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18 Estar entre nós ou não, é só questão de opinião


Notas iniciais
Heeey, vamos lá para descobrir uma parte do mistério? Deem play na música Say Something - A Great Big World, não se esqueçam que é pra deixar o capítulo mais emocionante. Boa leitura e até embaixo!

(Say Something — A Great Big World)

Jesse

Onde ela está? Amy, cadê você? Por que não atende minhas ligações, não abre a porta ou me manda uma mensagem? Por que não te encontro após as aulas? Sinto sua falta.

Tem quase um dia que não a vejo. A última vez que a vi? Estava instável, grosseira, manhosa e carinhosa, seu humor oscilando constantemente entre isso. Sei que estou acostumado, mas realmente está ficando cada vez mais preocupante essas mudanças de humor. Talvez só tenha a ver com a gravidez, todavia pensando direito, ela está assim faz tempo.

Agora ela some. Parece que evaporou.

Hoje, acordo e a primeira coisa que faço assim que abro os olhos, é pegar meu celular e ligar para ela. Nada. Vou no dormitório dela. Nada.

Quero dizer, nem mesmo Angelina parece estar ali.

Tomo um banho e depois ligo novamente. Nada.

Estou em minha cama, me vestindo em quase câmera lenta, me perguntando por que tudo começou a dar errado, quando a voz chega.

— ATENÇÃO ALUNOS, FUNCIONÁRIOS E PROFESSORES DA EXPHIRE, FAVOR SE DIRIGIR AO AUDITÓRIO IMEDIATAMENTE! — a voz é grossa, profunda e clara. Não permite razão para enrolar.

Pulo da cama e visto minhas roupas rapidamente. Pego a toalha e esfrego em meus cabelos úmidos. Dou uma rápida olhada no espelho, que mostra o suficiente para que eu veja olheiras se formando cada vez mais em meus olhos. Resmungo um “que merda” baixinho e me mando em meio a centenas de pessoas nos corredores.

Ando até estar parado frente a frente a porta do dormitório de Amy. Bato por vários segundos na madeira desgastada da porta, bufo e volto a andar em meio ao fluxo constante de pessoas se dirigindo ao auditório. Estou tão desesperado, sentindo algo tão negativo me rodeando, a garganta apertada e o coração batendo rápido que mal vejo Nathan e Angelina andando logo na minha frente, mãos unidas fortemente, apenas porque reconheço a tatuagem no ombro dela.

Puxo-a.

— Morena, você viu Amy? — indago, esperançoso.

A resposta é negativa. Não viu. Só ontem. Nathan a apressa tanto e a olha tão fixamente, de maneira tão íntima que logo percebo que finalmente Angelina se rendeu aos encantos do meu irmão mais velho. É claro que se rendeu. Elas sempre se rendem. Não sei direito como me sinto.

Angelina me puxa, e tudo está acontecendo tão rápido, que quando vejo dou por mim estou sentado no auditório, do lado da morena.

— Estou com uma sensação ruim, morena — digo. Ela me manda um olhar abalado, tanto quanto o meu, e leva as mãos em meu rosto. É tão macia e aveludada, que eu sei lá, poderia senti-la infinitamente.

— calma, Jess! — franze a testa, como se nem ela conseguisse relaxar. — Vai ficar tudo bem!

E não fica. Preciso mesmo dizer? Tudo começa a piorar, para ser sincero. Tudo. Tudo mesmo. É como se uma avalanche me perseguindo: o desespero, a esperança interminável, mas o saber no fundo do âmago que ela irá me alcançar e acabar com tudo, comigo. Porém, antes, ela já alcançou outras pessoas, acabou com elas. Com ela.

— Não há uma maneira delicada de se dizer o que eu vou. Há apenas uma forma honesta — eu não estou respirando. Não sei como estou aqui ainda. Talvez esteja vivendo um filme. — Na madrugada de hoje, o corpo de Amelia Williams foi encontrado morto na piscina principal.

— # —

Por que, Amy? Por que você fez isso comigo? Eu sinto tanto.

Amo tanto você.

O chão é duro e áspero, o som do sofrimento alheio passa quase imperceptível de tão submerso que estou no meu próprio sofrimento. Morta. Não, é mentira. Ela não está morta. Está no quarto, penteando seus compridos cabelos cor de mel, sorrindo para si, olhando fundo e confiantemente em seus próprios olhos amendoados, porque sabe que é linda e nada e nem ninguém consegue superá-la.

