Vida que segue
9 Por enquanto. Cassia Eller
Notas iniciais
SEMANAS DEPOIS
Ana consegue finalmente marcar um encontro com Manuela depois de várias tentativas frustradas de ter um momento privado com a irmã.
M: Nem acredito que a gente conseguiu dar uma volta só nós duas.
A: Nem me fala. Usar a troca da Julia para conversar não dá né? Ela ama ficar com nós duas juntas. Acho que é o êxtase para ela, ter as duas mães à disposição dela.
M: É verdade. E como não amar né?
Manu e Ana conversam banalidades enquanto procuram um lugar para sentar no parque para aproveitar o dia confortável, com um Sol lindo e um friozinho gostoso.
M: Mas me conta. Como foi o torneio no Uruguai?
A: Foi maravilhoso Manu, é a primeira vez que tenho duas atletas competindo simultaneamente num campeonato internacional!
A Sofia está cada vez mais firme, é lindo ver a segurança dela! E a Gabi então? Ninguém imaginava que ela fosse ter uma posição tão boa para a primeira competição.
M: Que ótimo Ana! Eu fico tão feliz que o esporte ainda te dê tanta alegria... Nem acreditei quando você falou que conseguiu o mesmo patrocinador do início da sua carreira.
Eu sei que a Eva foi a responsável por eles terem mantido o contrato mesmo depois do acidente, mas eu confesso que sempre achei admirável a atitude deles! Eu achei que o apoio deles foi de muito bom gosto, nunca achei que exploraram tua história.
A: Eu concordo minha irmã, eles foram ótimos! E o melhor é que eles não estão ME patrocinando, e sim a minha equipe! Eu não sou mais a A Ana Fonseca...agora eu sou Time Fonseca! É maravilhoso!
Os recursos são excelentes e eu estou conseguindo aumentar a divulgação do trabalho do Lucio na ONG, sem contar que agora dá pra bancar o trabalho dos dois professores que trabalham comigo e que já fazem um trabalho de base com as atletas mais novas!
M: Seus olhos brilhando assim ficam ainda mais lindos!
Mas fala se você não está feliz com a folguinha? A Julia estava até tirando sarro do Lucio de tanta saudade que o homem tava sentindo!
A: Não vou negar não!! Se eu não fosse tão concentrada no jogo eu morria de tanta saudade do meu grandão!
M: Grandão? Ahhh mas esse apelido vai ter que surgir em alguma conversa de família – As duas riem.
A: Para com isso que você me complica! Você conhece meu noivo, ele ia ficar morrendo de vergonha!
M: Olha você enchendo a boca pra falar noivo... É muito bonitinho sabia? Você está irritantemente feliz, não é?
A: Estou sim Manu... Não consigo lembrar de nenhum momento que tudo estivesse tão maravilhoso na minha vida!
Eu finalmente me realizei no tênis, nós duas estamos bem, a Julia está cada vez mais linda, cheia de vida, de saúde e a nossa relação está tão boa!
Finalmente ela confia em mim, ela me ama como mãe dela, sem tirar nada do que ela sente por você... ela me ama Manu – As duas sorriem com lágrimas nos olhos.
E o Lucio? O Lucio é um homem maravilhoso, eu o amo como eu nunca pensei que fosse possível...
Parece que eu finalmente entendi o que significava esse sentimento entre um homem e uma mulher... Me dói pensar que eu demorei tanto, mas ao mesmo tempo, quando eu estou com ele, quando falamos do nosso casamento, quando eu acordo nos braços dele, quando eu fico encarando ele enquanto ele lê, ou brincando com a Julia... Eu sei que a minha vida me encaminhou até ele, tudo que eu fiz de errado, tudo o que eu fiz de certo, sabe?
M: Sei... – Manu fala com um sorriso frágil nos lábios
A: Me desculpa Manu... eu me excedi... eu não queria...
M: Imagina Ana! Eu adoro te ver assim, tão feliz, tão cheia de luz!
A: Eu sei que sim..., mas ao mesmo tempo... Ah não sei...
