Notas iniciais
Frank's P.O.V Sound Track do capítulo: www.4shared.com/file/183193623/5ad8e4cb/03_-_Im_with_You.html

Umedeci os meus lábios com a língua, sentindo o gosto enferrujado do meu sangue. Pousei a minha mão na torneira da pia e antes de abrir verifiquei o relógio na parede da cozinha. Era 6:30 da manhã, e a julgar pelo horário em que o Sr. Grant chegou na noite passada, tinha a certeza de que ele não levantaria tão cedo.

Peguei um dos copos sujos na pia e, abrindo a torneira, o enchi, tomei a água em grandes goles e repeti o processo diversas vezes, até que sentisse a água pesar em meu estômago. Pousei o copo novamente na pia e tratei de secar minha boca, espremendo os meus lábios até que eles voltassem a sangrar novamente. Eu tinha que me certificar de que nada ficaria fora do lugar em mim, a não ser o que ele deixou.

Se há uma coisa que eu goste no final de ano, é a quantidade de festas que tinha. Confraternizações com amigos e colegas de trabalho, visitas a parentes, compras! Não que nos últimos anos eu tenha participado de algo dessa ordem, mas isso mantinha o Sr. Grant longe de mim, ou cansado em seu quarto por pelo menos a manhã inteira e metade da tarde. E era nesse momento que eu o enganava, que mostrava que ele poderia ser mais forte, mas eu era o mais esperto.

Na verdade, eu não era um exemplo de coragem. Sr. Grant poderia me humilhar, me subjugar, me ferir de todas as formas que ele dispunha; e eu não reagiria. Eu tinha tanto medo dele que apenas sua voz era capaz de me fazer estremecer e encolher o corpo, já armando a minha patética posição de defesa. Portanto quem eu estava enganando com essa história de ser esperto? Porque estourar a barriga de tanto beber água e diminuir o incomodo da fome até a próxima ida ao banheiro não era um feito nada heróico. Eu não me atrevia a sequer pegar os restos dos pratos, não poderia dar a ele motivos para que se zangasse. Mais motivos, quero dizer, além do fato de que eu respirava (ainda).

Balancei a cabeça de leve, tentando afastar aquelas reflexões de minha mente. Pensar a respeito do problema não faz diferença alguma, ao contrário, ele crescia e tomava uma forma absurdamente assustadora. Porém era praticamente impossível não pensar no meu dia-a-dia. Eu poderia me concentrar no que estava fazendo, uma vez que grande parte dos serviços domésticos era minha obrigação — inclusive cozinhar -, o que não era algo que eu possa dizer que seja o meu forte. Okay, sejamos sinceros, eu era um desastre.

Terminei de pôr em ordem todo o apartamento e voltei para a cozinha. Anos antes, quando sonhava em ter a minha própria casa, era exatamente assim que imaginava a minha cozinha: toda planejada, moderna e acima de tudo de um branco invejável. Mas agora o branco machucava meus olhos e tudo o que eu queria era um lugar escuro para me esconder.

Passei a mão pela bancada, ela deslizava com facilidade por causa da madeira bem polida. Rodeei a bancada e apoiei minhas costas na parede gelada. Deixei meu corpo escorregar até o chão. Estava exausto. Esforcei-me para levantar a cabeça e olhar novamente o relógio. Já era quase onze horas da manhã, o que significava que havia passado mais ou menos cinco horas fazendo algo que não deveria levar duas. Por mais que eu mandasse meu corpo funcionar, por mais que eu insistisse para ele continuar naquele calvário, ele implorava por energia.

“Não vai fazer mal eu tirar um cochilo, sim?”

Escondi o meu rosto sobre meus joelhos. Eu tinha certa dificuldade para dormir, mesmo com todo o cansaço que eu sentia. Quando o meu corpo se acalmava e o barulho em minha volta se dissipava, o meu estômago fazia uma sinfonia de reclamações, chorando e rangendo por algo mais do que as migalhas que eu lhe dava. E por mais que eu pedisse desculpas insistentemente, ele não se calava. Quando, por fim, não conseguia mais ouví-lo, pouco depois de adormecer, acordava agitado e com medo.

