Vida longa, Simon Snow

1 Vida longa, Simon Snow


I said: Remember this moment
In the back of my mind
The time we stood with our shaking hands
The crowds in stands went wild

We were the kings and the queens
And they read off our names
The night you danced like you knew our lives
Would never be the same

Era uma vez...

As pessoas tendem a valorizar muito este início e, como leitor ávido e aluno destaque da turma por anos consecutivos, eu acho que se esquecem quanto o que realmente importa é o que vem depois. A narrativa de um garoto e um dragão é absolutamente distinta da de um garoto-dragão, por exemplo, tanto quanto o encontro de um herói e um vampiro pode resultar em um milhão de finais distintos.

Eu sempre soube que Simon Snow era o protagonista dessa história. Até cheguei a adereçar esse fato para ele naquele baile, meses atrás, em que dançamos como se soubéssemos que nossas vidas jamais seriam as mesmas. Mas a questão de ser um dos personagens na épica história de vida de Simon Snow é que, muitas vezes, a gente mal se dá conta de estar escrevendo um novo e importante capítulo enquanto ele acontece.

Página a página, a história se constrói assim.

Um diálogo por vez. Uma pequena ação. Uma paisagem.

Coisas das quais nos damos conta apenas quando observamos de fora.

Enquanto caminho pelas calçadas de Londres nesta tarde de início de verão, permito que minha mente se enverede pelas memórias do que significa ter feito parte da jornada de herói do Escolhido.

Talvez seja exagero meu, do meu olhar infantil ainda muito deslumbrado com tudo a minha volta e do turbilhão de emoções em meu estômago ao retornar para o lugar onde perdi minha pessoa favorita no mundo e fui condenado a uma maldição para a vida inteira no mesmo dia, quando tinha apenas cinco anos, mas sinto ter sabido desde o primeiro instante no Grande Gramado que aquele era um momento digno de ser lembrado.

Inúmeras crianças, professores e funcionários de Watford reunidos para presenciar a cerimônia do Cadinho. Uma multidão de pessoas hipnotizadas pelo frenesi de possuir o herdeiro do Mago e o último Pitch no mesmo ambiente. Eu e Snow, coroados como reis de nossos respectivos lados da guerra. Profetizados para um futuro mútuo de glória e ruína quando, na verdade, não passávamos de dois garotos com mãos tremendo de ansiedade.

(Eu só sabia disfarçar melhor).

Eles leram os nossos nomes – uma pulsão mágica me empurrando na direção daquele menino magrelo de olhos muito azuis arregalados – e, então, o destino estava traçado.

Apesar do medo, da estranheza e novidade do mundo se revelando a seu redor, Simon manteve a cabeça erguida – como o herói que aquele filho da mãe corajoso sempre foi – e estendeu sua mão para que eu apertasse.

Um gesto minúsculo, mas certamente o início de uma era.

You held your head like a hero
On a history book page
It was the end of a decade
But the start of an age

●○⸸○●

I said: Remember this feeling
I passed the pictures around
Of all the years that we stood there on the sidelines
Wishing for right now
We are the kings and the queens
You traded your baseball cap for a crown
When they gave us our trophies
And we held them up for our town

Transito por lojas que nunca me dei o trabalho de notar: vitrines repletas de roupas e bibelôs, um sebo com coleções promissoras de lombadas desgastadas, uma padaria diminuta com um aroma delicioso de especiarias escapando o limite de suas paredes... Perdido em pensamentos, percorrendo meu próprio passado, é um pouco como se me apresentasse às ruas da minha nova vizinhança também.

Em um momento de claridade, permito que essas sensações novas se mesclem com minhas recordações antigas, trazendo à tona todos os anos em que sonhei com este momento, ainda que mal o considerasse possível.

Ainda que nem meu devaneio mais louco pudesse se assemelhar com a realidade de agora.

Plec. Plec. Plec.

Cada passo meu ressoa na calçada e chega a ser engraçado o quanto meus pés me levam ao passado com a mesma facilidade com a qual me transportam para o apartamento para onde me dirijo.

