Vidas
5 Cap
Não sei explicar o que senti assim que o meu despertador tocou, sentia que precisava dormir por mais um tempo. Apressei-me a desligar o despertador e fiquei um pouco mais na cama a tentar mentalizar-me que teria de me por a pé. Olhei para o lado e vi que também xana se remexia.
– Bom dia- Disse
– Hum, bom dia- Respondeu-me
– Sinto que preciso dormir mais umas horas- confessei
– Acredita, eu também- Respondeu
– Mas bem, vamos lá que está na hora.
Assim que falei coloquei os cobertores para trás e saí da cama. Dirigi-me ao armário tirei uma calças brancas justas, fui até á gaveta e escolhi uma camisola preta de manga curta. Dirigi-me á casa de banho para fazer minha higiene e me vestir. Assim que me vesti soltei meu cabelo e penteei os meus caracóis. Fiz uma maquiagem bastante simples, apenas uma risco preto nos olhos e um pouco de rimel. Coloquei um colar preteado em forma de corrente, calcei minhas sapatilhas e pus o meu perfume. Avisei xana de que iria preparar nosso pequeno almoço, assim ela teria mais tempo para se vestir. Saí fechando a porta do quarto e andando até á cozinha.
“ bom dia pequena”- Ouvi uma voz masculina que logo reconheci
– Bom dia. – Respondi a Afonso
– Então indo para a cozinha?
– Sim
– Então terei companhia- Sorriu enquanto se juntou a mim
Ele abriu a porta da cozinha e fez o gesto para que eu mesma entrasse, fui até ao meu armário e tirei uma caixa de cereais chocapic e coloquei um pouco numa tijela. Dirigi-me até ao frigórico peguei o leite e juntei nos cereais.
– Afonso? – Chamei
– Sim
– Eu disse á xana que lhe fazia o pequeno almoço, mas entretanto esqueci-me de lhe perguntar o que ela queria. Sabes o que ela costuma comer?
– Ahah que trenga. Sim, ela come exatamente isso que estás arranjar para ti.
– Hum, obrigada
– De nada, sempre ás ordens- Sorriu
– Bom dia- Xana disse assim que entrou na cozinha indo abraçar Afonso.
– Bom dia miúda- Afonso respondeu-lhe
– Xana, arranjei-te leite com cereais aí com a ajuda de Afonso, porque eu esqueci-me de te perguntar o que querias para comer.
– Eu comia qualquer coisa, obrigada – sorriu-me
Sentamos os três a comer os nossos cereais e a falar do que achávamos do que seria este primeiro dia de aulas. O pequeno almoço não demorou muito, pois já nos encontrávamos um pouco atrasados. Após regressarmos aos quartos para irmos buscar as nossas coisas saímos para a faculdade. Apanhamos os três o mesmo autocarro mas Afonso saiu em primeiro lugar dando um beijo de despedida a cada uma de nós. Eu e xana seguimos mais umas duas paragens até chegarmos á nossa faculdade. Confesso que antes tinha muito medo de entrar aqui, sem conhecer ninguém. Mas agora, olhando para o lado e ver xana relaxava-me. As duas entramos e procuramos a sala que estava indicada no horário. A nossa primeira aula era de matemática, nenhuma forma melhor de começar o dia!
Assim que entramos na sala reparei que as mesas estavam dispostas em 5 filas e junto do quadro uma carteira apenas voltada para as nossas, com certeza a do professor. Olhar esta sala me fez sentir saudades da minha turma, dos meus amigos. Eu não sei até onde sou capaz de aguentar isto sem eles, a sala estava coberta de gente desconhecida alguns com ar de simpáticos outros de enjoados. Algumas pessoas estavam sozinhas assim como eu estaria caso não tivesse encontrado xana. Todo este ambiente me fazia arrepiar, eu e xana trocamos um olhar e sentamo-nos na segunda fila junto da janela. Do meu lado havia um lugar livre onde rapidamente se sentou uma rapariga com um ar triste.
