Vingador Vol. II
18 17. Quebra da Caixa de Pandora. Amianto.
Notas iniciais
Em algum ponto entre Paris e Viena.
Sakura despertou com o trepidar esporádico do trem, esfregando o rosto, girou para o lado e sua perna escapou da cama, tocando o tapete felpudo. Sentou no colchão e ainda com os olhos apertados, vasculhou o ambiente em busca de Sasuke. Levantou e seguiu para o pequeno banheiro, ocupando-se de se arrumar, só depois de vestida, procurou o serviço de quarto.
Com batidas suaves vindo do outro lado, ela se viu entre ir atender ou esperar que dissessem algum tipo de senha, posto que Sr. 87 havia deixado claro que não deveria andar desacompanhada nem no trem, ou receber qualquer um.
Se aproximou da porta, um pouco hesitante, o olhar relanceou ligeiramente até a arma sobre a cômoda, uma Tauros-alguma-coisa, estilizada que ela, tanto quanto o falecido, esperava não ter que usar.
— Quem é? – Indagou.
— É o serviço de quarto, o seu acompanhante mandou avisar que a espera para o café no restaurante.
Sakura abriu a porta, dando com uma empregada de aspecto gentil e um sotaque forte e harmonioso. Sakura gostava de sotaques europeus, achava todos bastante charmosos, talvez por que se sentia desajeitada com seu japonês ao se adequar ao inglês britânico, enquanto pessoas de outros países europeus que vinham para estudar, lhe pareciam se sair melhores que ela.
— Tem... Certeza? – Indagou, um pouco desencorajada a encarar o longo corredor, a moça sorriu quase como se fosse uma pequena piada inocente e divertida, lhe estendeu um guardanapo dobrado.
— Ele disse que perguntaria isso.
Sakura pegou, e a mulher, achando ser suficiente, se despediu e seguiu caminho.
Olhando para os lados mais uma vez, Sakura desdobrou o papel e encontrou a marcante letra de Sasuke.
“Anda logo, rata”.
Isso definitivamente era convincente o bastante, ela admitiu, suspirando. Que amante gracioso ela foi arranjar...
— Tão romântico. – Resmungou um pouco, saiu do quarto e fez a caminhada rumo ao tal restaurante, apesar de parecer inicialmente um tanto inconcebível, era realmente possível e confortável a forma como todos os espaços do trem cabiam nele.
Os quartos, as áreas livres como o restaurante, com duas longas filas de mesas e cadeiras de cada lado, frente as amplas janelas que forneciam a fabulosa e quase mágica visão natural de montanhas e florestas de uma terra que ela nem sabia dizer qual era, graças a sua péssima aptidão com Geografia.
Seu vestido estampado de flores num tom verde pastel, era longo no estilo qi pao, ainda que aberto nas laterais e isso a incomodasse um pouco, considerando que parecia chamar muita atenção dos outros passageiros.
Talvez fossem seus traços asiáticos, duvidava muito que todos ali poderiam perceber que ela era uma meio japonesa, meio americana, num vestido tradicional chinês.
Passou ao longo das filas de mesas, todas com um bom espaço entre si e contornadas por sofás semi circulares que garantiam ainda mais intimidade e discrição. Havia inclusive um pequeno bar e ela apressou um pouco mais os passos, empurrando uma mexa solta do cabelo que havia prendido para cima com alguns prendedores.
Finalmente localizou Sasuke, sentado num dos sofás, lendo um jornal e com a mesa a sua frente já bem posta, a típica pose de gato aristocrata que ela já conhecia.
— Você poderia ter me acordado. – Disse, parando ao seu lado, com uma cara aborrecida. Ele fez um gesto de esgar, pronto a dispensá-la e ignorar com sua ironia afiada, relanceou os olhos sobre ela rapidamente como se fosse soltar uma piada, mas eles se ampliaram e afiaram, muito desgostosos e ele se ajeitou no estofado.
— Que inferno está vestindo?
— Ora, o que foi? – Sakura tateou o tecido contra o ventre. — Tinha alguns deles entre as roupas, achei bem práticos e...
Sasuke estalou a língua e pegou o pulso dela, puxando-a para sentar seu traseiro no sofá do outro lado da mesa.
— Dane-se, sente e coma. Não chamei antes porque não mudaria nada a sua demora e manha pra levantar. Apesar que parece que deveria feito mesmo assim...