Uma vez li em uma revista a respeito da evolução das espécies. O texto explicava o porquê dos sapos e outros anfíbios terem ido para terra, segundo o redator, era para sua própria sobrevivência. Na época eu não sabia o que pensar a respeito dessa teoria, mas agora nada era mais certo. Com o passar do tempo, eu descobri a falta que dormir fazia e desenvolvi um esquema que me ajudava a adormecer, e melhor, não ter pesadelos.

Primeiro eu cantarolava de forma que só eu escutasse, isso ajudava a não ouvir minha barriga roncando. Quando eu não ouvia mais nada a não ser minha própria cantiga de ninar, forçava a minha mente a imaginar algo feliz. De tanto fazer isso já era algo automático, sempre que eu fechava os olhos e começava a cantarolar, as imagens vinham a minha mente com facilidade e antes que percebesse, já estava sonhando de verdade.

Geralmente a cena começava comigo voltando para casa. Eu estava na frente da minha antiga escola e meus colegas vinham me abraçar e dizer que sentiam a minha falta, então, meu pai me buscava de carro e me levava para casa, onde minha mãe havia preparado um jantar de boas vindas. Tinha comida de tudo quanto é tipo, todas pareciam especialmente deliciosas, os aromas dos assados me carregavam como nos desenhos de Tom & Jerry, me sentavam confortavelmente à frente de um prato e me traziam um copo de coca-cola gelada.

Todos os mais íntimos estavam ali e sorriam para mim, diziam que eu trazia alegria e nunca mais iriam me deixar ir embora, que iriam me proteger. A noite era de festa e toda a atenção era voltada para mim, riam das piadas que eu contava e realmente estavam interessados no que eu dizia. Eu era inteligente como nunca.

Pela janela eu podia ver o senhor Grant na chuva que castigava a terra. Ele olhava de volta para mim, com olhos de inveja. De repente todos na festa apontavam para ele e — inclusive eu -, riam com gosto. Parece que havia algo extremamente engraçado nele e era ao mesmo tempo digno de pena. Seu olhar passou para desespero, saltavam de um lado para outro procurando algum lugar para enfiar a cabeça, mas ele estava congelando, destinado a humilhação por toda a eternidade.

Depois de comer e beber tudo que conseguia e ser bajulado por cada uma das pessoas presentes na festa, eu me retirava sob os seus protestos e ia para o meu quarto. Ele parecia três vezes maior e a única luz que vinha era de uma lareira que não existia no quarto original. Eu deitava na minha cama e me afundava em seus lençóis macios. Os sons que podia ouvir era o crepitar do fogo e minha respiração unida à respiração da única pessoa que não tinha visto na festa.

Uma das mãos de Michael me trouxe para mais perto dele e eu pude descansar minha cabeça em seu peito. Ele cheirava a revelador como de costume, mas não me deixava tonto não, eu gostava. A pouca luz no quarto me permitia ver o seu sorriso contagiante, seus traços únicos. Aconchego-me mais em seu peito e ele me abraça de forma protetora. Em momento algum ousamos quebrar o silêncio com palavras, apenas com os hum-hum da minha canção de ninar e, nesse embalo, eu adormeço satisfeito.

Senti um leve impacto em minha perna e abandonei contra a vontade o meu sonho. Minha visão ainda estava desfocada, mas eu consegui ver o sorriso sádico do Sr. Grant a minha frente e pensei rápido o suficiente para reprimir qualquer som espantado que pudesse sair da minha garganta.

- Olha só quem eu encontro dormindo! – Ele torceu em sua mão a gola da minha blusa e me puxou para perto de si, me fazendo ficar em pé e depois na ponta do pé. Sacudiu o meu corpo como se fosse feito de pano. – Não vai querer um beijo para acordar, vai?

Eu nunca soube como responder a esse tipo de pergunta, não com Grant. Nunca sabia identificar como ele estava e como deveria me portar em sua frente. Abaixei minha cabeça e toquei com as pontas dos meus dedos os nós esbranquiçados de sua mão. Acho que minha mão estava fria, pois os pelos de sua mão se eriçaram ao meu toque.

