— Lilian, Lílian acorde!

Eu estava imaginando coisas? Em algum lugar distante da minha memória, eu ouvia a mim mesma tentando me acordar, e depois o barulho de mala abrindo e livros caindo. Aquilo aconteceu mesmo? Como se fosse possível, humpf. Snape não poderia estar certo. Eu estava alucinando? Apertei os olhos com força, e senti a grama sob mim, compreendendo e recordando dos fatos.
A varinha atacou Snape. Dumbledore o defendeu.

Levantei tonta, como se tivesse acabado de fazer uma viagem ou coisa assim. Dumbledore estava sentado no banco aparatado, enxugando a testa com suas mangas compridas. Snape estava próximo ao lago, de costas pra mim. E, bem, haviam duas criaturas azul elétrico com grandes olhos me encarando, esperando.

Elas sorriam, estavam satisfeitas de terem dado o recado.

— Professor? — minha voz saiu fraca.

— Sim Lilian — ele olhou para mim, de soslaio, com uma voz dez anos mais cansada — querida.

Eu levantei e fui até ele. Senti minha testa arder onde a placa da profecia causou um corte. Fitei os olhos azuis do professor, brilhando sob a luz do pôr do sol. Já estava dando quase seis da tarde, o céu começava a se avermelhar. Me sentei no banco, e percebi que estava repleta de perguntas a serem feitas.

— Hum, professor, o que está acontecendo?

Ele deu um suspiro. Meneou a cabeça para Snape, ao longe, e virou-se para mim.

— Vamos, Evans, preciso que me diga o que sabe até aqui. — ele disse, gentilmente, esperando apenas completar as lacunas de minhas respostas.

Olhei para meus joelhos, agora bem arranhados, e pensei no dia que tive, nas confusões que me meti, e em tudo que não fazia sentido até agora. Ele decidiu falar.

— Estamos enfrentando algo inusitado neste lugar, Lilian. Memórias. Você vê, existe, para cada mente humana, uma espécie de fio, tecido entre a magia e a realidade. — ele gesticulava no ar.

Eu não entendi nada. Continuou.

— De alguma forma, Tom Riddle, o qual você não conhece ainda, alterou seu fio, e, consequentemente, os laços mágicos entre você e Snape foram danificados. Por isso, uma linha alternativa foi criada, uma ruptura da realidade.

O outro Snape olhou para trás e sorriu. Ele parecia estar se apagando... Eu via a luz atravessá-lo. Me lembrei de uma coisa.

— Professor, o que o chá tem haver com tudo isso?

Ele sorriu e disse:

— Accio.

A bolsa que estava no chão voou para suas mãos compridas, e de lá ele tirou a garrafa de chá. Snape chegava neste momento, parecia ter consciência de que estava sumindo, mas nenhum dos dois pareceu se importar. Eu comecei a ficar preocupada. Dumbledore abriu a garrafa e de lá saiu o vapor. Continuava quente.

— O chá foi feito por Snape. — ele arregalou os olhos e sorriu — o outro Snape. Possui uma erva medicinal que os trouxas usam para dormir. Muito gostoso. Mas não é isso que ela serve no mundo bruxo: estamos olhando para a mais nova invenção de feitiço: Liquor Protego.

— Oi?

— Proteção líquida — Snape disse — o professor aqui me explicou. Protege da morte.

— Não exatamente, mas protege de muitas coisas que causam a morte — Dumbledore disse.

Olhei para ambos e me senti mais confusa que elfo doméstico em guarda-roupas. O sol chegou no horizonte e o dia não podia se tornar mais absurdo. Como aquele chá podia fazer isso? Nada pode... Mas. De que tipo de... Senti um gosto estranho na boca. Eu senti um gosto acre, como se fosse a...

— Morte?

— De coisas terríveis sim, até mesmo desse destino — Dumbledore disse fracamente, para ninguém em particular.

Sorri nervosamente. Nada podia deter aquela maldição. Aparentemente eu estava louca. Snape chegou perto de mim, se agachou e pegou minhas mãos. Ele estava sumindo. Olhei em seus olhos e através deles, vi a grama que começava a perder sua iluminação. O sol estava indo. Dumbledore fez um giro de mão e duas taças surgiram.

— Vocês devem beber antes de continuarmos.

