Notas iniciais
QUEM É VIVO SEMPRE APARECE, HEIN?

Palácio Dulber, Yalta, Crimeia.

Antanasia desceu da limusine, muito agitada, os homens ajudaram-na e se dirigir para dentro do local. Arquitetura de Dulber era cheia de reflexos da anatomia das construções árabes que encantaram Piotr Nikolaevitch, um parente próximo.

Agora servia como mero local de exótica apreciação aos ricos turistas que visitavam a região, mas como herdeira secreta do lugar, ela podia cancelar quantas visitas quisesse.

— Depressa, onde ele está? — Interrogou, ansiosa.

— Num dos quartos, chorando. Está sendo arisco com as moças.

— Ao menos por enquanto. — Ela pontuou, recordando-se que os seus eram exatamente assim até a idade em que tomaram interesse pelas mulheres. Já entrando num novo corredor, podia ouvir o choro vigoroso do menino ressoando pelas paredes. Adentrou o quarto, as empregadas fugiram aliviadas e no berço o menininho berrava com o rosto já vermelho. Antanasia não soube se teve dificuldade maior em pegar o menino por sua própria idade ou pelo peso dele, mas insistiu em fazê-lo. — Pronto, pronto, pronto. Que genioso!

— Tem certeza que não é melhor por algo no leite dele...?

— Pelo amor de deus, ninguém vai drogar o meu bisneto!

O que viver entre um bando de assassinos sem escrúpulos não a obrigava a ouvir, não era?

Indra já estava rouco, mas seguia dedicado a mostrar que não estava feliz com o passeio repentino.

— E quanto a eles...? — Indagou, balançando-o.

— Parecem confusos como baratas.

— Por enquanto, ao menos. — Ela suspirou, com desgosto. E pensar que havia um grupo de pessoas tão ridiculamente indigno em volta de seu neto.

A casa sem nome, não passava de uma lixeira onde os assassinos jogavam seus bastardos, era uma afronta não só as outras casas como para a alta cúpula que essa classe de gente estivesse se articulando para derrubá-los. Mas ela estava feliz de ter tirado deles o trunfo que impedia a casa czarina de massacrá-los de vez.

— Não demore muito para a limpeza, não quero ninguém se intrometendo nos nossos assuntos.

Gustav assentiu, ajeitando o chapéu fedora na cabeça.

— E quanto ao meu neto? – Ela indagou.

— O perdi entre Hong Kong e Taiwan. Acho que subestimei ele.

— Ou talvez esteja ficando velho, meu amigo?

— Talvez.

— Certifique-se de que ele fique longe por enquanto. Não posso pôr o filho de Itachi a perder, se ele estiver mesmo louco pela garota a ponto de querer ferir o menino.

Gustav alternou os olhos para o menino, estreitando um pouco os velhos olhos de rapina, com certa dúvida. Antanasia piscou, sem entender.

— O que foi?

— Hm, nada, só não me recordo de Itachi ter sido tão... Energético.

Já o outro...

Ele já suspeitava de algumas coisas, mas não fazia sentido levantar isso agora, Antanasia não se importaria, de qualquer forma.

Ela jogou os olhos de volta para o menino, soluçando todo avermelhado, olhos verdes enormes e cabelo rosa agitado. O que poderia dizer?

Olhos de mãe não viam defeito nos filhos, mas ela era bisavó, então era um pouco mais lúcida.

— Humpf, vai ficar. Aliás... Ele mandou alguma notícia?

Vladmir negou. Também estava contrariado com essa parte dos planos, mas, mais uma vez não havia como demover a mulher da ideia.

Antanasia suspirou, um pouco chateada.

Gostaria que os dois estivessem por perto, como uma família.

Mas, estava satisfeita com tudo até aí. Era mais do que ela podia desejar, depois de tão doloroso golpe.

