Vida que segue
7 Sábado a noite. Cidade Negra e Lulu Santos
Notas iniciais
É o dia da inauguração da loja física do Rodrigo, a L'albero, e todo mundo foi convidado para dividir essa conquista.
Nanda aproveitou também para mostrar para os mais íntimos seu novo apartamento sobre a loja do Rodrigo que acabou dividindo espaço com um galpão de trabalho e com o brechó dela.
R: Nanda, não vou mentir que ainda não gosto da ideia do meu negócio ter relação com o dinheiro do Pai, mas agora vendo tudo pronto, estou orgulhoso demais de nós dois.
N: Desencana Rodrigo, parafraseando o advogado, como é adiantamento de herança, considera que o investimento é da maninha aqui. Não é a toa que no papel, toda essa parafernália entrou na minha cota da sociedade.
R: Eu sei. E só por isso eu topei. Sem contar que eu fico feliz de ter conseguido pagar tudo para o S. Laudelino. Ele ajudou muito eu e a Manu, mas sabemos que foi um investimento que por ele, não teria feito desde o início.
N: Honestamente, acho besteira, principalmente na idade dele, colocar dinheiro embaixo do colchão, mas pelo menos um dia a Lorena que vai gostar quando herdar tudo.
R: Ai Nanda, que horror.
N: Hhahahah... não tô desejando nada de ruim não, só estou mais ligada nessas coisas práticas da vida.
Agora tenho esse negócio e eu só penso em como fazer ele dar certo para dar paz para o Francisco ter opções agora que já está pensando na faculdade.
R: Eu ainda me choco com essa tua versão mãe.
N: Acho que foi de tanto conviver com você e Manu.
Rodrigo que estava com um sorriso no rosto, murcha na hora.
N: Puts, desculpa maninho. Não queria jogar sal na ferida. Relaxa, daqui a pouco ela chega.
Rodrigo concorda com a cabeça e diz que vai cumprimentar as outras pessoas, mas nem tenta disfarçar a agonia que sente com a ausência de Manuela que até o momento não tinha chegado. Sem se aguentar, caminha em direção à Ana e Lucio e vai direto ao ponto.
R: E aí Ana, até agora nada?
Ana troca um breve olhar com Lucio e responde em tom apaziguador.
A: Relaxa Rodrigo. Ela me garantiu que vinha, quando foi deixar a Julia lá em casa. Né Lucio?
L: Sim. Comentou que tinha algumas coisas para resolver antes e saiu correndo. Acho que estava resolvendo alguma coisa do buffet.
Lucio responde, mas sente que Rodrigo não estava satisfeito. Para dar uma oportunidade dele perguntar de Ana o que quer, ele pede licença informando que vai aliviar D. Iná da Julia por alguns momentos.
R: Não é possível que ela não tenha comentado nada com você. Ainda mais que já liguei várias vezes e ela não atendeu. Você não quer ligar? Como está com a Julia, tenho certeza que ela vai te atender.
A: Rodrigo, já mandei mensagem e ela me respondeu que estava ocupada e que falaria comigo mais tarde. Não vou usar a Julia para que você mate a sua curiosidade.
R: Não é questão de mera curiosidade, estou preocupado. Estamos todos aqui há quase uma hora – Rodrigo fala agoniado – Sem contar que se você não sabe de nada, eu fico ainda mais ansioso, pois vocês sabem tudo uma da outra.
A: Infelizmente isso não é mais verdade – Ana fala com o olhar vago.
R: Como assim? Brigaram?
A: Não brigamos não, mas as coisas entre a gente não são mais as mesmas. Sinto que estamos até mais distantes do que quando voltamos a nos falar depois que acordei.
R: Poxa Ana, sinto muito. De verdade. Se tem algo a ver comigo...
A: Não tem. É uma coisa nossa. Acho que perdemos nossa intimidade e não consigo mais acessar a minha irmã de antes.
Quando estamos juntas é ótimo, não tem constrangimento nenhum... Mas sinto que ela guarda um pedaço da vida dela de mim. Que não quer dividir a vida pessoal dela que não tem a ver com família.
A impressão que tenho é somos mais irmãs do que amigas e eu estou tendo muita dificuldade em me adaptar.
A: Ana, eu sei que a gente já se resolveu, mas me sinto responsável por isso...
R: Não se preocupa. Eu tenho noção da parcela de culpa de todos nós, principalmente a minha. Não vou ficar remoendo isso e acho que você também não deveria.
Os dois se olham constrangidos e ficam gratos com a vinda de Lucio e Julia, que chega abraçando o pai e dizendo que está tudo lindo e que ele tinha que redecorar todo seu apartamento com os móveis novos.
