Vidas
1 Capítulo 1
Carlos suspirou ao entrar no sofisticado escritório. O olhar pesado percorreu a sala e se estreitou ao ver o amigo jogado sobre o sofá. Liam não era mais o mesmo desde cinco anos atrás, mas agora, estava totalmente devastado. E o pior era que não o faria melhorar. As notícias que trazia não aliviariam em nada a desolação do amigo e tentou não imaginar o quanto de angústia e culpa que ainda jogaria sobre ele. Não havia escolha.
O olhar atormentado caiu sobre ele, mas Liam não se mexeu.
— É verdade, não é?
Carlos concordou com a cabeça, sem desviar o olhar penalizado.
— Sente-se e me conte tudo.
— Liam...
— Não é hora para sentimentalismos, Carlos. Eu agi assim há cinco anos e estava errado. Não quero... – parou, respirando fundo – Não posso fazer isso de novo.
O advogado sentou-se e colocou a pasta sobre a mesinha. Não precisava das anotações para repetir tudo o que passou a manhã verificando. Inclinou-se e apoiou os antebraços nas coxas, encarando os dedos entrelaçados.
— Houve uma festinha... drogas... – começou, baixo – Alguém comentou que se fossem pegos seriam presos e Rico riu, alegando que é rico e que nunca iria preso. Começou uma discussão e para provar que não seria responsabilizado por nada que fizesse, por mais grave que fosse... – Carlos respirou fundo – Rico mostrou o vídeo e postou no blog. Isso foi anteontem... ele foi preso ontem, acusado pelo seqüestro, cárcere privado, tortura psicológica e física, violação sexual e assassinato triplamente qualificado com requintes de crueldade, de Dalton Levi.
Houve um pesado silêncio e então, Liam se levantou. Carlos ergueu os olhos e ambos se encararam.
— Ele admitiu, rindo, que realmente mostrou o vídeo a Gabriel. – o advogado acrescentou, encolhendo os ombros.
O moreno pareceu atingido fisicamente.
— Ele disse por que fez isso?
— Liam... chega... – o advogado se levantou, preocupado.
— Ele explicou? – o olhar escuro faiscou, firme.
Diante da cobrança, suspirou e passou a mão pelo cabelo, segurando uma mecha.
— Disse que foi divertido enlouquecer Gabriel com a verdade, sabendo que ninguém acreditaria nele. Disse que quis brincar com ele como brincou com Dalton, mas como sabia que não podia tocar nele, se divertiu em separar vocês dois. – parou, vendo a expressão chocada do amigo – Ele queria atormentar Gabriel e sabia que se fizesse você escolher entre o filho e o marido, escolheria a ele. E como você fez exatamente isso, separou vocês dois e se divertiu em ver Gabriel tentar provar que ele realmente cometeu o crime. O fato de você destruir a vida do seu marido, em favor dele, foi um bônus a mais, segundo ele mesmo.
A lágrima escorreu pelo rosto contraído e Carlos se arrependeu de ser tão seco, mas se manteve firme.
— Sinto muito, Liam.
— E agora, o que acontece? – a pergunta saiu num sussurro.
— Ele foi acusado do crime e não se incomodou em produzir as provas contra si mesmo. A promotoria vai pedir pena de morte.
O silêncio voltou, e por muito tempo.
— Uma vida por outra. – Liam murmurou, sem se incomodar com as lágrimas.
****
O caso foi explorado à exaustão. O casamento entre Gabriel Levi, presidente da maior fábrica de componentes eletrônicos do país com Liam Lucerna, presidente do maior conglomerado tecnológico foi destaque por meses, quando aconteceu.
Os dois homens, lindos e bem sucedidos, se tornaram o símbolo do poder rapidamente, como presidente e vice presidente do conglomerado Levicerna, uma marca nascida da junção dos dois nomes. O evidente sentimento de um pelo outro não foi abalado pelo fato de ambos terem filhos, frutos de relacionamentos anteriores.
Liam Lucerna era viúvo e tinha um filho com dezenove anos, Rico, na época do escândalo. Gabriel Levi era pai solteiro, com um belo filho de treze anos, Dalton. Nenhum dos rapazes foi contra o relacionamento, causando ainda mais sensação na sociedade. Nas festas o casal, apesar de discreto, não conseguia não ser o centro das atenções. Ainda mais quando Liam e Gabriel resolviam dançar juntos. Até os mais conservadores tinham que admitir que não havia absolutamente conotação sexual, mas sim um sentimento intenso, expresso no olhar apaixonado de um para o outro.
Depois de dois anos de reinado absoluto, a tragédia aconteceu. Tudo começou com o desaparecimento de Dalton, o filho mais novo que contava agora com quinze anos. Durante semanas o casal, desesperado, procurou e acionou detetives para localizar o jovem. Sem sucesso.
Recompensas foram oferecidas e até mesmo a polícia de elite foi convocada para investigar o caso. Um mês depois do desaparecimento, o corpo torturado e violado de Dalton foi encontrado.
Gabriel enlouqueceu de dor. O belo loiro, já debilitado pela angustiosa espera de notícias do filho, desmoronou completamente e durante aqueles dias, teve que ser mantido sedado. Liam acompanhou todo o processo de investigação, liberação do corpo e o enterro íntimo, apenas com os amigos mais próximos. O homem devastado demorou a se recuperar. Liam tentou de todas as formas trazê-lo de volta, e quando estava quase conseguindo, aconteceu a segunda tempestade. O loiro acusou formalmente Rico do assassinato do filho.
A crise saiu de controle e Liam não aceitou a acusação contra o próprio filho. Tentou dissuadir Gabriel de suas impressões e quando não conseguiu, ambos se colocaram em campos opostos. Liam defendeu o filho com todos os meios de que dispunha e os usou para tirar do loiro as condições de continuar acusando Rico.
Três meses depois, numa explosão de ódio e frustração, Gabriel atirou em Rico. O tiro pegou de raspão, mas foi o suficiente para deixar Liam cego de raiva e indignação. Alheio a tudo à sua volta, processou o marido por tentativa de assassinato e o impediu juridicamente de continuar na vice presidência das empresas. Com base no relatório do psiquiatra do loiro, elaborou um termo de divórcio humilhante para Gabriel, tirando dele todos os direitos sobre a própria empresa e deixando-lhe apenas uma pensão vexatória, que foi recusada.
Diante do histórico e com base nas circunstâncias atenuantes, o loiro foi condenado a dois anos de detenção no hospital psiquiátrico e depois, saiu sob supervisão de um médico designado com uma ordem de restrição a favor dos Lucerna. Se desobedecesse a ordem, seria preso numa cadeia comum.
Depois que cumpriu a pena, Gabriel desapareceu.
****
Ricardo entrou em casa e jogou a pasta sobre o sofá, desfazendo o nó da gravata. Quase como se o sentisse, desviou os olhos e viu o amante encolhido sobre a poltrona, encarando-o em silêncio.
— Luciano, já em casa? – estranhou, com um sorriso.
Aproximou-se e deu um beijo leve nos lábios do pequeno, notando a expressão carregada.
— Aconteceu alguma coisa? – perguntou, preocupado.
Luciano riu sem humor.
— Fui afastado.
O olhar surpreso e consternado do mais alto o fez encolher os ombros e encarar o copo quase vazio na mão, que Ricardo não tinha notado. O recém chegado encarou o amante e sentou-se, confuso.
— Como assim foi afastado? É sobre... – parou, sem saber como continuar.
— Eu fui o psiquiatra que diagnosticou Gabriel como psicótico. Dei os argumentos que Liam precisava para o divórcio, e eu estava errado.
Ricardo não disse nada. Luciano o olhou por um momento e então suspirou.
— Como eu podia ter diagnosticado uma psicose que não existia? Gabriel estava certo e Rico confessou que mostrou a ele o vídeo da tortura e da morte do próprio filho, para provar que nada aconteceria a ele. Quem agiria normalmente vendo aquilo? Qual o pai que não quereria justiça depois de ver aquilo? – perguntou, com uma voz estranha.
— Você não tinha idéia... – o amante ofereceu, um pouco chocado.
— Eu tinha que desconfiar. Gabriel sempre foi um homem sensato e de repente, começou a agir como se estivesse louco. Ele me contou a história do vídeo e eu não acreditei.
O mais velho ficou em silêncio e depois comentou, desconfortável.
— Você não me contou isso.
— Eu não acreditei e não queria que você comprasse aquela idéia louca. – o menor encolheu os ombros, respirando fundo – Agora sei que ele estava dizendo a verdade, e me sinto um idiota.
— Eu podia ter investigado. – Ricardo disse, sério.
Luciano o olhou, engolindo seco.
— Eu sei. Admito que errei e errei feio, mas agora não dá mais para fazer nada... eu sinto muito...
— Gabriel sentiu ainda mais.
Sem esperar, Ricardo se levantou. O menor o olhou, arrependido.
— Eu fui afastado, Ricardo. Eu o diagnostiquei e o mediquei de forma errada por dois anos. Eles querem encontrar Gabriel para saber quais as seqüelas que eu causei e então decidirem se vão abrir um processo ou não contra mim. Eu mediquei um cara sem necessidade, não prestei atenção ao que ele me disse e simplesmente deixei para lá. Vou pagar por isso, não é o suficiente?
O loiro alto não se virou.
— É o suficiente para você?
Luciano observou o amante sair da sala com uma sombra no olhar. Se tivesse sido mais cuidadoso nada disso teria acontecido. Gabriel nunca inventaria uma história daquelas. Não era homem para mentir descaradamente, ainda mais sobre o assassinato do filho pelo enteado. Devia ter prestado mais atenção e agora, as vidas deles estavam desmoronando. E sabia que muito mais ainda seria destruído antes de tudo terminar.
****
Liam se isolou. A imprensa não pareceu se cansar de repetir a história do amor incomum dos dois, que terminou de uma forma tão trágica e infeliz. Relatos da arrogância e egoísmo de Rico foram exaustivamente exploradas. O filho de Liam Lucerna foi definido como alguém amoral, que não se importava com nada ou ninguém além de si mesmo.
