Vida que segue
6 Você não poderia surgir agora. Roberta Sá
Notas iniciais
Manu se surpreende com a pergunta e começa a recolher as coisas do café para disfarçar.
M: O que tem? A Juliana disse que foi só um flerte.
N: Ela disse, mas eu olhei bem para tua cara e sua reação me dizia outra coisa. Qual é Manu, depois de tudo que a gente conversou, vai esconder o jogo a essa altura?
M: Não... claro que não, é só que não tem muito para contar.
O Eduardo é tudo o que a Juliana falou. Um charme, lindo, educado e realmente mostrou interesse por mim de cara. Aliás, eu tenho certeza que a Mariana nos apresentou com a intenção da gente se entender.
N: Que cachorra, querendo roubar meu posto de cunhada... Anyway, fala então o que ficou faltando da história da Ju?
M: Aff... você presta atenção em tudo, Deus me livre.
Bom... a questão com ele é que de fato ele sempre aparecia pelo hotel com umas desculpas bem fracas para me procurar no restaurante e eu sempre dava um jeito de passar um tempinho com ele.
Não sei o que era, mas rolou um certo encantamento sabe? A gente não falava de nada romântico. Gostamos de coisas parecidas, principalmente livros, nosso senso de humor batia, às vezes eu só queria ficar olhando a boca dele mexer enquanto ele me contava alguma história dos alunos dele da faculdade. Mas não passava disso.
Como te falei, meu coração ainda estava machucado e tava rolando toda a história com o Rafa. Não era o momento para começar nada com o Eduardo.
Mas depois de um tempo a gente foi ficando mais próximo no sentido de amizade mesmo, eu me abri com ele como não me abri com ninguém, nem com as meninas e muito menos com o Rafael.
Ele, inclusive, foi a única pessoa que sabia de tudo que tinha rolado com a minha irmã, o Rodrigo e tudo mais. Eu dividi com ele quando o Rodrigo me disse que eles estavam namorando. Chorei no colo dele. Enfim... ele acabou sendo um ombro que eu não identifiquei em mais ninguém.
Ao mesmo tempo, não era uma coisa totalmente platônica, pois apesar da amizade, era inegável pelo jeito que a gente se olhava que tinha atração ali. Sei lá Nanda, era uma situação muito estranha, pois parecia que embaixo da superfície tinha um sentimento muito forte entre a gente, o que era completamente desproporcional ao que de fato estávamos dividindo na vida real.
Além disso, ele foi uma constante durante o tempo que eu estava lá. A Juliana nem sabe disso, mas logo depois de eu e o Rafa encerrarmos nossa história um pouco antes de ele sair de férias, quando o Marcos, gerente do hotel, fez aquela oferta que te falei de ser transferida para Salvador, lembra?
N: Lembro. O que aconteceu?
M: Bom, o Eduardo tinha informações privilegiadas e acabou me procurando logo em seguida, antes do Rodrigo me falar da ansiedade da Julia.
N: E...
M: E..
Flashback 01
Por Eduardo
O encantamento por ela só aumentava, principalmente quando a ouvia falar da filha... ficava me imaginando casado com ela, quem sabe com uma filhinha da idade da Julia e outro a caminho... Se eu achasse que tinha chance...
Mas até minha irmã, que primeiro tinha sugerido uma investida, falou pra mim que era melhor esquecer essas possibilidades com a Manu.
Mariana me disse que pelo que conversou com a Manu, ela ainda amava o marido, pois ninguém era tão magoado com uma pessoa que lhe é indiferente...
Desde então eu tentei frear meu coração, mas continuava atraído... E depois de um certo final de semana que ela passou em POA, ela me contou a história dela... Falou sobre a irmã, o marido, o flagra, o término dela, falou que o tal Rodrigo e a irmã dela resolveram namorar e depois que parece que tinham terminado...
Enfim... Foi horrível ter ela chorando nos meus braços... Ao mesmo tempo que percebi que ela estava surpresa com os próprios desabafos, mas ainda assim não rolou qualquer desconforto quando eu a consolava...
Percebi que nos tornamos amigos de verdade... Eu até mostrei pra ela algumas poesias que tinha escrito... engraçado que ela se emocionou lendo a única que tinha feito com ela na minha cabeça.