Sakura desistiu logo de tentar entender o que deixava tão aborrecido logo pela manhã. Sinceramente, sabia que ele sempre arrumava algo pra reclamar, era um velho rabugento no corpo de um belo homem jovem. Ela não precisava estragar a manhã lidando com isso.
Então pôs-se a lidar com a mesa posta, ainda quentinha e muito cheirosa, seu estomago apertou de fome, e ela atacou um pão de mel com gosto enquanto enchia uma xícara de café.
— Onde estão os outros? Ainda dormindo?
Sasuke riu, com desdém, apesar de irritante, chegava a ser engraçado quão ingênua ela era.
— Olhe em volta, rata, os gatos estão todos aqui.
Ela ergueu os olhos pra ele, grandes e bobões, um pedaço de cannoli entre os lábios.
Sakura olhou em volta, a primeira mesa que reparou foi a que estava de frente para a deles, do outro lado do corredor por onde garçons passavam a toda hora com carrinhos de bufê.
Nesta mesa, estavam cinco pessoas, Kakashi, Karin Uzumaki, Shikamaru Nara e as gêmeas da Casa sem nome, nas mesas a frente e atrás deles, todas preenchidas com mais dos guardas designados por Itachi. Sakura jogou a cabeça para o corredor, olhando a mesa atrás de si e vendo dois agentes, que a fitaram já perguntando por olhar se ela queria alguma coisa.
No bar, numa das banquetas estavam Naruto Uzumaki e outro agente. E quando olhou para a mesa atrás do banco de Sasuke, ela viu o Sr. 87, que no momento usava um chapéu, e acenou para ela, movendo a cabeça, os olhos atentos e cinzentos passando-lhe a mensagem “Nunca estará sozinha”.
Sakura se ajeitou no lugar rapidamente, engolindo o cannoli a seco.
Sasuke meneou a cabeça, revirando os olhos. Até a cutucaria dizendo que ela sequer saíra da cabine e veio até ali sem estar acompanhada por alguém.
Mas não precisava que ela desse um ataque de pelanca e ficasse paranoica. Não gostava desta coisa nenhum pouco, mas era forçado a admitir que era bem mais flexível do que quando ela vivia trancada num apartamento no subúrbio de Tóquio. No fundo ele sempre tinha em mente que algo poderia dar errado sem ele estar lá para resolver. E foi exatamente o que houve.
Ainda assim, não era um estilo de vida que pretendia manter a longo prazo. Eliminar a ameaça e desaparecer ainda era o plano principal.
— Hum, é um tanto perturbador, admito. – Sakura vagueou sozinha enquanto se servia. — Mas me pergunto se é assim que as celebridades se sentem...
Sasuke revirou os olhos e ela ria consigo mesma, sempre tão simples, estupidamente simples.
— Só faltariam os paparazzi. Clic clic. – Imitou uma câmera com as mãos em direção a ele. — Haha. Você seria um péssimo astro sempre com essa cara amarrada.
Se ela soubesse quão bom ator ele fora em algumas tarefas que já realizara na vida.
Sasuke deu de ombros, pegando uma xícara de café.
— Você já conseguiu abrir aquelas coisas lá no computador?
— Preciso de mais arsenal que isso e estudar o que pode se feito com ele depois. Num trem não vai rolar. Em Viena terei mais tempo e disponibilidade.
— Huuuum, me parece que está enrolando. – Sakura disse, num muxoxo. Sasuke estreitou o olhar pra ela, baixou o jornal e se apoiou na mesa, reclinando-se em sua direção.
— Que está querendo dizer com isso, sua rata de classe alta? Desde quando entende de computação? – Ela ruborizou, ofendida.
— Ora eu não disse que você não entende... Só que vocês disseram que com o computador já era possível abrir... – Lamuriou com beicinho.
Sasuke fez uma careta de tédio para aquela coisinha abelhuda fazendo bico. Honestamente gostava mais de quando ela perguntava pouco sobre o que ele fazia e apenas o olhava com aqueles olhos enormes brilhando mesmo quando não entendia nada do pouco que ele explicava e o achava um deus só por isso.
Agora era esta coisinha que falava ainda mais pelos cotovelos, perguntava demais, e ainda se achava no direito de reclamar por não entender. Sem falar na autoestima para usar um vestido daqueles como se fosse uma roupa velha de domingo.
— Escute aqui, cabeça de algodão doce estragado...
— Rudeeee!
— Eu preciso de mais equipamento porque não tenho certeza se os programas que Itachi deixou para descodificar aquelas merdinhas são realmente seguros ou se foram maquiados para parecer que são e destruirão o que tem no pendrive caso eu tente abri-los. Então vou testar tanto os programas quanto os pendrives noutros computadores, capiche?