Dalton e Gabriel foram tratados com carinho. Ambos transformados em vítimas dos homens da família Lucerna. Detalhes da ação de divórcio foram divulgados e rapidamente suprimidos por força de decisões judiciais, conseguidas por Carlos Brandão, advogado da família Lucerna. A prisão do loiro depois do atentado ao assassino do filho também foi explorada e a notícia, aliada às descobertas de falhas na investigação do desaparecimento de Dalton, abasteceram a desconfiança no trabalho da polícia, que foi ridicularizado junto com o relatório médico que diagnosticou Gabriel como psicótico.
O julgamento de Rico foi marcado para a primavera daquele ano. A promotoria confirmou as especulações e pediu a pena de morte. Carlos teve um trabalho dobrado para conseguir argumentos para modificar a condenação, já certa, para prisão perpétua.
***
— Rico, você não está me ajudando... – Carlos reclamou, com um suspiro.
— Não sei por que ainda estou falando com você. Quero sair daqui e quero agora! Por que ainda estou aqui? – o jovem perguntou, petulante.
O advogado estreitou os olhos.
— Porque seqüestrou, torturou, violou e assassinou Dalton.
O queixo do jovem tremeu um pouco, mas então ele deu de ombros, desviando os olhos.
— E daí?
O tom jocoso fez Carlos estreitar os olhos, chocado.
— Você é odioso. – constatou, enojado.
— Seu trabalho não é gostar de mim, é me tirar daqui. E até que isso aconteça, eu não quero falar com você.
O advogado juntou os papéis e se preparou para ir embora. O jovem o olhou por um momento.
— Porque meu pai ainda não veio me ver?
— Precisa mesmo que eu responda a isso? – o mais velho devolveu a pergunta, cansado.
Por um momento quando ergueu os olhos, Carlos pode ver o jovem alegre e divertido que sempre conheceu mas logo, a expressão arrogante e maliciosa voltou, fazendo-o contrair o estômago.
— Não entendo porque, se eu só fiz o que ele também fazia. – o olhar espantado do advogado o fez rir — Ele fodia o pai, não é? Porque eu não podia me divertir com o filho?
Carlos sentiu frio e encarou o outro severamente. Rico endireitou o corpo, alerta.
— Liam nunca “fodeu” o Gabriel. Ele o amava e era correspondido. O que você fez foi nojento, totalmente repulsivo – colocou as mãos sobre a mesa e se aproximou do rosto pálido do jovem – Você é um monstro e merece morrer pelo que fez, pelas vidas que destruiu.
Rico tentou sorrir, atingido.
— Eu não vou morrer. Sou rico demais para isso.
Carlos o congelou com o olhar.
— Se é só nisso que coloca sua esperança, tenho pena do seu pai.
Rico se levantou, subitamente irritado.
— Eu não fiz nada, ok? Ele que ficou em cima de mim! – gritou, descontrolado – Eu vou contar tudo sobre como ele se ofereceu para mim e meus amigos! O cara era uma puta, como o pai! Um maldito viado que queria que eu o comesse!
O advogado não se abalou com a explosão e o jovem ficou desconcertado pela falta de reação do outro. Sentou-se pesadamente e bufou, irritado.
— Você sabe, tão bem quanto eu, que Dalton não era gay. E sabe, tão bem quanto eu, que ele tinha uma namorada. E sabe, — Carlos sorriu e o encarou, frio – tão bem quanto eu, que você é que estava apaixonado. Que você é que foi atrás dele e que não aceitou ser recusado.
Rico empalideceu e recuou, chocado.
— Isso não é verdade! – tentou negar, consternado.
— Não me interessa o que diz. Eu sei que é verdade que você ficou louco quando ele te recusou. Ele queria só ser seu irmão e isso você não podia aceitar, não é? – Carlos balançou a cabeça, sentindo-se subitamente cansado.
— Não pode provar nada disso. – o jovem rebateu, voltando à postura arrogante.
— Não posso e nem quero, mas o promotor pode, quer e já conseguiu. Ele tem testemunhos importantes que podem provar que você o matou por vingança. Por querer que você e ele fossem tão unidos e apaixonados quanto seu pai e Gabriel.
Rico o encarou por um momento, mas Carlos não se deixou abater. Terminou de ajeitar os documentos e se afastou da mesa.
— Nos falaremos na audiência. – o advogado se despediu, seco.
— Meu pai sabe?
A pergunta fez o advogado parar. Carlos olhou para trás e surpreendeu-se com o abandono no olhar do outro.
— Sabe. Os jornais já contaram a ele.
— E Gabriel? Também sabe?
— Como podemos saber? – o tom de Carlos saiu gelado – Você trabalhou tão bem que seu pai excluiu totalmente Gabriel, depois de arruiná-lo.
Sem esperar resposta, virou-se e saiu. O jovem ficou encarando a porta fechada por longos minutos até que o guarda viesse buscá-lo.
****
— Eu não tinha elementos para acreditar na história dele. – Luciano repetiu, tentando ficar calmo – Eu não tinha nenhum motivo para acreditar que aquelas histórias eram reais. A polícia já tinha verificado todo mundo e até então, não tinha nenhum suspeito.
— Porque não registrou as declarações dele? – o homem perguntou, ajeitando os óculos.
Luciano Ventura tentou se lembrar de que era um médico conceituado e não gritar com aquele bando de velhos empertigados sentados à sua frente.
— Eu não registrei porque achei que era apenas um delírio. Uma idéia para fugir da realidade. Ele queria muito que o assassino do filho fosse pego, e eu deduzi que ele estava transferindo sua frustração para o filho que ainda estava por perto.
— Mas não se importou em verificar de onde vinha essa transferência, não é?
Luciano mordeu o lábio.
— O senhor está dizendo isso por causa da nova situação, mas eu não tinha base nenhuma acreditar que o irmão mais velho fosse o responsável pelo crime.
Um outro homem tossiu levemente e levantou algumas folhas, chamando a atenção para si.
— Continuou com a medicação para psicose, mas não vejo registros de consultas. Com base em quê manteve os remédios durante esse tempo?
O psiquiatra ficou visivelmente desconfortável.
— Eu realmente não fiz as consultas que deveria – admitiu, contrafeito – E mantive a medicação padrão para a psicose. Eu... – parou, escolhendo as palavras – Esperei que com os remédios, ele se controlasse e voltasse a ser o homem sensato de sempre. Achei que as consultas eram desnecessárias.
— Não fez isso deliberadamente para dar a seu amigo Liam Lucerna um motivo forte para usar contra Gabriel Levi no processo de divórcio?
Luciano empalideceu.
— Eu não...
— E pode negar que deixou Gabriel Levi isolado, sendo medicado sem necessidade – parou, soando gelado — Sem nenhum tipo de assistência, de qualquer natureza?
— Eu apenas segui o procedimento... – o psiquiatra começou, inseguro.
— Mas não verificou a evolução da patologia, e nem levou em consideração o histórico do paciente ao medicá-lo. – o olhar frio do homem caiu sobre ele com um peso incrível – Acha que esse procedimento é o padrão ou simplesmente agiu para proteger os interesses do seu amigo?
O silêncio caiu na sala, pesadamente. Luciano não conseguiu imaginar um argumento para sustentar sua posição, claramente em desacordo com o procedimento médico ideal. Ficou calado, sabendo perfeitamente que estava enterrando sua carreira.
Os homens do conselho o encararam com censura no olhar. O mais velho voltou a falar.
— Dr. Ventura, o senhor evidentemente não tratou esse caso com a atenção que devia. Seu procedimento resultou num tratamento inadequado para o paciente e em vergonha para esta clínica. Nossa imparcialidade foi afetada grandemente por suas ações, e espero que esse fato o faça reconsiderar se está realmente no lugar certo.
A reunião estava encerrada.
Luciano entrou no carro e apoiou a testa no volante. Por longos minutos, se lembrou de Gabriel insistindo na culpa de Rico, e se lembrou do dia exato em que ele parou. O loiro simplesmente não disse mais nada e seu silêncio foi tomado como a prova de que pensou melhor e desistiu daquela loucura.
— Eu devia ter imaginado que você ia desistir, quando percebeu que não adiantaria nada. Você perdeu a confiança em nós e sabia que não faríamos nada. – murmurou, entristecido – Você foi mais inteligente que eu. Você sabia, o tempo todo, que eu estava errado.
****
O juiz determinou que o julgamento fosse feito sob segredo, mas a opinião pública não aceitou e houve uma pressão nunca vista antes. O máximo que os advogados conseguiram foi que a audiência não fosse filmada. A imprensa acampou na porta do apartamento de Liam e no fórum, acompanhando cuidadosamente os fatos.
Uma investigação da imprensa não conseguiu encontrar Gabriel. Houve alguma comoção quando saiu a notícia de que ele viria para o julgamento do assassino do filho, mas até o início do trabalho, ele não tinha aparecido.
— Acha mesmo que ele pode aparecer? – Carlos perguntou para Ricardo, olhando em volta para as pessoas que lotaram a sala do julgamento.
— Não acredito muito nisso. – o outro respondeu, baixo.
O advogado olhou para ele atentamente.
— Ainda está chateado com Luciano? – perguntou, cuidadosamente.
O outro homem ergueu a cabeça, encolhendo os ombros.
— Ele não tinha o direito de esconder uma coisa daquela.
— Achei que você sabia – Carlos ofereceu, incomodado – Gabriel falou do vídeo várias vezes, para mim e para Liam.
— Deviam ter mencionado assim que cheguei de viagem. Ele não ia inventar uma coisa dessa assim, do nada. – o tom saiu seco e Carlos se encolheu, atingido.
— É – o advogado concordou, desviando os olhos – Devíamos ter te avisado.
Ricardo não respondeu e se afastou, tomando seu lugar no fundo da sala. Carlos o acompanhou com o olhar, arrependido de não ter dito nada antes. O loiro mais velho estava fora do país quando tudo começou e só pode voltar depois de Gabriel ter atirado em Rico. Ricardo não partilhou a idéia de que o loiro estivesse louco ou surtado, mas não teve acesso ao inquérito por ordem de Liam. O moreno também convenceu Luciano a não permitir visitas a Gabriel, e desse modo, o loiro ficou sem nenhum apoio.