Meus calcanhares tocaram novamente o chão, Grant havia soltado a gola de minha blusa à medida que o ar saia dos seus pulmões e a aparência avermelhada da pele desaparecia.

- Okay, vou exercitar a minha paciência, pelo menos por hoje. – falava em um tom de calma que me fazia estremecer por dentro, meu corpo se contraía a cada vez que ele passava a mão na minha blusa, para desamassar. – Prometo que ignorarei o fato de já ser essa hora e você não ter feito nada ainda e parecer que passou a noite em claro.

Meu coração falhou uma batida, o relógio da cozinha apontava 15h40min. Não acreditava no meu descuido, eu não sabia por onde começar a explicar, mas sempre começava com um pedido de desculpas, o que eu repetia fervorosamente em um tom que eu julgava ser possível de ouvir.

- Em outra hora acertaremos isso. – disse severo, por cima de um soluço meu. – Vamos sair, você precisa estar apresentável para hoje a noite. Temos oito horas para isso e você ainda está parecendo um espantalho aqui na minha frente.

Passou a mão pelos meus ombros e me empurrou para sua frente. Pude sentir o seu hálito quente na minha orelha quando ele mordeu o lóbulo e sussurrou que a noite seria deliciosa, mas eu simplesmente não conseguia parar de dizer para mim mesmo que não queria sair no ano novo.

As pessoas que passavam por perto esbarravam em mim. Todas elas. Parecia até uma espécie de complô. Os dedos de Grant entrelaçados nos meus, faziam força e me puxavam na direção que ele queria, a intenção era que nós parecêssemos um casal de namorados comum, mas a imagem que passava era completamente diferente. Basicamente, Grant andava normal na frente e eu corria atrás, como uma criança tentando acompanhar os passos do pai.

Manhattan estava realmente cheia naquele dia, tanto que decidimos ir de metrô, para evitar o engarrafamento. Véspera de feriado costuma ser assim em todo o mundo, mas em Manhattan era diferente, era como se metade da população mundial resolvesse dar uma passadinha na quinta avenida para comprar aquele presente que faltou. “Todos ao inferno!”,seria o que eu iria dizer a eles em alto e bom tom, alguns anos atrás, mas não seria interessante Grant ouvir algo desse tipo, então eu apenas os mandava mentalmente tomar no cu, isso me fazia relaxar.

Antes de sair de casa, Grant me passou algumas regras. Eu teria que sorrir um pouco, mas não precisava ser muito, não era para fazer amizade com as pessoas. Não era para falar nada, somente responder o que ele me perguntava e sempre concordar com o que ele diria. Ele também havia me dito que não era para olhar muito para a mesma pessoa, segundo ele, sabia o que eu estava pensando e quem eu realmente era. Grant jurava que eu seria capaz de ficar com outra pessoa, traí-lo, ele dizia. Acho que eu não seria capaz de me relacionar com as pessoas, afinal, quem sabe eu não tenha tanta sorte dessa vez?

Entramos em uma barbearia, que era uma espécie de clube para cavalheiros da alta sociedade. Eles misturavam o ambiente, inclusive com um pequeno bar, onde alguns homens engravatados socializavam. Grant foi cumprimentado por quase todos ali, como se ele fosse algum tipo de ícone. Não conseguia achar o que eles viam de tão especial nele, Grant não era exemplo para ninguém, talvez de como se vestir, mas não como um ser humano. Na verdade, nos dois estávamos bem longe disso.

Ainda lá dentro, Grant continuava com sua mão enlaçada na minha, apertando cada vez mais forte, me puxando discretamente para perto de forma que eu ficava quase escondido atrás dele. Ele parou quando chegamos a um dos últimos espelhos, virou a cadeira que ficava fixada no chão e me empurrou de leve na direção dela. Assim que sentei Grant colocou as duas mãos em meus ombros e olhou em meus olhos.

- Espere aqui. Não fale com ninguém. Não olhe para ninguém. E acima de tudo, não saia com ninguém daqui. – sussurrou para mim, pausadamente como seu eu precisasse de um esforço maior para entender a sentença.