Enquanto está ouvindo a filha e achando graça das escolhas dela para reformar seu quarto em cada casa que tem, estranha quando a menina fica em silêncio, soltando um mero “uau” enquanto olha em direção à entrada.
Rodrigo ecoa a admiração imediatamente quando vira seu olhar para a porta e dá de cara com Manuela, maquiada, com um vestido justo e cinza e preto, salto altíssimo e cabelo preso. Uma mulher absolutamente linda.
Dona Iná se adianta ao perceber a chegada da neta para verbalizar o que todos que a perceberam pensaram.
I: Como está bonita minha filha – Iná fala já abraçando a neta.
M: Brigada vó... tive que correr contra o tempo para me arrumar para um evento que vou ter que ir depois daqui e fico feliz que a Sra. Tenha aprovado.
I: Aprovado? Estou constatando um fato. Não é Ana?
Ana que já fazia parte do grupo familiar envolta de Manu, abre um largo sorriso e elogia a irmã.
A: Vovó tem razão. Pode ficar tranquila que valeu a pena sua correria.
J: Está muito chique mamãe. Né papai?
Manu cruza o olhar com o Rodrigo pela primeira vez desde que chegou e fala com ele antes mesmo dele responder a pergunta de Julia.
M: Nossa Rodrigo, está tudo lindo. Parabéns! Sua loja vai ser um tremendo sucesso.
R: Obrigado... – Responde Rodrigo quase sem voz, ainda embasbacado pelo visual da ex-mulher.
N: Respira maninho, porque senão você morre – Nanda comenta rindo enquanto se aproxima da cena.
Manuela Manuela, tem certeza que esse evento vai ser trabalho? Sei não... – Nanda abraça Manu que retribui.
O comentário tira Rodrigo do transe que estava e passa a prestar atenção na resposta de Manuela.
J: Você não vai ficar aqui mamãe? – Julia pergunta um pouco manhosa
M: Então, na verdade não podia deixar de prestigiar vocês – Manu fala olhando Rodrigo – mas a Juliana me avisou mais cedo que estava se sentindo mal e foi piorando, daí agora ela está com febre e vou ter que substitui-la em um compromisso do buffet.
N: Ela me disse que estava gripada, mas não comentou da febre. Sabe se o Pedro está dando uma assistência ou ela está precisando de uma força?
M: Ela falou que estava tudo sob controle, mas não perguntei do Pedro. Depois dá uma ligada para ela?
Nanda concorda com a cabeça enquanto Julia pega na mão de Manu e Rodrigo.
J: Papai, mostra para a mamãe os móveis que você mais gosta, como fez para mim.
R: Claro minha filha. Manu, quer conhecer melhor a loja e o galpão? – Rodrigo pergunta ainda com cara de besta para a ex.
M: Claro, vamos lá.
Julia olha para Ana e Lucio e meio sem saber fazer direito, tenta dar uma piscadela para os adultos que riem da cena ao ver a menina se empenhar em aproximar os pais.
Rodrigo aproveita a oportunidade, aproxima-se de Manuela e coloca a mão em suas costas para guia-la e para sentir, ao menos um pouquinho, o calor do corpo dela.
Manuela estranha o toque, mas não se aflige e presta atenção aos comentários de Rodrigo enquanto segura a mão de Julia. Sente um breve calafrio da situação. Um deja vu da família que já teve.
Minutos depois enquanto está imersa no momento, sente seu celular vibrar e pede licença de Rodrigo que segue cada movimento dela com os olhos.
Julia que já voltou para perto de Ana há tempos, não serve de distração, de forma que não lhe resta alternativa que não seja prestar atenção na conversa de Manuela.
M: Oi!
...
M: Eu sei. Você não precisa ficar preocupado – Manu responde com impaciência.
...
M: Não precisa, não estou em casa e vou direto para lá.
...
M: Eu sei!!! Não estou longe. Quando chegar eu te ligo.
...
M: Tá bom, tchau.
Manu se vira e dá de cara com Rodrigo prestando atenção descaradamente em sua conversa.
R: Está tudo bem? Você parece chateada.
M: Tá tudo certo sim. Vou precisar ir para meu compromisso. Parabéns de novo. – Manu responde se inclinando para dar um meio abraço em Rodrigo e se despedindo. Ele, por sua vez, não tem nem tempo de esticar a conversa.
Manu se despede dos conhecidos no caminho da saída e se aproxima de Ana. Lucio a abraça e dá privacidade às duas, pois Ana parece querer aproveitar qualquer segundo com a irmã.
M: Ana, já dei um beijinho na Julia e na vovó e já vou indo. Amanhã me confirma que horas você prefere que eu a pegue tá bom?