Olhando agora para a expressão fechada de Ricardo, mesmo de longe, Carlos sentiu culpa. Se o tivessem deixado se aproximar, talvez tivessem descoberto a verdade.
A atenção do advogado foi desviada para o início do julgamento. Liam, sob olhares contraditórios de pena ou condenação, sentou-se logo atrás de Carlos. Rico entrou na sala algemado e procurou o pai com o olhar e quando se sentou, encolheu-se sob o olhar frio do moreno.
O dr. Brandão não tentou inocentar Rico, simplesmente tentou mudar a sentença para prisão perpétua, mas o comportamento arrogante do acusado durante todo o processo dificultou as coisas.
O jovem simplesmente não levou a sério o julgamento e deixou claro que não estava nem um pouco preocupado. Várias vezes se referiu à fortuna do pai e ridicularizou Gabriel e Dalton, além de debochar dos testemunhos contra ele. A única vez que ficou em silêncio foi quando alguns colegas contaram no tribunal sobre a obsessão dele em relação ao jovem Dalton. Quando contaram como ele perseguiu e assustou as moças que demonstravam interesse pelo irmão, além de tentar controlar todos os passos do jovem e suas amizades, olhou para trás e empalideceu sob o olhar glacial de Liam.
Depois de dezesseis horas de julgamento, Carlos sabia que não tinha conseguido, mesmo sem ouvir a sentença. Rico Lucerna foi condenado à morte. O jovem arregalou os olhos ao receber a sentença e olhou para trás, incrédulo. De repente, começou a gargalhar.
Ainda rindo e ignorando os olhares consternados, virou-se para o juiz.
— Vocês quase me convenceram... – disse, a voz falhando por causa dos risos – Eu quase acreditei. – virou-se para o pai, ainda divertido – Isso é um tipo de “castigo”? – frisou a palavra com os dedos flexionados e um sorriso arrogante – Não importa. Estou cansado disso e quero ir para casa.
Liam se ergueu e olhou para o filho, com um misto de pena e conformação no olhar. Depois de alguns segundos, o sorriso morreu no rosto de Rico.
— Quer me dizer que isso é verdade? – perguntou, encarando com incredulidade o guarda que se aproximou para levá-lo – Mas como pode ser? – olhou o guarda raivosamente – Isso é ridículo! O que acha que estava fazendo? – dirigiu-se para Carlos, irritado – Estava brincando? Eu te pago para quê? – diante da expressão calma do outro, explodiu – Você trabalha para mim, Carlos!
A reação indignada não atraiu a atenção por simpatia, mas por espanto. Rico desfiou uma série de palavrões enquanto foi algemado. Descontrolado, gritou e tentou agredir o policial, que teve que pedir ajuda para controlá-lo. Carlos se afastou, tentando manter Liam atrás dele.
— Uma vida por outra. – Liam murmurou, afastando-se dos dedos desesperados que tentaram segurá-lo – Espero que agora Dalton possa finalmente descansar.
Ambos observaram Rico ser quase arrastado para fora, ainda gritando e se debatendo. Carlos se virou e tocou levemente o ombro do moreno, fazendo-o devolver o olhar.
— Vamos sair daqui.
Infelizmente, não puderam. Os repórteres tomaram toda a entrada do fórum e também a saída do estacionamento subterrâneo. Com alguma ajuda dos funcionários do prédio, ficaram numa sala isolada, aguardando até que pudessem sair. Luciano e Ricardo se juntaram a eles.
— Você vai apelar da sentença? – o pequeno perguntou, depois de alguns minutos de silêncio.
— Não. – Liam foi lacônico.
O moreno olhava para fora, pela janela de vidro que dava para outro prédio vizinho. Carlos e Luciano trocaram um olhar preocupado.
— Espero que Gabriel tenha visto a justiça ser feita. – o moreno comentou, baixo.
— Ele verá, quando souber que seu filho morreu.
A resposta de Ricardo fez os três outros homens olharem-no. O loiro não demonstrou desconforto.
— Pelo menos ele terá algum conforto – Liam respondeu, depois de algum tempo.
— Duvido. – o outro rebateu, sem se importar com os olhares de aviso que recebeu – Seu filho torturou o filho dele, estuprou e bateu... e se divertiu bastante fazendo isso. Depois que se cansou de brincar, o matou e despedaçou o corpo. – Ricardo não pareceu se importar com a palidez do moreno — Agora Rico vai simplesmente ser enforcado, sem sequer apanhar antes. Justiça? – perguntou, erguendo uma sobrancelha – Eu acho que não.
— Ricardo... – Luciano começou, desconfortável.
— Mas não se preocupe. Ele não espera mais do que isso. – o loiro acrescentou – Ele aceita o que a justiça decidiu, e se conforma com o resto.
— Fala como se soubesse... – Liam murmurou, afastando-se da janela.
— É claro que eu sei. – o olhar de Ricardo se tornou irônico – Achou mesmo que eu não encontraria o homem a quem considero como irmão?
Carlos arregalou os olhos e Luciano se aproximou, sem esconder a surpresa.
— Falou com ele? Quando? – o psiquiatra perguntou, sem se conter.
Ricardo desviou os olhos para o amante, mantendo o olhar irônico.
— Ontem.
A simplicidade da resposta, aliada ao olhar fulminante, fez Luciano empalidecer.
— Ele está bem? – o moreno perguntou, tenso.
— O quão bem pode estar, depois de tudo o que fez com ele. – Ricardo respondeu, calmo.
O silêncio caiu entre os quatro e então, Liam respirou fundo, passando a mão nervosamente pelo cabelo.
— Me deixaria falar com ele? – perguntou, sentindo a garganta seca.
— Não nessa vida. – a voz do policial saiu desprovida de qualquer traço de emoção.
Liam concordou com a cabeça, decepcionado. – Eu entendo.
— Mesmo se não entendesse, a resposta seria a mesma.
Sem se importar com os olhares, Ricardo se virou e saiu da sala. Os outros homens ficaram em silêncio e Liam se sentou pesadamente, colocando a cabeça entre as mãos.
****
O silêncio entre os dois Lucerna podia ser cortado com uma faca. Denso e sufocante.
Rico ergueu os olhos e encarou o pai, que o olhou do outro lado da mesa. O jovem sabia que teria que falar.
— Eu achei que ele estava fazendo como Gabriel...
Um erguer de sobrancelha foi a única resposta que conseguiu. Diante da frieza do pai, o jovem passou a língua pelos lábios e encolheu os ombros.
— Eu achei que ele ia acabar cedendo... que estava só fazendo charme. – deu um sorriso constrangido – O Gabriel não te aceitou logo de cara....
— Ele tinha motivos para ter medo. – o mais velho rebateu, seco.
Rico o olhou sem compreender. Liam apoiou os braços sobre a mesa e encarou o filho atentamente.
— Era isso o que ele teve no início. Medo. Medo de me aceitar e eu estar mentindo. Medo de eu querer apenas seu corpo perfeito e sua enorme fortuna.
— Mas você não ia... – o jovem rebateu, surpreso.
— Não, mas ele não podia ter certeza. E até que teve certeza, não me aceitou. – o olhar frio do moreno se suavizou – Eu nunca quis nada diferente.
O mais jovem engoliu seco e desviou os olhos. Liam não deixou por menos.
— Eu não acredito que você fez tudo aquilo por achar que Dalton estava fazendo charme. Não subestime minha inteligência. – o tom saiu duro.
— Eu não sou como você... – Rico murmurou, sem olhar o pai.
— Tenho certeza disso. O meu amor nunca machucaria Gabriel.
— Mas você o destruiu! – o jovem rebateu, atingido – Você o machucou e o magoou!
Liam se levantou.
— Por sua causa! Porque eu estava protegendo o meu filho! Nunca pensei que me arrependeria disso e que pagaria um preço tão alto por confiar em você!
Rico se encolheu diante da reação do pai.
— Eu o amava... – o jovem murmurou, desconcertado.
— Não minta! – o moreno rosnou, tentando se controlar – Você não sabe o que é amar alguém! O que é se importar com outra pessoa o bastante para se esquecer de você mesmo... você não entende como se pode precisar de alguém até que não consiga mais pensar em nada... – as lágrimas escorreram pelo rosto sério – É assim que eu amo Gabriel... nunca deixei de amá-lo, mesmo depois de tudo o que eu fiz... consegue imaginar que inferno é isso? – mordeu o lábio, respirando fundo – Consegue imaginar como eu me senti quando ele te acusou e perceber que isso não mudou o que eu sinto? E agora? Sabendo que ele estava certo o tempo todo... – o olhar doído do moreno parou no jovem, que engoliu seco – Você não faz idéia... não pode sequer imaginar que se possa comparar a esse sentimento distorcido que moveu você!
— Pai...
O moreno se afastou, limpando o rosto. Rico se levantou e chegou a estender a mão para tocar o mais velho, mas parou ao ver o olhar pesado.
— E você ainda fez brincadeira... disse que não seria preso... – Liam encarou o filho dolorosamente – Pensou realmente que ninguém faria nada? Que veriam aquele vídeo.... – fechou os olhos por um momento – Eu não entendo... chego quase a não aceitar...
Rico finalmente desviou os olhos, totalmente constrangido.
— Luciano disse que você queria ser preso. Que queria que soubéssemos o que fez. – o moreno continuou, com um suspiro – Ele acha que você quer ser punido.
— Talvez eu queira... – o jovem murmurou, no silêncio da sala.
O moreno encarou o topo da cabeça do filho, mas se manteve em silêncio. Depois de alguns segundos, o jovem suspirou.
— Espero que com a minha morte Gabriel possa ter paz. – comentou, finalmente erguendo a cabeça.
Rico e Liam se encararam.
— Não importa agora o que aconteça. – o mais velho respondeu, virando-se para sair da sala – Nunca mais teremos paz, Rico
— Você nunca vai me perdoar, não é?