M: O que foi Ana? Não tem nada que você não possa falar pra mim, eu juro.
A: Eu sei..., mas a verdade é que eu acho que a gente ainda não está normal uma com a outra e tenho medo de falar a coisa errada.
M: Como assim não está normal? Do que você está falando?
A: Na verdade não sei explicar direito. Estamos bem, é claro que estamos... quando converso com você eu tenho total conforto e liberdade e não tem nada que eu não queira te falar.
M: Então? Qual o problema?
A: É que eu não sinto que é a mesma coisa para você. Eu não sinto que você se sente totalmente à vontade comigo e isso me dá aflição. Parece que você me ouve sempre, mas não gosta de falar muito e eu acabo me sentindo meio de fora da tua vida.
Eu tenho medo que eu tenha quebrado completamente a confiança que você tinha em mim quando acabei com o teu casamento com Rodrigo e você não me considere mais uma amiga. – Ana fala tudo correndo, desesperada para dividir as aflições que estava guardando há tanto tempo.
Manu fica um pouco em choque e tenta digerir rápido o que acabou de ouvir para escolher as palavras certas.
M: Ana, não sei nem o que te dizer, eu jamais quis fazer você se sentir assim. Me perdoa.
A: Que isso Manu, você não tem que me pedir perdão, afinal essa situação é muito mais minha culpa e eu tenho que entender, mas estou tendo muita dificuldade.
M: Não Ana. Para. Você não tem que entender nada, porque é claro que você ainda é minha amiga. Meu Deus Ana, você é a pessoa que mais amo no mundo depois da Julia. Eu pensei que você soubesse disso.
E quanto ao que você falou do meu casamento...
A: Desculpa, não queria tocar nesse assunto, eu sei que...
M: Ana, me escuta por favor.
Ana concorda com a cabeça e se cala.
M: Primeiro eu quero que você entenda que você não destruiu meu casamento com Rodrigo... Escuta – Manu fala quando vê Ana pegando ar para falar – ...
Eu já refleti muito sobre o que aconteceu e hoje eu tenho convicção que se eu e Rodrigo tivéssemos uma boa fundação, nosso casamento teria resistido qualquer adversidade, mas a dúvida dele só demonstrou que ele não tinha certeza da gente e isso não é culpa sua. Aliás, isso diz muito mais sobre o meu relacionamento com ele do que o seu.
Eu não quero de verdade que você pense nisso. Que se sinta culpada. Eu custei para entender que o Rodrigo e eu, a gente não era para ser e, sem querer expor muito o que eu acho que tem que ser preservado entre eu e ele, eu acredito que apesar da forma dura que eu percebi, o fato era que aqueles anos que nós tivemos juntos, foram parte de um capítulo que tinha hora para acabar. De uma história que não era para mim de verdade.
Ana escuta chorosa, discordando da irmã, mas sem ter argumentos para rebater algo que realmente desconhece.
M: E quanto a gente, eu sinto muito que você tenha se sentido assim. Eu te escuto com tanto prazer, eu realmente sou tão interessada sobre a tua vida que nem penso muito sobre o que está acontecendo com a minha.
Aliás, minha vida é tão monótona né? Basicamente Julia, Buffet e agora essa história de chef consultora que está tomando boa parte das minhas energias.
A: Manu, não é bem assim né? Eu sei tudo sobre a Julia e acho que estou atualizada quanto tua vida profissional, mas parece que tem uma barreira quando as coisas ficam mais pessoais.
Eu vi várias vezes a Nanda ou até a Juliana quando encontro com ela, com muito mais intimidade com você, principalmente quando comentam dos teus relacionamentos, como agora com o tal do Felipe.
M: Mas isso é porque as duas não tem limites – Manu conta rindo, mas logo para quando vê que Ana está falando sério.
M: Sério Ana, eu não voluntario nada da minha vida para as duas da mesma forma que não faço com você.
