. Ela apontou o indicador para mim enquanto com pressa para fazer sua queixa.
— O que pensa que está fazendo? Tirar uma foto de uma mulher comendo é um dos piores pecados que se pode cometer.
Foi uma reclamação elaborada, mas eu nem liguei, aquela ainda não seria a referência perfeita para um quadro, mas com certeza me faria sorrir no futuro. Ela continuou reclamando e pedindo para apagar aquela prova vergonhosa de sua simplicidade, mas eu continuei não ligando.
— Já falou sobre mim com algum dos seus namorados? — A pergunta saiu subitamente, até eu fiquei surpreso.
Ela não pensou muito para responder.
— O que eu poderia dizer?
Obvio que não muita coisa, nossa relação era confusa até para mim. Me chamar de amigo poderia até ser considerado mentira, mas na verdade eu não era muito mais do que isso. Parando para pensar eu não conseguia me lembrar como havíamos ficado assim, era a soma da personalidade dela e da minha, ela era para frente de mais e eu muito passivo, acho que é isso.
— Você é tão ciumenta, não acha errado fazer segredo sobre mim?
— Não, não acho, por isso eu nunca te visito quando estou com alguém. É mais um motivo para eu não voltar com aquele idiota, eu estaria sendo hipócrita.
Então era isso, um ritual de passagem.
— O que disse? — Ela perguntou de boca cheia. Por um momento pensei ter deixado escapar um pensamento.
— Eu não disse nada.
Era assim, uma vez que ela tomava a decisão de terminar corria para mim. Dessa forma ela não poderia voltar atrás. Aquela garota era mesmo irritante.
— Acha que eu devo cortar o cabelo, ou alguma coisa assim? É o que as garotas fazem quando terminam, não é?
De novo com uma pergunta para me fazer perder o rumo.
— Se fizer isso eu nunca vou te perdoar. — Falei bem serio para que ela entendesse, mas na verdade não sei se seria capaz de uma coisa assim. Ela pareceu bem intrigada.
— Talvez eu devesse mesmo cortar.
Ela parecia querer me confrontar, ou talvez ela também já tivesse intendido como nossa relação era toxica. O mais provável é que ela sabia que eu não era capaz.
— Guarda tudo quando terminar, eu vou tomar um banho. — Aproveitei que ela estava de boca cheia para uma saída estratégica.
Fui bem rápido, já estava preparado para o que iria acontecer. Tranquei a porta por dentro só para ouvir as reclamações dela do lado de fora, aí pude aproveitar meu banho. Aproveitei para encher a banheira para ela. Depois de tudo eu ainda não podia evitar em pensar em como cuidar dela. Ao sair passei pela sala bem rapidamente, mas pude notar a cara fechada dela.
— Preparei a banheira para você, vou sair por um momento, quer alguma coisa?
Ela não respondeu, foi direto para o banheiro e bateu a porta.
Geralmente eu precisava de um bom motivo para sair de casa, mas aquele dia estava sendo um tanto quanto estressante então achei que ar fresco me faria colocar as ideias no lugar. Desci as escadas sem pressa, o saguão do prédio também estava vazio. Na rua não havia mais com o que se preocupar, mesmo sendo tão movimentado eu não conhecia ninguém, podia andar livremente sem perturbações. Fui direto ao mercadinho na esquina, comprei uma garrafa de vinho e um cigarro que fumei no caminho de volta.
Mesmo sem um bom motivo eu já queria logo voltar a minha caverna, ficar no meio de tanta gente era desconfortável demais. Na entrada do prédio encontrei com a minha vizinha de corredor, a ruiva, única pessoa que eu conhecia por ali. Ela era tão ruim com saudações como eu, ainda não tinha certeza em como deveria cumprimenta-la então me mantinha só com um aceno e um sorriso, ela sempre sorria de volta, mas um sorriso sem graça sem jeito. Peguei algumas das sacolas na mão dela sem perguntar se queria ajuda. Ela não estranhou, mas me veio com outro daqueles sorrisos sem graça e agradeceu.
A conversa com aquela garota costumava ser difícil, ainda não tínhamos encontrado nem um assunto em comum, geralmente eu deixava ela falar e respondia suas perguntas com histórias curtas. Todo nosso relacionamento se baseava em algumas poucas vezes que bebemos juntos para afastar a solidão, duas vezes no meu apartamento uma vez no dela. Já fazia algum tempo que ela me cobrava que deveríamos beber fora, mas isso caracterizaria um encontro, eu não sabia se estava pronto para isso. Quando ela notou a garrafa de vinho que eu carregava ela disse:
— Pretende beber sozinho hoje? Talvez precise de companhia. — Algumas horas ela sabia ser bem atirada.
— Ah isso é para acalmar o coração de uma visita indesejada. Uma amiga pretende jogar sobre mim a dor do fracasso do seu namoro. Eu vou me adiantar e botar ela para dormir com isso antes que comece a falar.
Dizem que uma mentira bem contada tem partes de verdade, aquela, fez ela rir.
— Boa sorte com isso.
Sorte a minha que o elevador chegou rápido, foi uma breve conversa, pude escapar antes de cometer algum escorregão.
Entrei e logo no corredor da entrada, notei a porta do banheiro escancarada. La estava ela com o cabelo preso na banheira brincando com a espuma.
— Vem aqui. — Ela me chamou com aquela voz suave.
Engoli seco e disse que ia abrir o vinho.