A minha vontade era falar com ela, para que ela se sentisse um pouco mais confortável. Mas ao mesmo tempo tinha medo que ela levasse a mal por isso tentei esperar um pouco mais. Xana e eu íamos falando e chegamos a comentar que iriamos falar com toda a gente que estivesse triste, era uma espécie de um acordo. A nossa intenção era fazer as pessoas sentirem-se melhor nos primeiros dias, mesmo que depois nos deixem de falar porque segundo o que contam isso acaba mesmo por acontecer. Mas então nos levamos o “acordo” asério. Assim que o professor acabou a sua apresentação deu ordem para que saíssemos pois como seria o primeiro dia não iríamos dar matéria. Antes que a rapariga pudesse sair da sala nós metemos conversa.
– Olá- Eu disse
– Olá- Ela respondeu dando um sorriso
– Eu sou a Mariana e ela a xana, prazer- Nos a cumprimentamos
– Eu sou a Clara- ela respondeu
– Então tu, não conheces ninguém?- Xana perguntou
– Hum, não –
– Então muito bem, anda connosco- Nós dissemos
– desculpem, vocês amanha almoçam aqui?- Ela perguntou
– Sim
– Então importam-se se eu me juntar a vocês?
– Claro que não.
Nossa segunda e ultima aula do dia era linguística, agora as três estávamos juntas e antes do professor chegar falávamos sobre as espectativas que tínhamos do curso. Eu desliguei um pouco da conversa quando senti meu telemóvel vibrar.
Liguei o ecrã e tinha um sinal de mensagem
“ Ola minha pequenina, então como tu estás? Já estas na faculdade?”
A mensagem era de Rui, um sorriso invadiu o meu rosto e logo me apressei a responder.
“ Ola, meu menino eu tenho tantas saudades tuas. Já estou na faculdade sim, comecei logo por ter matemática ve la. Está a ser estranho estar numa sala em que tu não estás sinceramente eu não sei se vou aguentar. Entretanto ontem não me ligaste eu não consegui contar te as novidades, conheci mais gente mas é difícil escrever. E tu como estas, como esta a faculdade?, Liga-me assim que poderes, adoro-te”
Assim que acabei de enviar ia voltar á conversa mas logo o meu telemóvel recebeu de novo uma sms.
“ Assim que saíres das aulas, liga-me ficarei á espera. Adoro-te”
Sorri e deixei o telemóvel, logo o professor entrou e fez a sua apresentação. A aula passou rápido tal como a de matemática porque apenas tínhamos de fazer apresentação da disciplinas. Quando saímos olhei o relógio e ainda eram 11h, eu xana e Clara fomos o caminho até á paragem a falar e lá nos despedimos pois Clara morava por ali perto.
– Ela parece simpática- Xana disse-me
– Sim, acho que esta cidade está cheia de gente simpática- Comentei
– Olha que não, acredita.
Logo veio o autocarro e fomos para as residências, dentro do quarto peguei o telefone e liguei para Rui.
– Minha pequenina- sua voz se ouviu no segundo toque
– Oh eu tenho tantas saudades tuas- eu chorei
– Mariana não fiques assim por favor, logo logo estaremos juntos.
– Tu sabes que não é bem assim.
– Claro que é, antes mesmo de esperares. Eu prometo
– Não prometas, tu não sabes .
– Alguma vez te falhei com uma promessa
– Não, Rui. Por isso é que te digo para não prometeres o que não sabes. Eu não sei quando poderei voltar.
– Mariana, se eu te estou a prometer é porque vou cumprir. E agora conta-me como foi o primeiro dia?
– Foi estranho, primeiro ao entrar na sala eu senti saudades de tudo do secundário sabes? Ambiente estranho. O facto de ter xana já me ajudou mas mesmo assim, entretanto nós conhecemos uma menina que estava do meu lado. Ela é a Clara é bastante simpática e estava precisamente na situação em que eu não queria estar antes, que era a de não conhecer ninguém. E tu, como foi o teu primeiro dia?
– Hum, eu como te hei de dizer isto. Eu não fui, nem vou.
