Vingança
2 Capitulo 2 Terra de Ninguém
Notas iniciais

Ali, deitada sobre a relva, minha mente voltou a vagar pelo vazio. Nenhum pensamento lógico surgia só o que minha mente conseguia fazer era esquadrinhar cada centímetro do meu corpo, registrando e ampliando toda e qualquer sensação que pudesse. Minha visão estava embaçada e com o rosto colado ao chão, a cada respiração uma pequena folha de uma erva qualquer era arrastada pela minha inspiração tocando meu nariz, o contato dela quase me fazia espirrar e me incomodava muito, mas não tinha forças nem para me virar ali, qualquer movimento era impensável de ser realizado. Meus olhos lacrimejaram e mais uma vez aquela maldita folha tocou meu nariz, minha faringe imediatamente se trancou e tive espasmos pelo corpo todo, meu pescoço se contorceu e cessei minha respiração tentando evitar o espirro. Puxei duas doses de ar pela boca e meus pulmões inflaram incendiando meu peito prendi a respiração novamente e fechei os olhos, apertei os dedos contra a palma das mãos e contrai todos os músculos do corpo. Aos poucos senti aquela sensação horrível de aperto no pescoço e no seio nasal diminuir sem que o espirro de fato ocorresse, porém em compensação dores horríveis percorreram meu corpo em ondas, indo da cabeça aos pés. Senti mil agulhas perfurarem o meu corpo, em movimento repetido e angustiantemente doloroso. Novamente segurei a respiração, em um movimento inconsciente parar deter a dor, mas ao invés disso a dor aumentou exponencialmente fazendo com que o ar dos meus pulmões se lançasse para fora do meu peito junto com um gemido, que escapou involuntariamente por entre os meus dentes. Quando isso aconteceu um pensamento horrível me passou pela cabeça. E se alguém, ou melhor dizendo, e se quem me jogou naquele buraco do inferno estivesse por perto. Isso seria péssimo pra mim, se aquele demônio me visse fora da cova onde havia me deixado, apesar de que eu não sabia ao certo como havia chegado ali, mas esses detalhes escapavam ao meu entendimento, pois minha extenuação física era grande demais para que eu pudesse chegar a qualquer raciocínio lógico.
Imediatamente contrai todos os músculos do meu corpo, aguentei a dor da melhor maneira que pude, e em uma atitude quase heroica, passei a respirar lentamente controlando o meu ritmo cardíaco. A dor era quase insuportável, mas ser descoberta seria muito pior, então aguentei. Apurei minha audição, e comecei a prestar atenção em qualquer barulho que ocorresse ao meu redor. Eu não havia me dado conta, mas um silencio mortal me cercava, nem ao menos um pequeno grilo ou quem sabe o barulho de carros passando em uma rodovia próxima, nada, e isso era assustadoramente preocupante. Apesar de não saber onde estava, pois não tive condições de perceber nada sobre o local que me cercava desde que sai daquele inferno, eu imaginava que estivesse em uma área remota, ou quem sabe uma floresta, mas a falta de qualquer barulho ao meu redor me encheu de calafrios. Mantive meus olhos fechados e o corpo curvado quase em posição fetal, para que eu diminuísse de tamanho e formato, fazendo assim com que um transeunte mais desatento que passasse por ali, ou que estivesse mais ao longe não se apercebesse da minha presença. Não desliguei os ouvidos um segundo do que ocorri ao meu redor, mas nada quebrava aquele silencio mortal.
Não sei dizer quanto tempo fiquei ali, acho que devo ter ficado por quase uma hora mais ou menos, mas a minha noção de tempo estava completamente afetada. Por ficar na mesma posição por muito tempo, comecei a sentir formigamento por todo o corpo, então por fim decidi me mover. Estiquei as pernas e me deitei de costas sobre a relva, tomei coragem e abri os olhos para finalmente saber onde eu estava.