Vejo um grupo de adolescentes no outro lado da rua, caminhando como se fossem os donos da cidade, e não posso evitar pensar em Simon e em quanto – mesmo sendo considerado o Salvador do mundo dos Magos por todo mundo – ele jamais andou com tal confiança, trajando uma postura de desinteresse com o mundo a seu redor. Corajoso ele sempre foi, mas Snow não usava disso como uma armadura de imponência.

(Talvez desde muito cedo as responsabilidades e expectativas lhe pesando demais).

Quando me lembro dele em suas caminhadas vitoriosas, nunca é recebendo louros ou troféus por suas conquistas. Nem mesmo quando, contrariados, os integrantes das Famílias Antigas tiveram de dar o braço à torcer e parar de tentar desmoralizar o protegido do Mago como se aquilo fosse um absurdo.

Não.

Simon Snow para mim sempre será o garoto sardento e meio sem jeito que, mesmo sem ter tido acesso a uma aula de etiqueta e boas maneiras sequer, se assemelha a um príncipe quando seus cachos acobreados refletem sobre o pôr-do-sol.

Realeza inversa, pois esse mesmo menino que carregava uma bolinha vermelha de plástico para todo canto – tão pequeno, jovem e cheio de vida – foi escolhido como o alvo perfeito para determinar o novo rei dos Goblins apesar de jamais ter tido uma coroa sob sua cabeça.

Com um sorriso tímido no canto de meus lábios, reflito que – ao contrário do que minhas provocações em Watford enunciavam – jamais poderíamos ter pedido por alguém melhor.

Simon – incrível, doce Simon – capaz de salvar o mundo com pouco mais do que um sorriso e um par de jeans rasgados.

And the cynics were outraged
Screaming: This is absurd
'Cause for a moment a band of thieves
In ripped up jeans got to rule the world

●○⸸○●

Long live the walls we crashed through
How the kingdom lights shined just for me and you
I was screaming: Long live all the magic we made
And bring on all the pretenders
I'm not afraid

A carreira de herói de Simon Snow começou bem cedo e se há alguém gabaritado para tocar no assunto, essa pessoa sou eu. Pude testemunhar suas aventuras de perto – embora não da forma como gostaria, sem lhe oferecer apoio e cuidar de cada pequeno arranhão na época – e é a partir de reflexão minuciosa que sou capaz de afirmar que seu encontro com o dragão no último ano foi decididamente a vitória mais impressionante e bela de sua longa lista de sucessos.

(“Reflexão minuciosa” o caralho. Tenho sim uma opinião parcial no assunto e não quero nem saber. Quem não gostar que me processe...)

Qualquer um no Mundo dos Magos era capaz de sentir a extensão do poder de Snow, mas a verdade é que, acima disso, Simon sempre teve uma presença mágica e, quando penso nisso, sou imediatamente transportado para aquela tarde no gramado em frente à escola.

Alunos menores gritavam e corriam, tentando se afastar do perigo e da sensação horrível de ar quente e coceira que o Insípidum costumava causar, enquanto Simon – tal qual um cavaleiro de conto de fadas – corria em direção ao dragão de escamas vermelhas soltando fogo, com nada além de sua espada em punho.

As chamas se alastravam facilmente pela grama e, sabendo ter que pensar rápido, me lembro de constatar que, embora a ponte levadiça não necessariamente oferecesse uma vantagem, era algo que eu poderia usar a meu favor. Sem pensar em mais nada, comecei a correr – assistindo impotente olhos amarelos furiosos se focarem em Simon, sabendo que eu precisava fazer alguma coisa logo— e gritei com toda a força de meus pulmões para que ele não machucasse o dragão.

— Eles não são criaturas sombrias!

(E quão maravilhoso foi ver aquele garoto estupidamente corajoso se preocupando mais com o fato de seu autoproclamado inimigo ser inflamável do que com o ser mitológico gigantesco e ameaçador em sua frente).

Sem titubear por mais um único segundo, comecei a cantar uma cantiga de roda do início ao fim, sabendo que aquela seria uma das magias mais poderosas (e cansativas) a ser performada em toda minha vida.