Eu estava ficando confuso, mas não podia me afastar mais...
Flashback 02:
Por Manu
Eu estava para enlouquecer.... Passei meses tentando passar uma borracha em tudo que aconteceu na minha vida... tentando esquecer o Rodrigo, a Ana, o meu casamento...
Só queria deixar as minhas lembranças da Julia intactas, o resto eu coloquei em um baú, armazenado no fundo da minha mente.
Até o Rafael tinha sido uma experiência para me ajudar a esquecer meus problemas de Porto Alegre.
Daí, quando o Eduardo foi se aproximando, de cara eu sabia que não tinha espaço para qualquer coisa com ele...
Não nego que achei ele lindo, charmoso, educado... mas meu coração simplesmente não estava disponível e não tinha nada que eu pudesse ou quisesse fazer pra mudar isso. Eu sabia de cara que com ele eu não teria o relacionamento superficial que tinha com o Rafa. Se eu fosse me envolver, teria que ser de verdade.
O único problema era que mesmo racionalmente tendo decidido não me deixar levar, mesmo com o meu coração fechado, eu não conseguia ignorar a sensação de deja vu que sempre sentia com ele. Cada vez que sem querer nos tocávamos, parecia que tinham libertado várias borboletas dentro de mim...
Sem contar que mesmo o conhecendo tão pouco, sinto que fazia uma vida inteira que tinha ele ao meu lado. Já espero as reações dele, sei quando a mão vai escorregar pelo cabelo, quando ele faz arte pelo sorriso, ou ainda quando se irrita, apenas pela mudança de ritmo da respiração.
Isso não podia ser normal, nunca tive essa sensação com ninguém... Estava acreditando cada vez mais nessa conversa que ele sempre brincava de que nos conhecíamos de outra vida...
Tinha certeza que se ainda não estivesse tão machucada, podia acontecer algo bonito entre a gente.
Flashback 03:
Por Eduardo
Nem acredito que a Manu disse que realmente vai pensar se aceita a proposta de Salvador... e agora? Será que ela vai topar? Se ela decidir ir é porque ela está se libertando de uma vez desse casamento falido... Pelo menos, não percebi nenhuma alteração no humor dela quando ela me contou que seu ex não estava mais namorando sua irmã.
Será que devo ter esperanças? Acho que seria capaz de pedir um afastamento da faculdade, de repente trabalhar na unidade do escritório de Salvador. Acho que não teria problema com os sócios, se eu mantivesse atendimento remoto com a clientela daqui.
Enfim...Passado um tempo, estava nervoso com o fim do trabalho dela no hotel e daí um dia, enquanto a acompanhava até seu quarto...
M: Eu não sei se vou aceitar Edu, tenho que conversar com minha filha, com minha avó... Também tenho que pensar no buffet, na Maria que conta comigo... Já estou longe há tanto tempo, nem sei se consigo começar tudo de novo, num lugar novo, em que não conheço ninguém...
E: Concordo que você tem que pesar tudo isso, mas pelo menos na adaptação eu posso até te ajudar...
M: Como assim?
E: Bom, digamos que morar no Nordeste pode se tornar um sacrifício gostoso para mim...
M: Edu, calma, não toma decisões pensando em mim.
E: Eu não tomei nenhuma decisão, mas você não pode me impedir de querer ficar perto de você, afinal, de um jeito ou de outro você vai embora não é?
M: Pensa assim... Se a vida realmente quiser que as nossas histórias se cruzem de novo, elas vão cruzar.
Ela falou isso de um jeito tão solene, tão encantador que pela primeira vez não fiquei cego pelo medo de arriscar nossa amizade e a beijei...
Com certeza peguei ela de surpresa, mas não senti qualquer resistência, parecia que aquele momento tinha sido o limite pra nós dois...
O beijo... Meu Deus, que beijo... eu nunca tinha tido um primeiro beijo assim.... tão cheio de história.
Parecia que sabíamos exatamente como funcionava o melhor ritmo para aquela dança de lábios e línguas... de respiração, de movimentos, de tudo... foi o primeiro beijo com mais cara de último beijo que eu já tive...
Nos afastamos e antes que eu dissesse alguma coisa ela beijou o canto da minha boca e após ver o meu sorriso bobo entrou no seu quarto.