Ela assentiu rapidamente e então sorriu.
— Você fala tanto quando está zangado. Tipo, é como se a trava “falo pouco para parecer fodão” desativasse...
— Onde você aprendeu esse palavreado agora, porra?
— Ora, com você.
— Isso você aprende rápido, mas quando peço pra dar uma...
Sakura o atingiu com uma banana, foi meio que reflexo e ela ficou pálida esperando ele tentar atira-la pela janela do trem. Sasuke apenas riu maliciosamente de como ela selecionara justo essa fruta de um cesto bem variado sobre a mesa.
Já novamente na cabine, ela brincava e alimentava o rato obeso, e Sasuke se ocupou de organizar suas armas nas maletas depois de limpas.
Sakura o observou, de costas, taciturno e meio mau humorado, a imagem de seus ombros por trás, o movimento dos braços lhe parecia angustiantemente familiar, uma nostalgia profunda a dominava mas permanecia um dè javú de sensações, não imagens, ainda tudo branco.
— Sasuke...? Queria perguntar uma coisa...
— É o que mais você tem feito.
— Hum... Quando nos conhecemos, realmente?
Sasuke parou, um instante, suspirou e prosseguiu.
— No museu, ou já esqueceu?
— Tem certeza? – Ele se virou, tentando destrinchá-la com o olhar.
— Porque não teria?
Sakura se sentou, com uma expressão angustiada.
— Eu não sei, Sasuke, ás vezes... Apenas não acho que sei o que é real e o que não é.
Ele a observou longamente, antes de se levantar e se aproximar, apoiando um joelho na cama e segurando o rosto dela.
— O que é real e o que não é, Sakura. Não importa para nós. Estamos acima disso, nós é que fazemos a realidade.
Ela desviou os olhos por algum momento, e o encarou outra vez.
— Minha realidade... Quem fez, Sasuke?
Sasuke suspirou, soltando o ar em seu rosto e roçando os dedos na tez sedosa, baixou o rosto e beijou os lábios lentamente.
— Sua realidade... Ela só é importante no agora, amor. O antes... O antes não se refaz, e nem se desfaz, não importa. O que importa é o que ainda podemos manipular.
Soltou-a suavemente e se afastou, indo pegar uma camisa no estreito armário embutido na parede.
— Aonde vai?
— Dar um passeio, fumar, xingar alguém e beber.
Sakura permaneceu sentada, o observando sair. Deitou-se e suspirou, olhando para Plum enquanto ele esfregava o focinho entre as patas.
***
Kakashi saiu através da porta de ferro que dava acesso a estreita sacada que ficava na ponta do último vagão do trem, as paisagens eram rapidamente visíveis e tremulavam com o balanço e ranger da locomotiva.
Sasuke fumava um cigarro enquanto mantinha outra mão dentro do bolso da calça.
— Você parece perturbado, Sakura está te desafiando outra vez?
O último Uchiha apenas soltou uma longa serpente de fumaça através da boca, encarando os trilho que ficavam para trás.
— Ela está muito curiosa.
— E quando não foi?
Ele o fitou de soslaio com um olhar sombrio e, como raramente Kakashi viu nele, receoso.
— Ela está curiosa... Com o passado.
***
—Como tudo está indo?
— Quase pegando uma fenda, só chegaremos á Viena amanhã, então tempo não faltará.
— Ótimo. E sobre nossos misteriosos novos guarda-costas?
Ele deixou a fumaça escapar entre os dentes, e tirou os óculos de grau.
— É como suspeitava. A casa sem Pátria... É a Casa dos Bastardos. Aparentemente, Itachi Uchiha pagou bem para os fazer se rebelarem.
— Hahaha... Não simplifique tanto as coisas, meu jovem aprendiz. Itachi Uchiha não era o tipo de homem que ganhava tamanha lealdade apenas com dinheiro, e isso era o que o tornava tão perigoso, aliás que ainda torna.
— Se você diz...
— Mas vamos ao que interessa. Veja, eu desconfio que muita gente já aguarde a chegada de sua criança em Luxemburgo e creio que a alta cúpula não irá mais se abster de falar. O que torna a chegada daquela menina, ainda mais perigosa para mim.
— O que planeja?
— Hmm, não planejo nada, realmente... Quero dizer, ela chegar e abrir a boca ou mesmo se entregar os dados que Itachi tinha, seja lá qual forem, vai nos prejudicar, mas, finalizá-la pode trazer ainda mais desconfiança.
