Vidas Cruzadas
7 Capítulo 07
Notas iniciais
Tobias
Depois de uma audiência que levou a manhã inteira encontrei com o Zeck de volta a empresa.
– Essa foi por pouco. – Zeck se refere a audiência que eu quase perdi.
– Quase que aquelas novas evidências destruíram o meu caso, felizmente o juiz decidiu não aceita-las como prova.
Chegamos ao escritório.
– Boa Tarde, Cara. Algum recado enquanto estive fora? – Pergunto a minha secretaria.
– Não senhor, mas seu pai espera pelo senhor em sua sala. – Meu pai o que ele está fazendo aqui?
– Obrigada Cara, por favor não transfira nenhuma ligação enquanto eu estiver conversando com meu pai.
– Te espero para o almoço? – Zeck me pergunta antes de ir embora.
– Sim, pode esperar.
Entro em minha sala e vejo Marcos sentado em minha cadeira, que um dia foi sua.
– Olá filho. – Apesar de seu tom ser neutro, vejo irritação em seus olhos. Já conheço todas as mascaras do meu pai.
– Olá pai, o que faz aqui? – Não quero ficar com ele mais tempo do que o necessário.
– Fui avisado do que aconteceu essa manhã. – Ele se levanta e caminha em minha direção.
– Sim, foi um contratempo, mas conseguimos contornar.
– Não seja bobo Tobias, você não conseguiu nada. Se o juiz decidisse aceitar as novas evidências você teria perdido o caso. – Ele nunca vem me elogiar, mas quando cometo um erro, o que é muito raro, ele sempre aparece.
– Eu não fui informado sobre elas, não poderia ter feito nada.
– Claro que poderia, poderia ter descoberto as evidências primeiro. – Marcos sempre foi assim, sempre criticando e castigando. Nunca tem nada de bom para dizer, por isso o odeio, por tudo que ele fez e ainda faz comigo.
– Me desculpe pai, mas não tinha como eu ter descoberto... – Ele me interrompe.
– Sempre com desculpas, sempre arrumando algo para por a culpa além da sua incompetência. O fato Tobias é que você anda distraído, essa sua nova namorada não faz bem para você. Em todos os anos casado com a Nita, você nunca cometeu um deslize como esse. – Não suporto o ver comparando a Tris, com a Nita.
– Deixe a Tris fora disso.
– Filho. – Ele se aproxima e coloca a mão sobre meu ombro. – Ela não é o tipo de mulher que você precisa. Você precisa de alguém que você possa controlar, que te obedeça. Eu a vi na festa, ela não parece ser alguém que se deixe ser controlada. Conhecendo você tenho certeza que ela te controla. — Ele me olha com um sorriso malicioso.
A Tris tem razão eu não consigo me impor, está aqui na minha frete, meu pai decidindo se eu devo ou não namorar a Tris e eu não consigo dizer nada. Eu sou um covarde mesmo.
– Escute seu pai, filho. Eu vivi muito mais do que você, eu sei o que é melhor. – Ele tira a mão do meu ombro e vai embora da minha sala. Zeck entra logo em seguida.
– O que o velho queria?
– O de sempre, me criticar. — Ele me olha com preocupação. Zeck é o único fora da família que sabe da minha história.
– Vamos almoçar, já estou quase morrendo de fome.
– Só preciso passar em um lugar primeiro.
Tris
As aulas hoje foram cansativas e quase ninguém do grupo veio, apenas o Al, que fez questão de sentar perto de mim todas as aulas.
Felizmente acabou a última aula e consegui me livrar do Al. Não que ele não seja uma boa companhia, me trata muito bem, mas eu sei do seu interesse em mim e isso me deixa muito desconfortável.
– Já estou quase na saída do campus quando ouço Al me chamar.
– Oi Al. – Digo meio sem graça.
– Quer almoçar comigo? – Queria poder evitar esse constrangimento, mas preciso deixar as coisas claras.
– Desculpa Al, mas eu queria te pedir que parasse de me chamar pra sair. – Vejo seu olhar magoado.
– Por quê? – Quando vou responder sinto uma mão encostar na minha cintura e alguém responde por mim.
– Porque ela tem namorado. – Olho para o lado e vejo Tobias com olhar sério no rosto. Al o olha confuso.