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Snape compreendia o porque de encontrar Lílian e lhe entregar o chá. Ele compreendia que o chá a livraria de um destino terrível, tão doloroso quanto ser atingida pela maldição Cruciatus. Ele criara a fórmula e vendera aos duendes, os quais perceberam o que tinham em mãos; no entanto, pelas Leis da Magia, tal poção era proibida, justamente por diminuir a lei natural das coisas.

Foi então que Dumbledore ficou ciente disso.

O chá de Coquelles não era seu favorito, mas ele mentira para Lílian porque era necessário. A profecia seria cumprida, segundo Firenze, quando um bruxo das trevas surgisse. Segundo o centauro, essa seria uma das primeiras ações das trevas produzida pelo bruxo. Então mandou Snape encontrar a garota na França, e ao tomarem o chá, eles estariam imunes contra as ações de Tom Riddle.

Ledo engano.

Riddle fora mais rápido, e seus feitiços das trevas distorceram memórias, estas que justamente eram relacionadas aos dois alunos mais próximos de Dumbledore: Lílian Evans e Severo Snape. Para surpresa dele, a distorção do tempo o atingiu: outro Tom, trouxa mas igualmente perigoso, surgira. A Lílian trouxa era criação das trevas, assim como o outro Snape. No entanto, não ofereciam perigo. Eles simplesmente se deram conta de que nunca pertenceram à realidade.

Em algum momento, eles deixariam de existir.

— Lílian, vamos embora daqui. Fizemos mais do que devia ter sido feito — Snape puxou Lílian pela mão direita, a qual estava fria e estranhamente transparente, como um fantasma.

— Onde vamos agora? — ela perguntou, ainda olhando para si mesma ali deitada, em sono profundo.

Ele pensou um pouco.

— Já fizemos o suficiente. Ela acordará e beberá da jarra que está ao seu lado — ele cochichou — isso a protegerá do que está por vir. Além do mais, deixamos também o papel.

Ela sorriu, mas seu sorriso vacilou.

— Está sentindo algo? — ele olhou nos olhos dela.

— Eu-eu sinto como-- ela parou de falar — me sinto desvanecendo, acho que o que eu devia fazer aqui, já foi feito... — ela sorriu para ele, tristemente, e eles desceram para o Salão Comunal, e saíram pelo quadro.

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— O gosto que sinto na boca...

— Sim, Lilian — Dumbledore acenou brevemente, como se eu tivesse desvendado algo que todos já sabiam a resposta — a mandrágora tem um efeito que acaba com qualquer petrificação, todavia, causa este peculiar sabor lúgubre.

Para deixar você ciente: o sabor que sinto na boca é como sentir o amargo do café misturado com o sabor acre de sangue. Algo como engolir ferrugem. Me senti cada vez mais enjoada pelo fato de ter sido protegida por algo feito com as artes das trevas. Me senti usada por ter me envolvido nisso, sem saber da profecia. E, principalmente, queria que tudo aquilo acabasse logo.
— Por quê não soube dessa profecia antes?

— Ele disse que era perigoso contar, antes que o bruxo surgisse. Mas foi repentino demais. — Snape me disse — Ele disse que logo irei embora, assim como a outra Lílian da qual me lembro.

Pensei um pouco no que ele disse.

— Então, vocês são possibilidades de nossas vidas? — disse, um pouco constrangida — vocês realmente não existem?

Ele caminhou um pouco, indo da calçada ao asfaltamento, pulando na rua escura enquanto ia se misturando ao ambiente. Ele estava quase invisível. Estávamos em uma rua próximo de Mayfair, distrito de Londres, à procura do outro Tom.

— Eu tenho toda uma outra memória. É como se eu tivesse vivido em outro mundo.

Dumbledore andava à frente, e deu um olhar caridoso ao garoto.

— Mas, o que vamos fazer com o outro Tom?

Dumbledore começou a olhar para as janelas e levantar sua palma, procurando por sinais de magia.

— Vamos confrontá-lo e terminar esta profecia — ele sorriu — assim tudo ficará bem.

Aconteceu num milésimo de segundo. Dumbledore deu um passo em falso, encontrando um ambiente mais pesado do que o normal, obscuro. Um sinal de magia negra. Muita magia acumulada. Ele puxou a varinha e o lado direito da rua explodiu, com um reflexo que só podia significar que o homem de raios voltara. Tom voltara. E precisávamos detê-lo.