— Sobre nós?
— Sobre qualquer um que já tivesse tido a Kuran Uchiha como alvo, isto é que poderia ser nossa ruína. Talvez devêssemos deixar a menina chegar até a alta cúpula...
— E quanto ao Sasuke Uchiha? Eu poderia incriminá-lo...
— Não estou seguro que acreditariam que ele a matou, ele passou anos no encalço dela, toda a rede sabe disso e por isso todos que forem atrás da cabeça dele, vão começar por ela. Sakura Haruno, no entanto, mesmo sendo amante dele e o “pivô” da morte da Kuran inteira, não teve a cabeça posta a prêmio, como achamos que a Casa Italiana faria.
— Onde realmente quer chegar? Devo matá-la ou não?
— Oh, oh, quanta frieza para lidar com sua pequena doce ex aluna, Utakata... Não mate a garota, inutilize-a.
— Inutilizar?
— Sei que saberá como fazer isso, a própria Kuran lhe passou todo o histórico dela e ensinou como deveria agir para não quebrar sua mente remendada pela amnésia.
— Sei...
***
Sakura olhou através da janela, levantando-se, passou, os olhos pelo quarto mais uma vez, averiguando se tudo estava pronto para deixar o trem, as poucas malas estavam organizadas, e Plum cochilava sossegadamente na gaiola de viajem.
Já Sasuke... Sasuke certamente estava por aí, e apareceria quando seu grande ego julgasse certo.
O trem chegaria em Viena ao meio dia, e faltando algumas horas para isto, ela deu a si mesma o capricho de dar um passeio.
Saiu da cabine ajeitando a echarpe verde primavera em torno do pescoço.
— Precisa de alguma coisa, senhorita? – Número 63 perguntou a ela, surgindo logo atrás, era um dos mais jovens (talvez até mais novo que Sakura) e receptivos.
— Oh, eu só quero passear, tudo bem?
— Sim, logo estaremos chegando á estação.
Sakura concordou, e ambos começaram um pequeno tour pelo trem, desde algumas salas particulares para negócios, até os últimos vagões, havia poucos passageiros pelo caminho.
— O que acha que vai acontecer quando chegarmos á Viena? – Indagou.
— Bom... Isto é a senhorita que deve decidir, mas sendo franco, haverá perigo a sua espera...
Sakura assentiu, olhando por cima do ombro, também pensava isso mas era a ideia de que não só sua segurança mas de toda essa gente, inclusive de Sasuke, também estava em suas mãos que a atormentava mais.
O que fazer, não fazia ideia, como fazer, muito menos, como honrar a memória da família, com ou sem mergulhar neste mar de sangue que os cercava, era outra questão.
Sakura sem dúvida queria deixar este barco, mas parecia que teria que navegar segundo as normas destas águas, ou arriscar-se nadando sozinha contra a correnteza.
— E se você pudesse decidir, o que faria?
63 a fitou, ligeiramente aturdido e pareceu ensaiar a desculpa de que jamais estaria em tal posição, mas, pareceu desistir e inspirou profundamente.
— Eu decidiria levar isto até o fim.
— Mesmo se... Morresse?
— Srta... Eu nasci, vivi e muitas vezes quase morri, pelo designío de outros. Se eu tivesse a chance de escrever meu próprio caminho, eu faria, sem me importar de fazê-lo com sangue.
Sakura se voltou para ele, fitando o chão, abatida e assombrada.
— Mesmo que... o sangue dos outros?
Eles suspirou, mas fitou-a com determinação.
— Tudo neste mundo, desde que ele começou, foi criado a partir do sangue de alguém, cada nova guerra era um passo na evolução humana. Se você quer paz, terá de lutar por ela, sempre foi assim. Seja lutando com papel e caneta, dinheiro, trabalho, suor ou sangue, não existe vitória sem sacrifício, não existe.
Ela inspirou, contendo-se para não chorar, pois lágrimas não dariam vitória a ninguém.
— Infelizmente, estamos numa guerra pessoal que só trabalha com sangue e poder, teremos de jogar com as mesmas armas para nos proteger. – Ele completou, Sakura assentiu, sorrindo um pouco.
— Entendo... Acho...
— Vamos prosseguir, não quer ver a cabine de comando?
— Será que podemos?
— Há sempre um jeito.
Sakura o seguiu eles atravessaram o vagão, passaram por um de cargas pequenas e Sakura estranhou o silêncio pois quando fizeram aquele caminho, haviam empregados passando ali a toda hora.