Ironicamente, o mesmo golpe que sua mãe havia recebido. Mas ela não permitiria que esse trágico momento da vida dos Romanoff se repetisse novamente.

Este bebê era a prova disso.

¤

— Típico. — Sasuke concluiu, depois de ver as fotos do opulento hotel na Crimeia. Sua avó era a típica chata das origens e blá blá blá. Ela não dispensaria ficar com a bunda orgulhosa dela em algum lugar que lembrasse nem que minimante a história da família dela. Afastou-se da mesa, sentindo os olhos arderem da falta de sono, mesmo que fosse costume, ainda era irritante.

— Onde ela está? — Indagou, pois já esperava que Sakura faria alguma coisa, ela havia esperneado, chorado e até o culpado o bastante, depois se trancara no quarto com as coisas do menino como se estivesse de luto ou agorafóbica de novo. Mas mesmo ele poderia se acostumar com suas reviravoltas.

Além que, 89 não estava por perto.

— Ela voou para Amsterdã. — Izuna disse, amassando um guardanapo engordurado e atirando no lixo. Sasuke se voltou para ele, como já devia esperar, nada de bem com isso.

— Que porra ela foi fazer em Amsterdã?

— Falar com um membro da alta cúpula.

— Que membro?

— Rutger Brunswichk. — Sasuke só não sentou numa cadeira por que tinha muito ego segurando as pontas ainda.

— Como caralhos, ela conseguiu uma audiência com Rutger, se nem conseguimos achar essa cambada de filhos da puta em primeiro lugar?!

— Savió, é claro. — 32 respondeu, enquanto limpava o cano de uma escopeta. — Ele usou a influência da casa para exigir uma audiência.

— E desde quando ele tem colhões pra isso?

— Sozinho não, mas com a casa italiana...

Sasuke franziu a testa, calculando tudo.

— Acha que ela tem alguma chance, então? — Karin disse, ansiosa.

— Normalmente a alta cúpula faz vista grossa pras merdas uns dos outros, desde que não os atinja num todo. Mas é uma obrigação deles controlar e apaziguar os ânimos entre as casas. Se Sakura exigir o moleque de volta, Rutger pode levar a questão para uma votação, se Antanasia perder, ela vai ter que devolvê-lo ou corre o risco de perder a cadeira ou mesmo a vida, nem eles mesmos podem ir contra as decisões que tomam em coletivo.

— Então tem uma chance! — Ino exclamou.

— Não se anime demais. Primeiro que pra conseguir isso, Rutger tem que ceder a uma pressão bem feita. E considerando os últimos tempos, a Kuran Uchiha não tá com essa bola toda. Savió não é tão influente junto a cúpula, só podemos contar que Martino consiga convencer muito bem como um padrinho preocupado. — Izuna disse.

— E que a Sakura não surte. — Sasuke completou.

¤

Amsterdã também era conhecida como Mokun, a Veneza do norte. Num dos barcos luxuosos que circulavam por lá entre casas flutuantes, Sakura não precisou fazer qualquer esforço ou mentir.

Todas as lágrimas e soluços que deixara sair eram reais, a única coisa que ela continha agora era o desejo de rasgar aquele sorriso desdenhoso de Rutger Brunswichk da cara.

O homem assistiu seus pedidos e desespero como se estivesse diante de um programa tedioso de TV.

— O senhor pretende dizer alguma coisa ou vai apenas ficar nos encarando de volta? — Martino indagou, provavelmente só ele tinha coragem para ser rude agora. Savió quase estralou ao lado dele e Sakura percebeu que havia posto fé demais nessa ligação.

Ela precisava de mais, mais poder, mais alianças, alianças com gente mais forte. Forte o suficiente para fazer Brunswichk tremer mas de terror, não de vontade de rir.