Eu teria me sentido nas nuvens, se não fosse por um sentimento amargo que acompanhava o gosto doce de Manuela me dizendo que eu ainda não ficaria do lado dela...
Flashback 04
Por Manu
Quando eu estava pensando na possibilidade de me entregar de novo à vida, de me libertar do que aconteceu e de repente me tornar uma menina normal de 20 e poucos anos, tudo acontece de novo.
Desde que me ofertaram a posição em Salvador eu só conseguia ver na Julia qualquer amarra que me prendesse aqui no Sul.... E estava maquinando uma forma de fazer tudo dar certo, até dei uma abertura ao Eduardo que parece ter sentido minha guarda baixa e me beijou!
Jamais pensei que um beijo pudesse ser tão forte... Senti com ele um conforto que algumas vezes vislumbrei no Rodrigo após anos juntos e que não cheguei nem perto com o Rafael, mesmo depois de meses dormindo com ele.
Tudo com o Edu parecia ser assim, uma continuidade de uma história que teríamos dividido... O conforto que sentíamos um com o outro não podia ser normal...
Mas eu sei que não posso enganá-lo! Não tem a menor chance de eu me envolver com ele agora... Eu nem saberia como abrir meu coração... E sem contar que no fim das contas, eu vou voltar para Porto Alegre, a Julia precisa de mim e ela sempre vai ser minha prioridade.
Jamais vou me arrepender do caminho que escolhi, a Julia é a minha razão de existir e por isso, não penso duas vezes em deixar as oportunidades que conquistei aqui e o Edu pra trás....
Flashback 05:
Por Eduardo:
Já é noite quando bato na porta da Manuela, já alertado da recusa dela do emprego em Salvador e da notícia que ela iria embora amanhã mesmo por conta de um problema da Julia.
Ela abre a porta e me deixa entrar... fico ainda mais arrasado quando vejo as malas sendo arrumadas...
Ela me olha e parece que temos uma conversa inteira apenas assim, nos encarando.
É como se ela me pedisse desculpas por não ter podido tentar e eu a olho como que respondendo que entendo, que sei que não era nosso momento... e assim, sem falar nada, eu tomo Manuela nos meus braços e sinto de novo o gosto maravilhoso do beijo dela...
Fim do flashback
N: E aí Manu, o que aconteceu? Nanda pergunta morrendo de curiosidade da última lembrança compartilhada por Manu.
M: A gente começou a se beijar sem parar. Mas não era uma questão de sexo naquele primeiro momento, era sede. Todos aqueles meses de amizade que poderiam ser outra coisa, desabrochando ali.
Mas daí a coisa começou a ficar muito quente. A gente começou a tirar a roupa do outro e quando ele me levou para cama, a mala que eu estava arrumando acabou atrapalhando e eu voltei para a realidade.
Parei ele e disse que não queria transar com ele por transar, já que estava indo embora.
Ele entendeu, apesar que acredito que pensava diferente.
No fim, nos ajeitamos, ele bateu a poeira e começou a me ajudar.
Foi tão melancólico. A gente se olhava mas não cruzava os olhares. Parecia desconfortável, mas nós dois queríamos estar juntos naquele momento.
No fim, quando estava tudo arrumado e não tinha mais desculpas, ele me beijou de novo e foi embora.
Nanda, eu senti um negócio tão forte naquele momento. Foi diferente do meu adeus do Rodrigo que estava tão envenenado pela raiva que eu sentia. Mas foi um sentimento parecido no sentido de que parecia ser um adeus a um amor.
O que não faz sentido!!! Eu não me apaixonei pelo Eduardo. Eu tenho certeza disso, mas...
N: Mas talvez você saiba que seria fácil acontecer isso.
M: Exato. Lembro quando estava com o Gabriel e as vezes refletia que se ele fosse o Eduardo, eu já teria superado de vez o Rodrigo com aquele relacionamento.
Enfim... foi uma experiência tão surreal que é a primeira vez que falo dela com alguém.
N: E vocês não se falaram mais?
M: Falamos. Mas foi uma sucessão de desencontros.
N: Como assim?
M: Primeiro, depois de um curto tempo que eu tinha voltado, ele me procurou para gente tentar se ver e começar alguma coisa. Eu estava super imersa na ansiedade da Julia, em estabilizá-la e acabei dizendo para ele que não era momento.