— Porque está tão escuro? – Reclamou um pouco também.
— Fique parada aí. – Ele avisou, movendo-se atrás de um interruptor.
Sakura parou, olhando os armários bem compactados, aproximou-se de uma das portas maiores, vendo-a suavemente entreaberta. Empurrou-a para fechar de vez, e assim conseguiu.
Afastou-se e seu sapato escorregou em algo gosmento assim que as luzes se ascenderam. Sakura olhou o piso, e afastou-se mais um passo ao ver um camada espessa de tom vermelho quase preto, escorrendo do armário.
Olhou para a porta e viu-a ceder novamente, desta vez, a luz restabelecida lançou um facho iluminado lá dentro, dando-a o vislumbre de uma pessoa retorcida no espaço pequeno, olhos esbugalhados e uniforme ensopado de sangue.
Sua pele inteira gelou, e a garganta parecia ter sido enroscada numa corda de aço.
— Venha, Srta. – 63 a chamou, Sakura mau desviou os olhos do armário e do corpo que a encarava, mas o fitou, vendo o espaço iluminando agora, um rosto que ela já conhecia, sair de entre dois armários atrás do jovem assassino sem nome.
O brilho das lentes de grau escondia apenas olhos escuros gélidos e inexpressíveis, e como um demônio sem matéria, ele pisou na direção de 63 e atingiu-o pelas costas com uma faca longa.
O garoto rosnou surpreso, e girou no mesmo instante, sacando a arma, mas Utakata bloqueou apertando o antebraço em sua garganta, chutou o flanco já ferido e o desarmou, Sakura finalmente conseguiu gritar, se é que gritou, mas a lâmina já havia mergulhado na jugular de 63.
Ela recuou, escorregando no sangue aos seus pés e caiu sentada.
Utakata enfiou a faca até onde mais pode, puxando-a de volta já sem a reação do outro homem e o deixando deslizar contra os armários e tombar ali, ainda arquejando e soltando sangue pelo corte e boca.
Passou por cima das pernas dele, estiradas no corredor e seguiu na direção dela, usava luvas de couro e ajeitou os óculos sobre o nariz e o cabelo que caíra sobre o rosto enquanto a encarava rastejar para longe.
— Sakura... – Pronunciou. — Está atrasada para a aula.
Sakura gritou e girou sobre o tronco, agora engatinhando até a porta pela qual havia passado ainda pouco.
Utakata a puxou pelas pernas.
— A matéria de hoje é História.
Assim fora instruído para fazer.
“— Quebre-a, novamente, é uma criança, não uma mulher, é um cristal, não uma adaga de aço forjada pela Kuran Uchiha. É um... Anjo de pureza...- Ele cantarolou, sombriamente. — Jogue-a de volta no Inferno. E estará inútil para Sasuke, Itachi, a Casa dos Bastardos, alguém da alta cúpula... Qualquer um que queira usá-la para reaver a honra do clã Uchiha ou para derrubar nossos pequenos planos de revolução.
— Sim... Sim senhor.
— Boa sorte, meu jovem.”
***
—Chegaremos á Viena em algumas horas, todo mundo pronto para o desembarque? Provavelmente teremos de ser bem evasivos ao descer. – Kakashi avisou, acomodando-se numa das salas de jogos.
— E pensar que essa vida de James Bond até parecia interessante antes. – Naruto bocejou, aborrecido. — Ir de país em país e tal, mas fazer isso sempre correndo ou temendo uma bala na cabeça faz perder o encanto...
— Só você para ver encanto nisto desde o começo. – Karin repreendeu. — Eu nem chamo isto de vida...
— O mundo é uma selva, querida. Somos animais lutando pela sobrevivência, a diferença está nos habitats, vocês vem de um, nós, de outro. – Kakashi disse, bem humorado.
— Eu até gosto da parte de usar Valentino e Gucci do seu habitat. – Ino brincou.
Sasuke permanecia parado diante uma das janelas, concentrado e calado, 87 placidamente lia um livro até a entrada abrupta das gêmeas, 32 e 33 no recinto.
— A Koyosegi sumiu.
— 67 estava com ela a mandou um alerta.
Todo mundo saltou do lugar e Sasuke rasgou até a saída.
— Rastreie ela. – Ordenou.
— Já estamos.
— Onde ela poderia ter ido? É um trem em movimento!
— Alertem todos, o trem vai chegar em poucas horas, não podemos correr qualquer risco de ela sair ou ser tirada dele.