Arvores me rodeavam, era uma noite escura e tenebrosa. As copas das arvores ficavam distantes umas das outras, mas nenhuma estrela estava no céu. Tudo aquilo me pareceu ter saído de uma cena qualquer de um filme de terror, respirei fundo e disse a mim mesma.
– Acorde Minato, vamos acorde desse pesadelo!- dei dois tapas no meu rosto, imaginando que isso ajudaria. Mas não eu continuava ali. O desespero tomou conta de mim e tive vontade de chorar, mas já não havia lagrimas em mim, meus olhos apenas ardiam por todas as lagrimas que eu já havia derramado. Fechei os olhos novamente, levei a mão ao rosto e pensei.
– Vamos Minato, você é forte, e terá que sair dessa. Vamos você consegue força garota. – eu pensava isso, mas não acreditava nessas palavras, a cada vez que eu repetia isso, eu sentia um medo irracional. Na verdade eu queria esperar ali até que surgisse alguém para me resgatar, alguém que estivesse me procurando, alguém que tivesse dado pela minha falta e viesse como um cavaleiro montado em seu cavalo branco e surgisse do meio das trevas daquele lugar e me levasse em segurança nos seus braços para outro lugar. Não pude conter um leve mover de lábios, formando algo pálido e distante de um sorriso, pois afinal eu sabia que provavelmente isso não aconteceria. No mundo real não existe príncipe salvador, ninguém viria, eu estava sozinha.
Olhei para o céu novamente, e senti o peso da atmosfera daquele lugar, apesar de ser um ambiente aberto eu me sentia claustrofóbica, do mesmo jeito que quando estava dentro daquela cova mortal. Meu coração estava cheio de medo e duvida, meu corpo estava quase destruído, e só o que eu queria era esperar ali deitada até que tudo isso acabasse, mas eu sabia que não poderia, então reuni tudo o que restava de mim e sentei vagarosamente. Olhei ao redor, mas não podia enxergar muito longe devido a escuridão intensa que assolava aquele lugar maldito. Abri e fechei as mãos para fazer com que o sangue se movimentasse mais rapidamente pelas minhas veias, e quem sabe talvez diminuir um pouco as fortes dores que eu sentia. Dobrei as minhas pernas, e com o apoio das mãos me ajoelhei, devagar e constantemente fui me levantando, minhas pernas fraquejaram muito e quase cai umas duas vezes. Então finalmente fiquei em pé, tentei afastar todos os fantasmas que povoavam minha mente, e mesmo sem saber qual direção deveria seguir dei o primeiro passo, não importa para onde eu iria, eu só tinha que sair dali. Quando eu dei o segundo passo, parei por um instante e me lembrei daquele buraco infernal de onde eu tinha emergido, movimentei a cabeça e quase olhei por cima do meu ombro direito, mas me detive. Eu queria ver pela ultima vez o inferno pelo qual eu tinha passado, mas não tinha coragem. Meu coração quase parou e minha respiração cessou por alguns segundos. Aquele maldito buraco me aterrorizava, e saber que eu estive ali dentro soterrada em baixo de cadáveres em decomposição, me encheu de angustia e sofrimento. Como eu viveria depois disso, como eu poderia fazer qualquer coisa sem me lembrar dessa terrível experiência, sem ter isso vivido no meu coração todos os dias pelo resto da minha vida, eu não tinha resposta a essas questões, mas não dava para me preocupar com isso agora. Não olhei pela ultima vez para aquela cova, parti dali e não olhei para trás, pois tudo o que me importava agora era sair viva dessa.
Caminhei vacilante por horas, e não encontrei nada. Esse lugar era amaldiçoado e esquecido por deus. A escuridão que preenchia o ambiente, também se apoderou do meu coração, sentia medo, frio e fome. Olhava com preocupação para todos os lados e sentia que a qualquer momento alguém saltaria de trás de uma arvore e me arrastaria aos berros de volta para aquele buraco. Isso me assustava e me fazia tremer, precisei por varias vezes parar e me recompor. É incrível o que o escuro estava fazendo com a minha imaginação, estava destroçada física e psicologicamente, sentia como se olhos demoníacos seguissem meus passos aonde quer que eu fosse. Em alguns momentos eu me escondia atrás de arvores, esperando e observando, mas o silencio mortal daquele lugar sempre permanecia inalterado.