A: Ok. Será se conseguimos um tempinho para gente? Parece que não conversamos há séculos.
M: Claro, sem problemas. Mas aconteceu alguma coisa? É a Julia? – Manu pergunta com tom de preocupação.
A: Não, nenhum. A gente não precisa de problema para se ver né?
Manu ri e responde: Claro que não.
A: E o que é esse evento que você vai? Uma festa?
M: É, mas na verdade é uma apresentação de várias vinícolas gaúchas para hotéis e restaurantes e um dos nossos clientes que é uma rede grande de hotel, pediu que o buffet acompanhasse o consultor deles, pois vão começar a ver os pedidos da próxima safra.
A: Ah, legal, e...
M: Ana, desculpa te interromper, mas o Felipe já me ligou e vou correr para não me atrasar. Depois te explico com calma. Ainda tenho que ver um taxi – Fala já abraçando a sua irmã em despedida.
Nanda que estava se organizando para sair e pretendia acompanhar Manu até seu carro, escuta e fala.
N: Não está de carro Manu, deixa que eu te dou uma carona então.
M: Certeza Nanda? Você está literalmente embaixo do seu apartamento.
N: Certeza absoluta. Falei com a Juliana no telefone para saber como ela está e quero te pressionar para saber tudo desse teu date forçado com o Felipe.
M: Não tem date nenhum. Juliana está louca – Manu responde, enquanto Ana observa a interação.
N: Ok. Mesmo assim eu te deixo. Tenho que pegar o Francisco e daí isso ganha mais uns minutos de folga para ele. – Nanda fala já andando com Manu enquanto as duas pareciam duas meninas se perturbando, sob os olhares tristes de Ana.
Lucio se aproxima, sente o clima na hora e envolve Ana com seu braço.
L: Você realmente está sentida com essa história com a Manu, não é? Ela falou algo?
A: Isso que é o problema Lucio, acho que ela não está nem percebendo.
Acho que faz até sentido né? Ela se acostumou a viver sem mim por anos enquanto eu estava em coma e depois que eu acordei, ficamos mais tempo afastadas do que juntas.
O problema é que eu não consigo me acostumar. E eu sei que quando estamos juntas está tudo certo e eu me sinto em total liberdade de falar sobre tudo da minha vida com ela, como sempre foi... mas ela é tão reservada comigo. Não consigo achar normal ela só me falar sobre a Julia e o Buffet.
L: Mas aí amor você está presumindo que ela teria outros assuntos e é possível que não tenha. A Manu que eu convivia minimamente todos esses anos sempre teve esses dois focos na vida.
A: Eu conheço minha irmã. Eu sei quando ela está se mantendo distante. Sem contar que sempre que vejo ela com a Nanda ou a Juliana eu vejo exatamente a Manu que me faz falta. Ela parece mais leve com as amigas dela e eu não estou incluída.
Agora mesmo a Nanda falou algo de um tal de Felipe e eu não tenho ideia do que se trata.
L: Então você vai ter que cortar esse mal logo pela raiz. Conversa com ela. Você sabe que nada bom vem de deixar as coisas guardadas.
Lucio e Ana trocam olhares significativos e se abraçam.
Do outro lado do ambiente Rodrigo conversa com Lourenço.
R: Prazer te receber aqui tio. – Rodrigo cumprimenta Lourenço com um abraço e o convida para sentar.
L: Puxa Rodrigo, a última vez que estive aqui, esse lugar estava engatinhando, o seu showroom está incrível! As peças são lindas, acho que vim ao lugar certo fazer minha nova mesa de trabalho.
R: Que bom que você gostou, graças a Deus está indo tudo certo, eu já tive que contratar duas pessoas pra me ajudar a receber os pedidos do site.
L: Pelo que você me disse ainda tem muitas peças em Gramado. A logística está tranquila?
R: Está sim. Acredito que logo eu consiga trazer tudo para cá, já que 90% dos pedidos partem de Porto Alegre. Estou até fechando um contrato com uma transportadora nacional, então estou contando que os pedidos para os outros estados aumente, pelo menos aqui pelo Sul e Sudeste.
L: Que maravilha! Mas você não está naquele mesmo ritmo de antes não né? Estilo Jonas Macedo..
R: Imagina tio... não perco nenhum momento com a Julia depois do que aconteceu, além disso, não quero cair no mesmo erro e estou tentando mostrar para Manu que a gente ainda tem uma chance... não vou negar.
L: Eu tenho que te falar, torço muito que vocês se reconciliem. Parece que saiu uma nuvem do teu olhar desde a cirurgia delas e consigo ver de novo o Rodrigo estável que era o marido da Manuela. Contudo um pouquinho triste. Dá para perceber.
