Vida em Erebor
38 Velhos amigos e inimigos
Notas iniciais
Velhos amigos e inimigos
Toda jornada tem perigos à espreita
Anna estava surpresa e excitada. Quase dois anos se passaram, e lá estava ela de volta à Curva do Rio, onde chegara com a Companhia, totalmente crua em relação à Terra Média, fugindo de orcs, assustada por qualquer coisa. Ali ela tinha virado empregada por alguns dias, tinha provado cerveja ale na beira de uma fogueira, tinha dançado com anões e tinha ouvido Thorin tocar harpa pela primeira vez. Também ouvira Bofur cantar músicas de taverna e trabalhara em troca de comida e pouso, posando como Anni Bolger, um menino hobbit ao lado de seu tio Bilbo.
Eldrin interrompeu seus devaneios ao se dirigir a Gandalf:
— Vou pedir que cuidem dos cavalos enquanto vocês se ajeitam na estalagem.
— Excelente — concordou o mago. — Nós nos veremos depois. Venha, Anna.
Dentro da estalagem, Gandalf recebeu uma saudação calorosa:
— Sr. Gandalf, que prazer! — O estalajadeiro abriu os braços de alegria. — Não esperava vê-lo por aqui tão cedo!
— Boa tarde, meu bom homem. Espero que você e a família estejam bem.
— Muito bem, obrigado. Em que posso lhe ser útil? — Ele olhou Anna e indagou: — Hospedagem para o senhor e sua família?
Gandalf respondeu:
— Na verdade, continuo um homem solteiro, mas gostaria de um quarto para a senhora e o pequenino. Viajamos com quatro elfos de Rivendell.
— Vamos tentar acomodar a todos. Vou avisar Edna sobre as refeições.
Havia um adolescente para levar água quente aos quartos. Darin e Anna se acomodaram em um quarto e Gandalf dividiu um outro com Eldrin e os guardas.
No jantar, Gandalf e Eldrin sentaram-se à mesa com Anna, enquanto a estalagem se transmutava em misto de comedor popular e taverna, com muito barulho e fumaça. Darin estava de olhos acesos, parecendo maravilhado com todo aquele movimento e agitação.
Se alguém achava estranho a mesa formada por um elfo, um Istari, uma ninfa e seu filho meio anão, ninguém mencionou. Anna estava ocupada em alimentar Darin, distraído com as pessoas novas, mas também se mantinha alerta. Nunca se sabia o tipo de gente que podia entrar numa estalagem.
A refeição foi boa: assado de porco, batatas e pão caseiro. Os elfos comeram pão e queijo. Anna indagou se era possível trocar a ale quente por uma caneca de leite, por causa do bebê.
Depois da refeição, Gandalf recebeu uma visita na mesa, uma que emocionou Anna.
— Sr. Gandalf, que prazer — cumprimentou Dona Edna. — Gostou do jantar?
— Madame, o prazer é todo meu em revê-la. E seu assado ainda continua a ser um dos melhores deste lado do rio Bruinen.
A mulher grande sorriu, sempre expansivo:
— Faço com gosto, como sempre. — Ela cumprimentou Eldrin. —Vejo que é verdade estar viajando com elfos. Saudações, Mestre Elfo.
Polidamente, Eldrin inclinou a cabeça, e ela observava:
— Sejam bem-vindos. Pena que seu povo não costume parar na Curva do Rio.
Eldrin respondeu:
— Viemos escoltar nossos amigos.
Dona Edna observou, com afeição palpável no rosto:
— Sim, posso ver que é uma viagem de família. E com um pequenino!...
Antes que Anna pudesse abrir a boca, Gandalf apresentou:
— Dona Edna, permita-me apresentar Anna de Erebor.
Anna sorriu e completou, em voz baixa:
— Mas talvez a senhora se lembre de mim como Anni Bolger, sobrinho de um hobbit do Shire chamado Bilbo Baggins.
Os olhos da mulher grande se arregalaram:
— Menino..? Você... O rapazinho...?!
Gandalf chegou-se para o lado, a fim de deixar a mulher do estalajadeiro sentar e baixou a voz:
— Gostaríamos de manter discrição sobre isso, se possível.
Edna não tirava os olhos de Anna, com dificuldade para reconhecer o hobbit que fora seu ajudante de cozinha:
— Então é você mesmo? E... com um bebê?
Anna riu:
— Tinha razão, Dona Edna: quando eu menos esperava, eu me vi enrabichada e com um pequenino!
— Ele é uma bênção dos deuses — sorriu ela para Darin, encantada. — E o pai? É o Sr. Gandalf? Ou Mestre Bilbo?
— Oh, não, o pai é um dos anões. Nós nos apaixonamos no caminho e nos casamos. Gandalf conduziu a cerimônia.
— Que maravilha! Felicidades!
Anna completou, sem perder o sorriso:
— Agora estou indo morar com Bilbo. Espero poder viajar por aqui mais vezes.
— Então vão partir amanhã?
Gandalf respondeu:
— Sim, antes da primeira luz.
— Nem sabem como estou feliz por ver vocês! — dizia ela, brincando com Darin. — Que lindo é seu pequenino! E grande! Qual é o nome dele?
— Darin. Ele já vai fazer um ano.
— Ele parece ser mesmo grande para a sua idade.
Darin estava tão feliz em ser o centro da conversa que esqueceu o sono e começou a querer puxar os cabelos de Dona Edna. Anna disse:
— Dona Edna, foi mesmo uma surpresa e alegria muito grande em vê-la, mas eu tenho que colocar esse rapazinho na cama.
