Vila Baunilha
49 Corrida indoor
Notas iniciais
—Puxa vida — Antenor continuava surpreso — Não esperava que os três chegassem aqui ao mesmo tempo.
—Nem tem o que discutir — falou Luís — Eu cheguei primeiro. Está na cara. Olha só, meu pé está na frente. Estou um centímetro na frente dos outros dois.
—Nem vem! — reclamou Gustavo — Como você pode provar que não colocou o pé para frente agora?
—Concordo — disse Ian — Todos nós chegamos ao mesmo tempo.
—Nossa, que diferente — disse Glória, a diretora da escola e agraciada com o pedido grátis que seria entregue — Nunca recebi três entregadores ao mesmo tempo.
—Como vamos desempatar isso? — perguntou Antenor.
—Já sei! — disse Ian — É só ver a qualidade da comida. Aquela que estiver menos bagunçada pode ser a vencedora.
—É...faz sentido — disse Antenor.
—Tá bom, vai. Vamos fazer isso — disse Luís, não muito empolgado.
Os três abrem as quentinhas, mas não havia muita diferença entre elas. É, estavam todas bem misturadas.
—Para mim não tem problema — disse a diretora — Sempre misturo a comida mesmo.
—Puxa, não vai dar para desempatar assim — disse Antenor.
—Acho que só tem um jeito — disse Ian — Vamos ter que continuar a corrida.
—Como assim continuar a corrida? — perguntou Gustavo.
—O primeiro que servir a diretora vence! — explicou Ian.
—Ora, para mim está ótimo! — disse a diretora — Vamos fazer isso.
Glória foi para a mesa da sala, já preparada para o almoço, sentou-se e declarou:
—Está bem. O primeiro que chegar até mim com a comida ganha a competição. Parece justo, não é?
—Se está tudo bem para a senhora… — disse Antenor.
—Claro que está. E agradeço mais uma vez pela promoção! — disse ela.
—Bem, a senhora é uma de nossas melhores clientes, não é?
Considerando que a diretora Glória era bem, digamos, “cheinha”, essa não era uma informação lá muito surpreendente.
—Então...lá vou eu! — Ian disparou na frente, mas Gustavo conseguiu alcançá-lo em poucos segundos.
—Não pense que vai ser tão fácil — falou Gustavo.
—Você é insistente!
—Até logo, panacas! — falou Luís, ativando seu tênis com turbo e passando pelos dois.
—Ah, não. Aquele turbo de novo, não! — reclamou Ian.
—Essa vitória já é minha e…
Mas, novamente, alguma coisa deu errada e Luís foi parar com a cara na parede, bem ao lado da mesa. A quentinha que carregava caiu no chão e sua chance de servir a comida acabou de ir embora.
—Alguma coisa nos cálculos saiu errada — reclamou Luís, ainda com a cara praticamente amassada na parede.
—Infelizmente, não tem como servir nada assim — disse Antenor, ajudando o garoto a se levantar — Você está desclassificado.
—O quê?! — retrucou Luís.
—Como esperado — disse Ian — Agora, deixe eu ganhar.
—Nada disso! — Luís ativou novamente seu turbo e seguiu na direção de Ian.
—O que pensa que está fazendo? — perguntou Ian.
—Se perder a quentinha é motivo de desclassificação, então vou desclassificar vocês também! — falou Luís.
—Você é um péssimo perdedor! — exclamou Ian.
Enquanto isso, Gustavo conseguiu chegar até à mesa da diretora.
—Pronto, senhora diretora. Aqui está seu almoço — disse ele.
—Finalmente, já não aguentava mais esperar.
—Ei! — Ian e Luís exclamaram juntos.
Gustavo só precisaria entregar o almoço, se Luís não tivesse ligado seu turbo novamente e tirado a diretora com cadeira e tudo da mesa. Ele simplesmente agarrou a diretora e a levou para outro canto da sala.
—Desculpa, diretora — disse Luís — Mas o seu almoço ainda vai ter que esperar um pouco.
—O que você pensa que está fazendo? — reclamou ela — Você já perdeu sua quentinha. Não tem como ganhar!