Liam parou na porta, ao ouvir a pergunta. Virou-se, inclinando levemente a cabeça.
— Quando foi que pediu perdão? – perguntou, frio.
— Estou pedindo agora. – Rico acrescentou, encolhendo os ombros.
O olhar do mais velho refletiu a frieza de suas palavras.
— Para a pessoa errada. Ainda que eu pudesse realmente dizer as palavras, não passaria disso. – a tristeza na voz de Liam fez Rico finalmente chorar – Sempre seriam só palavras.
— Diga a ele que eu me arrependi... que eu realmente sinto muito... – Rico pediu, sem se importar em limpar o rosto.
Liam encarou o filho dolorosamente. Por mais que quisesse dar a ele um último consolo, não podia. Rico ajudou os dois virando as costas e batendo na porta, como um sinal para o guarda que a visita terminou.
****
No outono do ano seguinte, Liam recebeu o corpo do filho. No íntimo, agradeceu a legislação por não permitir testemunhas nos enforcamentos. Não sabia se conseguiria aguentar assistir, mesmo sabendo o que o filho fez. Depois daquela visita angustiante, não voltou a vê-lo. Não conseguiria olhar para Rico e ver o mesmo monstro daquele vídeo.
O jovem foi enterrado quase secretamente no mesmo cemitério onde Dalton estava, longe o suficiente para não ser considerado um insulto. Como as execuções eram em datas secretas, a imprensa ficou de fora e Liam pode enfrentar a situação sem que os flashes registrassem tudo.
Quando as coisas do filho foram entregues, Liam reuniu tudo e doou o que podia. Sem conseguir suportar, o moreno mudou-se para um apartamento menor, conservando apenas algumas lembranças, na maioria, fotos.
****
— Isso veio na mochila das coisas dele na prisão – o moreno explicou, estendendo um envelope para Ricardo.
O nome de Gabriel, escrito de forma cuidadosa, estava destacado no papel amarelo. O loiro comprimiu os lábios, severo.
— Eu não acho que Gabriel queira ver algo que o assassino do filho deixou. – comentou, seco.
Liam encolheu os ombros.
— Eu sei, mas Rico mencionou perdão.... então acho que ele pode ter pedido.... – o moreno respondeu, suspirando – Eu não sei.
Ricardo encarou o outro homem atentamente.
— Como você está?
Liam sorriu, cansado.
— Como se não tivesse chão embaixo de mim. – respondeu, sincero. Depois de alguns minutos, mordeu o lábio – E Gabriel?
O loiro demorou a responder e o moreno achou que não o faria.
— Acho que não está diferente de você. Mesmo com a execução do seu filho, ele não melhorou muito.
Liam sentiu um peso no estômago.
— Sinto muito...
— Eu sei que sente.
— Ele disse alguma coisa? Quero dizer... – hesitou, desviando o olhar – Sobre tudo....
— Não.
O moreno sentiu frio e se remexeu, inquieto.
— Eu não podia esperar nada diferente, não é?
— Ele simplesmente não fala sobre o assunto, Liam. – o olhar de Ricardo se tornou menos frio – Ele não fala sobre você ou sobre o crime. Ele sabe sobre a prisão e sobre a sentença, mas não disse nada a esse respeito e eu nunca vou forçar algo que sei que o machuca.
Ambos se encararam.
— Ele tem tudo o que precisa? – o moreno perguntou, depois de alguns minutos.
— Acho que sim. – Ricardo respondeu, com um gesto vago – Ele trabalha o dia todo e mora num apartamento bem pequeno. Ele nunca precisou de muito luxo, sabe disso, não é?
— Eu queria poder consertar o que fiz... acha que ele aceitaria?
A pergunta saiu tão baixa que Ricardo quase não ouviu. O loiro o encarou de modo intenso.
— Eu acho que ele precisa sim de um pouco mais de comodidade. Ele queria ter espaço, mas não pode pagar mais. Eu me ofereci para ajudar, mas ele recusou.
— Você poderia levar a ele minha proposta?
— Se envolver algum tipo de contato, não conte comigo. – o loiro rebateu, tomando o café.
Liam empalideceu, sem jeito.
— Eu cheguei a pensar nisso realmente, mas não tenho o direito de pedir nada. Só quero que ele fique bem e confortável. – depois de uma pausa significativa, resolveu arriscar — Não houve nada mais grave por causa da medicação, não é?
Ricardo acendeu um cigarro e Liam aceitou outro, aproveitando o fogo do isqueiro. O loiro ainda demorou um tempo para responder, e quando o fez encarou Liam vividamente.
— Gabriel passou por maus bocados, Liam. Desenvolveu algumas fobias estranhas... – parou, com um brilho estranho no olhar – O fato dele não falar sobre o que aconteceu é uma prova de que ele ainda não consegue encarar o que houve, e ninguém espera que ele faça isso. Tempo nesse caso, não existe.
— Eu sei... – a voz do moreno quase não saiu – Desculpe.
Um lampejo passou pelos olhos de Ricardo.
— Pelo quê?
— Por não te deixar chegar perto antes.... por atrapalhar seu relacionamento com Luciano... – Liam encolheu os ombros – Eu pedi para ele me ajudar, mas não esperava que isso tivesse consequências tão ruins. Eu pensei...
— Que Gabriel estava louco. – o tom do loiro saiu seco.
— É tão difícil assim entender minha reação? – Liam perguntou, exasperado – É tão difícil entender que eu confiei em meu filho... não sabia que ele estava mentindo! Eu simplesmente confiei nele!
— O problema não foi confiar em seu filho. – Ricardo rebateu, mordaz – Foi tirar de Gabriel todas as condições para ele provar que estava certo. Ninguém investigou a história... ninguém sequer prestou atenção ao que ele disse. Se alguém tivesse feito isso, as coisas não estariam assim agora.
— Não mudaria o julgamento e meu filho ainda teria... – parou e engoliu seco.
Ricardo não pareceu notar a perturbação do outro homem.
— Sim. Rico seria preso e executado do mesmo jeito, mas pelo menos vocês ainda estariam juntos, dividindo o peso desse pesadelo todo. Você não teria destruído Gabriel em sua ânsia de proteger seu filho e não seria o vilão da história. Seu problema é que ficou surdo e cego para tudo, confiando sem pensar. Não passou pela sua cabeça que Gabriel amava Rico como filho, até descobrir que ele era o assassino. Não se lembrou que ele sempre foi calmo e ponderado, até que um dia, do nada, enlouqueceu acusando o enteado de um crime horrível. – parou, respirando fundo e encarou o outro com adagas no olhar – Eu não te desculpo, Liam. Você foi parcial em seu julgamento e não hesitou em condenar Gabriel, mesmo sabendo o tipo de homem que ele é. O cara nunca mentiu para você, sob nenhuma circunstância e aceitou seu filho como se fosse dele mesmo. Devia ter levado isso em consideração e se perguntado, pelo menos uma vez, “e se”?
Liam estava pálido, encarando o outro com um olhar perdido.
— Eu não...
— Se não quisesse ter se perguntado, podia pelo menos ter me deixado chegar perto. – o olhar duro não deixou o rosto estarrecido do moreno – Eu teria perguntado por você.
Liam observou o outro apagar o cigarro e pegar o envelope sobre a mesa, levantando-se. Ricardo tirou algumas notas da carteira e deixou sobre a mesa.
— Não vou garantir entregar o envelope. – murmurou, seco.
Sem esperar resposta, deixou Liam sozinho. O moreno encarou o dinheiro sobre a mesa e então, o cigarro, ainda inteiro. Apagou-o mecanicamente e ergueu-se. Quando saiu, o clima fechado e pesado, com um céu negro de nuvens carregadas de chuva, combinou perfeitamente com seu estado de espírito.
Não havia o que fazer.
****
Quando se quer fugir, qualquer lugar é um ótimo lugar e qualquer hora é a hora certa. Dois anos se passaram desde a execução de Rico e o fim do pesadelo, pelo menos do ponto de vista jurídico. Os jornais se cansaram de repetir a história e outros assuntos desviaram a atenção do público.
Com o tempo, o psiquiatra Luciano Ventura deixou de ser apontado como apenas um peão usado contra Gabriel Levi. Depois do afastamento da clínica, não conseguiu retomar sua carreira e teve que se contentar em trabalhar nas empresas do amigo, no departamento pessoal. Teve que lidar com conversinhas e olhares enviesados e problemas sérios com o amante, magoado pelas atitudes em relação a Gabriel, mas o sentimento foi maior e conseguiram superar.
Na verdade, Ricardo deixou claro que a intervenção de Gabriel foi decisiva.
Os três descobriram que o policial encontrou o amigo logo depois que este deixou a clínica, e que sempre se encontravam. Luciano se sentiu mal ao descobrir, mas não podia dizer nada. O antigo ciúme do relacionamento entre os dois voltou e o psiquiatra teve problemas em administrar a descoberta de que talvez não tivesse sido só o pedido de Liam o motivo de seus atos. Separar Gabriel de Ricardo foi escolha dele mesmo. Uma reação infantil à preocupação desmedida do amante pelo amigo de infância, encoberta por um “motivo” maior.
Uma desculpa perfeita.
Luciano e Carlos tentaram convencê-lo a deixarem que se aproximassem do amigo, mas Ricardo foi taxativo na recusa. O policial nem se deu ao trabalho de esconder que nem mesmo falou a Gabriel do interesse de ambos em algum tipo de contato.
Liam encarou com uma serenidade forçada o fato de não poder se aproximar. Elaborou com Carlos um acordo mais justo de divórcio e ofereceu as ações da empresa de volta, além de algumas propriedades e uma generosa pensão mas, como previsto, Gabriel recusou.
Essa foi a única vez que Ricardo aceitou fazer a ponte entre eles.
****
Liam encarou a mulher à sua frente com cansaço. Se fosse sincero consigo mesmo, sairia dali naquele segundo. Não estava pronto para se envolver novamente.
Desde Gabriel, manteve alguns casos esporádicos que terminavam sempre com um presente valioso e uma despedida educada. Sempre fez questão de deixar as regras bem claras e a principal delas é que não estava procurando por uma esposa. Uma amante, discreta e satisfatória, era tudo o que precisava.