As mulheres concordaram, enviando mensagens para todos os outros, logo estavam revirando todos os corredores e vagões até chegarem ao de cargas pequenas.
Sasuke abriu a porta e passou, o cheiro de sangue enchia o cômodo e ele notou o corpo do mais novo assassino sem casa.
87 se abaixou rapidamente, verificando a pulsação no pescoço banhado em sangue, mas nada encontrando além de olhos vazios de vida.
— Maldição... – Kakashi xingou.
— Tirem-no daqui. – O outro ordenou, levantando-se, dois dos homens pegaram o corpo e o resto adentrou o vagão, um corpo de um empregado do trem despencou de dentro de um dos armários, e a outra porta estava cheia de manchas de dedos sujos de sangue.
***
Sakura cambaleou até o final da cozinha, se jogou contra uma bancada e tomou a faca que o cozinheiro morto ainda segurava e se virou, apontando a lâmina para aquela besta em forma de homem.
Utakata puxou a faca que segurava do peito de um ajudante de cozinha e deixou o corpo cair, suspirando e ela finalmente contemplou parte do rastro de sangue que ele deixava para trás, corpos em todas as direções.
— Se continuar correndo, mais haverá deles. – Ele avisou, ainda em tom professoral, Sakura recuou para o lado, segurando a faca com as duas mãos.
— Va-vai matá-los de todo jeito porque são testemunhas. – Acusou, soluçando.
— Então não a vida deles não vale nada desde que a sua se preserve? Eu estaria orgulhoso se a tivesse ensinado isso...
Sakura gritou, catando uma tigela de massa na bancada e atirando-a contra ele, correu para a outra porta, cortando o novo corredor e mancando a cada passada, seu pé torcido a alguns dias estava cada vez pior agora, e cada membro seu doía de tanto se esforçar, esgueirar, desesperar-se.
Utakata veio logo atrás, sem grande pressa, parecia confiante de que poderia eliminar todas as pessoas que pudessem cruzar seu caminho ou o dela.
— Como foi a sua infância no Japão, Sakura? Você nunca falou muito dela, certo? Seus pais morreram de quê mesmo?
A voz dele além de um indicativo se sua distância ainda conseguia infiltrar-se na mente dela e adicionar velhas lembranças da infância para o caos em sua cabeça.
Não recordava quase nada da infância, mas eram lembranças comuns, pelo que podia supor.
— Ah, foi acidente de avião, não é?
— Voltem pra dentro! – Ela berrou, ao passar por um casal que acabava de deixar a cabine, a mulher recuou assustada e o homem tombou para dentro, levando um tiro primeiro, a dama gritou com o choque em seguida uma bala encontrou sua têmpora.
Sakura lutou contra a porta do vagão.
— E como foi o colegial, Sakura? Seu avô Sarutobi era muito exigente?
— Eu não sei! – Sakura gritou, a porta cedendo, ela entrou, fechou-a e travou, se afastou vendo ele chocar o pé contra o metal e depois começar atirar. Ela passou pelo vagão, trancou-o também, e seguiu para o vagão de cargas e malas, este estava trancado, desesperada, ela bateu contra o vidro de uma caixa que continha um machado, o arrancou dali e desferiu contra a tranca.
Um dois, três, quatro golpes e a porta parecia intransponível.
Olhou para os lados e encontrou apenas as janelas, atingiu uma com o machado, um vento fortíssimo açoitou seu rosto e cabelos, Sakura atingiu mais vidro e lutou para sentar na entrada, pôs o corpo para fora e olhou a imensidão que cruzavam, o balanço da locomotiva ameaçava jogá-la para fora e por um momento ela refletiu se não era melhor, olhou para cima e tentando segurar o machado pesado sem o derrubar, o ergueu e engatou em algo, subiu, ficando de pé.
Gritou e chorou quando um caco de vidro cortou sua canela e a frágil meias que usava ao se levantar.
Encontrando mais apoio, escalou a lateral e chegou ao teto, olhou para ambos os lados, estava quase na cauda, mas se havia alguma chance era indo até a cabine do condutor.
Utakata chegou até o vagão, olhou para a janela quebrada e se aproximou, pondo o rosto para fora ouviu-a gritar e uma pesada lâmina de machado quase partiu seu crânio ao meio. Recuou, bastante surpreso, admitia.
— Isso foi perigoso.
Por fim, se afastou e atirou contra a tranca da sala de bagagens, entrou e encontrou uma portinhola no teto, subiu para o teto do vagão e seguiu atrás dela.