— Sr. Martino, não me leve a mal. — Ele iniciou, com um sotaque holandês tão forte que para Sakura era mais como o um gargarejo desagradável. Tudo nele era desagradável, desde sua cara de buldogue velho e pervertido a seu ar superior, não um ar superior de “tenho um sangue azul” como o próprio Sasuke geralmente tinha. Mas um olhar superior de “sou um homem”.

A posição dela tampouco favorecia muito, não podia fazer mais do que parecer patética, e subterfúgio ou não, agora isso a irritava muito. Sakura queria ser forte o suficiente para dar fim ao último desejo de Itachi, vingar sua família, libertar Sasuke dessa sina de morte, e dar um futuro de verdade ao filho deles.

— Mas vocês entendem que não há muito que eu possa fazer. Conheço Antanasia, ela não vai se curvar nem para a alta cúpula.

— E alta cúpula vai se curvar para ela então? — Sakura rebateu, fungando. Sentiu o toque de Martino no ombro, e ele a deu um olhar cauteloso.

— Cuidado com a língua, mocinha. — Rutge encarou-a, sua cara de cachorro ampliando-se numa careta odiosa e fria. — Pode ter conseguido chegar até aqui com essas lindas pernas, mas entenda que existem limites até para sua beleza.

— Antanasia abriu mão dos descendentes desde o momento que casou com um Uchiha, porque ela teria direito ao menino agora? — Savió disse, um tom mais suave e de desdém. Deu de ombros. — Não faz sentido.

— Não faz sentindo um herdeiro para uma casa que não existe mais. O menino estará melhor com ela. — Rutge rebateu, ácido. — O bastardinho tem sorte, isso sim, para quem nasceu herdando um monte de cinzas, ser resgatado e ir para o colo de uma casa como a czarina é privilégio para poucos. — Ele acentuou suas palavras, lançando um olhar cínico para 89.

Sakura se levantou de uma vez, atirando o lenço no chão, as bochechas e nariz avermelhados faziam sua face parecer brilhar cremosamente como as de alguma jovem virgem imortalizada em uma obra renascentista. Martino puxou seu braço, mas ela apenas contornou a cadeira em que estava, lançando um olhar de puro ódio que embeveceu o velho homem.

— Obrigada, por seus conselhos, senhor. Lembrarei deles quando queimar a casa czarina até a última cinza.

— Acho que está bem resoluta, senhorita. — Ele rebateu.

— Logo terá certeza. Eu garantirei isso.

Martino e Savió despediram-se e seguiram para a parte externa do barco, Sakura já embarcava na lancha, eles entraram, e observaram-na de canto. Seus olhos verdes pareciam vidrados refletindo as águas do canal, e seus exuberantes lábios tremiam, mas definitivamente não era de choro.

¤

Dias depois.

Toda a mansão estremeceu como que bombardeada de baixo para cima, Antanasia se desequilibrou e caiu sentada na poltrona, atônita, uma sucessão quase infindável de tiros ecoou de fora e por um momento ela voltou a lembrar de todas as fugas que teve que passar para chegar viva aonde estava.

— Vl–Vladmir! — Gritou, logo ele apareceu, carregando uma arma e recarregando-a agilmente.

— Precisamos ir!

— Quem está fazendo isso? Quem está atacando?! — Ela esbravejou, indignada. Não que duvidasse que viriam tentar tomar o menino de si, inclusive se adiantara um passo, mas tão abertamente? Em plena luz do dia?

Só a Alta cúpula teria tanta audácia, e eles não fariam isso antes de um aviso chegar. Antanasia nada recebeu, mas tinha a informação de que haviam tentando apelar para Rutge.

Inclusive, surpreendeu-a que aquela ratazana machista não houvesse aceitado.

¤

— Fiz o que recomendou. — Rutge disse, puxando a garrafa de whiskey do bar. — Mas só porque não vi motivo para negar. Ver a casa Italiana se remoendo pra conseguir as coisas de vez em quando é sempre delicioso... Mas Savió? Quanta ousadia...

