Vida que segue
4 Quero ser feliz também. Natiruts
Notas iniciais
Nanda, Juliana e Manuela sentam em um bar numa noite super agradável em Porto Alegre e brindam com seus tão esperados chopes.
N: Nem acredito que de fato estamos aqui. Eu já estava esperando um furo da Manu.
M: E correr o risco de vocês juntas sem supervisão? De jeito nenhum.
Jul: Que horror Manu, quem ouve pensa até que estamos mal intencionadas.
Nanda e Julia cruzam o olhar e imediatamente riem.
M: Não sei o que pensar dessa sintonia de vocês não.
N: Que é ótimo! Nem todo mundo tem a sorte de ter amigos que se gostam né? Imagina você tentando juntar eu e a Ana? Seria um desastre.
M: Ai Nanda...
Jul: Me perdi. O que houve? Vocês são brigadas? Achei que tinha todo mundo crescido junto.
N: Então. Talvez tenha sido esse o problema. Minhas opiniões são viciadas.
M: Partindo desse princípio, você não seria minha amiga.
N: Aí é totalmente diferente. Além de você ter se escondido na cozinha de casa durante todos os anos que moramos juntas, eu realmente só fui te conhecer quando você e o Rodrigo casaram e – não fica convencida não (Nanda fala olhando para Manu) – como não amar você né Manuela?
Eu até hoje não faço ideia do que passou na cabeça do Rodrigo quando...
M: Ah Nanda, hoje não, tá bom?
N: Justo. Não falamos mais do meu irmãozinho Voldemort.
Nanda toma um gole do chope e quebra a tensão com a sua piadinha.
N: Mas apenas para fechar a explicação para a Juliana, eu e a Ana nunca brigamos, a gente só nunca se conectou.
Aprovada a explicação ex irmanzinha?
Manu ri e ergue o chope em concordância.
N: Bom, mas já que “o que não deve ser nomeado” não será nomeado, acho bom a Juliana aqui cumprir a promessa que fez e ir entregando a Dona Manuela aqui. Exijo o pagamento dessa dívida.
Jul: Sendo assim, vou pedir outra rodada, pois preciso de coragem líquida para arriscar meu emprego.
M: Até parece... você é muto exagerada e eu sei que não tem nada demais para contar.
N: Ei, eu julgo isso.
Juliana que já sinalizou para o garçom trazer mais uma rodada começa a sua fofoca.
Jul: Bom, vou só comentar rapidamente a parte chata que foram as primeiras semanas da Manu em Floripa que é um filme de drama daqueles que você chora sem nem saber porque. Ela respirava trabalho e nunca vi uma cozinha fluindo com aquela intensidade. Se ela não fosse tão meiga ao mandar na gente, diria que foi a minha primeira experiência com uma Ditadura.
Nanda ri e Manu joga um guardanapo nela, rindo de canto de boca.
Jul: Mas depois que ela abriu uma frestinha num evento da família da Mariana, dona do Hotel, que convencemos ela a beber um pouquinho e relaxar depois do serviço, as coisas começaram a fluir e ela começou a baixar a guarda.
Talvez, só talvez, o charme do Dr. Eduardo Vieira tenha ajudado esse relaxamento.
N: Olhaaaa... já temos um primeiro nome na roda.
M: Isso nem é verdade. Eu e o Eduardo trocamos meia dúzia de palavras.
Jul: E olhares que valeram por mil conversas... e das mais quentes.
As duas se encaram em desafio e Nanda interrompe.
N: Ei, preciso de explicação. Quem é esse Dr. Eduardo?
Jul: Ele é irmão da Mariana. Um advogado lindo que parece ter saído de um filme da Disney. Loiro, olhos verdes, alto, barbudo e completamente vidrado na nossa Manuela aqui.
De fato, vou concordar que não rolou nada – que eu saiba-, mas foi por pura resistência dessa aí. A química era explosiva. Eu realmente achei que ainda iam se acertar, de tanto que ele arranjava desculpa para aparecer no hotel, mas a Manu voltou para o RS antes do combinado e acabou não dando tempo.
