Vinho Tinto na Noite Escura
1 Véspera
O dia amanheceu nublado. Ao longe só se via nuvens escuras. Eram 7:00hrs da manhã mas não havia um só raio de luz do sol. Sai da janela do meu quarto onde estava observando aquela manhã sombria e fui ao banheiro anexo fazer minha higiene matinal.
Tirei rapidamente minha roupa e deixei a banheira enchendo; enquanto esperava comecei a escovar os dentes enquanto observava meu reflexo no espelho. Vi meus fios loiros bagunçados, minha pele bronzeada levemente pálida e meus olhos azuis céu sem vida. Não que eu estivesse doente ou algo do tipo, eu só não conseguia dormir direito a quase um mês. O motivo? Um pesadelo que se repetia noite após noite. Bem, eu considerava um pesadelo, mas a verdade é que era apenas um sonho desagradável sem nada de assustador.
Terminei de escovar os dentes e tomei uma ducha rápida mas revigorante pra tirar o suor e o cansaço do meu corpo. Assim que me limpei, peguei alguns sais de banho e coloquei na banheira já cheia, entrando nela logo em seguida. A água morna foi um alivio para meu corpo. Após alguns minutos estava relaxado, beirando a inconsciência mas me recusando a dormir ali. Sabia que se o fizesse acabaria tendo aquele sonho outra vez, ou talvez na pior das hipóteses acabaria morrendo afogado. Desisti de ficar na banheira e sai.
Voltei ao meu quarto vestindo apenas um roupão e me joguei na cama pensando no que faria no dia seguinte. Minhas aulas iriam recomeçar, e finalmente iria ocupar minha mente com algo. Primeiro dia de aula do segundo ano do colegial. Pensar que depois desse só faltaria mais um ano pra me formar foi reconfortante.
De repente fui tirado de meus devaneios ao ouvir meu celular tocar.
— Alo? – Atendi rápido sem olhar quem era.
— Bom dia meu filho – ouvi a voz doce e familiar de minha mãe – como você está?
— Ah, bom dia mãe! Eu estou bem e a senhora?
— Estou ótima meu amor. Amanhã é o grande dia não é? – Perguntou com animação na voz.
— Sim, isso mesmo. – o desanimo em minha voz era quase palpável.
— Uzumaki Naruto, que desânimo é esse? – percebi um tom sério em sua voz. Nunca é agradável ser chamado pelo nome completo dessa forma.
— Não é nada mãe. Só estou cansado.
— Ainda não consegue dormir direito? – minha mãe sabia da minha situação.
— Não... Continuo tendo sonhos estranhos. – minha voz soou cansada até mesmo aos meus ouvidos. Uzumaki Kushina não era apenas minha mãe, era também minha confidente! Uma amiga pra todas as horas. Em sua última visita duas semanas atrás ela viu meu estado (que não estava muito melhor que agora), e ficou sabendo do que se passava.
— Alguma coisa diferente? – ela sabia do que eu estava falando. Não existe segredos entre nós.
— Nada. O mesmo sonho de sempre.
— Filho você deveria procurar ajuda.
— Não se preocupe mãe, eu estou bem!
— Se você diz... – à ouvi suspirar – Enfim, outra hora te ligo meu amor.
— Tudo bem mãe
— Eu te amo viu?
— Também te amo!
— Animo amanhã. Se esforce!
— Okay mãe – respondi após uma leve risada.
— Tchau Naru.
— Tchau, tchau mãe.
Ouvi a chamada ser encerrada e dei um leve sorriso triste. Minha mãe tem feito tanta falta. Há mais de um ano tenho morado sozinho, meus pais são donos de uma empresa de arquitetura que fica em Nagoya, cidade próxima a Tokyo onde moro atualmente.
Quando criança, eu e toda minha família morávamos aqui, mas quando tinha 7 anos nos mudamos para Nagoya por causa de um projeto ao qual meus pais foram contratados para fazer. Eles acabam gostando da cidade e resolveram permanecer lá onde abriram um escritório que rapidamente acabou sendo bem sucedido, e em 8 anos já era referência de excelência na área.
Ano passado quando recebi minha carta de admissão da Aoba-Japan International School, voltei para minha terra natal e comecei a morar sozinho mesmo tendo apenas 15 anos. Meu pai, Namikaze Minano, não conseguia me olhar sem conter o sorriso orgulhoso durante dias, eu ficava feliz por lhe dar tanto orgulho, já que quando mais jovem era um completo desastre na escola, mas isso nunca me desanimou.
Respirei fundo tomando coragem e me levantei da cama. Apesar de querer ficar o dia inteiro deitado ali, tinha minhas obrigações. Abri o guarda-roupa, coloquei uma cueca box preta, vesti uma bermuda branca e uma camisa vermelha qualquer e fui pra cozinha. Meu apartamento não é grandioso, simples, porém bem mobiliado com os moveis de tons escuros e paredes de cores claras, o que dá uma sensação de aconchego. Meu quarto é a única suíte do local, que possui mais dois quartos, um banheiro além do meu, área de serviço, sala de estar e a minha bem equipada cozinha americana.