Parecia errado olhar nos olhos de Grant, eu não conseguia fazer isso por mais de alguns segundos. Baixei então minha cabeça, olhando para os meus dedos com unhas quebradiças, antes que eu pudesse demonstrar que eu havia entendido a ordem, ele já havia se distanciado e eu só podia ouvir a sua voz, conversando animadamente com alguém.

Logo a conversa foi ficando mais próxima até que silenciou e o meu campo de visão me permitiu ver um avental com o nome do salão gravado. Mãos bem cuidadas e pintadas com um esmalte delicado ergueram o meu rosto, para que eu pudesse ver uma hiper-blond girl, com um bronzeado californiano e sorriso com dentes demais.

- Olha só para você, meu bem. O que você fez a si mesmo? Um garoto tão bonito sendo tão descuidado. – sua expressão transmitia algum pesar, mas sua voz a denunciava, ela não se importava tanto quanto tentava passar.

Era daquelas perguntas que não necessitavam de resposta e eu também não queria responder. Quer dizer, eu não sabia qual imagem eles tinham de mim, o que Grant falava a meu respeito, mas deveria ser algo convincente, para me apresentar daquela forma devastada às outras pessoas. Os olhares deles me davam uma dica, mas por mais que eu entendesse o olhar de certo desprezo por mim, não conseguia entender o olhar de pena e admiração por Grant. Era impossível ver a maldade nos olhos dele? Eu poderia ser um homúnculo, mas ele tinha que ser um verme!

Só que ele nunca foi. Ele era inteligente, influente, bonito, alto, bem longe de um verme.

Olhava constantemente para o espelho impressionado com o meu novo eu. Eu pensava que a melhor parte daquilo seria sentir água gelada em minha cabeça e principalmente o ‘carinho’ que a cabeleireira fazia enquanto lavava a minha cabeça. Eu realmente estava precisando de um toque como aquele. Mas o meu novo eu era o meu verdadeiro presente.

Durante todo o processo de cortar, lavar e todas essas coisas que fazem em um salão, eu evitava ver a minha imagem. ‘Para quê?’ me perguntava. Já sabia o que veria e sabia o quanto seria incômodo. Além de que, se eu não me encarasse, poderia me imaginar como outra pessoa, não esse mutuado de erros que era.

Quase chorei no momento em que Grant, com sua voz de trovão, falou para que eu olhasse como ficou o corte, mas depois não pude disfarçar o sorriso em meu rosto quando me vi. Olhos amendoados, certo. Cabelos negros e bem cortados, certo. Pele aceitável, certo, mas ainda seria um mistério para mim como a moça conseguiu tirar aquele tom de defunto. Era como se ela tivesse feito uma mágica e recuperado o meu eu do passado e o vestisse em mim. Não que eu tivesse exatamente igual, eu nunca seria igual ao garoto cheio de vida de Jersey, mas era o mais perto que estava de mim há anos.

Quando voltávamos para casa, eu não agia mais da mesma maneira, me sentia, de certa forma, poderoso. Com um pouco mais de esforço, eu conseguia andar lado a lado com Oliver e a cada fez que passava perto de algo que servia como espelho, não perdia a oportunidade de olhar para mim. Não era como se aquilo tivesse saciado a minha fome, mas me dava coragem para dizer coisas como:

- Oliver, preciso comer alguma coisa. – sussurrei no ouvido dele, enquanto acompanhava seus passos largos. Ele ignorou meu pedido e continuou andando, sua mão ainda esmagando a minha. Parei subitamente, dando um puxão em seu braço, insistindo em meu pedido. Ousei até em procurar olhar nos olhos dele.

Mas para minha surpresa ele parou também, mas não olhou para mim ou disse qualquer coisa, apenas acenou para um taxi. O cuidado ao me empurrar para entrar no carro e a serenidade que ele deu as coordenadas para o apartamento me fizeram franzir o cenho, confuso. Mais ainda quando ele sorriu, posou uma mão em minha perna, apertando acima do meu joelho, e sussurrou, seus lábios roçando em meu ouvido fazendo com que um frio subisse a minha espinha.