Só que você não tem mais cabelos compridos. Você cortou-os faz pouco tempo. Nada faz sentido.

Meu Deus, Amy. Você se foi. Você me deixou. Se foi e levou alguém junto com você. Seria menina ou menino? Não acredito que você roubou meu filho, levou-o consigo para sempre. Isso está dilacerando meu coração, você está, e meu Deus, você nem está mais aqui para saber o quanto.

Estão falando que pode ser homicídio. Mas quem mataria alguém como você? Não, não, você me abandonou porque quis.

— Jess, Jess, Jess — uma voz sussurra acima de mim. Amy… É você? Ergo os olhos e uma garota me olha. Meu Deus, só pode ser você. Você me tira do chão e me abraça. Mas não é você. É um abraço diferente, bom, protetor, porém não o seu. — Jess, sinto tanto.

As lágrimas dela molham minha camiseta. Eu sinto o cheiro de argan em seus cabelos. Não sei como reagir, além de sentir dor, muita dor.

— Não, é mentira — sussurro para mim mesmo.

Ela me solta. Reconheço Angelina. Seus cabelos colam no rosto pelas lágrimas e seu queixo treme involuntariamente. Ela funga, limpando o rosto com as costas da mãos e em seguida segura meu rosto.

— Lamento, Jess, lamento tanto… eu podia ter ajudado, nãos sei…

Faço que não com a cabeça, eu devia tê-la ajudado. Não consigo parar de chorar, simplesmente não consigo.

Desculpe, Amy. Eu falhei com você.

No instante seguinte, um cara me abraça e descubro quem é pelo perfume almiscarado. Ele chora tanto quanto eu, embora tente impedir o rolamento de lágrimas, não consegue.

Nathan me abraça, me pressiona contra ele e dá tapinhas em minhas costas. Me solta, olha no fundo dos meus olhos e fita o teto. Em seguida, sai, sem mais e nem menos.

Sou abraçado centenas de vezes. As pessoas não entendem, não é? Não entendem que isso não traz conforto nenhum. Não entendem que isso não resolve as coisas. Não me devolve você.

— # —

— O corpo foi levado para fazer uma autópsia, sr. Humphrey — o diretor Daniels cruza as mãos no colo. — Deverá ser liberado em três dias.

Assinto com a cabeça, mirando meus tênis preto.

— Ela… se matou? — murmuro, engolindo em seco. Ergo os olhos. O diretor me olha analisadoramente, ou talvez não. Sua testa é cheia de marcas de expressões, o que lhe dá uma ideia de que está sempre refletindo.

— O que o faz pensar isso?

Olho para um vasinho de tulipas rosas ali no canto da sala.

— Ela… ela… andava estranha ultimamente — desvio o olhar. — Cortou os cabelos. Amy amava os cabelos. Falava pouco. Sempre de mau-humor. Não abria a porta.

— É verdade que ela estava grávida?

— É — dou de ombros.

— Por que acha que ela se mataria quando estava grávida? — ele põe a mão no queixo.

Apenas dou de ombro. Não respondo. Não sei mesmo o que dizer, além do que já falei. Amy não era mais minha Amy.

— Sr. Humphrey, sinto que tenho que te dizer que… havia sangue no muro e no telhado. Muito sangue — ele busca meus olhos. — Seja lá quem fez isso, fez em circunstâncias muito estranhas. Afogamento? Era como se não tivesse medo de ser pego. Sangue? Por que quem matou ela passou pelos telhados? Não, não tem sentido. Ao mesmo tempo, têm as evidências de que Amelia estava depressiva — o diretor batuca com um lápis na mesa de madeira. — Existem várias possibilidades, Sr…

Não aguento ficar para ouvir o fim da ladainha. Me levanto e saio pela porta da sala, como se tivesse sido dispensado.

Eu não aguento, Amy. Não sei o que é pior. Você, me abandonando, levando junto meu filho, ou alguém tomando de mim você e meu primogênito. Não entendo. Não quero entender. Quero você. Aqui.

Angelina

A mãe dela chega pela manhã, um dia após a morte. Não diz muita coisa. Se parece muito com a filha, o jeito de andar, se mexer e jogar os cabelos. Apenas pede que eu ajude a encaixotar as coisas de Amy.

Trabalhamos em silêncio. Dobro os vestidos e blusas dela sem pressa e vou pondo numa caixa, não precisa de muito esforço, ela era organizada, muito organizada.