O tipo de sentimento que dividiu com Gabriel foi único e intenso demais para que se atrevesse sequer pensar que o sentiria novamente por outra pessoa. Ele podia ter sido estúpido antes, mas pelo menos sobre isso, sempre soube. Nunca conseguiria colocar outra pessoa no lugar do loiro. Nem mesmo perto.
Com um sorriso educado e ar distante, o moreno conseguiu terminar o jantar, um pouco surpreso por ela ignorar todos os seus sinais de desinteresse. Pela manhã pediria à sua secretária para comprar alguma coisa e juntar um bilhete. Quando a levou para casa, ela se tornou óbvia demais e Liam quase riu ao ver a incredulidade dela diante da recusa do convite para entrar.
— Tivemos momentos ótimos, minha querida. Obrigado pelo jantar maravilhoso – o moreno mentiu, incapaz de ser indelicado.
Sem esperar pela resposta, entrou no carro e saiu, sem se dar ao trabalho de verificar se ela entrou ou não em casa. Não estava com paciência para ser caçado e seduzido.
Não por ela.
Considerou por um minuto voltar aos amantes masculinos, mas o peso dentro de si impediu que o pensamento continuasse. Sabia que não conseguiria.
Não ia sequer tentar.
Parado no sinal e tentando lidar com aquele enorme buraco dentro de si, que sabia ser a medida exata de Gabriel, o moreno deixou os olhos vagarem em torno. Ajeitou o corpo e arregalou os olhos, surpreso. Sem sequer pensar, simplesmente abriu a porta e saiu.
Do outro lado da rua, o loiro estava parado, conversando com duas mulheres. Liam não ouviu as buzinas e os gritos atrás dele e nem reparou na freada brusca de uma pick up quase ao lado. Tudo o que podia ver e sentir, era o loiro.
Quando o outro desviou os olhos para ver o motivo da bagunça, Liam pode ver o choque no rosto delicado. Uma miríade de expressões passou pelos olhos dele, que simplesmente ficou parado. Liam atravessou a pista e num instante, estava ao lado de Gabriel.
Nenhum dos dois disse nada, apenas se olharam.
— Gabriel? – uma das moças perguntou e se aproximou, preocupada.
O chamado quebrou o encanto e ambos olharam para ela que corou, constrangida. Liam olhou em volta e notou a situação em que estavam. Gabriel deu um passo para trás, mas antes que pudesse pensar, os dedos do moreno se fecharam em seu pulso.
— Não posso deixar que faça isso. Não agora e não assim. – Liam murmurou, engolindo seco.
— Me solta.
O pedido doeu no moreno. Gabriel amava ser segurado por ele. Antes.
— Não posso. – respondeu, sabendo perfeitamente que tudo se resumia nessas duas palavras.
As duas mulheres olharam de um para o outro.
— O que está acontecendo? – a mais velha perguntou, subitamente assustada. – Quem o senhor pensa que é?
— Liam Lucerna. – o moreno respondeu, sem tirar os olhos do rosto que o assombrava a cada segundo há cinco anos.
A resposta fez a mulher arregalar os olhos, chocada. Ambas olharam para Gabriel com mais preocupação no olhar. O loiro respirou fundo e tentou se controlar.
— Me segurar não vai adiantar nada. – disse, finalmente encontrando a voz. Ergueu a cabeça e encarou o ex marido, ciente da própria fraqueza. – Eu não posso e não quero aliviar sua culpa. Seja qual for o seu inferno, não espere que o ajude a sair.
Liam pareceu fisicamente atingido, mas não soltou o loiro.
— Não posso pedir o que não te dei... – hesitou, com um suspiro – só quero conversar.
— Eu não quero nenhum tipo de contato com você. – o mais jovem rebateu, sério – Mesmo que me segure agora, não pode impedir que no fim, eu vá embora.
O moreno engoliu seco.
— Sei que não posso impedir você de me deixar. – respondeu, baixo. Encarou os olhos claros e não viu o amor e o companheirismo sempre espelhado de forma clara. Sentiu tanta falta que pensou, por um segundo, que podia não valer a pena se expor tanto.
No entanto, ele não tinha escolha. Não se queria continuar vivendo sem se sentir morto.
— Eu quis muito te encontrar e conversar, mas Ricardo não deixou. Eu queria dizer que sinto muito e sei também que isso não vale nada agora. – parou, forçando-se a encarar o loiro e tudo o que foi capaz de fazer com ele – Mas eu não tenho escolha. Estou morto desde que perdi vocês e agora ainda mais, porque sei que contribuí para isso. Eu não confiei em você o bastante e não protegi Dalton o bastante. Eu sou culpado pelo que tenho passado, mas não pode simplesmente me pedir para deixar você ir. Pode exigir o quanto quiser, mas não é uma opção para mim.
As mulheres olhavam de um para o outro e o tumulto do trânsito aumentou. Liam olhou para os motoristas xingando e respirou fundo.
— Venha.
— Não. – Gabriel reagiu, tentando se soltar – Me larga!
O empresário simplesmente se virou e o pegou nos braços, agradecendo intimamente que o loiro continuasse menor e mais leve que ele. Gabriel ainda se debateu, dificultando o máximo que podia. Liam abriu a porta do carona com alguma dificuldade e jogou o outro sobre o banco, passando literalmente por cima dele e usando o peso de seu corpo para segurá-lo enquanto puxava a porta que deixou aberta. Sentou ao volante e travou as portas, finalmente ligando o carro para liberar a rua.
Gabriel ficou parado, chocado com o comportamento do moreno. Olhou em volta e fechou os olhos com força, tentando não entrar em pânico.
— Me deixa sair. – tentou fazer a voz sair segura, mas soube que não conseguiu.
— Não é uma opção.
A calma, tirada do desespero, fez Liam simplesmente seguir em frente. Sem chance de deixar Gabriel sair. Não agora que o encontrou sem a proteção de Ricardo e com todas as oportunidades a seu lado. Tentou pensar em para onde levar o loiro. Seu apartamento estava fora de questão. Se Ricardo fosse avisado, era o primeiro lugar em que o procuraria e talvez, não tivesse muito tempo.
— Isso não vai adiantar. – Gabriel comentou, cansado.
— É muito mais do que o que tive nos últimos anos. – Liam rebateu, sem tirar os olhos da rua – Eu sempre quis uma chance de poder conversar sobre tudo e agora não vou abrir mão dela. Não vou te machucar ou te forçar a nada, só quero ser ouvido.
— Já está me forçando. Eu não queria estar aqui. – o loiro respondeu, baixo.
Liam mordeu o lábio, envergonhado.
— Eu sei e sinto muito... não tive escolha.
— Não me surpreendo por pensar apenas em você. Os Lucerna são especialistas nisso.
O loiro olhou para fora, tentando não chorar. Liam o olhou brevemente e sentiu o coração apertar. Era verdade, Gabriel não queria falar com ele e não teria vindo, se não tivesse sido forçado.
Ainda assim, Liam se sentiu um pouco melhor do que nos últimos anos. Precisava falar com o loiro, contar a ele como se sentiu e tentar fazê-lo entender seus motivos. Sabia que não eram fortes o suficiente para explicar tudo, mas pelo menos existiam. E se depois de tudo o loiro ainda quisesse ir embora e não olhar para trás, sabia que teria que lutar contra o próprio sentimento e todos os impulsos para deixá-lo ir.
“Seja qual for o seu inferno...” Gabriel disse. Ele não fazia idéia do quanto aquilo era real para o moreno.
****
Apesar de achar que não era o lugar ideal, resolveu voltar ao apartamento mesmo. Pelo menos sabia que podia oferecer alguma comodidade a Gabriel. O caminho foi feito em silêncio, e Liam ficou aliviado pela calma que o loiro estava demonstrando. Sabia que não era bem aquilo, mas pelo menos podia se preparar melhor para o que ia enfrentar.
Quando estacionaram no subsolo do prédio, Liam temeu que o outro fugisse. O alívio que sentiu quando Gabriel calmamente saiu do carro e o esperou foi tal que chegou a sorrir. Com um sentimento pesado, lembrou-se do quão educado o loiro era e do quão orgulhoso sempre se sentiu por tê-lo a seu lado.
Ambos subiram pelo elevador em silêncio. Apesar da proximidade, Liam não tentou tocar Gabriel. Ao invés disso, observou com atenção que o jeans e a camiseta deixavam o outro com um charme casual incrível. Os traços do rosto ainda eram delicados e para atormentar ainda mais, o corpo estava tão bonito como sempre. Músculos pouco definidos, pele clara e macia, as mãos com dedos longos e elegantes, as veias saltadas nos antebraços, resultado das horas digitando e programando.
Gabriel ainda estava tão lindo e sedutor quando no dia em que se viram pela primeira vez, há quase dez anos.
O elevador parou e abriu as portas, fazendo Gabriel olhar com franco interesse para a outra porta, com uma fechadura eletrônica.
— Os elevadores dão direto para os apartamentos. – o moreno explicou, digitando a senha e abrindo a porta.
Gabriel entrou no apartamento e olhou em volta. Liam o seguiu e fechou a porta, tirando o casaco e jogando-o sobre o sofá. Ficou parado, absorvendo a figura do loiro no meio da sua sala. Pareceu irreal, dolorosamente irreal, mas ao mesmo tempo, a realização de um sonho louco.
— Quer alguma coisa? – perguntou, baixo.
O loiro o olhou, fazendo-o sentir-se vulnerável.
— Coca cola.
Liam piscou, surpreso e confuso. – Coca cola?
— Não me perguntou se eu quero alguma coisa?
— Ahn! – finalmente conseguindo se controlar um pouco, o moreno sorriu sem jeito – Eu não sei se tenho, mas posso pedir se não tiver... se importa?
— Não toma mais coca cola? – a pergunta soou inocente e incrédula.
O moreno encolheu os ombros.
— Eu precisei de coisa mais forte nos últimos anos... – respondeu, tentando não soar desesperado demais.