Eu sabia ter perdido minha compostura em algum dos versos do meio – suor escorrendo pela testa, minha voz tremendo no final das rimas – sem nunca parar de recitar o feitiço. Estava determinado a concluir aquela magia, nem que me exaurisse completamente. Foi quando meu braço começou a ceder, exausto, que notei Simon de pé ao meu lado. O Escolhido apoiou sua mão em meu ombro para me estabilizar e, num instante, todo o Universo pareceu se revelar diante de mim. Uma fonte aparentemente infinita de magia começou a fluir pelas minhas veias e, com força renovada, fui capaz de finalizar o encantamento e mandar o dragão para longe.

Mais um obstáculo vencido, outra barreira atravessada. As luzes do final da tarde somadas ao brilho das lâmpadas da escola lançando uma aura dourada sobre aquele momento excepcionalmente mágico e, quando as pessoas reunidas ao nosso redor começaram a aplaudir, lancei um “Do jeitinho que estavam!” já tendo a clara impressão de que nada, jamais, seria como antes.

Estava escrito naqueles olhos impossivelmente azuis, nas (metafóricas) montanhas movidas em conjunto e na certeza de estarmos fazendo história.

(Embora talvez não da forma anteriormente imaginada).

Simon Snow, vivi o ápice de minha existência lutando contra dragões ao seu lado.

Long live all the mountains we moved
I had the time of my life fighting dragons with you
I was screaming: Long live that look on your face
And bring on all the pretenders
One day we will be remembered

●○⸸○●

Hold on to spinning around

(Não sabíamos o que viria a seguir. Acho que nem o mais habilidoso vidente poderia ter previsto. Mas lembro, sim, de ter me agarrado a cada pequeno momento na companhia de Simon Snow como se pudesse fazê-lo luz para guiar meu caminho, tal qual as estrelas na noite em que dividimos magia).

Confetti falls to the ground

(Recordo de contemplá-lo de perto – cada pinta, cada matiz de azul em seu olhar – e pedir para todo e qualquer antepassado que pudesse olhar por mim, rezando para que essas preciosas memórias amenizassem nossa queda. Nossa profetizada e inevitável queda).

May these memories break our fall

●○⸸○●

Will you take a moment?
Promise me this
That you'll stand by me forever
But if, God forbid, fate should step in
And force us into a goodbye
If you have children someday
When they point to the pictures
Please, tell 'em my name

Tell 'em how the crowds went wild
Tell 'em how I hope they shine

Desde o momento em que compartilhamos mágica e invocamos estrelas em nosso quarto na Torre dos Mímicos, algo se transformou profundamente em nossa dinâmica. Quase de forma tímida, a princípio, mas nem por isso menos impactante.

A suavidade estrangeira e curiosa em nosso trato um com o outro ia muito além de qualquer trégua e foi assim que uma noite, logo após nos deitarmos para dormir, Simon achou que era um bom momento para romper o silêncio e desestabilizar meu mundo de uma forma completamente nova.

— Baz?

— Hum? – Não havia porque fingir não tê-lo ouvido. Sempre foi impossível me desligar da força da natureza que era Simon Snow.

Aparentemente, o som descompromissado que emiti foi o suficiente para encorajá-lo e, com menos de dez segundos de hesitação, ele deu voz ao pensamento em sua cabeça.

— Você pensa em ter filhos?

Tenho quase certeza de que minha respiração se suspendeu e foi quase engasgado, agarrando-me a qualquer resquício de controle, que proferi meu próprio questionamento.

— De onde veio isso?

— Sei lá... Tava pensando sobre o futuro... – A expressão em seu rosto era tão distante e melancólica, quase assemelhando-se à desesperança, e foi preciso muito autocontrole para não toma-lo em meus braços e jurar protegê-lo do mundo – Como serão as coisas para as pessoas que conheço, sabe? E você não respondeu à pergunta...

Aquele instante era frágil demais para simplesmente deixar passar e eu estava tão cansado de ocultar meu carinho por aquele pesadelo lindo em forma de gente que foi mais uma questão de decidir com qual das facetas da verdade eu preferia brincar.

Sem deixar que o ar pesasse por tempo demais sem uma resposta, tentei soar desdenhoso:

— Bom, é você quem está constantemente gritando aos quatro ventos que sou um vampiro... Talvez eu não possa ter filhos.