Servindo dois copos, ele contornou o balcão e foi até os sofás, sentou de um lado e pousou um dos copos na mesinha, recostou-se enquanto o outro apanhava o copo e ergueu o próprio ligeiramente, com uma expressão satisfeita.

— Sim, sim, muita ousadia. — Guldbrandsen respondeu, mais que satisfeito.

Agora só precisava esperar as minas recém-plantadas começarem a implodir a Folha, de dentro pra fora, da base até as torres mais altas onde tolos como Rutge achavam que estariam seguros para sempre.

¤

Sasuke ficou parado entre as palmeiras que circundavam o hotel, observando das sombras o confronto entre as casas reduzir o local a pedregulhos e pó.

Parece que 89 resolvera caprichar na quantidade de granadas e Sasuke desconfiava do porquê.

Olhou ao redor, procurando algum veículo, não duvidava que Sakura estaria lá para ver o castelo de Antanasia desabar ante seus pés, então estranhou não ver nada que sugerisse sua presença.

Ele avançou pelo pátio e adentrou o local por uma janela, esgueirando-se pelos corredores, escondeu-se atrás de uma estátua quando um grupo de russos passou, gritando ordens. Sasuke seguiu adiante, em busca dos quartos, tendo conhecimento da planta, não demorou a procurar o aposento mais seguro. Só esperava que ainda estivesse de pé.

Invadiu o quarto, apontando a arma para os cantos, localizou um berço perto de uma cama e seguiu até lá, mal havia tocado a madeira quando viu o timer da bomba e praticamente voou para cima da cama, caiu sobre ela, rolou puxando o colchão e caiu no chão, com ele sobre si, encolhe-se ouvindo o quarto inteiro tremer com a força da explosão, pedaços de madeira e revestimento espalharam-se pelo chão e tiras de tecido caíram pelo ar, em chamas.

Sasuke engatinhou, empurrando o colchão de cima de si, um pouco zonzo pelo estrondo. Sacudiu a cabeça tentando normalizar a visão quando algo acertou seu queixo. Ele cambaleou para o lado e se apoiou numa cadeira, quando sentiu o adversário vir, girou levando a cadeira e quebrando-a no corpo dele.

O homem caiu sobre a armação da cama, e Sasuke subiu nele, acertando a arma com um pedaço da cadeira que ainda tinha em mãos, tentou o apunhalar com ela, ele segurou seus pulsos e ambos fizeram força, Sasuke jogou o corpo sobre os punhos, usando o peso para fazer a estaca descer. O filho da puta tinha braços da grossura de uma porra de tronco. Sasuke ofegou, cansado e puto, e o bastardo de uma risadinha.

O Uchiha, ergueu um dos joelhos e esmagou a virilha dele assim, o outro urrou de dor e grunhindo, puxou Sasuke rolou para cima dele, trocando a posição, a estaca cutucou o peito de Sasuke, seus braços tremeram e ele debateu as pernas que foram logo bloqueadas pelo peso do atacante.

Redirecionou a força para outra direção, tentando desviar o dano para uma área menos imprescindível, tipo a porcaria do coração ou pulmões. O russo jogou o corpo brutalmente sobre ele, Sasuke bateu no próprio cotovelo para desviar a estava para o ombro e ao menos de centímetros em sua carne.

Ele soltou um urro, o russo riu, uma bala atravessou a testa dele, e Sasuke o empurrou com um último ofego antes que seu corpanzil fizesse a maldita estaca atravessá-lo.

Arquejando olhou para a porta e viu apenas a cauda de um vestido passar pelo corredor. Arrancando a estaca de si, Sasuke seguiu até a porta, e viu Sakura virar no corredor, grunhiu de dor, grandes manchas de sangue ficando pelo caminho quando se apressou para alcança-la.

Ela ia abrindo uma porta, Sasuke disparou, puxando-a para o lado quando uma rajada de tiros veio de lá de dentro, prendeu-a contra a parede e devolveu as balas.