R: Nem me fala tio... quando penso em todas as nossas conversas, a minha confusão de sentimentos, eu me sinto envergonhado...
L: Imagina Rodrigo, você estava confuso, e com razão, o que você passou, o que vocês passaram, foi uma situação única.
R: Eu sei, mas eu cometi um erro terrível quando insisti na Ana, mesmo depois que tinha acabado.
Quando lembro que mesmo depois que as duas estavam envolvidas com outros homens, eu focava no meu ciúme pela Ana, quando elas brigaram e a Nanda me contou eu fui atrás da Ana, quando eu flagrei a Eva de novo agredindo a Manu, eu procurei a Ana – Rodrigo olha pra baixo.
Sério tio, eu nem sei como eu pude ser tão cego.
L: Não se tortura Rodrigo, no final você conseguiu se resolver e já sabe o que sente, com convicção.
Sabe que quando eu estava escrevendo meu novo livro e pensando na sua história, eu realmente acredito naquilo que eu te falei sobre a sua obsessão pela Ana.
R: Sobre eu não achar que tinha mais volta com a Manu?
L: Exatamente... Eu te disse isso antes e reforço que quando a Manuela, mesmo depois de conversar com você, te pegou beijando a Ana... aquele olhar que você descreveu foi o que te fez desistir dela, você percebeu o quanto ela não merecia passar por isso, daí com todas as tuas fichas na mão você investiu num relacionamento quase utópico com a Ana... e insistiu nele até onde deu.
R: E até onde não deu né tio? Eu fico pensando se não fosse a vida, se não fosse a doença da Julia pra me fazer entender que o meu amor pela minha filha e pela Manu era o maior do mundo... Já pensou se ela realmente amasse o Gabriel? ... Pelo que entendi ele chegou perto...
Agora eu talvez tenha perdido a mulher, o amor da minha vida por conta de uma relação que só existia na minha cabeça e na minha lembrança, que eu investi e insisti porque achei que era o que me restava...
L: Mas não pensa só em relacionamento amoroso Rodrigo. Abre tua cabeça para a vida de um modo geral.
Não ia falar nada porque não gosto de fofoca, mas pelo que escuto da Celina com a Nanda, a Manu está firme com a separação né? Talvez você tenha que pensar num caminho novo. Sem ela.
R: Não estou pronto para pensar nessa possibilidade. Pelo menos não antes de esgotar todas as minhas chances.
L: Entendo... e tirando o que aconteceu comigo e com a Celina como exemplo, às vezes, quando a gente menos espera, a vida e o tempo nos direcionam para onde devemos ir independentemente dos nossos erros e escolhas. – Lourenço fala com um meio sorriso, tentando animar o sobrinho.
Mas vamos deixar essa melancolia pra lá, me conta, qual a melhor mesa para eu encomendar?
Manu e Nanda no carro
N: Manu, você está me deixando tensa com essa sua agonia.
M: Eu realmente não quero chegar depois do horário que marquei com o Felipe. Não gostei dele ter me ligado como se eu fosse uma criança que fosse esquecer um compromisso de trabalho.
N: Sei não. Tá muito estranha essa tua energia com esse cara.
M: Acho que a gente está até se dando melhor. Com essa reformulação do cardápio do cliente, temos nos visto mais, já que novas receitas são comigo e não com a Ju. Só que sei lá, é como a Juliana falou, parece que a gente desperta o pior um no outro.
N: Entendi... e ele é bonito mesmo?
M: O que uma coisa tem a ver com a outra?
N: Nada. Não posso mais perguntar? Está muito na defensiva D. Manuela.
M: Parece até que eu não te conheço. Mas como eu sei que não tem nada a ver o que você está querendo insinuar, eu te respondo sem problemas que ele é bonitinho. Cara de gringo Argentino. Quando é agradável, é charmoso e não posso mentir que sabe absolutamente tudo de vinho.
N: Seeeeeei. Não tô insinuando nada, mas que você extra gata para esse evento me deixou com a pulga atrás da orelha. Não sei dizer se foi para benefício do Rodrigo ou do Felipe.
M: Você já pensou que pode ser para o meu?
N: Touché maninha. Bom... com essa cortada eu chego no seu evento e olha. Com 02 minutos de antecedência.
M: Ainda bem que não vim de carro e não tive que estacionar. O mala já está bem ali me esperando.
N: Onde?
M: É aquele ali de camisa branca e blazer escuro. Com o celular na mão.
N: Ahhh Manuela... vai pastar. Bonitinho nada. O cara é um gato. Meu conselho: Usa essa tua tensão ai para tirar o atraso.
Manu olha com cara feia para Nanda, agradece a carona e sai do carro em direção ao seu date forçado.
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