— Não seja tonto, Baz. É claro que você pode.

Simples assim. Sem nem meio minuto de consideração, porque se tem algo que Simon Snow sempre foi é absurdo.

— Você é especialista em biologia vampiresca agora?

— Não, mas... Você é você, Baz. Um mago talentoso, esperto, brilhante. É claro que você é capaz de ter filhos se você quiser.

Meu colega de quarto simplesmente jogou elogio atrás de elogio em minha direção, como se aquilo não fosse nada demais. Como se não houvesse me fornecido pensamentos para me manter insone por uma noite inteira com apenas algumas palavras.

— Vou te dizer uma coisa: você não faz o menor sentido, Escolhido.

Mesmo no breu, pude discernir sua silhueta dando de ombros e, eternamente incansável, ele não se deixou abalar:

— E então, você os teria?

Sem saber como proceder, não pude conter uma risada antes de tentar elaborar qualquer ideia que fizesse sentido. Não é como se eu houvesse me dedicado a essa linha de pensamento quando acreditava que a única pessoa com quem eu sempre quis dividir a vida jamais me amaria de volta.

— Bem, eu tenho quatro meios-irmãos e eu os amo, então não é como se eu não soubesse como lidar com crianças, mas... – Uma pausa relativamente longa se estendeu enquanto eu considerava o quanto estava disposto a lhe revelar sobre minha condição. – eu não sei. Talvez eu simplesmente não possa, de um jeito ou de outro.

— Eu acabei de te dizer que...

— Eu sou gay, Simon.

— Oh.

— Pois é.

Minhas dúvidas e medos de como ele reagiria diante dessa confissão duraram apenas o tempo de seu cenho franzido suavizar-se.

— Mas... pessoas gays podem ter filhos, não? Adotando ou até biologicamente, né? Pelo menos eu achava que sim.

— Eu sei. – Respondo-lhe com uma risadinha pouco digna, a qual soa quase como um resfolego.

— Então. Desconsiderando todo o resto, você gostaria? De ser pai, eu digo.

Merlin, me lembro de pensar, esse assunto deve realmente ser importante para ele se recusar a deixar para lá.

— Talvez...

— Certo.

Minha resposta não havia sido nada além de incerta, embora aparentemente satisfatória o suficiente para que, depois de mais alguns minutos de silêncio, Simon finalmente revelasse o cerne de seu questionamento:

— Baz?

— Sim?

— Se você os tiver, você... Você acha que vai falar... vai contar para eles coisas sobre mim?

Ar preso na garganta, engasguei um “o quê?” e o esclarecimento sobre o que aquilo se tratava pesou sobre meu peito, enveredando-se por cada canto do meu coração reservado a amar aquele rapaz lindo, generoso e tão fundamentalmente bom.

— Quando eles apontarem para fotografias ou perguntarem sobre seus anos na escola, você... vai contar pra eles? Sobre mim? Você vai ter, sei lá, pelo menos alguma memória boa nossa pra compartilhar?

Sua angústia era tortura e, por isso mesmo, respondi-lhe de imediato com o máximo de emoção que fui capaz de conceber sem revelar a extensão de meus sentimentos.

— Acho que eu consigo pensar em pelo menos uma ou duas, Snow.

— Ah... bom. Isso é bom.

Ele adormeceu pouco depois com um sorriso nos lábios e eu tentei não pensar muito sobre aquilo.

Dias depois, nas Catacumbas, revivi essa conversa e me perguntei verdadeiramente como seria se Simon tivesse filhos com Wellbelove. Se, caso a pergunta fosse feita de modo invertido, o que exatamente Snow falaria para eles sobre seu arqui-inimigo vampiro e colega de quarto.

Há anos eu sabia sobre nosso tempo juntos ter os dias contados – até a última aula do oitavo ano e então mais um encontro na batalha final, nem um minuto além disso – mas de algum modo uma parte minha gostava de se agarrar à ideia de que estaríamos sempre conectados, o Cadinho como uma força mágica e indestrutível do destino. Pensar no acaso interpelando esses planos era sempre visualizar meu sangue finalmente sendo derramado e uma despedida forçada onde eu talvez tivesse coragem de lhe entregar a suavidade do meu amor pelo menos uma única vez.

