Vila Baunilha
46 Estamos contratando
Notas iniciais
Alguns meses já se passaram desde que a família Montecarlo se mudou para uma pequena cidade do interior chamada Vila Baunilha. Quando falamos pequena, não estamos brincando: é realmente uma cidade minúscula. Apesar disso, Vila Baunilha é uma cidade pequena muito próxima de cidades maiores e a qualidade de vida lá não é tão diferente assim. Na verdade, boa parte da mão de obra da cidadezinha vinha das cidades vizinhas. Digamos que Vila Baunilha é o meio termo entre a cidade e o campo, alguns diriam o melhor de dois mundos. Enfim, uma cidade tranquila para se viver, quer dizer, talvez nem tão tranquila assim…
Vamos voltar para nossa família do começo: os Montecarlo. Estamos falando de um pai bom cozinheiro e boa praça chamado Antenor, uma mãe antenada e responsável chamada Carla, uma bela filha mais velha chamada Anne e uma linda caçulinha chamada Briana. Os quatro vieram para Vila Baunilha tocar seu próprio restaurante self-service e o negócio não poderia estar fluindo melhor. Sim, o empreendimento deu muito certo e não demorou muito para o restaurante dos Montecarlo conquistar o coração dos habitantes de Vila Baunilha e arredores. O pai cuidava da comida, a mãe das finanças e as filhas (especialmente a mais velha) ajudavam como podiam fora das aulas. Só que, conforme o negócio cresce, as necessidades também crescem.
—Ei, e a minha água? — reclamou um velho senhor diante de Anne, a pobre garçonete que tentava servir várias mesas.
—Já vou, professor. Espere só um pouco.
—Que lerdeza. Você é boa aluna, mas como garçonete é uma negação, heim? Não merece um centavo de gorjeta!
O cliente em questão era Otávio, o professor de humanidades de Anne na escola. Infelizmente, não era uma pessoa muito boa de lidar.
—Com licença, mocinha — disse uma senhorinha passando por ali — Onde fica o banheiro?
—É por ali — apontou Anne, já olhando para outra mesa que precisava atender.
—Ei, Anne — gritou um cliente conhecido — Mudei de ideia! Prefiro um suco de frutas vermelhas em vez de laranja!
—Tá! — gritou a garota.
—Ô, menina. E a minha água, heim? — gritou professor Otávio.
—Eu já trago, professor — falou a garota.
—Ei, mocinha — disse a mesma senhorinha — Onde fica o banheiro mesmo?
Anne suspirou.
—É por ali, senhora. É só seguir em linha reta — explicou a garota.
—Ei! E a minha água? — reclamou o professor Otávio de novo.
—Eu já vou pegar! — disse Anne.
Anne foi para a geladeira pegar a água do professor nervosa.
—Anne..
—O quêêê?! — exclamou a mocinha com um tom de exaustão claro.
—Isso é jeito de falar com a sua mãe, menina? — disse Carla, a mãe de Anne, já dando um tapa no braço da filha — Essa é a educação que eu te dei? Se eu fosse um cliente, nem voltava mais com essa sua má vontade!
—Ai, mãe — reclamou Anne, massageando o braço — Desculpa, tá. Desculpa! Mas eu estou estressada! Tô quase fazendo o urro do Shrek aqui! O movimento aumentou demais! Não tô dando conta sozinha!
—É...o nosso movimento subiu mesmo, isso é verdade — concordou Carla — Mas isso não é motivo pra fazer corpo mole.
—Corpo mole, mãe? — disse Anne pasma — Mãe, pelo amor de Deus! Eu sou A ÚNICA garçonete aqui!
—Ei! Essa água vem ou não vem?! — reclamou o professor.
—Ô, Anne! Não esquece o meu suco, heim? — disse o outro cliente.
—Licença, minhas jovens — disse a mesma senhorinha — Err...alguma de vocês poderia dizer onde fica o banheiro?
—Viu só, mãe? É muita coisa ao mesmo tempo — disse a garota.
—Com licença — a senhorinha insistia.
—Tá bom, Anne. Tá bom. Vou conversar com seu pai sobre isso. Vem, dona Gilda, eu acompanho a senhora até o banheiro.
Anne, enfim, suspirou. Depois de levar a água para o professor, levar o suco para o outro cliente e atender outros clientes que chegavam, ela conseguiu chegar perto da cozinha e pegar sua própria água.
—Esse trabalho não é complicado, mas é muita coisa ao mesmo tempo para fazer — disse Anne, mais para si mesma do que para alguém próximo.
—Tem toda razão, filha — disse Antenor, enquanto lavava a louça e ouvia o desabafo de Anne — Reparei que está bem cansada.
—Muito! — disse ela — Pai, o senhor deve em entender, né? Não dá pra cuidar de tudo sozinha.
—É, eu já estava pensando nisso há um tempo — disse Antenor — O nosso movimento aumentou e estamos lucrando mais, então...já podemos contratar outro garçom.
—Sério? Ai, pai! Maravilha! O senhor é o melhor! — disse Anne, quase entrando na cozinha por aquela janelinha para abraçar o pai.
—Isso já era esperado — falou Antenor — Todo negócio tende a crescer. Vou colocar um anúncio hoje mesmo.
Dito e feito. Antenor colocou o anúncio de “Precisamos de garçom” e, logo no dia seguinte, os candidatos já começaram a aparecer. Assim que Anne trocou seu uniforme da escola pela roupa de trabalho do restaurante, deu de cara com os três primeiros candidatos à vaga de garçom.
—Anne! Por que não disse que estavam contratando aqui? — perguntou Luís, um dos colegas de sala de Anne e, além disso, um dos apaixonados por ela.
—Luís? Você quer ser garçom? — questionou Anne.
—Trabalhar ao seu lado seria um sonho! — respondeu ele.
—Não tão rápido — disse Ian, outro colega de sala, outro concorrente à vaga e, por sinal, outro apaixonado por Anne — Você não é o único querendo essa vaga. Também quero ter o direito de trabalhar ao lado da adorável senhorita Anne.
—Você? Trabalhar aqui? Você é rico e filho do prefeito, por que precisa trabalhar? — ralhou Anne.
—Não diga palavras tão duras, querida Anne — disse Ian — É como dizem, o trabalho mortifica o homem.
— “O trabalho edifica o homem!” — corrigiu Anne.
—Exatamente isso. Como eu disse — insistiu Ian.
—Esperem! Eu também quero a vaga! — disse Gustavo, um outro habitante da cidade sempre envolvido em missões estranhas — Estou morando fora de casa e preciso de um meio de me sustentar além do que caço.
—Você só está fora de casa porque quer — falou Anne.
—Você sabe que tenho uma missão para cumprir, não tenho? Preciso achar um pássaro raro e não tenho a menor ideia de onde encontrar, mas..e quando encontrar? Vou me casar com a Kelly, mas como sustentá-la? Preciso de um trabalho, então é bom começar a ganhar alguma experiência profissional desde já!
“Não entendi direito o raciocínio dele, mas...pelo menos é uma motivação melhor que a dos outros”, pensou Anne.
—Ah, excelente. Vejo que já conheceu nossos candidatos, não é? — disse Antenor — Temos uma vaga, então só um de vocês pode consegui-la. Estão prontos?
—Sim! — Ian, Luís e Gustavo gritaram em uníssono.
—Ótimo. Agora...preciso pensar em um processo seletivo. Putz, sabia que precisava pensar em alguma coisa… — comentou Antenor.
“Vai ser uma longa tarde”, pensou Anne.
Com certeza será...
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