Nanda olha bem para Manu nessa explicação e percebe o rubor da amiga, mas decide guardar essa cena para perguntar depois.
N: Poxa Ju, se você me disser que o máximo que a Manu aprontou foi sexo via olhar, eu desisto de você também.
Jul: Que nada. Acho que esse encontro aí serviu para mostrar que ela tava viva, pois depois disso eu finalmente consegui arrastar ela para sair. Ou melhor, aproveitar cada cantinho do resort pelo menos, especialmente a boate né Manu?
N: Boate??? Manuela, que te viu, quem te vê! Nunca te imaginei como a rainha do clubbing.
Jul: Você quer que eu conte mesmo ou você conta? Juliana pergunta olhando bem para Manuela enquanto ela tenta disfarçar com um gole interminável de chope.
M: Tá, eu conto, mas pede uma comida para gente e mais uma rodada que eu vou precisar ir ao banheiro antes.
Comportem-se.
Manu se levanta enquanto Juliana já se adianta chamando o garçom e o metralhando de pedido.
N: Tá com fome assim é?
Jul: Pior que sim, mas na verdade é que eu estou bem empolgada com a noite. Fazia muito tempo que não via a Manu tão leve e quero aproveitar.
N: Ela está mesmo né?
Jura que ela realmente relaxou um pouco em Florianópolis.
Jul: Juro. Ela ia ficando cada vez mais tensa quando tinha que voltar para ver a Julia, mas sempre voltava feliz, como se tivesse conseguido dormir bem e estava com todo gás para mais uma fase. Foi muito triste quando ela veio embora, senti muita falta dela. É uma amiga incrível e sou muito grata pelo que me ensinou profissionalmente e pela chance que me deu em Gramado.
N: Por isso a gente se dá bem. Fomos duplamente abençoadas com esse anjo na nossa vida para equilibrar o espírito de porco que habita em nós.
Nanda e Juliana riem e brindam bem na hora que Manuela retorna.
M: Eu queria ficar assustada com vocês nessa energia aí, mas estou achando muito bonitinho vocês terem se achado. De nada.
Juliana e Nanda tendo acabado de brindar justamente pela gratidão por Manu, dão risada e Manuela dá de ombros.
Jul: Vamos lá Dona Manuela. Agora que voltou, pode passar a ficha toda do Rafael para a Nanda.
N: Oba, mais um nome! Gostei. Conte mais D. Manu.
M: Não tem tanta coisa assim para contar. Rafael era o gerente geral da boate do hotel e de vez em quando fazia bico de DJ, então, obviamente ele estava sempre na boate.
A Juliana e a Elisa (a dupla dessa doida aí – Manu fala apontando para Juliana que lhe dá língua), amavam aquele lugar e sempre me arrastavam.
Jul: Claro! O bartender era super nosso amigo e sempre liberava muito álcool de graça pra gente, sem contar que o lugar era incrível, a música boa, tinha gente de Floripa inteira lá e, ainda por cima, não tinha perrengue para chegar em casa em dia de semana, já que morávamos no resort.
N: É, realmente, difícil competir. Mas me contem mais, qual é desse Rafael?
M: Nada demais. Ele era bonitinho, cismou comigo e a gente ficou algumas vezes. Só.
Nanda apenas vira para Juliana
N: Você deu uma chance para ela, agora conta a versão que eu considerarei a oficial dessa história.
Juliana ri e começa a contar: Então...
Início do flashback
Rafael e Juliana conversando no acesso externo da boate (onde conseguem se ouvir) enquanto esperam Manu e Elisa que tinham ido ao banheiro:
R: Ah Juliana, me fala como acessar a Manuela, ela não dá uma brechinha e eu preciso conhecer ela.
Jul: Ué, mas você já não conhece ela?