Gabriel o encarou, sem demonstrar qualquer tipo de emoção e Liam lamentou intimamente pela perda daquele homem tão aberto de antes. O antigo Gabriel era fácil de ser lido, mas este, um total mistério. Apesar do desconforto, sustentou o olhar do loiro, deixando-o encontrar o que quer que estivesse procurando.
— Eu posso esperar, se pedir pizza também. Estou com fome.
O sorriso saiu sem que Liam pudesse impedir. Com uma calma que não sentia, caminhou até a cozinha e se certificou que realmente não tinha coca cola. Puxou o telefone e discou para a portaria. Não conseguiu pensar em nenhum lugar para ligar e pedir o que Gabriel queria. Depois de pedir o favor ao recepcionista, desligou e respirou fundo. Quando voltou para a sala, seu coração parou de bater ao ver que estava vazia. Olhou para a porta quase sem acreditar e então, voltou-se para o corredor.
Quase gemeu de alívio ao ver o loiro parado, observando os quadros na parede.
— São os quadros do apartamento... – ouviu a voz rouca e baixa comentar, casualmente.
— Eu não podia mais ficar lá... – o moreno respondeu, escorando-se à parede e cruzando os braços – Mas não consegui deixar tudo... trouxe alguns quadros e móveis... era uma forma de estar perto..
— Do seu filho?
Liam aparou o golpe corajosamente.
— De vocês.
— De nós, quem? – o olhar faiscante se virou para ele, implacável.
— De você, principalmente. – parou, procurando as palavras – De Dalton e de Rico também. Eu sinto muito se queria que eu o deixasse de fora, mas não posso fazer isso... Eu tentei muito... e não consigo... – olhou em volta, incapaz de ler a acusação no olhar de Gabriel – Eu sei que ele foi o culpado... – engoliu seco e a voz diminuiu – Sei o que ele fez com Dalton e com a gente... eu me sinto partido, mas... – encolheu os ombros, visivelmente abalado – Ele era meu filho. – encarou Gabriel com dor no olhar – E eu o amava.
O loiro o encarou por algum tempo e depois, voltou calmamente para a sala, passando por Liam sem parar. Sentou-se na poltrona, observando as luzes dos prédios pela parede de vidro da sacada.
— O seu inferno é ser o pai de um assassino sádico. O meu é ter perdido meu filho e minha vida para esse assassino. Fico me perguntando quem perdeu mais...
— Ambos perdemos muito, Gabriel... – Liam ofereceu, aproximando-se.
— Eu perdi meu filho, minha sanidade, minha empresa e a fé em meus amigos. – o olhar claro e frio se voltou para ele – Você não perdeu nada além de Rico, e de uma forma bem melhor do que eu perdi Dalton. Seu filho não foi devolvido a você cortado e marcado como gado... violado de forma cruel... sem dedos e com o cabelo...
— Pare por favor... – o moreno pediu, num fio de voz.
— Com o cabelo todo picotado e a pele solta, quase todos os ossos do corpo quebrados, com marcas de cordas, queimaduras de cigarro... Sabia que não encontraram o pênis dele? – a voz de Gabriel soou, com um timbre metálico – E os olhos... faltava um, lembra? Não o encontraram também... — Liam se encolheu, abraçando-se. Gabriel o encarou e inclinou a cabeça — E tudo porque seu filho não soube aceitar um não como resposta.
O silêncio caiu pesado e Liam piscou, chocado. Nunca podia imaginar que Gabriel soubesse como Dalton estava ao ser encontrado. Por um segundo, quis chorar. Por si mesmo e por Gabriel que, alheio a todo o sofrimento fora de seu coração, olhou para fora de novo e puxou as pernas para cima, abraçando-se.
— Eu nunca abri aquele envelope. Não quero saber o que Rico tinha para me dizer. Nada pode trazer Dalton de volta ou fazer parar... – a voz saiu baixa e sofrida, fazendo o moreno erguer a cabeça e encarar o outro homem – Não, Liam. Não perdemos muito. Eu perdi mais. – o loiro o encarou, com um suspiro.
Depois de alguns minutos, Liam respirou fundo.
— Eu nunca mais consegui paz, Gabriel. Me culpei muito por tudo... e depois ainda mais. Eu nunca quis...
— Nunca se perguntou se ele podia estar mentindo?
A pergunta, feita calmamente, fez o empresário empalidecer. O moreno sentou-se no sofá, de frente para Gabriel, que lhe devolveu um olhar estranho.
— Não. Nunca pensei que ele podia estar mentindo. – respondeu, odiando-se por ter que ser sincero.
— E por que pensou que eu estaria? Alguma vez menti para você? – a pergunta soou quase normal demais.
Liam não conseguiu mais encarar Gabriel diretamente. Desviou os olhos, tentando desesperadamente entender porque havia se agarrado à verdade do filho, sem pensar no marido. Respirou fundo depois de alguns minutos de silêncio, sentindo o olhar do loiro sobre si.
— Não, você nunca mentiu para mim, e mesmo assim não consegui ver isso. – respondeu, cansado – Acho que não queria encarar que Rico tivesse realmente feito aquilo, e não tinha outro jeito senão negar o que você estava dizendo. Não me orgulho disso e sei que fui injusto. Na verdade nem posso explicar como acreditei nele sem reservas. – encarou as mãos, pensativo – Eu simplesmente confiei nele.
— E me destruiu no processo. Literalmente. – o loiro comentou, seco.
— Eu não percebi o quão longe fui, até que terminou. Eu só queria que parasse de acusar meu filho e não pensei em mais nada. – ergueu os olhos, arrependido – Eu também me culpo por isso, Gabriel. Tornei sua vida um pesadelo tentando proteger meu filho, que na verdade era o único culpado. Eu tomei muitas decisões erradas, mas tentei consertar as coisas...
— Dinheiro nunca foi importante para mim, e muito menos como um pedido de desculpas. – o olhar cintilante não demonstrou emoção alguma.
— Não pensei assim. – o moreno protestou, um pouco sem jeito.
— Mas foi o que pareceu. – Gabriel rebateu, calmo – Você tentou pedir desculpas por me tirar minha empresa usando meu próprio dinheiro, minhas próprias ações.
— Eu só quis corrigir o que fiz errado, antes. Eu não tinha o direito de tirar a sua empresa e propor aquele acordo ridículo. A única desculpa que tenho é que estava transtornado demais para pensar em ser justo.
— Comigo, pelo menos.
— Eu sinto muito por isso. Nunca vou poder me desculpar o bastante.
O silêncio voltou a cair e Liam encarou Gabriel atentamente. O loiro olhou para fora e respirou fundo.
— Eu estava errado. Tínhamos realmente que conversar. Me desculpe por reagir daquele jeito.
Liam arregalou levemente os olhos, surpreso.
— Tudo bem.
— Então concorda comigo que não temos mais nada para conversar? Posso ir embora? – o loiro perguntou, educado.
O moreno quase gritou de frustração, mas se forçou a se controlar.
— Eu pedi a pizza e a coca, devem estar chegando. – hesitou por um momento e resolveu ceder, pelo menos por enquanto – Depois de comer, eu levo você de volta.
Gabriel virou o rosto e o encarou, sombrio.
— Não vai funcionar, Liam.
— Gabriel... – o moreno começou, incerto.
— Me diga, o que esperava quando me trouxe aqui para conversar?
Liam ficou parado, olhando o outro homem e Gabriel elevou uma sobrancelha, cético. Antes que qualquer dos dois voltasse a falar, o interfone tocou. O alívio do moreno transpareceu em seu rosto e antes que o loiro dissesse alguma coisa, se levantou. Com uma calma aparente, atendeu ao interfone e autorizou a subida do recepcionista. Esperou em silêncio até que a campainha tocasse e atendeu. Pagou e agradeceu pela encomenda, dispensando o troco.
Sem olhar na direção do sofá, entrou na pequena cozinha, concentrando-se em preparar a refeição e quase pulou de susto ao ver Gabriel parado, observando-o. Sem conseguir pensar em nada mais original, indicou a mesa.
— Eu pedi presunto e cogumelos...
Gabriel olhou dele para a mesa. Com um suspiro, atravessou o pequeno espaço e se sentou na cadeira, puxando o pacote de latas. Abriu uma e bebeu, passando a lata gelada pela testa e descansando-a no pescoço. Liam franziu a testa.
— Dor de cabeça? – perguntou, preocupado, lembrando-se de era assim que o loiro quase sempre agia quando se sentia mal.
— Pressão.
O moreno empalideceu. Conhecia as variações da pressão do ex marido e tinha muito medo delas. Não era comum e deixava todo mundo preocupado com a possibilidade de um AVC. A pressão sanguínea intra craniana do loiro alterava muito facilmente, e era difícil controlar a dor. Por um momento, Liam se culpou por expor Gabriel a uma situação tensa.
— Não acha melhor se deitar... eu posso conseguir mais gelo... – ofereceu, ainda pálido.
Gabriel baixou a lata e encarou o moreno.
— Obrigado por se preocupar, mas não precisa. Só vou comer e ir para casa.
Sem esperar, simplesmente pegou um pedaço da pizza e começou a comer. Liam ainda o olhou, inconformado. Deixando de lado os pratos e talheres que estava pegando, sentou-se ao lado do loiro e pegou um pedaço de pizza, sentindo-se estranhamente em casa. Estranhou o gosto do refrigerante e não conseguiu evitar a sensação de ter voltado no tempo, mas decidiu no segundo seguinte que não trocaria esse momento por nenhum outro.
Os dois comeram em silêncio e quando Liam já estava sem idéias para manter Gabriel ali, o loiro quebrou o silêncio.
— Posso ligar para o Ricardo? – perguntou, baixinho.
Liam olhou para ele, tentando não se irritar.
— Se é carona, eu posso levá-lo, afinal, eu te trouxe à força.
Gabriel tomou o resto do refrigerante e colocou a lata de volta na bancada, respirando fundo.
— Preciso dos meus remédios.