Pretendia fazer lámen, mas meu estomago tem estado muito sensível, então peguei um pacote de chá e alguns biscoitos, esse seria meu café da manhã. Preparei o meu chá e me sentei em um dos bancos da cozinha colocando os biscoitos sobre a bancada e comecei a comer lentamente.
Tenho sempre que tomar cuidado com o que estou comendo, como não consigo dormir direito a dias sempre acabo me alimentando mal, e isso tem me deixado com serias dores de estomago. Nunca fui do tipo malhado, mas tinha um corpo definido, mas de um mês pra cá perdi três quilos e parecia um doente.
Terminei de comer e coloquei a louça na pia e comecei a lava-la. Assim que terminei arrumei um pouco a bagunça que havia na sala, guardei meus jogos que estavam espalhados pelo chão, peguei algumas roupas que estavam no sofá e levei para a lavanderia, e tirei um pouco do pó com o aspirador. Em seguida arrumei meu quarto e me deitei na cama. Meu apartamento nunca ficava muito bagunçado ou sujo. Com o passar do tempo a gente acaba se acostumando com os deveres domésticos, principalmente quando se mora sozinho.
Peguei meu notebook que estava sobre a escrivaninha ao lado da minha cama e resolvi dar uma olhada no meu horário de aulas do primeiro semestre. Fiquei contente ao ver que não haveria matemática as segundas. Língua Japonesa, Ciências, Geografia e para finalizar Economia Doméstica – já falei que amo cozinhar?
Desligue meu PC e o coloquei de lado em seu lugar na escrivaninha, peguei o livro que estava lendo a alguns dias chamado “Coração de Tinta” e passei o resto da manhã lendo. Não estava com disposição de fazer muita coisa.
Quem me visse nesse estado nunca imaginaria que aquele era o animado Naruto de sempre. Mas a verdade é que eu continuava o mesmo, só que o cansaço consumia todas as minhas energias, então não dava para ficar muito contente em uma situação assim.
O resto do meu domingo se passou nesse ritmo. Li bastante, almocei arroz com peixe, assisti alguns filmes que passavam na TV e jantei o mesmo que almocei. Já por volta das 20:00hrs me encontrava exausto. O sono batia a minha porta.
Peguei minha mochila e comecei a guardar nela o material que usaria no dia seguinte, depois de tudo guardado e verificado fui ao banheiro pra tomar um banho rápido. Assim que terminei abri o armário que ali havia e peguei dois comprimidos de remédio pra dormir. Os tomava toda noite na esperança de ter uma boa noite de sono, mas nunca adiantava. Entretanto, continuava a tentar.
Me deitei e fechei meus olhos sonolentos, torcendo para ter uma noite sem sonhos, ainda não passava muito das 21:00hrs mas eu estava exausto. Não demorou muito até o sono me embalar. Seria ótimo se meus desejos tivessem sido atendidos, mas como nas noites anteriores, novamente o mesmo sonho se fez presente...
Era escuro, não havia luz, um túnel ao qual não havia fim. Corri o mais veloz que pude, mas minhas pernas estavam fracas. Avistei uma pequena saída envolta em galhos e plantas que não conhecia. Tentava tirar aquilo do caminho mas não conseguia, ficava apenas com as mãos cada vez mais machucadas.
Senti alguma coisa atrás de mim, mas não tive medo. Vi um ser pouco mais alto que eu completamente coberto por um manto negro. Com suas mãos ele abriu caminho pela saída bloqueada e deixou aquele local andando calmamente. Caminhei até o lado de fora e fitei o céu nublado acima de mim, sentindo as gotas da chuva que acabara de começar. Estava em um tipo de floresta aberta, que parecia mais um bosque.
Quando olhei pra frente vi o ser de manto ao longe caminhando em um ritmo suave. Comecei a seguir em sua direção, mas estava cansado e não conseguia alcança-lo. Queria agradecer a ajuda, saber quem era. Eu sabia que ali, em baixo daquelas vestes, havia uma pessoa, mas minha corrida não adiantava.
Senti minhas pernas travarem e caí de joelhos. Olhei pra frente e vi que aquele a quem eu seguia estava parado em uma clareira. Ergui a mão tentando chegar mais perto, e o vi se virar.
Ele abaixou o capuz de seu manto e vi apenas um rosto pálido e cabelos negros como o breu. Não conseguia ver seus olhos, mas claramente era um garoto.
Levantei-me e tentei correr em sua direção novamente, mas tudo se tornou em trevas ao meu redor. Assim como nas outras noites, não fui capaz de alcança-lo.
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