Acho que a diferença é que como a Juliana está mais inserida na minha rotina, ela acaba tendo uma noção melhor do meu dia a dia, dos meus horários, folgas, etc., e ela e a Nanda hoje são muito próximas e se divertem demais em me deixar nervosa daí acabam me pressionando para saber de coisas que eu às vezes nem sei direito sobre mim.
M: Mas não vou fingir que você não tem um pouco de razão também- Ana olha para Manu com grata surpresa com a admissão — Eu confesso que falar da minha vida amorosa, ou até a falta dela, é um terreno perigoso para tratarmos. Eu temo que tudo volte para o Rodrigo e eu estou tentando viver minha vida além dessa história. Eu não quero que o meu casamento, o ou o fim dele, definam qualquer coisa na minha vida.
A: Então você está me dizendo que não é pessoal, mas ao mesmo tempo é.
M: Mais ou menos. É uma mistura de falta de oportunidade com falta de empenho da minha parte. Além disso, como a gente mesmo falou, normalmente estamos com a Julia e tem coisas que eu não acho apropriado conversar na frente dela, sem contar que com a sua rotina e a minha em sintonias diferentes, a gente realmente não fica a sós. Eu não estou reclamando, mas até nossos momentos de adulta normalmente são com a vovó, ou com o Lucio.
Você sabe que sou reservada. Não é da minha natureza falar muito de mim, daí quando tem alguma coisa que eu quero evitar, fica mais fácil para mim e acho que nem percebo mais.
A: Eu acho que te entendo melhor agora. Mas confesso que estou com essa sensação ruim há bastante tempo... desculpa por não ter falado antes, mas acho que morro de medo de você se afastar de mim.
M: Mas esse teu medo é culpa minha Ana. Eu fui tão radical quando brigamos, te excluí tão completamente da minha vida, que até entendo a tua falta de confiança em mim – Manu comenta com a voz baixa, desviando o olhar da irmã, com um certo constrangimento.
A: Não Manu, eu sei hoje que você não foi radical quando se afastou do mal que você estava sofrendo, você foi forte de viver sozinha um peso que merecia ser dividido com alguém. Que em outras circunstâncias, você dividiria comigo.
As duas se olham com o coração apertado e os olhos marejados, lembrando do sofrimento que passaram.
M: Não queria reabrir essas feridas Ana, de verdade.
Vou tentar melhorar em dividir as coisas com você, ou pelo menos te empatar com aquelas duas malucas.
A: Eu estou morrendo de ciúmes delas, você percebeu né?
Manu ri e concorda.
A: Mas na real, eu não posso deixar de ficar feliz que elas estão na tua vida. Você sempre foi tão na sua, nunca foi de ter amigas além de mim e eu tinha uma vida cheia de compromissos desde sempre.
M: Eu sei que te sufocava...
A: Claro que não sua boba.
Só disse isso, porque eu sei o quanto foi solitário para você quando eu estava naquela loucura do tênis e hoje eu tenho que sentir alívio que não é mais assim.
Uma pena que a Nanda até hoje não me atura, senão eu tentava me inserir descaradamente nesse teu clubinho.
Manu ri e defende Nanda – Não é que ela não te ature. Acho que na verdade vocês se conhecem pouco...
A: Ai Manu, não quero gastar nosso tempo falando da Nanda, quero saber mais de você, agora que me sinto à vontade para perguntar.
O que está acontecendo com esse Felipe? Eu pensei que trabalhavam juntos e você nem gostava dele.
E o Gabriel? Nunca mais falou dele?
Um dia desses ouvi a Juliana falando que sentia falta da Manu de Floripa, do que ela tá falando?
Além disso, me desculpa a cara de pau, mas eu vejo o quanto o Rodrigo está louco por você e fica te olhando que nem um cachorro perdido há meses e não entendo mais nada da dinâmica de vocês dois.
M: Ok, calma, vou te falar de tudo e na ordem. Quer ir lá para casa? Acho que a gente fica mais à vontade.
A: Vamos sim. – Ana se levanta com um sorriso no rosto e esperança renovada.
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