— Que diabo você tem cabe-...

— Dá pra parar de me encochar? — 91 rebateu, secamente, ele recuou na mesma hora, como se tivesse sentindo um pênis dela. Bufando, a mulherzinha bufou, arrancando a peruca rosa da cabeça, adentrou a sala puxando uma arma dos coldres escondidos nas anáguas do vestido.

Sasuke entrou na sala, agora apenas lotada de corpos, fitando aquele pedaço de gente e se perguntando como diabos havia confundido essa bunda pequena e arrebitada com a abundância de Sakura. Olhou para o ombro perfurado e decidiu que havia perdido muito sangue.

— Onde ela está?

— Não se preocupe. — Ela respondeu, catando as armas. Recarregou uma metralhadora e jogou para ele. — Ela está observando.

¤

Sakura girou o pulso, oferecendo a taça e 23 derramou mais uma dose de vinho nela, ela manteve os olhos fixos no monitor de onde as sombras das labaredas que começavam a consumir a casa dançavam.

Ela tomou um gole, movendo o olhar pelos outros monitores onde tinha a mesma visão dos seus homens invadindo cada cômodo, inspirou, crispando os lábios a cada aposento revirado, e sem nada de significativo encontrar.

Ela fugiu por um túnel, não estava nas plantas. — 32 avisou pelo rádio.

— Siga-os.

— E quanto ao prédio? — 89 disse.

Sakura afastou a taça dos lábios, arqueando as sobrancelhas.

— Ora, é óbvio. Não deixe pedra sobre pedra. Reduza tudo a cinzas. — Declarou, como quem escolhia uma nova cortina para a sala.

89 assentiu, tocando o fone encaixado no ouvido.

— Ouviram a Koyosegi. Usem as minas.

Okay.

¤

97 de repente se voltou para Sasuke, a rajada de tiros ameaçava fazer ruir as colunas de concreto onde se protegiam.

— Koyosegi mandou explodir tudo.

— Ah, jura?

Eles respiraram fundo, esperando uma curta pausa para recarga de cartuchos, e saltaram longe das colunas disparando as metralhadoras na direção dos homens. O chão tremeu com outra explosão vindo de outra ala do hotel, mas sabiam que não demoraria a tudo cair sobre eles. Correram através de um longo corredor, o prédio se desfazendo logo atrás em fogo e concreto, como uma avalanche.

Sasuke atirou o corpo contra uma porta e em seguida se arrependeu, seu ombro protestou em pura dor que fisgou-o até o quadril, ele seguiu em frente, arrastando uma perna, 97 mergulhou através de uma porta de vidro, sem hesitação, ele fez mais algo como um tropeção, atravessando a barreira, rolou até cair na piscina e um monte de entulho também espirrou sobre a água logo atrás.

Tentou nadar mais para o fundo, evitar os destroços e por fim emergiu na outra ponta, arquejando por ar, se arrastou para fora da piscina e correu com 97 entre as árvores que cercavam o local. Exceto por mais explosões e labaredas, só havia água nos ouvidos dele, mais tiros e russos xingando.

— Essa foi a pior incursão que eu já fiz. — Rosnou enquanto mancava pela beira da espada, 97 meneou a cabeça, nem concordando nem discordando, segurava um dos braços onde uma fina linha de sangue escorria.

— Mas não foi a melhor defesa deles. — Rebateu, Sasuke olhou para trás, vendo as chamas lambendo o céu escuro, por cima das árvores.

Tinha que concordar? Tinha.

Antanasia não contava com uma rebatida tão forte, e nem ele. Sabia que não havia apenas os Sem Nome nessa, Savió e Martino disponibilizaram seus homens para Sakura usar à vontade também.

Isso era mais que uma contra investida ou resgate, era uma demonstração pura e simples de poder.

Imprudente, certamente, mas devastador, mesmo assim.