Sem aguentar mais eu caminhei até uma arvore e me sentei ao seu lado, me recostando nela. Lembrei-me de tudo o que aconteceu até aqui desde que acordei naquela cova, senti calafrios percorrerem meu corpo. Tentei me lembrar de como eu havia chegado até aquele buraco, mas... Estranhamente eu não conseguia me lembrar de nada. Eu não sabia como ou quem tinha me levado lá, experimentei outro nível de desespero tomar conta de mim. Busquei na mente alguma outra memória, e gelei, senti como se o meu sangue tivesse congelado nas minhas veias, eu não me lembrava de nada antes de ter acordado nesse inferno. Levei as mãos ao rosto, e repeti varias vezes.
– Meu deus, meu deus, meu deus, meu deus, isso não é possível, não é possível, não é possível. – e me esquecendo de todas as precauções que havia tomado até ali, me inclinei pra frente e gritei em desespero.
– Aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaah, MALDIÇÃO!!!! – percebendo o erro que cometi ao tomar tal atitude, tampei com as mãos minha boca, mas já era tarde, se alguém estivesse nas redondezas com certeza teria ouvido meu grito.
Não esperei para ver as consequências do meu erro, me levantei com certa dificuldade e sai dali o mais depressa que pude. Caminhei por entre as arvores, tentando evitar seguir uma linha reta. A escuridão me atormenta ampliando a sensação de estar sendo seguida, e para piorar a floresta estava diminuindo e o espaço entre as arvores aumentando. A partir de agora teria que contar com a vantagem de manter distancia entre o meu possível perseguidor, pois assim a escuridão me manteria em relativa segurança. A mesma escuridão que a pouco eu amaldiçoava, agora eu me sentia grata por tê-la. Não pude evitar notar como ironicamente minha opinião mudou em relação a isso, e teria rido senão estivesse cansada e irritantemente amedrontada. Após algum tempo de uma tentativa inútil de correr do meu erro, afinal eu apenas caminhava com maior velocidade que o normal, devido à descarga de adrenalina que percorreu meu corpo por causa do medo que senti, a adrenalina baixou e todo esse excesso de esforço se somou ao meu corpo alquebrado. Dores fortes voltaram a me incomodar e meu pé vacilou por um instante, o que foi o suficiente para que eu tropeçasse e caísse ao chão. Tentei erguer os braços para evitar uma queda maior, mas foi em vão, meu corpo tombou de frente e minha cabeça se chocou com força no chão. No mesmo instante eu perdi o fôlego e minha visão ficou turva, me senti zonza e quase perdi os sentidos.
Demorei alguns minutos para recuperar os sentidos e finalmente olhar ao redor para ver se havia algum perseguidor, mas felizmente não havia ninguém. Porém algo me chamou a atenção, eu ouvi barulho de água por perto, procurei insistentemente para saber de onde vinha, mas fui incapaz de determinar sua localização. Quando finalmente eu tive condições o suficiente eu me sentei, e então com mais calma eu voltei a procurar pela localização da água. Novamente fui incapaz devido aquele maldito escuro que voltou a me incomodar, procurando com um pouco mais de atenção, por fim percebi que a minha direita, uma clareira se abria no meio da floresta, e estava a mais ou menos uns quinze metros de distancia. Levantei-me e caminhei com dificuldade até lá. Quando finalmente cheguei, a margem de um lago ou rio não sei dizer ao certo, surgiu diante dos meus olhos, ele se estendia até onde minha visão alcançava e além, num ambiente sinistro e definitivamente assustador, o lago ou rio desaparecia na escuridão. Aproximei-me da margem, e ajoelhei perto da água que batia calmamente contra as pedras, estendi os braços e com as mãos em formato de concha, joguei uma, duas, três doses de água contra o meu rosto, e me permiti sentir esperança e satisfação por um segundo.