— Sabe, quando chegou na adolescência, costumava dizer que viveria para sempre por um cara quando o amasse de verdade — a sra. Williams diz. — Ridículo, né? Não é como se a própria vida te desse essa oportunidade.

— Ela tinha Jess — murmuro, fecho a caixa e passo fita para selá-la.

— Jess — solta uma risadinha debochada. — Acha que ela amava Jess? Eu nem sabia desse Jesse até chegar aqui hoje.

Sério? Que diabos de relacionamento era esse? Me encosto na caixa e cruzo meus braços, reflexiva.

— Vai ver ela só era muito fechada — digo.

A mulher solta o ar, indiferente, como se não fosse mais importante.

— Talvez — sela mais uma caixa.

Meu corpo todo treme, involuntariamente. A culpa é minha. É nossa. Eu vi. Ela estava lá. Podia ter sido salva. Tudo que eu fiz foi chamar a porra de uma ambulância. Amy está morta. Minha colega de quarto está morta. O bebê dela também. O bebê de Jess. A namorada de Jess.

Dói tanto lembrar. O remorso é o pior tipo de dor, é como um ácido altamente perigoso percorrendo suas veias, corroendo tudo, devagarinho, torturando, por onde passa.

Minha maior vontade é desabar no beliche de baixo, me cobrir até a cabeça, escondida. Talvez de mim, talvez dos outros, da vergonha, dos meus monstros. Contudo, não posso. A vida segue lá fora, aliás, ela me obriga a encarar tudo.

— Amy era sua amiga? — pergunta.

— Não — respondo, distraída. Aí percebo que fui um tanto fria, direta. — Colega, uma colega muito legal. Sabe, não tivemos tempo para transformar em amizade.

A mulher concorda com a cabeça e enxuga uma lágrima do canto dos olhos.

— Entendo — murmura.

Continuamos encaixotando tudo. Ao fim de esvaziarmos o guarda-roupa, tiramos o lençol lilás de sua cama, seu travesseiro de pena de ganço e seu cobertor também lilás e florido. Depois, a penteadeira. Brincos, colares, anéis e pulseiras. Uma escova lilás, um pente também lilás. E acabou. Todas as coisas de Amelia estão indo embora, como ela própria foi.

— Olha… eu realmente, realmente sinto muito, sra. Williams — sussurro, de novo em lágrimas.

Ela coloca a mão em frente a boca, uma lágrima escorre e funga tentando se recuperar.

— Tudo bem — entorta o lábio, pensativa. — Me ajuda a carregar tudo para o carro?

— # —

Estou sentada na cama de baixo, abraçada aos joelhos, o rosto escondido por um capuz de moletom quando Nathaniel entra no quarto sem bater e sem falar nada. Fecha a porta atrás de si, aparentemente plácido, mas quando olho para seu rosto, vejo toda a dor culminando-o. Nathan para em frente e cama e tira o casaco de couro quente, em seguida a camiseta vermelha. Se joga ao meu lado e pega em minha mão e aperta contra a sua, levemente úmida. Não dizemos nada. Não há necessidade. É um sofrimento quieto, silencioso e em conjunto. Olho-o, coração se apertando um pouquinho mais, doendo um pouquinho mais.

— Dá para acreditar que ela se foi? — fala baixinho, muito tempo depois.

— Não mesmo — respondo e deito minha cabeça em seu ombro. — Sabe, eu tento pensar que não foi nossa culpa, mas…

— Não foi sua culpa, anjo — interrompe. — Não foi.

— Mas…

— Anjo, promete que quando você enjoar de mim, me odiar por algum motivo, vai lembrar dos motivos que fizeram você gostar um dia? — ele me interrompe de novo e pega meu queixo rispidamente, forçando-me a olhar em seus olhos inchados.

— O quê…

— Só prometa — Nathan aproxima nossos rostos mais-e-mais, fazendo o cheiro de álcool da boca dele chegar a mim.

— Eu juro — sussurro, fitando seus lábios voluptosos. — Jura também?

Ele assente com a cabeça, deslizando a mão de meu queixo para minha nuca.

— Juro — Nathaniel me beija de uma maneira unica. É como um laço, prendendo no meio centenas de sentimentos. Dor, medo, tristeza, culpa, paixão.

E ele se joga ali do meu lado e dorme. Imediatamente. Dorme. É tudo confuso. Talvez Nathan esteja mesmo se culpando mais do que eu. Acontece que ele nunca sonharia que lá na piscina, ontem, fosse a namorada do irmão dele, minha colega de quarto. Apenas imaginava que se chegássemos lá, já seria tarde de qualquer maneira. Eu tenho tanta culpa quanto ele.