—Mas posso fazer eles perderem! — Luís insistia.
Nisso, Ian conseguiu prever o movimento de Luís e chegou à frente dele. Ele estava com um garfo, pronto para alimentar a faminta diretora.
—Senhora diretora. Abra a boca — exclamou Ian.
—Nem precisa falar duas vezes! — disse a diretora, pronta para ser servida.
Mas Gustavo foi mais rápido e chegou na frente de Ian, colocando uma garfada na boca da diretora. Finalmente, ela foi servida.
—Delicioso! — disse ela.
—Nem acredito — falou Gustavo, praticamente caindo no chão de cansaço — Consegui! Consegui mesmo!
—Não! — Luís e Ian exclamaram juntos.
—Está decidido! — falou Antenor — Gustavo é o novo funcionário do nosso restaurante.
—Isso não teria acontecido se você não tivesse tentado trapacear — reclamou Ian.
—Cala a boca! — disse Luís — Foi apenas o desespero de um homem apaixonado!
—Admiro sua paixão pelo trabalho, Luís — disse Antenor — Mas, infelizmente, só posso contratar um de vocês.
Dito isso, Antenor foi até Gustavo ajudá-lo a se levantar.
—Paixão...pelo trabalho? — repetiu ele — Bem, digamos que…
—Pelo menos tem um lado bom nisso tudo — disse Ian — Gustavo não está interessado na Anne, então não precisamos nos preocupar com mais alguém em nosso caminho.
—É, é verdade — concordou Luís — Ainda estamos em pé de igualdade, Ian.
—Não sei onde — disse Ian — Está na cara que a Anne é caidinha por mim.
—O que disse? — Luís se irritou.
—Comida ótima, como sempre — disse a diretora, satisfeita com o serviço — Vocês vão levar o prato do Ian de volta?
—Bem, fica por conta da casa também — disse Antenor — A senhora pode guardá-lo para o jantar.
—Jantar? — estranhou ela — Eu vou é comer depois que acabar aqui. Ah, e Luís.
—Sim — respondeu o garoto.
—Trata de limpar a bagunça que você fez — disse ela — Você pode ter boas notas, mas preciso conversar muito com seus pais sobre seu comportamento.
—Sim, senhora — falou Luís se lamentando.
Algum tempo depois, Gustavo foi apresentado ao restante da família. Anne, Carla e Briana estavam diante de um Gustavo já com o avental do restaurante.
—Então é isso. Vou trabalhar com vocês a partir de hoje — disse Gustavo.
—Foi uma disputa acirrada — comentou Antenor — Mas o Gustavo venceu.
“Graças a Deus”, pensou Anne.
—Mas e a sua busca por aquele passarinho raro? — perguntou Briana.
—Continuarei nas horas vagas — disse ele — Aliás, esse é outro motivo para ter arranjado esse emprego. Preciso pagar novos equipamentos para melhorar minha busca. Tudo pelo meu casamento com a Kelly!
—Ai, que lindo! Ele é muito apaixonado! — comentou Briana.
—De qualquer forma, seja bem-vindo, rapaz — disse Carla — Você parece um garoto responsável.
—Darei meu melhor! — disse Gustavo.
—Bem-vindo — disse Anne — E obrigada.
—Pelo quê? — perguntou Gustavo.
—Por ter ganhado daqueles dois malucos — disse Anne — Agora posso trabalhar em paz.
—Mas os outros garotos pareciam bem esforçados — comentou Antenor — Daqui algum tempo talvez possamos abrir uma nova vaga e chamar um deles.
—Pai, por favor — disse Anne, sinalizando para Antenor para de falar — Não precisamos pensar nisso agora, né?
—Seja como for, nosso restaurante só tende a crescer! Vamos comemorar a chegado do nosso novo funcionário com um brinde!
—B-Bem, eu não bebo nada alcoólico e…
—É brinde de tubaína, Gustavo — explicou Anne.
—Bom, se é assim. Vamos lá! — Gustavo parecia bem animado.
Bem, parece que dessa vez a graça divina sorriu para Gustavo (e, consequentemente, para a Anne também).
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