Me apressei para achar o saca-rolhas e notei o celular dela sobre o balcão da cozinha. Talvez ela tivesse aproveitado a oportunidade para resolver o outro caso. Deixei para julgar depois, decidi de imediato aproveitar também a oportunidade e dei uma olhada. As mensagens diziam: “ Por que você sumiu de repente? ”. “Estou aguardando uma resposta. Carinha feliz”? Ela respondeu, “ Conversamos na segunda-feira carinha preocupada. ”
— Por que você está demorando? — Ela gritou do banheiro.
Desliguei o celular e coloquei no mesmo lugar, no mesmo ângulo que encontrei.
Apanhei minha câmera, esperei um pouco e tirei uma foto antes que ela pudesse me perceber. Aquela foto provavelmente tinha a beleza poética para uma pintura. É claro que ela protestou de todas as formas, mas eu não liguei. Me sentei ao lado da banheira, abri o vinho e servi duas taças. O que vi no celular ainda me incomodava, mas eu não pretendia pensar nisso naquele momento.
Por uns minutos bebemos em silencio, não é que o assunto tenha terminado, mas parece que tudo que tínhamos para conversar eram coisas importantes o suficiente para encher o saco, e eu definitivamente já estava de saco cheio.
Alguns minutos depois:
— Adoro seu cabelo de qualquer jeito. — Sou fraco para álcool e o vinho me deixa sentimental, grande erro.
— Você fica tão fofo quando bebe vinho. — Ela sabia do meu segredo.
— É verdade eu adoro seu cabelo... — Fiz um discurso falando do cabelo dela.
— Chega de falar do meu cabelo, eu prometo que não vou cortar, eu juro.
Ela me cortou, eu ainda tinha muito o que falar.
Mesmo sem total controle sobre as minhas funções motoras ajudei ela a sair da banheira e se secar. Ela vestiu outra das minhas camisas, dessa vez escolheu uma de botões, fez um belo conjunto com sua calcinha rosa que já estava seca.
Eu fiquei sonolento no sofá e não vi quando ela ligou o computador e colocou música. Uma música bem animada que eu não sei como categorizar.
— Vem, dança comigo. — Ela puxou a minha mãe e me fez levantar. Eu até tentei, queria desesperadamente agradá-la, mas eu não sabia como, deve existir uma matemática para explicar como se movimentar sem parecer ter uns parafusos a menos, mas eu não estava em condições de fazer contas. Ela parecia se dar muito bem com aquele ritmo maluco.
— Para, eu não sei dançar assim. — Eu finalmente desisti.
— Então me mostra o que você sabe. — Foi um tom desafiador.
Caminhei até o computador e coloquei minha playlist para tocar, a primeira é claro, je serei là, Teri moïse a letra são promessas de uma mãe para seu filho, mesmo que não pudéssemos entender, dava para sentir que era algo especial. Não parecia muito apropriado para nós, mesmo assim tomei a mão dela e com cautela guiei a dança. Ela não sabia muito bem como se deixar conduzir e eu estava levemente alcoolizado o que dificultava bastante, mesmo assim foi bem agradável.
— Eu não sabia que você dançava. Como aprendeu?
— Minha mãe, mas já faz muito tempo.
Continuamos dançando e já quase no final da música ela foi na direção errada e eu tropecei. Ela acabou caindo sobre mim. Isso mesmo, não poderia ser mais perfeito.
Eu tinha uma porção de coisas que queria perguntar, mas não perguntei. Com certeza ela também tinha algumas coisas que quisesse me dizer, mas não disse. Ao invés de palavras acho que ela esperava um beijo, eu e minhas inseguranças, acho que acabei demorando demais.
— Tenho que voltar para casa hoje. — Ela disse se levantando.
Eu nem tive tempo de protestar, ela correu para o quarto e se trancou até terminar de se arrumar. Queria dizer para ela ficar, queria dizer um monte de coisas, mesmo com o vinho como aliado eu não consegui, fiquei olhando enquanto ela ia embora.
Um tempo depois fiquei sabendo que ela ficou noiva. Agora que penso nisso, talvez ela não tivesse brigado com o namorado, talvez só estivesse indecisa, me visitou para me testar, para saber em que caminho devia seguir. De uma forma ou de outra, ela achou a resposta que procurava. Sobrou minhas dúvidas e eu, será que se eu tivesse pedido, ela ficaria? Se eu a tivesse beijado ela iria retribuir? Tentei focar no que era real, voltei a trabalhar e em determinado momento, quando não sabia mais que dia da semana era, acabei aceitando a solidão. Não faço ideia de quanto tempo levou. Meu mundo encolheu até ficar do exato tamanho daquele apartamento, depois expandiu com aminha arte, podia eu desenhar um mundo inteiro em uma tela e ter um significado diferente para cada uma das folhas de uma arvore. Os cabelos dela não mais me assombravam, me esqueci do seu perfume e dos vários tons da sua voz. Junto com tudo que me irritava nela, sumiu também tudo que eu amava e agora restava uma tela em branco e eu poderia escolher o que pintar. Forcei para me lembrar dos detalhes daquela tarde no sofá, queria seu rosto sereno, o cabelo bagunçado a baba, eu queria tudo, esse era meu próprio ritual de passagem, muito mais silencioso do que o dela. Ao termino eu teria uma imagem estática que carregaria todas as minhas lembranças, todos os meus sentimentos, todas as minhas dúvidas. O trabalho estava indo bem, mas não estava nem perto de terminar quando alguém bateu na minha porta.
Fim.
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