– O que? Rui tas parvo?
– Calma pequena, eu tenho tudo controlado.
– Tu tas maluco? Tu não vais á faculdade? Tu sabes o que eu penso sobre isso não sabes?
– Sei sim, mas tem calma. Eu não me cheguei a inscrever portanto não estou a ocupar a vaga de ninguém.
– tu o quê? Mas tu disseste
– Menti, desculpa.- Interrompeu-me soltando uma gargalhada
– O quê? Rui tu…
– Calma, eu sei o que estou a fazer por favor não te zangues comigo. Espera eu não vou desistir da universidade ok? Não te preocupes.
– Não me preocupo? Como? Como queres que eu faça isso
– Quero que tu esqueças isso e digas que me adoras. Eu tenho muitas saudades tuas minha pequenina. Tu não imaginas
– Oh, tu é que não imaginas- Voltei a chorar afastando a “raiva” que sentia do que ele tinha feito
– Não chores minha miúda, tens de ser forte.
– Eu sou forte, sou como o aço.
– Ai miúda, tu és tão trenga- Ele sorria
– Sou uma trenga que precisa muito de ti
– E eu de ti manina. Logo logo estaremos juntos e vamos matar as saudades todas. Nunca te vais ver livre de mim.
– Eu espero bem, se não já sabes que te dou uma coça não sabes?
– Ahahahahah, sim sim- sorriu-me
– Olha, ontem conheci uns amigos de xana. Um deles digamos que eu conheci antes e foi um pouco embaraçoso mas pronto, passando á frente. Um deles faz me lembrar muito de ti, vocês tem imensas parecenças na maneira de ser.
– Hum, já arranjar um substituto?
– Claro que não, nunca miúdo.
– Eu espero bem. Agora eu vou ter de ir, tenho de apanhar uma camioneta e já estou em cima da hora.
– Camioneta? Para onde vais miúdo?
– Vou ter com os meus pais, pequena. Eu ligo-te mais tarde. Beijinhos eu adoro-te
– Beijinhos, eu também. Muito muito
Nós desligamos o telemóvel e eu caí na cama a chorar sem fim, xana veio ter comigo e me deu um abraço tentou me confortar mas não adiantou, eu comecei a falar e ela foi me ouvindo. Eu so queria os meus amigos de novo, os meus pais, a minha família. Eu só queria a minha vida de volta. Eu gosto de ti, e gosto do Afonso e do Henrique pelo menos do pouco que conheço. Vocês tem sido incríveis comigo, mas eu sei que não vou aguentar isto sem Rui. Eu apeguei-me demais a ele, eu sinto falta dos meus pais também mas é diferente, nós estamos habituados a que os nossos pais vão trabalhar e estejam só connosco de noite e embora eu sinta muito a falta deles, eu vou falando e isso vai diminuindo um pouco. Mas o Rui, ele é diferente! Eu sempre falei com ele, sempre fui ter com ele quando estava triste, sempre passei muito tempo com ele nós somos como irmãos. Eu sei que sem ele tudo isto é difícil entendes?
– Entendo linda, e não sei mesmo o que te dizer. Eu consigo sentir exatamente o que sentes porque esse tipo de amizade eu tenho com o Afonso. Por isso entendo-te e não consigo imaginar essa dor, mas eu estou aqui. Nós estamos aqui, tu podes contar connosco para te colocar um sorriso na cara. Logo logo estarás com o Rui e será como se nunca se tivessem separado.
– E depois temos de nos voltar a separar- Chorei ainda mais.
– Não penses assim, Mariana. Pensa que vais aproveitar ao máximo. E agora oupa vamos passear.
– Desculpa, eu só quero dormir um pouco. Eu não sou boa companhia assim acredita.
– Então eu só te vou deixar dormir um pouco porque depois vens andar comigo e nem adianta dizer não. Agora eu vou ficar aqui contigo até adormeceres.
– Não precisas, asserio
– Eu mando.
– Obrigada- Sorri e fui fechando os meus olhos para tentar descansar.

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