Suspiro, pego meu cobertor e o envolvo com ela até a altura dos quadris. Pulo da cama, faço uma carícia com a costa da mão em seu semblante. Em seguida, dou um beijo em sua bochecha corada.

Sem pensar direito no que estou fazendo, subo na beliche, um degrau por vez. Quero ter a mesma visão que Amy tinha do quarto, quero saber o que ela via, como era dormir no topo. Quando chego em cima, cruzo as pernas e observo o meu redor. Não é alto, embora se eu esticar a mão toco o teto. Está escrito em batom vermelho o adjetivo “gostosa” na parede, fora isso, não há mais nada para me recordar. Até que olho para as duas gavetinhas acopladas a beliche. É verdade, nem vi o que há dentro, para ser encaixotado e devolvido a sra. Williams. Tudo bem, mando por FedEx depois ou levo no funeral. Puxo a maçaneta da primeira gaveta, mas não vem, então puxo com mais força e escuto um som de atrito, como se algo estivesse entalado no lugar errado, impedindo a abertura. Desço a mão para a maçaneta de baixo e puxo, abrindo-a sem problemas. Escuto um baque leve quando algo cai no espaço entre a gaveta e o caixote que a suporta. Franzindo o cenho, estico a mão e pego.

É um caderno preto, capa dura, velho e feio. Talvez seja um diário. Eu não gostaria que lessem meu diário depois que eu morrer. Embora eu nunca tenha tido um diário, porque eu sempre consigo falar tudo o que preciso e me sufoca para Alyssa. Mas talvez haja ali, talvez tenha respostas sobre sua morte.

Abro a primeira página. Não há nada. Nem na segunda, terceira ou quarta. Então recorro para a última página.

Que droga é essa? Estou mesmo vendo o que meus olhos estão mostrando?

Nathaniel. Centena de vezes. Nathaniel. É uma caligrafia fina, inclinada para a esquerda e bonitinha. Nathaniel. Ela escreveu ali. Nathaniel. Centena de vezes.

Nathaniel.

Meu Deus.

Viro a página. Dessa vez é uma frase. Uma simples frase.

"Em um milésimo de segundos, eu soube: estou no céu. Com a pessoa errada". Abre aspas. Nathaniel. Fecha aspas.

Vou para outra página. O que vem dessa vez é um desenho, feito de lápis grafite, mostra pressa por muitas linhas do rosto soltas. É um desenho de uma garota. Há lágrimas ali. Tristeza em seus olhos. Os olhos de Amy, olhos amendoados levemente inclinados para cima. É a Amy na ilustração. Na folha ao lado, há um cara de costas, ombros largos, corpo grande e másculo. Nathaniel.

Nas bordas da página, em uma letra minuscula, a mesma caligrafia fina e charmosa está ali. Preciso estreitar os olhos para conseguir lê-la.

"Ele não me vê! Não como eu o vejo! Não como o mais novo me vê! Ele só vê a si mesmo… E me usa nas horas vagas."

De repente, meus olhos se enchem de lágrimas. Meu Deus. Não, não, não. Nathaniel não pode ser tão idiota assim. Ele não pode. Por favor, me diz que ele não pode.

Escuto um ressonar alto embaixo de mim.

— Anjo… Cadê você? — a voz dele é profunda e sonolenta. Antes que ele se levante e me veja assim, pasma, devolvo o caderno para o lugar e pulo para o chão.

— Oi — digo, esforçando-me para esconder o tremor e as lágrimas.

— Dorme aqui comigo? — pede, bocejando.

Não respondo. Olho meus pés. Está tudo tão confuso. Não sei nem quem Nathaniel é. O que posso fazer? Ergo os olhos e os cruzos com os dele. Talvez, eu ainda deva descobrir.

Talvez, a culpa seja mesmo de Nathaniel.

Dou um sorriso leve, resignado e me jogo ao seu lado, minha cintura é envolvida por seus braços fortes, os mesmos braços da figura, que se apressa logo em me trazer para mais perto, me esquentar com seu calor confortante.

Eu só sei que irei descobrir.

Tudo.

Notas finais
É, Nathaniel, é. Sua casa tá caindo shjkasjkahkqhkHS gente, não tenho certeza de quantos capítulos VG vai ter mas creio que não passa dos 30 e realmente me sinto cansada de escrever, sei lá, acho que já fazem 2 anos que tô nessa :c Não deixem de comentar, please Beijos, bye