Vila Baunilha
14 Prefeito e Primeira Dama
Notas iniciais
—Vamos logo, Briana — disse Anne, naquela noite em que as duas irmãs Montecarlo teriam um jantar na casa do prefeito da cidade.
—Calma — disse Briana, ainda colocando seus brincos — Já estou acabando de me arrumar.
—Anne, deixa de apressar sua irmã — reclamou Carla, a mãe claramente seletiva — Não é todo dia que vocês são chamadas para jantar na casa do prefeito da cidade. Precisam estar bem arrumadas.
—É só um jantar. Não precisa de tudo isso — falou Anne, olhando para o desperdício de usar um de seus melhores vestidos pretos em uma ocasião em que ela não estava com a menor vontade de ir.
—Mas, filha. É o prefeito da cidade! Não estamos aqui nem uma semana e já ganhamos a simpatia dos filhos dele. Isso é incrível! Você precisa passar uma boa primeira impressão! — disse Antenor, o orgulhoso pai, concordando com a mãe na honra do jantar.
—Na verdade, só o filho dele me chamou para jantar. Achei que, como pais preocupados, vocês me dariam conselhos sobre minhas companhias masculinas — lembrou Anne.
—Se é o filho do prefeito e ainda te chamou para um jantar com a família é bom partido. Não tem com o que se preocupar — disse a mãe, sem o menor sinal de preocupação — Além disso, ele deixou a Briana ir com você. Sinal de que não tem segundas intenções.
—Seja como for, só aceitei esse convite para ele não me encher mais. Depois da sobremesa já vamos embora — explicou Anne.
—Ah, mas pode ser que esteja divertido — falou Briana, inocentemente.
—Não cria muita esperança, não, Briana. Lição para a vida — disse Anne — E então? Já colocou o brinco? Vambora.
—Agora sim. Estou pronta — disse Briana.
—Vamos lá, meninas — disse Antenor — Eu deixo vocês lá.
Antenor levou as garotas e não demorou muito para elas chegarem à casa do prefeito. Era uma casa bem grande, um pouco afastada do centro. Até mesmo Anne, que não estava lá com muita boa vontade, ficou impressionada.
—Que grande, né? — comentou Briana.
—Já esperava — disse Antenor — O prefeito é um dos maiores produtores de morango do país.
—Morango! — repetiu Briana — Amo morango!
—Produtor? Mas ele é político ou empresário? — estranhou Anne.
—Eu dei uma pesquisada — falou o pai — Ele deixa a administração da produção com os empregados e se dedica à cidade. Ele já é prefeito há mais de vinte anos.
—Vinte? Isso não é muito tempo no poder, não? — replicou Anne.
—Pode ser. Mas como ele é sempre o único candidato da cidade, não tem muito o que fazer — respondeu Antenor.
—Ninguém mais se interessa em ser prefeito? — perguntou a filha.
—Parece que não. Mas todo mundo concorda que ele tem feito um bom trabalho.
Anne até que achou aquilo interessante, mas sua intuição dizia que, considerando os filhos, o prefeito não deveria ser uma pessoa muito comum. Ao descerem do carro, Antenor toca o interfone e é atendido por um dos empregados da casa. Ele disse que a família dos prefeito já os aguardava e abre o portão. Após alguns passos de caminhada pelo jardim, eles finalmente chegam à porta da casa. Antenor toca a campainha. O mordomo abre a porta.
—Boa noite, senhor — disse um velhinho com uma expressão séria.
—Nossa! O prefeito é bem mais velho do que eu pensava! — exclamou Briana.
—Perdão, minha jovem. Sou apenas um criado da casa — respondeu o homem — Por favor, entrem. O prefeito os aguarda.
—Nossa, eles tem um empregado só para atender a porta? Que demais! — disse Briana, impressionada.
—Não é o único trabalho dele, Briana — explicou Anne — Desculpe a minha irmã. Ela ainda tem muita coisa para aprender sobre o mundo.
—Entendo perfeitamente — disse o mordomo — Por favor, sintam-se em sua própria casa.
—Mas estamos arrumadas demais para ficar como estamos em casa — estranhou Briana.
—É só jeito de falar, Briana — corrigiu Anne.