Acho que chorei um pouco naquele dia e, apesar do ciúmes e da dor desse futuro não ser comigo, rezei para que Simon se ativesse nas coisas boas, contando-lhes sobre como a multidão costumava ir à loucura com nossas vitórias – as minhas no futebol, e as dele salvando o dia. Implorei ao lado do túmulo da minha mãe para que, de alguma forma, meu amado de olhos azuis fosse capaz de quebrar minhas barreiras e decifrar todos os meus silêncios com o tempo, para que ele soubesse com certeza o quanto eu espero que eles brilhem.

Só lhes desejo felicidade, pequena pseudo-futura família Snow, sussurrei aquele grito de honestidade na quietude das Catacumbas. Vida longa à toda a magia que fizemos, Simon. Vivi os melhores momentos da minha vida com você.

Long live the walls we crashed through
I had the time of my life with you

Long, long live the walls we crashed through
How the kingdom lights shined just for me and you
And I was screaming: Long live all the magic we made
And bring on all the pretenders
I'm not afraid

●○⸸○●

Singing: Long live all the mountains we moved
I had the time of my life fighting dragons with you
And long, long live that look on your face
And bring on all the pretenders

One day...

A miríade de lembranças revisitadas naquela tarde encontra seu encerramento quando me deparo com a já familiar porta de entrada para o apartamento de Bunce e Snow. Este certamente não é o lugar onde imaginava estar após me formar em Watford, mas aparentemente a vida real tem seu jeito próprio de superar minhas mais ambiciosas fantasias.

A visita de hoje não é cotidiana, entretanto.

(E eu posso realmente chamar de “visita”, quando passo mais tempo aqui do que em minhas próprias acomodações?)

Ninguém tem certeza a respeito da real data de nascimento do Simon, mas Penny e eu decidimos que esse é um evento que certamente merece ser celebrado e o solstício é uma boa data tanto quanto qualquer outra. Poético, quase. Então é por isso que hoje vamos comemorar o aniversário do meu namorado.

(Crowley, meu namorado!)

Fingindo não dar a mínima para nosso plano, há uma semana Fiona me recomendou uma padaria com bons doces e salgados e, pelo aroma exalando da cozinha, eles já devem ter sido entregues juntamente com o bolo. Eu, por minha vez, vim munido de alguns scones porque não sou nada neste mundo além de um soldado da felicidade do meu escolhido.

(Simon se ilumina quando me vê carregando suas guloseimas favoritas e eu nem ligo se o que o deixa radiante sou eu ou os doces porque, Merlin e Morgana, esse olhar em seu rosto...)

Cantamos os parabéns mesmo que o aniversariante em si tenha insistido não ser necessário, mas eu sei que ele está feliz por nós três estarmos reunidos nessa modesta comemoração numa cozinha minúscula. Ele sorri, apagando as velinhas, com uma melancolia que não deixou seus olhos desde os eventos na Capela Branca, mas o mero curvar de seus lábios é a esperança de dias melhores.

Com o coração transbordando amor, enuncio meu brinde:

— Vida longa, Simon Snow.

Não posso dizer que as coisas sejam fáceis. Minha sensação é de que vencemos a batalha, mas nem por isso fomos poupados da angústia que fica. Por tudo que passou, passamos e perdemos. Pelo fato de que esse "fim" não é garantia de nada.

A vida segue, agridoce, porque não temos como saber.

Profecias não contemplam tudo. O futuro é uma incógnita, mas, apesar de tudo, estou feliz pela oportunidade de viver esse talvez.

Penny um dia me confidenciou que espera que eu receba o crédito por encerrar a guerra, mas, no que concerne a épica saga de Simon Snow, não faço ideia de como vão se referir aos eventos que aconteceram em nossa história.

Sendo sincero, não sei nem dizer com certeza se nossas aventuras terminaram ou não, mas de uma coisa tenho certeza: seremos lembrados.

...we will be remembered.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!