Sakura seguia arrastando o machado, o notou quase em cima de si, girou tentando acertar a arma que tinha mas ele bloqueou seu braço e acertou um tapa no rosto, derrubando-a.
Utakata olhou para o machado e o jogou para a beira, ela engatinhou para perto mas foi puxada, zonza e com a têmpora sangrando.
— Vamos falar da sua época de escola.
— Eu não lembro. – Balbuciou.
— Estamos aqui para tal, Sakura. – Puxou seu pescoço, e pousou um joelho contra o estomago dela. — Lembra do nosso último encontro? Claro que lembra. Sabe porque ficou tão assustada quando toquei em você?
Sakura continuou negando ouvi-lo, sufocada com sua mão e o peso sobre o tronco.
Utakata, mexeu no terno, um tanto impaciente, puxou um estreito punhado de folhas.
— Aqui diz, em sete de Abril você estava voltando do colégio, estava chovendo e a rua estava meio vazia. Você lembra disto? Esforce-se, Sakura. Claro que você lembra. Você disse isso, é seu depoimento.
Depoimento.
Depoimento.
Algo que faz para a polícia, ela nunca gostou da polícia, era como se não os achasse capazes o bastante, ou bem comprometidos...
Sentiu a mente embaçar, uma dor vívida encheu seu peito e o esmagou, Utakata parecia gigantesco sobre ela, tudo parecia enorme a ponto de engoli-la.
— Você estava voltando quando três pessoas que você só conhecia de vista te abordaram. – Ele pôs as folhas ao lado da cabeça dela para evitar que o vento as levasse, puxou uma e mostrou para ela. — Essas três pessoas, veja se reconhece agora.
Sakura não via bem, os olhos estavam sujos de sangue e lágrimas, apertou-os e arderam mas focalizou a imagem de três pessoas. Três jovens de cabelos tingidos, piercings, ascendência japonesa, os sobrenomes abaixo.
Sentiu seu corpo inteiro gelar, o teto abaixo dela afundou, engolindo-a e se viu emergindo no chão sujo de lama, chuva molhava seu corpo e o céu escuro era visível dentre os prédios em torno, sentia vividamente o corpo manchado, doendo, cortado, sujo como se nada nunca fosse limpar, olhou para o lado, vendo a calçada, três pessoas se afastarem sem grande pressa para fora do beco.
E então foi novamente engolida por uma avalanche negra de fatos e imagens misturadas, infância, pessoas, lugares, adolescência, medos, horrores, pesadelos que que se confundiam com a realidade, o temor de que a cidade a engolisse, o desejo de mergulhar no concreto e desaparecer.
Moça, sai da sacada
Você é muito nova pra brincar de morrer
Os remédios, as curtas saídas do apartamento, o ar condicionado sempre ligado, a TV, única janela para o mundo.
Me diz o que há, o quê que a vida aprontou dessa vez?
Mil orações para Deus, uma resposta que foi dada pelo Diabo.
Mas que foi a única a dar-lhe conforto, no fim.
Venha, desce daí
Deixa eu te levar pra um café, pra conversar
Te ouvir
E tentar te convencer
Ela pagou com a alma manchada, abrigou, e cuidou de um anjo da morte em troca.
Amou-o também...
Seu sorriso raro e cruel ainda permeava-lhe a mente, e seduzia seu coração carente de um motivo para continuar batendo.
Que a vida é como mãe
Que faz o jantar e obriga os filhos a comer os vegetais
Pois sabe que faz bem
Mas talvez fosse tudo uma outra face do mal, desta vez enganadora e não tão cruel, pronta para despedaçá-la de novo, ou mesmo, um castigo divino para sua fraqueza.
E a morte é como pai
Que bate na mãe e rouba os filhos do prazer de brincar
Como se não houvesse amanhã
Utakata observou-a um pouco decepcionado até, esperava algo mais para um surto, mas a mente dela pareceu não lidar com a pressão, de forma que, diluiu completamente.
Se levantou, arrumando o cabelo e olhando a hora, enquanto ela permanecia no mesmo lugar, sem voz, se piscar e mau respirando congelada como uma boneca.
Ainda achava que era melhor acabar com isto de uma vez, mas Gulbrandsen era caprichoso e teatral, diria que até dramático demais. Queria fazer um show a cada movimento.
Utakata só esperava que isso não os levasse a cair do palco.
Sakura se levantou, afastando-se dele, a observou, intrigado, ela aproximou-se da beira do teto e ele se perguntou se ela teria coragem desta vez.