R: Conheço, mas não consigo trocar mais do que um oi, tudo bem.
Jul: E o que você quer com minha amiga chefe? Ela não é uma dessas turistas que aparece por aqui e que você conquista por uma noite. Você sabe disso né?
R: Claro que eu sei. Eu quero conhecer ela melhor não é só porque ela é linda, o que é incontestável, mas porque ela tem um jeitinho tão doce, um sorriso que eu quero despertar... Não sei, tem alguma coisa que preciso descobrir. Você sabe que não vou aprontar nada, principalmente porque ela é uma das chefes de departamento do hotel e não vou queimar a gente.
Jul: Bom, sendo assim, o máximo que posso te garantir é um tempo sozinho com ela, para você tentar se aproximar. Uma dica: Ela ama música e você é Dj.
Juliana fala com Rafael já vendo o retorno do assunto. Ela nem espera as duas pararem, pega Elisa pela mão e a arrasta para pista de dança sabendo que Manuela não vai seguir, considerando o tipo de música.
R: E aí Manuela, não quis enfrentar essa muvuca na pista?
M: É... essa batida de eletrônica não faz muito meu estilo.
R: E o que faz você se soltar? Você é do tipo que sente música com o ouvido apenas ou deixa ela passar pelo corpo todo.
M: Você diz dançar? Acho que não é muito minha praia, não faço bem.
R: Na verdade digo de sentir. Música é uma coisa muito doida para mim, transporta a gente para qualquer lugar. Sabe quando cheiro te coloca exatamente em um momento do passado? Ou ainda quando alguém faz um movimento e você tem deja vu?
Manu que estava só conversando por conversar enquanto esperava o retorno das amigas, passa a realmente prestar atenção em Rafael e os dois passam a ter uma troca genuína e ela começa a vê-lo de verdade, despertando o interesse.
Depois, os dois já estão sentados numa das mesas externas e nem percebem que passaram um tempão trocando ideia.
R: Mas me fala, você não percebeu de verdade que estou com os quatro pneus arriados por você?
Manu fica muito surpresa com o quanto Rafael é direto e começa a gaguejar.
M: Ah... eu... não é... não exagera...
R: Manu, é sério. Eu pensei em fazer rodeio, jogar os joguinhos de sempre, mas é verdade que depois de conversarmos tanto hoje, eu só quero andar para frente com você e tenho certeza que você não faz o tipo jogadora também. Quero deixar super claro meu interesse e se você não tiver afim, obvio que vou ficar baqueado, mas não vou te perturbar. Mas se você me der qualquer chance, acho que a gente pode ter uma coisa legal entre a gente.
Rafael fala olhando nos olhos de Manu, já com o rosto cada vez mais próximo. Quando ela dá um pequeno aceno com a cabeça, ele não pensa duas vezes e mergulha em um beijo intenso com ela.
Manu por sua vez nem percebe que concorda com Rafael, porque o corpo acaba falando mais rápido do que a cabeça e ela reage instintivamente e se permite curtir o beijo novo e, não vai mentir, tão gostoso. Completamente diferente de Rodrigo e com um ar de novidade que era irresistível naquele momento.
Elisa e Juliana que passaram a noite toda de olho na amiga, perdem o momento histórico e só depois, no fim da noite, ao irem recolher Manuela para ir embora, conseguem flagrar o casal que se formou na noite, num amasso de tirar o fôlego.
Fim do flashback
Nanda parece uma criança animada ouvindo o relato das duas que se preenchem ao contar a história.
M: Você exagera Ju... Manu fala com as bochechas avermelhadas.
Jul: Mentira Nanda, ela não quer admitir porque ficou morrendo de vergonha quando percebeu que a gente tinha visto.
M: Não é bem isso.
Na verdade, eu acho que eu me surpreendi comigo mesma. Quando o Rafael me beijou, pensei que esse era o ápice da chance que eu estava dando, mas aí, não vou mentir, foi muito difícil parar. Eu não queria parar. E quando vocês apareceram foi que eu me dei conta.