O moreno deu um pulo, segurando Gabriel no segundo que as forças dele faltaram. Com cuidado, ignorou os protestos e pegou-o no colo. Sem parar para pensar, levou-o para o quarto e o deitou sobre a cama, sentindo o coração na garganta ao ver a palidez do outro.
— O que aconteceu? A pressão subiu mais? – perguntou, olhando em volta à procura do telefone.
— Subiu... – o loiro murmurou – Estou com calor... eu preciso dos remédios...
— Quais são?
Gabriel não respondeu, fechando os olhos. Liam colocou a mão no braço do ex marido e franziu a testa ao sentir o calor.
— Parece febre...
— É calor... a pressão... – o loiro murmurou, tentando se mexer – preciso esfriar...
— Se esfriar melhora?
Liam não esperou pela resposta. Puxou Gabriel para seus braços e segurou-o enquanto tirava a roupa do loiro, que tentou evitar.
— Deixa disso, eu sou seu marido! – o moreno rebateu, um pouco irritado com a insensatez do mais novo.
— Não é mais... – o protesto saiu baixo.
— Nunca deixei de ser.
Assim que o deixou nu, o moreno o levou no colo para a banheira e o segurou enquanto abria a torneira fria. O choque da água fez Gabriel se segurar nele, estremecendo. Com cuidado, Liam o segurou e molhou-o, concentrando-se na cabeça. Só então notou que o cabelo do ex marido estava preso. Puxou a fita e quase sorriu ao ver os cabelos loiros se espalharem pela banheira, levados pela água.
“Devem estar pegando nos ombros.” Pensou, distraído.
Um gemido o lembrou da urgência e voltou a mergulhá-lo com cuidado na água fria, mantendo a cabeça sempre dentro da água, com cuidado para deixar o rosto de fora. O loiro abriu os olhos e encarou os olhos escuros do outro quase com estranheza.
— Não se preocupe, vou cuidar de você. – o moreno disse, simplesmente.
Era exatamente isso o que queria. Estar perto e cuidar de Gabriel, mesmo que não pudesse mais estar ao lado dele como companheiro. Quando o outro finalmente relaxou e fechou os olhos, Liam não pode resistir a observar o corpo em seus braços. A primeira impressão que teve era a verdadeira: apesar de ter emagrecido, continuava lindo. A pele, branquinha e sem marcas, ainda era macia. Os poucos pêlos davam a impressão de estar tocando em veludo e as pernas, tão firmes e bonitas quanto sempre foram.
Os anos deixaram Gabriel com uma beleza mais madura, mais séria. Liam sabia que o tempo não foi tão generoso assim com ele. Apesar de estar em forma, o cabelo já estava começando a ficar grisalho e ele mesmo se sentia um velho.
Balançou a cabeça para se concentrar e levantou Gabriel, que se encolheu contra seu corpo. Com cuidado, levou-o novamente para a cama e deitou-o, voltando ao banheiro para soltar a água da banheira e pegar algumas toalhas. Olhando para si mesmo, viu que estava tão molhado quanto o loiro.
Depois de secar Gabriel e o vestir com um moleton antigo, notou aliviado que o calor cedeu. Tomou um banho rápido e fez a ligação mais difícil que podia imaginar. Precisava falar com Ricardo.
***
O loiro mais velho entrou como um furacão no apartamento, quase derrubando Liam no processo. O moreno no entanto, não reclamou, mais preocupado com Gabriel do que com o comportamento do amigo.
— Onde ele está?
— No quarto. – antes de o moreno terminar de falar, o outro já estava no corredor.
Luciano suspirou e encarou o moreno, parado no meio da sala.
— Tive que vir quase à força... ele não queria deixar e acho que só porque eu estava no carro... – comentou, resignado. Encarou o mais velho com atenção – Como aconteceu, você e Gabriel juntos?
— Agora não, Luciano. – Liam sentenciou, seguindo pelo corredor.
O moreno parou do lado de fora do quarto, vendo os dois amigos através da porta aberta. Ricardo estava segurando uma das mãos de Gabriel, que pareceu ainda mais sonolento. Liam notou que o loiro mais velho tirou um comprimido da cartela que estava no bolso e colocou na boca do amigo.
— Vai melhorar... – murmurou, cuidadoso.
— Quero água... – o programador pediu, num fio de voz.
Ricardo olhou para a porta e Liam se virou, disposto a ir buscar a água.
— Fique com ele. Eu vou. – a voz do policial soou, clara e resignada.
O moreno não escondeu a surpresa, mas não reclamou. Entrou no quarto e sentou-se ao lado do loiro, sem esperar. Ricardo os encarou por alguns minutos e então, saiu do quarto. Liam entrelaçou os dedos nos do loiro, notando a mão fria. Sorriu ao pegar um dos dedos, brincando de puxar de leve, como antes. Ele nunca se cansava de tocar o marido, sentir o cheiro e o calor...
E pelo jeito, teve que reconhecer que ainda sentia a mesma necessidade.
Luciano, parado na porta, encarou os dois e pensou que não podia estar mais certo. Aqueles dois nunca deviam ter se separado, e sentiu-se pesado por ter ajudado. Ricardo passou por ele com um copo na mão e não fez nenhum comentário sobre a proximidade do amante.
Liam relutantemente ajudou Gabriel a se sentar e o segurou, tentando não se irritar quando Ricardo sentou-se na cama atrás dele, amparando-o com o próprio corpo.
Gabriel não pareceu notar o clima estranho e tomou a água lentamente. O empresário notou que ele pareceu mais sonolento que antes e franziu a testa, preocupado.
— Ele vai ficar um pouco confuso... mas tenta não se assustar ou poderá deixá-lo mais perdido. – o loiro explicou, baixo.
— O que...
Liam não terminou a frase. Com um olhar gelado, Ricardo o encarou.
— Achou que todas aquelas drogas não iriam deixar conseqüências? Medicação padrão para psicóticos, lembra-se?
O psiquiatra no corredor teve que se apoiar na parede. Liam notou o movimento brusco, mas não se virou, sabendo perfeitamente que estava tão pálido e culpado quanto o outro.
— Vou cuidar dele. – afirmou, tirando delicadamente uma mecha de cabelo do rosto.
Gabriel o encarou e inclinou a cabeça.
— Onde estava, que demorou tanto? – perguntou, soando meio dopado.
— Estou aqui agora, e não vou a lugar nenhum. – o moreno afirmou, tentando sorrir.
— Onde estou? – o loiro perguntou, olhando em volta.
— Em casa.
Liam podia sentir o olhar de Ricardo sobre ele e tentou soar firme. Não queria que policial simplesmente levasse Gabriel embora por achar que não seria capaz de enfrentar o que fez.
— Ah! – o programador exclamou, como se fizesse todo o sentido do mundo.
Preguiçoso, virou-se e se afastou dos dois que o seguravam, ajeitando o corpo para dormir de novo. Liam empurrou de leve um travesseiro e Gabriel o abraçou, automaticamente. O moreno riu da antiga mania do marido, mas se sentiu menos preocupado.
Luciano levantou a cabeça, mas não se ergueu do sofá, ao ver o amante se aproximar. Limitou-se a erguer uma sobrancelha.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!— Está melhor, mas de qualquer forma, vai ter que ficar aqui. Pelo menos até esfriar. – o mais velho explicou, olhando em volta.
— Tem coca cola sobre o balcão. – o psicanalista indicou com a cabeça – Não está muito gelada mas... – encolheu os ombros.
Ricardo atravessou a sala e entrou na pequena cozinha. Com um olhar pesado, encarou o resto da pizza e as latas.
— Pelo jeito, não estavam brigando. – a voz do ruivo soou, calma.
— Gabriel nunca briga. – o policial sentenciou, pegando uma lata do pacote.
Luciano mordeu o lábio, subitamente irritado.
— Talvez ele devesse, se nos lembrarmos da última vez que ele perdeu a calma. – comentou, ácido.
Assim que as palavras saíram, ele percebeu o que fez. Com um olhar grave, encarou as costas do amante e notou a tensão instantânea.
— Isso foi desnecessário, Luciano. – a voz de Liam soou, gelada.
O ruivo se virou para a entrada do corredor e empalideceu um pouco diante do olhar glacial do amigo. Não precisava se virar para saber que o amante o olhava da mesma forma. Liam desviou os olhos dele e se dirigiu ao policial, que o encarou de volta.
— Qual o nome do remédio e a dosagem? – perguntou, respirando fundo.
Apesar do controle, Ricardo notou a irritação na voz do outro e então, pegou o envelope no bolso.
— É este que ele toma... na verdade é mais um calmante do que qualquer outra coisa. É manipulado artesanalmente em uma farmácia perto da casa dele. – o loiro explicou, calmo.
Luciano se levantou e se aproximou, mas não conseguiu ver a marca do remédio. Com um gesto irritado por estar sendo excluído, estendeu a mão.
— Deixa eu dar uma olhada. – pediu, sem qualquer traço de humildade na voz.
— Você já ajudou o suficiente antes. – Liam rebateu, sem olhar para ele – Não tem muitos mais... como faço para comprar?
O médico bufou, irritado.
— Eu me lembro de ter te ajudado mesmo. Você queria que o testemunho dele fosse desqualificado. – argumentou, acusatório.
Liam finalmente se virou para ele, sério.
— Eu pedi que o isolasse, para que não espalhasse a conversa sobre o vídeo, que você mesmo me garantiu que existia apenas na mente dele. Não pedi que o diagnosticasse errado e lhe desse medicamentos que não precisava. Nunca pedi isso.
O tom saiu baixo e perigoso, fazendo Luciano recuar sem perceber.
— No fundo, você se aproveitou da chance de separar Gabriel de Ricardo, e usou tudo a seu alcance para isso. Ciúme velho e requentado, eu diria. Me lembro de que garanti que não tinha nada a ver você suspeitar de alguma coisa, mas nunca me levou a sério. Eu nunca duvidei do amor do Gabriel, e só agi daquele jeito porque acreditei no meu filho e por mais que eu tente compensar... nunca vou conseguir. Posso ter duvidado da história do assassinato – a voz falhou, mas o olhar negro faiscou, seguro – mas nunca duvidei do amor dele. Deve ter sido tão horrível para ele como foi para mim, penso que até mais. Amar profundamente quem estava nos machucando tanto e não poder fazer nada para parar.