Nisso, o próprio prefeito e sua esposa finalmente apareceram. O prefeito era um homem um pouco mais jovem que o mordomo, mas já tinha uma certa idade e um volumoso bigode branco. A esposa era bem mais jovem que o marido. Tinha cabelos ruivos (melhor dizendo, pintado de ruivo), um enorme colar no pescoço, jóias nas mãos e punhos, além de segurar um cachorro poodle nos braços.
—Boa noite. Vocês devem ser as jovens senhoritas Montecarlo — disse o prefeito — Muito prazer. Sou seu anfitrião Venâncio e essa é minha esposa Vera. Vejo que já conheceram nosso mordomo Leopoldo.
Leopoldo apenas acena com a cabeça após ser apresentado.
“Leopoldo...é bem nome de mordomo mesmo”, pensou Anne.
—O Ian não estava mentindo, querido. São mesmo jovens adoráveis — disse Vera, com um sorriso simpático.
“Acho que entramos em um portal direto para o século passado”, pensou Anne.
—Muito boa noite — disse Antenor — Sou Antenor, o pai das meninas. Acabamos de nos mudar para a cidade. Abrimos um restaurante no centro.
—Oh, sim. É verdade. Ouvi falar muito bem de seu restaurante — disse o prefeito — Espero visitá-lo em breve. Certamente seu estabelecimento é uma grande contribuição para a cidade.
—Eu que agradeço pela permissão dada para trabalhar nessa cidade tão acolhedora — agradeceu Antenor.
—Gostaria de jantar conosco? — perguntou o prefeito.
—Infelizmente tenho alguns compromissos. Vim apenas trazer minhas filhas — disse Antenor — Queria agradecer o convite desde já.
—Oh, nós que agradecemos por terem atendido tão prontamente o convite do meu filho. Espero que nossas famílias possam jantar todas juntas em outra oportunidade — disse o prefeito Venâncio.
—Claro. Eu mesmo posso fazer o jantar, aliás — disse Antenor.
Todos trocavam sorrisos.
“Parece que já somos amigos da família”, pensou Anne.
—Oh! Vocês finalmente chegaram! — disse Ian, aproximando-se das garotas extremamente bem vestido com terno e gravata borboleta.
“Gravata borboleta…”, pensou Anne. “Minhas definições de almofadinha foram atualizadas”.
—Esse é nosso filho, Ian — disse Vera — Por favor, Ian. Cumprimente o senhor Antenor, pai de suas amigas.
—Senhor Antenor. Prometo cuidar de suas preciosas jóias como se minha vida dependesse disso — disse Ian, sem cerimônia alguma — Elas não poderiam estar em melhores mãos.
—Jóias? Nem sabia que o papai tinha jóias — falou Briana.
—Ele tá falando da gente, Briana. É uma metáfora — disse Anne.
—Ah, tá. Entendi — disse a irmã mais nova — Ele é engraçado.
—Bom, então deixarei as meninas em suas mãos — disse Antenor — Meninas. Comportem-se, viu?
—Relaxa, pai — disse Anne — Deixa comigo.
—Então...tenham todos uma boa noite — disse Antenor, já se retirando.
“Com a Briana aqui, o Ian não vai me encher tanto. Para todos os efeitos, isso é só um jantar familiar sem nada de romantismo”, pensou Anne, colocando na irmã sua chance de escapar de um pretendente nada conveniente.
"Tudo bem. Só preciso distrair a irmã dela para conseguir ficar sozinho com a Anne em algum momento. Será o jantar perfeito", pensava Ian.
Enquanto isso, uma garota na mesma casa ouvia a conversa à distância e escondida. Era a outra filha do prefeito, Samanta, e colega de sala de Briana.
“A Briana veio mesmo”, pensou Samanta. “E agora? O que eu faço? Preciso ser malvada com ela, mas não tive tempo de ensaiar nada...droga”
Só que Samanta não era a única com preocupações. Perto do portão da casa do prefeito, uma figura estranha com roupas militares de camuflagem se aproximava. Tá bom, não tão estranha assim. Era Luís, o colega de sala de Anne e Ian.
—Estou aqui — disse Luís — Ian, você não vai passar na minha frente! Seu jantar será um fracasso!
O que será que ele está tramando?
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