Vila Baunilha
37 Um sábado agitado
Notas iniciais
Aparentemente, os “poderes” de Beni levaram nosso trio de aventureiros em busca do pássaro raro que Gustavo procura para a escola. Como era sábado, claro que a escola estava fechada. Os três estavam ali, diante dos portões fechados da instituição, sem saber muito bem o que fazer.
—Tem certeza de que está aí dentro? — comentou Briana.
—Bem, é o que minha intuição diz — disse Beni.
—Vou confiar em seus poderes, garoto paranormal — disse Gustavo — De qualquer modo, estou procurando pelo passarinho em tudo que é canto.
—O que garante que o pássaro não voou até chegarmos até aqui? — perguntou Briana.
—É, é uma possibilidade — disse Gustavo — E aí, garoto dos poderes? Você pode dizer se o passarinho está aí mesmo.
Diante da pressão, Beni teve que, mais uma vez, apelar para sua intuição.
—Está sim — disse o garoto — É o que a minha intuição está dizendo
—Então, vamos confiar — falou Gustavo, animadamente — Agora...só precisamos entrar na escola.
—Como os portões estão fechados, não podemos entrar pela frente — observou Briana.
—Não tem problema — disse Gustavo — Basta pularmos o muro.
—Pular o muro? Como vamos fazer isso? — perguntou Briana.
—Vocês não precisam se arriscar — falou Gustavo — Podem deixar comigo que eu faço isso sozinho.
Gustavo abriu a mochila de viajante em treinamento que costumava carregar para cima e para baixo, tirando uma corda com um gancho lá de dentro.
—Já precisei escalar muita coisa nas minhas viagens — explicou ele.
—Tem certeza que é seguro? — Briana insistia.
—Claro que é — confirmou Gustavo — Relaxem. Eu tenho experiência com isso.
De fato, Gustavo girou a corda e conseguiu prender o gancho na parte de cima do outro lado do muro. Ele verificou se a corda estava firme e começou a escalar. Até aí, sem problema nenhum. Até que um policial fazendo sua ronda de bicicleta notou o acontecimento.
—Ei, ei, posso saber o que está acontecendo aqui? — perguntou a autoridade.
—Ah, soldado Caxias — cumprimentou Briana — Como vai?
—Ah, você é a mocinha do outro dia. Como vai? — disse ele, simpaticamente — Mas, espere, não tenho tempo para ficar batendo papo. Ei, garoto de bandana aí, o que você pensa que está fazendo?
—Só estou escalando o muro — disse Gustavo — Por favor, é urgente.
—Está invadindo a escola, isso sim! — reclamou o soldado — Invasão de propriedade privada é crime, não sabia?
—Mas é uma escola pública — corrigiu Beni.
—Exato — disse Gustavo — Também já fui aluno dessa escola por muitos anos. Não sou nenhum estranho.
—Mesmo assim — insistia Caxias — Fora do horário de aula não acha que é muito suspeito tentar entrar sem permissão escalando o muro com um equipamento desses?
—Quando você coloca dessa forma, parece mesmo suspeito — disse Gustavo — Mas juro que tenho a melhor das intenções.
—E que intenção seria essa? — perguntou o soldado.
—Quero pegar um pássaro — respondeu Gustavo.
—O quê?! Não sabia que é crime traficar animais silvestres? — repreendeu Caxias.
—Não vou traficar nada! — rebateu Gustavo — Só quero mostrá-lo para o meu sogro!
—Seu sogro? — indagou o soldado.
—Bem...quase sogro — foi a resposta de Gustavo — Não vou fazer nada de mal para o passarinho.
—E não seria mais fácil pedir para algum funcionário da escola te levar até o pássaro? — perguntou o policial.
—Não está de posse da escola — falou Briana — É um passarinho raro e selvagem.
—Então está mesmo querendo traficar animais silvestres? — insistia Caxias.
—Já disse que não vou traficar nada! — retrucou Gustavo.
—E como você sabe que esse pássaro está dentro da escola? — perguntou o policial.
—Bem, sobre isso… — Beni entrou na conversa e contou tudo sobre seu sonho profético. Claro que, como um policial bem treinado e maduro, a reação do soldado Caxias não poderia ser diferente.
—Isso é incrível! — exclamou o soldado — Então você é mesmo a última esperança da humanidade?
—É como interpretei meu sonho. Estou treinando meus poderes para isso — respondeu Beni.
—Não posso arriscar o futuro da humanidade — disse Caxias — O mundo não pode acabar antes que eu me declare para a senhorita Ema.
—E não pode acabar antes que eu me case com a Kelly! — exclamou Gustavo.
—Nesse caso, podem contar comigo — disse o soldado — Vou ajudá-los! Conheço o porteiro da escola. Ele pode liberar o portão para vocês!