Enquanto eu alvejava meu rosto com água tentando me limpar, meu coração se enchia de esperança, eu não entendia como algo tão simples como água, podia me trazer tamanha alegria. Brinquei naquelas águas como uma criança que vê pela primeira vez o mar. Sentada ali a beirada do que quer fosse eu senti meu corpo se restabelecer, estava mais calma e tranquila. O contato com a água preencheu meu coração com um sentimento que eu não seu explicar, mas seria algo como felicidade. Continuei me banhando naquelas águas tranquilamente, mas de repente...
Mãos fortes me agarraram, segurando meu cabelo e meu braço esquerdo, me empurrou para dentro da água. Num segundo vi tudo ao meu redor sumir, e bolhas saiam da minha boca ao invés de palavras. Engoli litros de água, me debati e estapeei repetidas vezes quem quer que fosse que estava tentando me matar. Arranhei o braço, bati no rosto do demônio, mas seus braços fortes e poderosos não se moviam. As bolhas que surgiam da minha garganta na tentativa inconsciente e inútil de gritar, não me permitiam ver o rosto do meu algoz, apenas uma imagem borrada. Cravei as unhas nos ombros do maldito, mas meus braços aos poucos amoleceram e um silencio assustadoramente confortável tomou conta do pânico e medo que eu estava sentindo. Eu sabia que eu morreria ali, que aquele seria meu fim, mas estranhamente essa ideia não me assustava. Senti alivio e meu corpo flutuava na imensidão escura, minha consciência estava se apagando. Eu senti minhas pálpebras se fecharem, as bolhas que me cercavam diminuíram e vi apenas uma silhueta distorcida do demônio que me agarrava, eu estava fraca e cansada, me entreguei ao destino e deixei meu corpo flutuar naquelas águas escuras... Era a morte que se aproximava, e eu sabia, mas nada mais me abalava... Estava exausta e entregue. Sim esse seria o meu fim, mas já não importa, eu descobriria o que há depois da vida, quais segredos e mistérios que se escondem pelo véu da mortalidade, eu descobriria.
Meu corpo flutuou por eras, minha mente vagueou pelos quatro cantos do planeta, senti toda dor e desespero que emanavam da terra e fui além, ao espaço, vazio e delicadamente silencioso. Lá onde ninguém podia me ouvir, eu olhei para o infinito, o lar das estrelas, e tentei alcança-las e toca-las. Mas foi inútil, por mais que eu tentasse partir, algo me prendia. Eu não conseguia me livrar das amarras que me mantinham presas aqui. Um turbilhão de pensamentos passou pela minha mente, e num ímpeto de fúria e raiva, recobrei a consciência e quase me lancei pra fora da água.
Eu estava há alguns metros da margem e imediatamente meu estomago regurgitou toda a água que eu havia engolido. Entre golfadas de água e me manter em movimento para não afundar novamente, eu procurava desesperadamente pelo meu algoz, para poder me afastar dele. Porém, não havia sinal de ninguém ao meu redor. Quando finalmente acabei de expelir o que havia no meu estomago, me pus a nadar para a margem. Cheguei à margem, e ao sair da água meu corpo não mais respondeu a minha vontade. Cai quase que de cara no chão, se não fosse o impulso natural de me virar. Eu tremia, enquanto minhas pernas se debatiam enlouquecidamente tentando me tirar dali. Meu corpo quase não respondia as minhas vontades, tive que esperar por algum tempo até que todas as minhas funções neurológicas se normalizassem. Quando finalmente retomei o controle do meu corpo eu corri... Corri o máximo que eu pude, sem direção, até que meus pulmões quase explodiram. Mas que dia infernal!
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