Ricardo estreitou os olhos e alternou o olhar pesado entre um e outro. Liam não se incomodou e simplesmente respirou fundo, passando por eles.
— Posso oferecer alguma outra coisa? – perguntou, educado.
O policial se virou e olhou em volta. Ao ver um bloco e caneta perto do telefone na parede, se dirigiu para lá, ignorando o amante e o olhar do moreno.
— Estes são meus telefones, e o endereço de Gabriel. Se ele quiser ir para casa, vai ter que levá-lo ou ele vai ficar muito confuso e não vai confiar mais em você. Não mencione o passado nem faça qualquer alusão à clínicas ou médicos. Ele não confia muito neles, agora. Se a dor voltar, ou ficar inseguro sobre alguma coisa, vou deixar o telefone e o endereço da farmácia, junto com o nome do farmacêutico que cuida dele. – enquanto explicava, Ricardo fez várias anotações, passando as folhas ao preenchê-las sem olhar para nenhum dos homens – Não aja como se ele fosse de vidro e se por acaso estranhar qualquer coisa que ele disser, simplesmente pergunte o que ele quer dizer, não fique imaginando nada. Ele provavelmente vai ficar irritado em ter que se explicar, mas vai fazê-lo e se ele se comportar normalmente, melhor.
Liam o ouviu em silêncio. Por algum tempo, achou que estivesse ouvindo demais e quase não acreditou que Ricardo confiaria nele àquele ponto, mas conseguiu simplesmente ficar quieto. Quando o policial olhou para ele, apenas concordou.
— Ok. Qualquer problema eu te ligo. – garantiu, calmo.
O olhar do loiro cintilou.
— Não tente forçá-lo a nada, Liam. Nada mesmo. Não tente prendê-lo aqui ou se imponha a ele. Gabriel já passou por coisas demais para ser desrespeitado agora. – Ricardo reforçou, sério – Além do mais, vou ligar e confirmar se está tudo bem e é melhor eu conseguir falar com ele.
— Ele não estava com celular. – o moreno explicou, encolhendo os ombros.
— Vou ligar no seu.
Ricardo contornou o balcão e saiu do pequeno espaço, passando pelo amante sem parar.
— Vamos embora. – disse, sem sequer olhar para o lado.
Luciano suspirou ao olhar para o amante e então, encarou o amigo que o observava em silêncio.
— Você está certo, nunca me pediu que o encarasse como maluco. Fiz isso por conta própria e tenho que reconhecer que o ciúme moveu grande parte das minhas ações. – explicou, baixo – Sei que não adianta nada, mas peço desculpas...
— Eu quase chego a não querer aceitar, Luciano, mas sei o que é se sentir ameaçado e amar demais. Não posso te julgar e de te condenar por algo que eu também neguei a Gabriel. Sou tão culpado quanto você.
Diante do olhar incrédulo, o moreno encolheu os ombros.
— Eu podia ter parado você. – comentou, resignado.
Observou os amigos saírem e fechou a porta com o código de segurança. Olhou o remédio novamente e então, juntou as folhas escritas por Ricardo, voltando para o quarto. Verificou que Gabriel já estava mais frio e então, achou melhor deixar a janela um pouco aberta.
— Tenho que comprar um aparelho de ar condicionado. Gabriel precisa de frio... – comentou para si mesmo, baixinho.
Assim que sentiu o vento, estremeceu de leve e pegou as anotações e o remédio que deixou sobre a mesinha para fechar a janela. Riu de si mesmo, e deixou-os novamente. Com cuidado, cobriu Gabriel com um lençol leve e ajeitou-o na cama, depois vestiu um casaco e sentou-se na poltrona de frente à cama, concentrando-se em copiar as informações para o celular.
****
— Tem certeza de que tem tudo o que quer? – o moreno perguntou, pela enésima vez.
Gabriel bufou e assoprou a franja, respirando fundo.
— Se me perguntar de novo... – começou, revirando os olhos.
— Só vou por causa da reunião. É muito importante. – Liam explicou, irritado com a situação.
O loiro riu baixinho.
— Deve ser mesmo para o Carlos ligar desesperado atrás de você... – comentou, divertido.
— Ele deve ter tomado um susto ao falar com você. – o moreno encarou o loiro com atenção.
— Achei que ele já me conhecia...
— Não pessoalmente. Tudo o que ele soube, foi através de mim e do Luciano. – o mais velho olhou em volta, procurando a pasta com os relatórios que ia precisar.
— Então ele não deve ter uma boa impressão de mim.
Liam endireitou o corpo e se virou, encarando o loiro que devolveu o olhar.
— Ele sabe sobre tudo e queria muito te conhecer. Vamos jantar juntos e então, vai poder comprovar que...
Parou, fulminado pelo olhar claro.
— Eu nunca precisei de tantas provas assim, Liam. Se você diz que não, acredito em você.
O silêncio caiu entre eles e Gabriel olhou significativamente para o relógio.
— Volto assim que puder. – o moreno garantiu, sem esconder a irritação.
O loiro o observou ajeitar a gravata, pegar a pasta e hesitar um pouco, lançando-lhe um olhar inseguro.
— Vai estar aqui quando eu voltar, não é? – perguntou, baixinho.
— Vou.
O mais velho concordou com a cabeça e encarou o ex marido com um olhar intenso, antes de sair. Praguejou mentalmente quase o caminho todo, amaldiçoando a reunião e tudo o que o forçava a se afastar de Gabriel por aquelas horas.
****
Assim que saiu do elevador, Liam não conseguiu entender bem o que estava vendo. Não era para Ester estar no meio da sua sala totalmente irreconhecível, com uma mesa decorada para um jantar romântico clichê, vestindo apenas uma leve camisola.
O moreno piscou e franziu a testa quando ela se aproximou, estendendo uma taça cheia do que pareceu champanhe acompanhado por um sorriso insinuante.
— Que bom que chegou... estava esperando você...
A voz rouca da mulher o fez franzir ainda mais a testa e então, ele olhou em volta, ignorando o claro convite.
— Onde está Gabriel? – ele perguntou, tentando conter a onda de raiva que sentiu.
Ela ergueu uma sobrancelha, inclinando a cabeça graciosamente.
— Mandei o empregadinho embora... não íamos precisar dele... – Liam estreitou os olhos e ela hesitou – Você disse Gabriel?
— É, meu marido Gabriel. Que deixei aqui me esperando. – o moreno não se preocupou mais em esconder a raiva na voz.
Ela desceu a taça, visivelmente constrangida.
— Eu não sabia... eu pensei... – a mulher parou, envergonhada – Ele não disse...
— Percebe o que fez? – o tom saiu baixo e gelado, fazendo-a recuar um pouco mais.
— Eu... eu não... – ela colocou a mão delicada na boca, vermelha – Nunca pensei...
O olhar do moreno se estreitou.
— Esse foi seu erro. Eu nunca disse que podia vir aqui e nunca demonstrei que esse pudesse ser meu desejo. Você não tinha que ter vindo, Ester. – ele parou, fulminando-a com o olhar – Como conseguiu entrar aqui?
A mulher não sabia o que fazer e olhou em volta, deixando a taça sobre a mesa. Com um gesto de proteção, abraçou-se.
— Como você não ligou, eu pensei... – engoliu seco, sem conseguir encarar o homem irado à sua frente – Eu queria te ver...
— Vista-se e saia da minha casa. – ele praticamente cuspiu as palavras, virando-se e se encaminhando para o interfone na cozinha.
Ester o observou sair da sala, sem saber o que dizer e então, engoliu as lágrimas.
— Gabriel... eu não acredito que era ele... – murmurou, incrédula.
Os recepcionistas disseram não saber como a mulher entrou no apartamento, mas um deles acabou por confessar que liberou o acesso depois dela dizer que queria fazer uma surpresa para o noivo.
— Vou descer para resolver o problema. – o moreno garantiu, pelo interfone – Chame um táxi, por favor.
Quando se virou e saiu do espaço, Ester já estava pronta para ir, parada no meio da sala retorcendo a alça da bolsa nervosamente.
— Desculpe, Liam... nunca pensei que ele pudesse ser... – parou, sem saber o que dizer.
— O recepcionista vai chamar um táxi para você – o homem explicou, ignorando o pedido da mulher.
Ela hesitou e se encaminhou para a porta, mas parou, olhando-o incerta.
— Ele não disse nada... não explicou... – diante do olhar estreito, ela desviou os seus.
— Ele não diria, e para ser sincero, ele não precisava explicar nada. A ninguém.
O tom seco a fez se encolher imperceptivelmente.
— Eu posso ajudar! Posso explicar tudo e ele e... – ela tentou, olhando-o esperançosa.
— Boa noite, Ester.
O cumprimento finalmente a desencorajou. Com um suspiro, pareceu finalmente entender que não havia nada que pudesse fazer.
— Boa noite, Liam.
A mulher atravessou a porta aberta e entrou no elevador, mantendo a cabeça baixa.
Liam passou a mão pelo cabelo, respirando fundo. Não queria nem imaginar o que ela disse a Gabriel, mas sabia que não podia simplesmente deixar para lá. Trabalhou muito e delegou um monte de coisas para voltar logo para casa e quando chegou... podia gritar de frustração.
Por alguns minutos, não soube o que fazer, mas então lembrou-se das informações no celular. Com um movimento decidido, pegou o casaco novamente e saiu do apartamento.
No térreo, Liam quase passou pelos recepcionistas, que assim que o viram, se curvaram. Um dos homens se aproximou, educado.
— Senhor Lucerna, pedimos sinceras desculpas por essa falha na segurança. O responsável já foi demitido e isso não se repetirá.
O moreno cravou os olhos escuros no homem e fez um gesto impaciente.
— Preciso que a arrumadeira ajeite meu apartamento e tire aquelas coisas de lá.
— Certamente, senhor – o homem se curvou novamente, respeitoso.
Liam lançou um olhar sério para os homens, e então deixou o prédio.
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