Jul: Então você admite que vocês estavam se pegando loucamente e que se não tivéssemos ido lá, você tinha dado para ele no primeiro dia?
Nanda cai na gargalhada e Manuela olha indignada para Juliana.
Jul: Admite Manuela, só está a gente aqui.
M: Ok, vou admitir que as coisas esquentaram muito mais rápido do que eu previa e que talvez, no ritmo que estava, pode ser que eu tivesse levado ele para o meu quarto naquele dia se vocês não tivessem aparecido. Mas não significa que já teria dado para ele, afinal, mesmo depois da gente ficando um tempo, eu ainda demorei para dar esse passo.
Jul: Demorou mais do que eu esperava, porque a partir daí o negócio só foi melhorando né?
Manuela vira a cara com um sorrisinho de lado.
N: Ahhh quem cala, consente.
Nanda e Juliana caem na gargalhada e acabam contaminando Manuela, que se empenha ao máximo para trocar logo de assunto.
Depois de transitarem pela vida de Juliana – que estava investindo em um flerte descarado com um funcionário público que pegava o mesmo ônibus que ela todos os dias – e Nanda que disse que estava dando um tempo de homem depois do desastre com seu vizinho, focando completamente em Francisco e o brechó, se veem novamente falando da vida de Manuela.
N: Ok Manu, agora que eu e Juliana já te atualizamos, eu quero saber de você? Não apareceu ninguém desde o Gabriel? Além do Voldemort, claro.
M: Eu não estou procurando nada Nanda. Realmente fiquei mal com meu término com o Gabriel, mas saquei que o problema era que ele estava em outra fase. Queria mais do que eu podia dar e não sei se minha situação mudou muito.
N: Mas aí não é necessariamente algo que está no teu controle minha amiga, a vida se encarrega de colocar as pessoas no nosso caminho.
Jul: Bom, nesse caso, eu diria que a vida está te empurrando o Felipe, né Manu?
N: Como assim? Nessa hora da madrugada que eu fico sabendo que a gente tem história do presente para discutir?
M: A Manu está tirando um sarro. O Felipe é o sommelier de uma rede de hotéis que é cliente do buffet e digamos que nossos santos não batem.
Jul: Você está pegando leve né?
Nanda, o cara é lindo, tem um sotaque super charmoso da Argentina, entende tudo de vinho e tira a Manuela do sério no pior dos sentidos. Seria cômico se não envolvesse trabalho. Qualquer dia eles saem no tapa.
M: Não vou nem dizer que você está mentindo, porque é verdade. O cara é uma mala. Se acha melhor do que todo mundo porque entende de vinho caro e sempre dá um jeito de insinuar que o buffet não está a altura dos produtos que ele coloca nas cartas de vinho dos hotéis.
N: Nossa, que babaca.
Jul: Assim... longe de mim defender o inimigo, mas acho que ele e Manu despertam o pior um no outro. Porque quando trato com ele, ele é uma pessoa menos prepotente e a Manuela quando está em reunião com ele, fica teimosa com umas coisas que normalmente eu tenho certeza que ela cederia. Não sei o que acontece. Quando se juntam é tiro porrada e bomba.
N: Vai que isso aí não é um sinal que deveriam explorar esse fogo todo em outro lugar.
Jul: Olha que não é má ideia. Você tem que admitir que ele é um gato Manuela.
M: Se é, já deixou de ser, de tanto que ele me irrita.
Juliana dá uma piscadela para Nanda, que sorri com o cantinho da boca.
No auge da madrugada e muita conversa e álcool depois, Nanda é a motorista da vez e ajuda Manuela a colocar Juliana no quarto de hóspedes da casa da cozinheira, já que ela dormiu no carro. Manu e Nanda acabam esticando mais um pouquinho a noite, para dar uma acalmada no álcool antes de Nanda voltar pra casa.
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