Talvez fosse hipócrita decidir isso, quando logo ele fora a pessoa mais insubmissa em se tratando da Kuran, mas não conseguia ver qualquer outra opção.

Tinha que por Sakura sob controle, ela estava manipulando suas cartas de maneira precipitada.

Mas Sasuke, simplesmente não sabia se ainda havia chance de pôr lhe rédeas ou frear.

Ao menos não enquanto não tivesse Indra consigo.

Você era meu opressor

E eu, eu fui programado para obedecer

Mas agora, você é meu manipulador

E eu, eu vou executar suas ordens

¤

Vladmir abriu a porta, uma das empregadas passou empurrando o carrinho com o bebê dormindo e ele estendeu a mão para ajudar a mulher a subir o último degrau.

— Vlad-...- Ela iniciou, protestando.

— É o melhor que podemos arranjar até que o avião pouse. — Ele insistiu, guiando-a até um sofá, e empregada estacionou o carrinho perto dela. Mesmo contrariada, Antanasia aceitou a condição.

Mas ainda era cabeça dura demais para aceitar que haviam tomado uma contra investida muito mais forte do que o esperado.

Ele se retirou, e ela olhou ao redor, a torre velha a poucos quilômetros do hotel tinha apenas um pequeno escritório com móveis de segunda mão e um forro ligeiramente mofado. O bebê fungou em seu sono, e ela afagou seu rostinho, torcendo que ele não tivesse qualquer alergia ou intolerância a ambientes assim.

Não havia tido tempo para se familiarizar o suficiente.

Suspirou, ouvindo um som arranhado vindo do teto, ela bufou, indignada. Como se não bastasse isso. Ratos.

Algo impactou contra o chão e a mulher se virou assustada. Deparou-se com um homem de cabelos escuros, jeans sujos e camisa, e sorriu com alívio.

Até ele se virar e Antanasia empalidecer de horror e segurar o carrinho com força, instintivamente.

— Quem é você?

Me deixe em paz

Eu devo me desassociar de você

¤

Observe minha formação inconsciente

E você tem poder de fazer o que quiser

Minha mente se perdeu na interpretação

E meu coração se tornou uma máquina fria e impassível

Quando ouviu o som de tiros novamente, Sasuke sabia que estava de volta ao olho do furacão.

Saltou fora da mata, junto de 97, ambos olharam atônitos para o verdadeiro campo de guerra que a pequena propriedade se tornara.

Não sabia se ficava estarrecido de ver tanta gente da casa russa de uma vez, ou tanta gente do lado de Sakura.

Talvez ele houvesse subestimado a intemperança dela um pouco mais do que imaginou.

O ruído alto das hélices de um helicóptero chegou até eles. As árvores se sacudiram violentamente e aeronave passou acima deles em direção a uma velha torre.

— Se aquilo for o que eu penso...- 97 iniciou. O estrondo oco de uma arma potente os chamou a atenção, havia um jipe blindado parado no meio da campina, da janela aberta, 87 ainda segurava um lança-rojão AT-4. O helicóptero se tornou uma nuvem de fogo e fumaça antes de colidir no solo.

— Não é mais. — Ele disse, atônito.

Eles correram, sem outra opção a não ser revidar tiros com a pouca munição que havia, chegaram até o jipe, 87, atirou armas para eles e Sasuke contou as balas antes de ver uma das janelas abrir e Sakura olhar para ele de dentro. Quase deixou as balas caírem.

Ela o fitou praticamente sem expressão, mesmo os olhos e nariz vermelhos.

— Você... O que porra faz aqui?!

Sakura se limitou a dar pouca atenção ao que ocorria em volta, basicamente fora de órbita. A janela voltou a se fechar.

— Disse que iria garantir... — Balbuciou.

Sasuke socou o vidro, atoa.

Tentou contornar o carro mas desistiu, alcançar o que parecia ser o alvo – a torre, parecia impossível agora. Antanasia podia trazer quantos helicópteros pudesse.