—Mesmo? — Gustavo, Beni e Briana comemoraram. Parece que, com a ajuda de um policial bem-intencionado, entrar na escola não seria um desafio tão grande. Não demorou muito para Caxias voltar com a chave do portão e eles entrarem no colégio.
—Nunca entrei na escola em um sábado — comentou Briana.
—É, é estranho ver a escola vazia — disse Beni.
—E então? Onde está o pássaro? — perguntou Caxias.
—Acho que é hora de usar seus poderes, Beni — disse Gustavo.
—Ah, sim, claro — Beni começou a se concentrar e fez uma revelação — Para lá! Está naquela direção!
—Entendido! — Gustavo e Caxias falaram juntos. Beni parecia cada vez mais confiante de sua intuição. Briana, por outro lado, ainda não estava tão confiante.
—Tem certeza, Beni? — perguntou a garota.
—Claro que não — disse o garoto — Mas sinto que estou melhorando.
De fato, a turma acabou encontrando alguma coisa invadindo a escola, mas não foi um aluno.
—Oi? — disse a diretora da escola, mastigando um sanduíche, diante dos olhares daqueles quatro.
—Diretora Glória? — estranhou Briana — O que está fazendo aqui?
—O-Ora...só estava revendo alguns documentos importantes — explicou a diretora.
—No sábado? — perguntou Beni.
—É que sou uma pessoa muito ocupada. Meu volume de trabalho é muito grande — disse ela — Não é que eu tenha falado para minha família que estava de dieta e vim aqui fugir disso e...ei, por que estou me explicando tanto? A pergunta é: por que vocês estão aqui? Principalmente, você, senhor Gustavo. O senhor já nem estuda mais aqui.
—Só estou em uma missão importante — disse ele — Não viu um pássaro como esse por aqui?
Gustavo mostrou a foto do pássaro, mas a diretora negou.
—Do que está falando? Nunca ouvi falar de um pássaro desses! — disse a diretora — Estão tentando me enganar?
—Só estamos ajudando o Gustavo com a missão dele e treinando os poderes do Beni — disse o soldado.
—Poderes? — disse a diretora.
Beni contou toda a sua história. A diretora apenas suspirou.
—Ai, Beni, Beni, bem que sua mãe me falou da sua imaginação fértil — disse ela — Estão mesmo acreditando nisso?
—Parece que a diretora não acreditou muito, né? — disse Briana, baixinho para Beni.
—Pelo visto… — foi tudo que Beni disse.
—Espera. Então você não tem poderes? — falou Gustavo.
—Eu disse que estou em treinamento, não disse? — Beni se defendeu.
—Não tem passarinho nenhum por aqui — disse a diretora — Se eu visse um pássaro diferente desses, certamente saberia. Além disso, ele poderia ter vindo aqui e já ter voado.
—O que você tem a dizer, Beni? — perguntou Gustavo.
Beni se concentrou e deu uma resposta boa o suficiente para se safar.
—Acabei de ter uma clarividência — disse Beni — O pássaro realmente saiu daqui e...foi para longe.
—Foi para longe?! — disse Gustavo, espantado — Longe quanto?
—Difícil dizer...ainda estou em treinamento...não está claro… — Beni falava isso com o olhos fechados, como se realmente estivesse se concentrando para obter clarividência.
—É, parece que voltamos à estaca zero — disse Gustavo.
—Mas não se preocupem — disse Beni — Pela profecia do meu sonho, o mundo não acabará enquanto meus poderes não despertarem por completo. Até lá, estamos salvos.
—Bom, parece que não temos mais nada a fazer aqui — disse o policial.
—Mas eu tenho — disse a diretora — Caiam todos fora! Vamos, vamos.
Depois de ter colocado todo mundo para circular, a diretora finalmente poderia voltar aos seus afazeres.
—Onde estava? Ah, sim, estava quase terminando esse sanduichão da lanchonete do seu Abílio.
Fora da escola, o grupo redefiniu seus planos.
—Bem, vou continuar minha missão — disse Gustavo — Você tem meu contato, Beni. Quando tiver mais informações, por favor, me avise.
—Também ficarei de olho — disse Caxias — É sempre uma honra ajudá-los.
—Obrigado a todos — foi o que Beni disse. E assim, mais uma jornada terminava.
—Você tem certeza mesmo desse sonho, Beni? — perguntou Briana — Tipo, essa coisa do mundo acabar e tal…
—Sinto isso, Briana — disse o garoto — Mas, primeiro. Preciso descobrir quais são meus poderes ocultos.
“Acho que isso...vai demorar um pouquinho”, pensou Briana.
É, talvez demore muito. Vamos esperar que o mundo não acabe até que essa história termine, né?
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