Depois, quando as coisas começaram a ficar em paz, eu o procurei e acabei me deparando com a notícia que ele estava em um relacionamento.
A última tentativa foi quando ele teve um compromisso de trabalho em Porto Alegre e quis me ver. Eu acabei almoçando com ele, mas estava namorando com o Gabriel há um tempo, então foi só isso.
M: A gente chegou na conclusão de que talvez nessa vida, nosso destino fosse o desencontro.
N: Nossa Manu, que história louca. E triste. E bonita. Não sei se fico encantada ou deprimida.
M: Haahaha. Não fica nada. Passou já.
De vez em quando eu penso nele, mas acho que as coisas aconteceram como tinham que acontecer. Eu me arrependo um pouco de não ter me entregado naquela última noite, mas acho que isso teria me deixado completamente envolvida. Tive medo de ser capaz de amar ele.
N: Entendi... confesso que estou um pouco chocada...
Mas me fala... Você falou que talvez com ele teria superado o Rodrigo se ele tivesse aparecido no lugar do Gabriel. Eu sei que você não gosta de falar sobre isso, mas vou aproveitar teu momento de confissões para perguntar se isso significa que o Rodrigo ainda mora um pouquinho dentro do teu coração.
M: Ah Nanda. Eu acho que ele sempre vai morar. É a prerrogativa do primeiro amor. Mas se não fosse o fato dele ainda tentar me convencer de que a gente tem alguma chance, eu acho que já teria me libertado completamente.
N: Ele ainda está te cercando então?
M: Como se você não soubesse né sua fingida...
N: Hahahaha... ele não fala tanto sobre isso comigo. Já tive que deixar claro para ele algumas vezes que você é minha amiga e que não vou apoiar ele cegamente.
Manu olha com carinho para Nanda e elas apertam as mãos uma da outra.
M: Então, respondendo a tua pergunta, ele continua me cercando. Às vezes ele é descarado, usando a Julia, inclusive, às vezes ele é sutil e eu acabo demorando para perceber até ver ele do nada jantando por aqui, ou passando a tarde comigo no Buffet... enfim... ele não fala nada da gente, mas tem vezes que pego ele me olhando, que me dá até um arrepio na nuca, um misto de saudades com curiosidade. Mas tento cortar logo esses pensamentos, para não deixar eles correrem soltos.
N: Mas você acha que precisa Manu? Não vale a pena dar uma brecha pra ele?
M: Não sei Nanda. Na real, acho que estou esperando ele superar essa fase e conseguirmos todos virar a página.
N: Eu não acho que seja uma fase Manu. Eu acredito que ele te ama de verdade e isso não vai sumir do nada.
M: Eu até acredito que ele ache isso, ou que queira achar, porque no fim das contas o nosso casamento foi bom para ele, enquanto durou, mas da mesma forma como ele se convenceu que me amou um dia, sem que isso fosse verdade, eu não duvido que esteja fazendo o mesmo agora. A diferença que não tem mais a Ana para ser um gatilho e tirá-lo desse estado, então estou esperando o tempo.
N: Manu, nós já falamos sobre isso. O Rodrigo foi um idiota, mas você sabe que ele te amava quando vocês estavam juntos. E acredito que nunca deixou, inclusive.
M: Nanda, eu não quero mais criar quaisquer expectativas quanto ao Rodrigo. Estou inclusive esperando o melhor momento de formalizar nosso divórcio. De repente essa ruptura definitiva seja o que ele está precisando.
Então não vamos mais falar sobre isso, por favor. É um assunto tão maçante, nossa noite foi tão legal né?
N: Ok, já entendi. Sem problemas.
Nanda responde, mas fica preocupada com a menção do divórcio
N: Mas acho que agora a gente pode falar que nosso dia foi legal. Você já viu que está amanhecendo?
M: Meu Deus, é verdade. Vamos subir? Te empresto uma roupa e você aproveita a nova cama da Julia. Agora é uma normal de solteiro.
N: Vou aceitar, porque depois de tanta aventura que eu vivi pelos teus relatos, eu estou exausta.
As duas riem e sobem as escadas para um merecido descanso.
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