De qualquer jeito, já tinha feito sua parte.
Moça, não olha pra baixo
Aí é muito alto
Pra você se jogar
Um tiro acertou bem em seu ombro e ele viu um home surgir, apontando a arma e estudando-o e a Sakura. Utakata não achava que ela valeria sua vida ou o capricho de Gulbrandsen e a empurrou e correu na direção oposta tentando conter o sangramento enquanto o teto era invadido por assassinos em seu encalço.
Sakura caiu para o lado, e rolou para a beirada com as pernas para fora, seus braços estenderam-se sem tentar agarrar nada realmente, enquanto escorregava. O echarpe que vestia desprendeu-se e Sasuke o agarrou no ar, dobrando e passando em torno dela, enlaçou-a e caiu deitado, tentando segurar seu peso com o tecido.
— Me dê sua mão, porra! Que diabo está fazendo?
Ela não reagiu, o corpo balançando sobre o precipício. Sasuke avistou uma ponte se aproximando, o trem entrou numa curva e o lago abaixo se expandiu, ele viu Utakata saltar para mais de quarenta metros rumo a água e sabia que ele não arriscaria se não achasse que teria chance de sobreviver. Não que houvesse muitas permanecendo no trem.
Voltou os olhos para Sakura e rosnou, puxando-a, 87 veio e ajudou a puxar suas pernas. Ele a sacudiu, atrás de alguma reação.
Vou te ouvir
E tentar te convencer
— Sakura? Sakura?!
Ela piscou lentamente, como se despertasse de um transe, os olhos chegaram aos dele e um dèja vú era muito pouco para ele dizer que o sentiu.
— Sasuke...-kun?
(Somos programados pra cair...)
***
— O que vai acontecer agora? – Ino suplicou, cansada de tapar os ouvidos.
Sakura berrava, chorava e se rasgava com as unhas como se o surto a tivesse não só feito lembrar, mas reviver tudo de uma vez.
Karin achou que aconteceria algo assim, mas depois de tantas horas, a voz da menina já saindo tão esganiçada e ferida, se perguntou se Sakura não conseguira recordar nada de bom, ou entrara num estado de loop em que só revivia e revivia as desgraças da sua outra vida.
Que a vida é como mãe
Que faz o jantar e obriga os filhos a comer os vegetais
Pois sabe que faz bem
Suspirou, sabendo que logo teria que retornar para o lado dela, ela, Ino, as gêmeas eram as únicas a entrar no quarto agora, três dias depois, estavam fartos de enfiar calmantes em Sakura para que hora outra ela sempre acordasse em surto.
Talvez deixar ela liberar tudo fosse melhor... Ou talvez... Simplesmente admitir que ela nunca mais voltaria a nenhum eu são novamente.
E a morte é como pai
Que bate na mãe e rouba os filhos do prazer de brincar
Como se não houvesse amanhã
Horas se passaram, em algum momento alguém a dopou outra vez, ou simplesmente todos que dormiram mesmo com seus gritos, tão sugados estavam.
Mas, tudo bem, nem sempre estamos na melhor...
Karin só sabia que tombou e despertou com Ino e Naruto praticamente a usando de travesseiro. Silêncio preenchia a sala da casa antiga, num bairro residencial afastado, tinha muito jardim, apesar que mal cuidado em torno e o canto dos pássaros era intenso.
Ela empurrou ambos e esfregou o rosto, o som das maçanetas das portas duplas da suíte onde Sakura estava estalou e ela viu Sasuke se levantar, ele pareceram uma estatua durante mais de setenta horas, e ela imaginou se ele também se prendia a um loop de dor, remorso, ou se perguntava também se as coisas boas que viveu com Sakura jamais seriam capazes de suprimir todas as ruins, causadas direta ou indiretamente por ele.
As portas se abriram, ela saltou do sofá ao ver que as gêmeas estavam no quarto, paradas tão chocadas quanto ela, encarando as costas de Sakura.
Cabelo rosa estava espalhado por toda a cama, chumaços longos pelo chão até os pés dela, uma canela enfaixada e suja de sangue.
Mechas e miúdos fios estavam pelos ombros, o cabelo na cabeça completamente em pedaços grandes e menores, uma tesoura numa das mãos e mais cabelo nas outras.
Como os olhos como se fossem de vidro, ela puxou outra mecha e passou a tesoura lentamente perguntando-se.
— Quem sou eu?
Moço, ninguém é de ferro
Somos programados pra cair...
(Amianto – Supercombo)
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