– Al, esse é meu namorado Tobias. – Tobias cumprimenta Al que sai envergonhado. Me viro para Tobias que ainda está sério. – Precisava disso?
– Claro que sim, agora ele nunca mais te chama para sair. – Ele me dá um beijo rápido.
– Estão fazendo o quê aqui? — Noto que Zeck está com ele.
– Vim te fazer uma surpresa e te levar para almoçar com a gente.
Tobias dormiu em minha casa praticamente todos os dias da semana, prefiro dormir em minha casa durante a semana porque fica mais próximo da Universidade e como ele quer ficar comigo, dorme aqui. Tenho percebido que ele anda estressado.
Terminamos de jantar e enquanto eu lavo os pratos o vejo discutir nervoso com alguém no telefone. Ele tenta falar baixo e por isso não consigo ouvir do que se trata a conversa. Termino com os pratos e vou para a sala.
Me aproximo de Tobias que está sentado no sofá com uma postura tensa e começo a fazer uma massagem em suas costas, beijando seu pescoço.
– O que houve, você anda estressado ultimamente. – Ele segura minha mão e me puxa suavemente, fazendo com que eu dê a volta pelo sofá me sentando em seu colo.
– Coisas do trabalho, meu pai resolveu pegar no meu pé. Ele acha que eu não estou me dedicando a empresa. – Ele fala olhando para as nossas mãos que estão entrelaçadas.
– Por que ele acha isso?
– Porque antes a minha vida era a empresa, mesmo não querendo ser advogado, sempre me dediquei muito a nossa empresa. – O olho confusa.
– Você não gosta de ser advogado? – Ele desvia o olhar das nossas mãos para os meus olhos.
– Não, nunca quis ser advogado, mas como sou filho único, não tive escolha a não ser dar continuidade aos negócios da família. Assim que sai do ensino médio Marcos me matriculou na mesma universidade que ele e meu avô estudaram. Quando dei por mim ele já estava passando a presidência da empresa para mim. – Não sabia que Tobias era presidente, sabia que ele tinha um cargo alto, mas não imaginava que era presidente e muito menos que ele odiava seu trabalho.
– Bem, posso dizer por experiência própria que nunca é tarde para correr atrás do que tem vontade. O que você queria ser? – Me viro de frente para segurando seu rosto e ele põe as mãos por cima das minhas e fecha os olhos.
– Fotógrafo, sempre gostei de fotografia, mas nem vale a pena cogitar essa possibilidade.
– Por que não? – Ele respira fundo e abre os olhos.
– Porque eu sou bom no que faço, Tris. E meu pai me mataria se eu abandonasse a empresa. Ele me criou para ser seu sucessor, como ele mesmo diz. Eu sou seu investimento. – Vejo uma tristeza profunda em seus olhos.
– Não é só porque você é bom em algo que deve ser obrigado a fazer, veja meu caso. Sou uma ótima engenheira, mas não é o que me faz feliz. E quanto aos seus pais, se eles te amam eles vão aceitar. Eu fiz engenharia porque meus pais achavam que era o melhor para o meu futuro, mas quando decidi largar tudo e vir pra cá estudar jornalismo, mesmo não gostando eles me apoiaram. Se seus pais te amam eles vão te apoiar também. – Ele solta uma risada amarga.
– Meus pais me amam, isso até parece piada. – Percebo a amargura em sua voz.
– Como assim? Seus pais parecem te amar, pelo menos foi a impressão que tive, mesmo não sendo a maior fã de sua mãe, parece que ela se preocupa com você e seu pai, bem, ele parecia orgulhoso de você na festa.
– Nada na minha família é o que parece. Desde criança vivo de aparências, sempre tinha que me comportar bem, ser o melhor em tudo, caso contrário. – Ele para de falar e olha para baixo. Não sei se devo insistir para que ele continue, seja o que for parece lhe trazer muito sofrimento.
– Não precisa falar nada se não quiser. – Digo passando minha mão livre pelo seu cabelo.