Um tiro de .50 acertou em cheio o pneu traseiro do carro, fazendo-o se desestabilizar, 87, entrou novamente, através do teto solar e o fechou, gritando para saírem dali e Sasuke ainda ouviu a garota gritar que não.

Diabos. Isso estava além do que se podia chamar desespero, era insanidade.

Sakura estava louca.

O carro iniciou uma saída, prejudicada pelo aro do pneu que afundava na grama, 97 acompanhou o avanço, usando como escudo.

Sasuke recarregou a arma e respirou fundo.

Saiu da proteção do carro e seguiu em frente, tiro por tiro.

— Sasuke! — Ele olhou para trás, vendo-a fora do carro, sendo contida pela outra mulher. — Para! O que está fazendo?!

— O meu trabalho.

— Não! Eu não mandei fazer isso! — Ela berrou, ele não rebateu antes, um tiro passou rasgando sua canela e Sakura gritou mais.

Sasuke deitou e mirou, acertando uma cabeça entre escondida entre pedras.

Se ergueu sugando o ar e continuou.

— Não posso fazer o que você manda. — Disse. — Leve ela daqui!

97 arrastou-a com um mata leão em direção ao carro.

Os gritos dela continuaram em seus ouvidos.

Sasuke decidiu que não poderia parar. Mas percebeu que ainda queria desculpar-se.

— Não posso obedecer você, querida.

Nem em nome da vingança, nem em nome da família ou do poder, nem sendo uma parceria e por isso, talvez nem em nome do amor dela.

Ele nunca foi obediente.

E estava exausto de tentar seguir comandos. Ou mesmo de entender o que Sakura queria deles. Uma hora ela queria o “homem de mil armas” e noutra, um capanga leal. Ela não entendia que não havia como ter essa coexistência.

Mesmo ele havia se deixando enganar.

Me deixe em paz

Eu devo me desassociar de você

¤

— Que-quem é você...? — A mulher arquejou, cada vez mais pálida, tentou segurar a manta do bebê quando ele passou, levando-o, mas sem forças, só conseguiu manchá-la. Ele balançou o menino, que estava acordado mais cansado demais para reagir contra a presença do estranho.

Antanasia puxou a mão de volta, tocando o peito, as roupas cada vez mais empapadas de sangue. Ela deitou a cabeça contra o sofá, tentando reagir enquanto o homem destrancava a porta e dava uma olhada.

Ele fechou-a, decidindo dar mais algum tempo. O bebê estava mais e mais desperto, e o encarou com grandes olhos verdes.

Olhando-o de volta, notou que ele parecia ter o mesmo formato de rosto que o da mãe, até a testa era ligeiramente ampla, encostou o indicador no meio dela.

Seria rápido.

Mas talvez não ficasse intacto...

Pei. — Sussurrou de uma vez como se fosse um disparo, a criança se espantou, o encarou arregalando os olhos e então arregalou a boca e se remexeu, rindo.

Ele sacudiu a cabeça, decidindo que isso se parecia mais com ela do que deveria.

— ... Vo-cê quer...? — A velha balbuciou, os olhos cada vez mais apagados.

Ele suspirou e abriu a porta novamente, agora parecia seguro sair.

— Apenas dando um recado. — Disse.

— Recado... Quem...?

— Todos.

Já estava na hora de todo mundo saber que usá-lo, subestimá-lo, ou traí-lo não era uma boa opção.

Eu não deixarei você controlar meus sentimentos

E eu não vou mais fazer o que me mandam

Eu não tenho mais medo de andar sozinho

¤

Sakura subiu as escadas em caracol aos tropeços, quase caiu contra o último degrau, e ao entrar, 87 e os outros inspecionavam o cômodo enquanto Sasuke encarava um carrinho de bebê.

