Notas iniciais
Extra do Viez-vermelho em primeira pessoa.

"Merinooo!!! São nove horas você vai se atrasar", ouço minha mãe gritando, ao olhar para o despertador 6:29:57. Eu respiro fundo. Fecho os olhos. As minhas pálpebras se abrem de novo e a camada de proteção que o vírus criou enquanto dormia sobre minha íris levanta junto ao resto. "TRIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIM" meu despertador parece uma britadeira tocando num carro alegórico piscando vermelho, minha cabeça ainda tentando se equilibrar enquanto minhas mãos procuravam o botão de desligar. O excesso de nervosismo gerou adrenalina começou a bombear mais sangue. Eu respirei e descia minha mão pacificamente contra o botão quando senti ela mais pesada e destrocei ele em pedaços.

"O que foi isso?" disse minha mãe, enquanto eu ouvia seus passos nos degraus da escada que rangiam e pareciam ser os mais sinceros alertas as 7 horas da manhã. "Nada mãe, só bati a cabeça na estante", ouvi novamente o barulho dos degraus, mas agora mais baixo, ela descia. "Espero que o Adepto conserte isso" disse antes de fechar a porta. Ao bater ela um pedaço do despertador prende no vão e eu chuto ele para dentro me segurando para não precisar pedir conserto na porta também.

Descendo o café da minha mãe está na mesa, pode imaginar um banquete só de derivados de leite...leite de soja, sou alérgico a laticínios no geral, então minha mãe faz questão de ignorar essa questão e fingir que não há nada de errado comigo, ironicamente ela nunca me deixou dizer que estava doente e sempre foi dura dizendo que era frescura. A campainha toca, é a vizinha "simpatilouca" como apelidei quase carinhosamente, quando ela quase me atropelou para salvar um esquilo semana passada, depois disso ou talvez depois de nascer ela é exageradamente gentil comigo...talvez com o mundo. Não me incomodo, a ideia de lacaios sempre me agradou. Sorte minha que tenho uma certa resistência a atropelamentos de "simpátiloucos" já que o ácido lático dos meus músculos fica tão resistente quanto titânio num impacto pela respiração anaeróbica que acontece, é tipo um airbag, mas duro e resistente, ta não parece tanto assim.

"OOOI" disse com o sorriso mais psicopático que ela deve conseguir fazer de manhã com uma cesta de pães na mão"Advinha o que eu trouxe para meu vizinho preferido?Um café da manhã para meu vizinho", deixou a cesta, sorriu loucamente de novo e foi para sua casa feliz para não dizer loucamente de novo. Bom, o pior já foi, assim que ela entrou em casa, peguei o pão e mordi. QUEIJO, queijo de verdade, não era tofu, aquela mulher estava a tentar me matar novamente de uma forma deliciosa, já estava com as mãos na barriga esperando aquilo tudo sair do pior jeito.

Minha mãe desceu as escadas mais rápido do que eu me lembrava dela conseguir. "Eu senti o cheiro queijo, aquela vizinha que tem uma queda por você estava tentando te matar e você foi co-autor?", minha pele estava avermelhada até o pescoço, o enjoo passou por um instante, minha pele clareou, o vírus tinha se adaptado e minha mãe disse com um olhar meio assustado que ela não transparecia geralmente"Bom, o doutor disse que em 0,1 dos casos a alergia se curava sozinha, eu disse pro seu pai". É nem tudo é ruim em ter um vírus super adaptável no seu corpo, ele te salva de quebrar o braço, morrer de alergias e até quando mortos decidem atacar o mundo.

Hoje é o dia da minha entrevista, como disse minha mãe"é um grande dia" um dia que eu conquistarei meu espaço no mundo, mesmo que seja pequeno atrás de um caixa ou carregando coisas num supermercado, ainda sim não vamos perder o ar heroico da coisa.

De frente para o entrevistador enfim, depois de meia hora encarando as pessoas com meu olhar de"vou roubar seus empregos" até para secretária. "Merino Collins ", apertamos as mãos, ele me olha com um ar de investigação, mas de um jeito simpático, parecia um terapeuta"Bom, 21 anos, sem experiências formais de trabalho, curso de primeiro-socorros e sobrevivência, domina os idiomas russo, alemão, japonês, inglês, espanhol, português e italiano...Interessante", folheando e refolhando o currículo e recomendações ele diz"agora vamos falar um pouco de você, quais são seus pontos fortes e fracos?".

Pensei por um minuto"Pontos fortes? Super força, resistência , adaptabilidade, autocura, não precisar de seguro de saúde... conta?" mas por fim disse"Sou proativo e produtivo, porém não muito comunicativo ou bom em grupo, mas não tenho dificuldades de trabalhar sozinho". O entrevistador fez mais uma série de perguntas, na medida que eu ficava ansioso minha audição aumentava, eu ouvia o coração do entrevistador aumentar os batimentos, mas nada emocionalmente era demonstrado.

Ele perguntou continuando"Por que quer trabalhar nessa empresa?", na verdade, nem queria, olhei para cima e vi o ar condicionado, bom, ar..."vocês são alinhados ecologicamente e tem bons valores", depois me lembrei dos processos que a D'grão estava sofrendo pelos transgênicos. A careca parcial do entrevistador estava soando e suas mãos começaram a tremer, ele tentou beber água e começou a balançar o copo quase caindo nele mesmo.

Finalizando ele fez a última pergunta"Como se imagina daqui a 5 anos?", eu não me imaginava trabalhando naquela empresa, Adepto me falava de ser herói, nunca fez mais sentido, mas fazia mais sentido que um trabalho onde fosse contra o que eu queria."Eu me vejo fazendo uma faculdade, talvez biologia ou história, talvez química...não sei", a minha indecisão tinha ajudado o entrevistador a finalizar a opinião dele. Eu não havia passado.

"Bom, infelizmente seu perfil não se encaixa com o da nossa empresa..." ele disse, seus olhos reviraram, ele caiu da cadeira e começou a ficar sem ar , sua pele azulada e ele hiperventilando. Peguei a caneta dele, passei o estilete no alcool, me preparei para uma traqueostomia. Os olhos dele saltaram ao ver a caneta dentro da garganta dele enquanto eu fazia o procedimento. Liguei para a emergência, enquanto massageava ele. 10 minutos depois chegaram e levaram ele para o hospital, antes ele disse"Contratado, fale com a secretária" era alergia a algo que ele havia comido, hoje podia ser o dia da alergia alimentar acidental.

A secretária limpava os óculos, colocou e pegou minha fixa"Contratado? Sem pedido de exame médico? Acho que ele esqueceu", e eu pensei"Exame médico? Nunca tinha chego a essa parte, acho melhor...", peguei o currículo de volta da mão dela"Acho que vou precisar mais que você disso". Cheguei em casa, minha mãe tinha feito um bolo decorado com "Feliz contratado", e vendo minha cara ela perguntou"O que foi dessa vez?" e eu respondi"ÉEr..Falta de porte físico adequado".

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.