– Preciso sim, quero que saiba tudo sobre a minha vida. – Ele beija a minha mão que ele estava segurando. – Meu pai sempre gostou de ser o melhor, ser o centro das atenções e sua família não poderia ser diferente. Tínhamos que nos enquadrar ao seu estilo de qualquer forma. Então ele me obrigava a fazer tudo que ele achava que seu filho deveria fazer e eu sempre tinha que ser o melhor, se não fosse o melhor ou não me comportasse como ele achava que eu deveria ele... ele me batia. Foi assim até eu entrar para a universidade – Tobias olha pra baixo parecendo estar envergonhado. – Você deve estar me achando um covarde agora. – Coloco minha mão em seu queixo e o levanto para que olhe para mim.
– Se alguém deveria ser chamado de covarde, esse alguém com certeza não é você. – Sinto muita raiva de Marcos nesse momento, imagino um Tobias criança apanhando dele, com certeza ele não teve uma infância feliz. – E sua mãe? Ela não fazia nada?
– Não, ela sempre ignorou a situação e depois que meu pai me batia ela me dizia que aquilo era para o meu bem. Eles sempre foram um casal perfeito, ela também sempre gostou de ser o centro das atenções e gosta que as pessoas pensem que ela tem a família perfeita. Ela sempre ignorou tudo em relação a mim. Sempre me deixava aos cuidados da minha babá. – Se eu já odiava a Perua, sabendo disso, quero matar aquela mulher. – Meus pais nunca me amaram, não sei nem se eles sabem o que é amar alguém além deles mesmos, até o casamento deles é por pura conveniência.
Nossa, é muita informação. A família do Tobias é uma farsa, mas ele é real e não merecia isso. Agora entendo porque ele se comportou daquela forma no almoço, depois de viver uma vida inteira de submissão não se pode mudar de uma hora pra outra.
– Não posso dizer que te entendo, pois, não fui criada assim, minha família, por mais invasiva que fosse, sempre foi muito amorosa, meus pais nunca me bateram e tudo sempre foi resolvido com muito dialogo. Mas se você me deixar, eu posso tentar passar um pouco disso para você. – Lhe dou um abraço muito apertado e lhe beijo apaixonadamente, quero que ele sinta todo o carinho que tenho por ele. – Ele se afasta um pouco e me olha em silêncio por um tempo.
– Já lhe disse que você foi a melhor coisa que aconteceu na minha vida? – Ele fala enquanto acaricia os meus cabelos.
– Já, mas não me incomodo que repita. – Ele continua me olhando como se eu fosse a coisa mais preciosa do mundo, ninguém nunca me tratou assim. Me sinto muito especial.
– Se eu te disser uma coisa, promete que não vai se surtar e sair correndo. – Me afasto e olho para ele confusa.
– Não sei, você matou alguém? – Ele me olha e sorri.
– Não, eu não matei ninguém. – Ele alisa meu rosto. – Eu te amo Tris. – Me assusto com suas palavras, ele acabou de dizer que me ama. E eu não faço ideia do que dizer, eu gosto muito dele, mas não sei se eu o amo, gosto de ficar com ele mais do que com qualquer outra pessoa, será que eu o amo? – Não precisa dizer nada, não quero que diga que me ama também, pelo menos não agora, disse porque você precisava saber o que sinto por você.
Ele me beija carinhosamente e começa a acariciar meu corpo, ele é sempre muito carinho, mas hoje ele está me tocando como se eu fosse um vaso muito raro que poderá quebrar com qualquer movimento brusco. Cada toque seu apenas confirma o que ele acabou de me dizer, realmente me sinto amada.
Quero que ele se sinta da mesma forma, então começo a acaricia-lo com as pontas dos dedos e o sinto estremecer. Ele me carrega para o quarto, me coloca delicadamente sobre a cama, deita sobre mim e se afasta um pouco para me observar.
– Você é linda, meu amor. – Ele volta a me beijar e tirar delicadamente cada peça de roupa do meu corpo e o beijando carinhosamente. De repente sem que eu mesma perceba sussurro em seu ouvido.
– Eu também te amo. – Me assustei com a minha declaração, mas naquele momento eu tive certeza do que sinto por ele. Tobias parou de me beijar e olhou para o meu rosto, nunca vi um sorriso tão largo em seu rosto. Nos beijamos com mais intensidade do que nunca, como se aquele beijo fosse a confirmação de que pertencíamos um ao outro.
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