Sakura correu até ele, puxando-o, seus joelhos fraquejaram e ela caiu sobre eles, abraçando o carrinho e chorando mais uma vez.

Izuna entrou logo atrás e parou, encarando o sofá, a arma caiu de sua mão. Sasuke puxou Sakura, forçando-a a largar o carrinho e tentando arrastá-la pra fora. Ela se debateu, e só então olhou para Izuna e o sofá.

Uma senhorinha parecia dormir nele, ela era adoravelmente elegante, e vestindo um terninho branco, com um broche de ouro caríssimo, com um rubi tão vermelho quanto o sangue que manchava suas roupas a partir de um miúdo furo em seu peito. Ela caiu novamente, horrorizada.

Quem fez isso? — Izuna, rosnou, pálido, os dentes rangendo alto.

— Estava vazio quanto entramos. — 33 avisou.

— Estou falando sério.

— Não matamos ela. Não recebemos ordem para isso. — 87 declarou. Sakura sacudiu a cabeça, enjoada, apavorada e horrorizada.

— E-eu nunca... Nunca... — Balbuciou, sem conseguir tirar os olhos da mulher.

Mulher que era família, sendo Uchiha ou não, era mais família que Sakura era, e ela jamais pensou que a queria morta, por mais que estivesse com medo, ou com raiva ou indignada pela posição da cúpula, ela nunca pensou em criar algo como isso.

— Saber quem foi, não faz diferença. — Sasuke disse, mas sua voz era tudo menos indiferente, ao menos para ela. Girou em seu braço, encarando-o e negando.

— Não fui eu, não fui eu, eu juro!

— Vamos. — Ele insistiu, seguindo em frente, Izuna descongelou e agarrou seu outro pulso onde ele segurava uma fralda.

— Então quem foi?

Sasuke pareceu engolir uma resposta, e inspirou, o braço em torno de Sakura afrouxou e ele a encarou com a raiva que ela temia.

Ergueu a fralda, segurando-a onde havia o que parecia ser uma mancha, mas era apenas uma palavra que inicialmente ela quase não reconheceu. Sakura agarrou a fralda, e caiu no chão, não sabendo fazer nada além de chorar e gritar encarando a palavra Saikenescrita nele.

— Disse que havia matado ele na frente do Martino, Sakura? — Sasuke disse, com escárnio. — Esse é problema de tentar ter todo o controle, querida.

— Você não o matou?! — Izuna rugiu.

— Ela deu uma chance a ele. — 87 disse.

— Não, ela tentou controlá-lo. De outra forma. — Sasuke corrigiu, friamente. Se abaixou e encarou-a desmoronar. — Neste mundo, você sempre está a um passo de perdê-lo. — Puxou sua cabeça e beijou-a. — Você nunca estará livre de ser uma marionete, enquanto tentar controlar todo mundo, Sakura.

Era por isso que ele havia escapado. Pois sentia que não havia outra forma de ser livre das cordas, inclusive, nem mesmo se tentasse ser o manipulador delas.

Agora Sakura estava aprendendo isso da pior forma, e ele também.

Sasuke se levantou, e deu um último olhar àquela velha teimosa, antes de partir.

¤

Me deixe ir

Me deixe ser

Maxine observou, horrorizada. Ele pousar a criança na cama ao lado dela e dar as costas.

— O que você fez? — Indagou, sem certeza de que queria a resposta.

Ele se limitou a se sentar em frente a janela, como fazia quase todas as noites depois de pouquíssimas horas de sono e vigiar com uma arma na mão e um olhar profundamente vazio para a rua.

A criança se debateu, começando a chorar.

— Uta-...

— Não pergunte o que não quer saber. — Rebateu. — E faça ele se calar.

Ele era barulhento que nem a mãe.

E ela deveria estar fazendo muito mais barulho agora.

Estou escapando

Do seu domínio

Você nunca será meu dono novamente

(The Handler – MUSE)

Notas finais
Eitaporradocrl