Vidas Interrompidas
1 A casa na colina
Notas iniciais
Te vejo lá embaixo.
Boa leitura
bj*
o/
ASL
PS:Esqueci de avisar da trilha sonora.
As músicas são:
1ª My Love - Sia (a que está no meu profile)
2ªJ'Y Suis Jamias Allé - Yann Tiersen
3ªLa Valse D'Amelie - Yann Tiersen (Trilha sonora do filme O fabuloso destino de Amelie Poulain)
O solar dos Hilton estava abandonado desde ‘39 , quando a família fugiu da guerra , a casa , que um dia teve um aspecto senhorial , agora estava depredada . A cidade crescera e as crianças das famílias que invadiram o terreno gostavam de apostar quem tinha mais coragem ou de jogar pedras nas vidraças importadas de Paris .
Após a morte do Capitão Hilton , a senhora Hilton e suas filhas fugiram na calada da noite de Hertfordshire para Hunsford , a cinqüenta milhas de distância . Não levaram muito mais que lembranças . Lembranças de um tempo alegre e primaveril . Onde a jovem Clarice Hilton servia o chá das cinco às visitas no jardim extremamente bem cheiroso , com suas rosas , begônias , madressilvas e lírios do campo , copos de leite e orquídeas .
Ela e as amigas gostavam de observar o senhor Crowford , aliás : jovem senhor Crowford trabalhar . Era um homem alto , em torno dos dezoito , dezenove anos , a pele tostada pelo sol em contraste com o tom de palha de seus cabelos e os olhos claros . Tinha os traços finos e harmoniosos... E também uma secreta admiração pela senhorita Clarice , que por sua vez correspondia-a , em segredo também , claro!
Quando a guerra estourou em Londres , não demorou muito para chegar à cidade a novidade . Os homens , obviamente ,ficaram embevecidos , já palpitavam estratagemas e nomes de possíveis comandantes . As mulheres , ao contrário ,exasperavam-se : imaginar seus maridos , filhos , irmãos , amigos , quem quer que fossem , morrendo em um campo de batalha era doloroso . E , para Clarice ,ouvir do jardineiro da família que havia se alistado e que morrer pela pátria só não era mais honroso que morrer de amores , era quase o fim , a própria morte .
Por tantos anos escondera a afeição em cartas que jamais seriam lidas . Uma noite , pouco antes de Crowford ocupar sua patente no exército , convocou-o a uma conversa . Disse apenas que fizesse silêncio e a seguisse . Caminhou até a sala no primeiro patamar , subiu as escadas para o segundo , terceiro ... Sótão .
Era um ambiente amplo , mas escuro e úmido . Lá fora chovia e as gotas salpicavam o telhado fazendo , continuamente , um ruído engraçado , como uma goteira distante . Ela acendeu uma velha lamparina à querosene e fitou-o . Seus olhos castanhos concentravam-se nos azuis dele . Tentando focalizar alguma idéia na mente desorganizada . Entreabriu os lábios para dizer algo , mas logo fechou-os crispando-os . Por que era tão difícil ? Planejara tanto aquilo! ...
Já ele , mirava-a confuso , observando as nuances produzidas em sua pele pela chama oscilante da lamparina .
— Você já deve saber , obviamente , que não ficaremos aqui por muito mais tempo , caso essa guerra piore .
— Claro .
— E também que ainda lhe faltam poucos dias para o exército .
— Sim , mas ...
— E que não posso suportar a idéia de que você se vá ! – ela declarou em supetão . Nervosa , estendeu-lhe um pequeno embrulho e saiu correndo . Ele abriu-o e viu que eram cartas . Leu-as todas , eram longas e apaixonadas . Às vezes magoadas , mas todas amorosas .
Na semana que se passou , ele , em momento algum , mencionou-as à jovem , mas respondeu-lhe satisfatoriamente todas e , em sua última noite ,deixou um pequeno embrulho à porta do quarto dela .
Quando a senhorita Hilton acordou , milagrosamente cedo , tropeçou com o pacote à sua porta . Recolheu-o e adentrou o aposento novamente . Afoita , abriu-o e percebeu que eram cartas . Ou melhor : respostas ! Ele também a amava ! Também lhe entregava o coração e a alma . Mas ainda assim , ia para a guerra . Não podiam ficar juntos . Pertenciam a classes diferentes . Tinham vidas diferentes , blá blá blá , tudo que os casais da história romântica sempre enfrentam .
Para que nenhuma das empregadas bisbilhotassem , guardou as cartas no sótão . E sempre que possível , como uma gatuna ,subia as escadas e ia encontrar-se com as palavras de seu amante literário . Ele fazia o mesmo , às vezes deitado ao relento ou num catre de campanha , lia as cartas que ela tão ardorosamente escrevera de 1935 à 1938 .
E assim , os anos foram passando . A guerra terminou . A queda de Hitler fora comemorada , muitos judeus recomeçaram suas vidas em outras terras , talvez , mas e nossas personagens ? Que fim o destino traçou para elas com a delicada ponta de uma pena dourada ?
Após a morte do capitão Hilton , como já disse , a família fugiu para Hunsford , mas a guerra assolara também aquele povoado . Refugiadas de guerra , apenas Margot , a filha mais velha e Clarice sobreviveram aos ataques aéreos . Casaram-se e tiveram filhos . Embora Clarice nunca tenha esquecido Tom Crowford . Ele morrera . Seu regimento fora “capturado” por alemães numa missão e fora fuzilado com as cartas dela guardadas ao lado do coração .
Somente muitos anos depois a viúva Lestrange , Clarice Lestrange , voltou à sua cidade natal . Tão diferente ! Afinal passaram-se sessenta anos desde que ela fugira . Avistara , ao sopé da colina ,o velho solar dos Hilton . Então uma idéia estalou-lhe a mente . Quando foi verificar : ainda estavam lá ! As mais lindas cartas de amor . A velhinha recolheu-as . Olhou mais uma vez para o sótão com lágrimas brotando-lhe os olhos e desceu cuidadosamente as escadas , passando pela sala no primeiro patamar , sentou-se no puído sofá e tornou a desembrulhar as cartas , exatamente como fizera tantas vezes no passado . Leu-as todas e , pela primeira vez desde que o vira partir na estação de trem , chorou pelo tempo perdido .
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