- Sabe, não vá pensando que algumas horas de cuidado mudaram alguma coisa em você, moleque. Você pode estar com a aparência melhor, mas continua sendo o mesmo miserável de sempre. Aquele que vendeu sua própria vida.

E era isso e ele estava certo sobre tudo novamente. Minha vida nunca iria deixar de ser uma existência desastrosa, uma linha torta e sem utilidade. Encostei minha testa no vidro, observando a neve lentamente viajar até o chão, não precisei segurar as lágrimas, elas não cairiam, pois não estava triste. O que eu sentia era de longe pior e estava entre o conformismo e a exaustão.

A idéia de ficar em um mesmo ambiente que várias outras pessoas não seria tão desagradável se fosse há anos atrás. Quando morava em Jersey era praticamente o meu habitat natural, festas regadas à álcool, rock e liberdade.

Só que não tinha nenhuma liberdade naquela festa, nem rock e o álcool não parecia divertido.

Grant estava dando uma festa de ano novo em seu grandioso prédio. “Grandes coisa”.Eu poderia perfeitamente ter ficado em casa, como todos os anos, mas ele insistiu em me carregar. A princípio eu não entendi, mas logo quando cheguei ao salão, pude entender.

Oliver me exibia como um troféu, para todos os convidados que cumprimentava. A cada vez que ele dizia que eu estava melhor e que ele estava fazendo tudo para me ajudar, tinha que controlar uma vontade imensa de rir que tomava conta de mim. Oliver Grant, cuidando de alguém? Ah, por favor, quanta inocência.

Alguns convidados me olhavam com superioridade, poucos com pena, mas a maioria evitava olhar para mim, chegando a me esmagar contra uma parede por não ter notado.

“Não se preocupem, senhores e senhoras, o que ele fez comigo mais cedo está coberto pelas minhas mangas.”

A certa altura, com o desenrolar da festa, Oliver parecia ter esquecido de mim e todas as outras pessoas também. Invisível e confortável novamente, eu tinha um plano para aquela noite. Com o bolso da minha calça cheio de guloseimas, me debrucei sobre o parapeito de varanda da cobertura. Ia fazer minha própria festa de ano novo como fazia em Nova Jersey.

O clima frio congelou a ponta do meu nariz e eu tive que me encolher para proporcionar algum calor ao meu tronco. Coloquei uma mão no bolso da minha calça e constatei que havia sobrado apenas um dos salgados de rico. Pensei em guardar, mas a hipótese de que Oliver o descobrisse em meu bolso me fez lançá-lo em minha boca sem arrependimentos.

Não era como Jersey e jamais seria, por mais que eu forçasse a realidade a desaparecer. A cidade abaixo dos meus pés gritava isso, o vento em meu rosto gritava isso, algo em meu peito gritava isso. Não seria como Jersey e eu sabia o porquê. Não havia parque de diversões e nem máquina fotográfica.

Quando eu perdi tudo, quando eu vendi tudo que tinha em minha vida eu percebi o quanto elas fariam falta. Mikey foi uma das coisas que eu abri mão e me arrependo amargamente. Não existia nada no mundo melhor que sua presença. Às vezes, quando eu me recordava dele, eu sentia raiva, na verdade inveja dele e de sua vida perfeita. Ele tinha a família dele e a família dele o amava. Ele jamais passaria por tudo isso, ele teria quem o protegesse.

Ele não poderia ter me protegido? Michael sabia que eu só podia contar com ele, sabia disso e nada fez para me proteger. Eu o odiava tanto, meu Deus!

Assustei-me com um puxão em meu braço. Não precisava ser um gênio para saber quem era que estava me puxando de volta para o salão e me xingando por ter desaparecido. Os lábios de Oliver se aproximavam dos meus ao mesmo ritmo que a contagem regressiva tomava força. Há muito tempo eu não acreditava nessas superstições bobas de fim de ano, mas naquele momento eu fechei os meus olhos e desejei mais do que ar que meu amigo estivesse ali