— Eu entendo. Estou feliz em vê-los, amigos. Amanhã farei um café caprichado. Mas se precisarem de qualquer coisa, podem chamar.
— Obrigada, Dona Edna.
Quando o sol saiu, no dia seguinte, o grupo estava na estrada fazia um bom par de horas. Como prometido, Dona Edna reforçara o café e depois presenteara Darin com uma touquinha de tricô de uma de suas filhas, já adolescente. Anna adorou o gesto e despediu-se com afeição.
Darin comportou-se como um rapazinho digno do nome Durin durante todo o trajeto. Mas depois que Gandalf anunciou que estavam chegando perto do local de parada, ele começou a reclamar. Anna tentou niná-lo, cantar para ele, mas nada. Ele continuava inquieto. Ela começou a ficar apreensiva.
Gandalf apontou:
— Ali está: Weathertop, ou Amon Sûl. Passaremos a noite lá.
Em primeiro lugar, tratava-se de uma montanha, com os restos de uma antiga construção no topo. As ruínas tinham colunas trabalhadas e um telhado pontudo. Anna ficou confusa.
Eldrin esclareceu:
— Amon Sûl é um antigo posto de observação das colinas Weather. Podemos acampar ali. Continuaremos ao ar livre, mas não estaremos totalmente ao relento.
Então Darin pôs-se a chorar, e Anna sentiu a mágica dele oscilando. Sua mágica também reagiu. Ela disse a Gandalf:
— Não há outro lugar? Darin está com um mau pressentimento.
O mago concordou:
— Sim, há uma energia maligna neste lugar.
Eldrin informou:
— Havia um ninho de orcs instalado aqui não faz muito tempo. Nós os desalojamos.
Gandalf disse:
— Prosseguiremos com cuidado. Avise se seu pequeno tiver outros pressentimentos.
A energia de Anna também entrou em estado de alerta, mas eles continuaram até o posto. Assim que chegaram, os elfos logo entraram em ação, estabelecendo turnos de guarda e recolhendo lenha, enquanto Gandalf e Anna arrumavam tudo para acender a fogueira e os cobertores para dormir embaixo da carroça.
Darin cansou-se de chorar e finalmente dormiu, embora permanecesse inquieto. Anna podia sentir a energia saturando o ar com estática, então também optou por um sono leve.
Demorou um pouco. Então, nas horas quietas da escuridão, o ataque veio e a ameaça que os rondava finalmente se apresentou.
Anna ouviu um rugido alto e um grito: o elfo de guarda estava sendo atacado por um warg imenso e outra fera se aproximava. Eldrin gritou:
— Às armas!
Anna imediatamente pegou Darin nos braços e pôs-se ainda mais escondida embaixo da carroça.
Gandalf usou o cajado para afastar um warg que tentava se aproximar do local onde eles estavam escondidos. Anna criou um escudo envolvendo o filho e ela mesma. Contudo, o escudo caiu quando ela viu Eldrin ser derrubado por um dos animais.
— Eldrin!
Gandalf usou o cajado para salvar Eldrin e gritou para Anna:
— Proteja-se!
Mais animais chegavam para o ataque. Anna contou pelo menos meia dúzia deles e talvez houvesse mais no bando. Ao menos, pensou ela, esses wargs não eram montaria de orcs.
Ou seriam batedores para um bando orc?
Se fosse esse o caso, não poderiam deixar nenhum deles voltar para avisar seus senhores. O ideal mesmo, pensou, era não deixar nenhum deles vivo, mesmo que não estivessem ligados a orcs. Para isso, ela pensou no jeito mais rápido.
— Meu querido Darin — ela disse ao bebê que choramingava —, não tenha medo. Mamãe não demora.
Anna saiu do esconderijo embaixo da carroça e chamou, calmamente:
— Gandalf, preciso que cuide de Darin um instante.
O mago achou que ela estava fora de si.
— Anna, o que acha que está fazendo?!
— Apressando as coisas antes que alguém se machuque. — Ela passou Darin a ele. — Cuide do meu tesouro.
Ato contínuo, ela se concentrou até ver as escamas azuis-esverdeadas tomarem conta de seu corpo, e um rugido formidável ecoou na noite, como um aviso a todos que estavam nas proximidades das montanhas Weather.
Safira estava de volta.
Eldrin sorriu, e os demais elfos se espantaram, sussurrando uma única palavra entre eles:
— Helmahya...!
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Ser um dragão pequeno tinha algumas desvantagens: não se era tão ameaçador quanto Smaug, por exemplo. Suas asas não eram como furacões. Mas as garras de gancho, dentes afiados e o bafo de lança-chamas estavam lá, mortíferos como sempre.
Foi o que bastou para Safira se atirar em cima dos wargs. Ela abriu as asas e usou-as para afastar os animais dos elfos. Enlouquecidas, as feras tentaram morder suas patas, e Safira cravou suas garras nos bichos com satisfação. Ela os ergueu espetadas nas unhas e levou-os para longe, abrindo as asas e alçando voo. Quando as feras estavam todas a uma distância segura do acampamento, o dragão jogou-os no chão, despejou seu lança-chamas neles e torrou todos sem dó nem piedade. Não sobrara um.
Em seguida, Safira levantou voo e supervisionou as redondezas. Era preciso ter certeza de que aquele bando era mesmo desgarrado, não um grupo batedor para orcs. Safira sobrevoou praticamente todas as colinas e mais um território para o oeste. Usou a visão formidável e o faro aguçado. Tudo parecia calmo.
Então voltou a Weathertop. Safira pousou do lado oposto da montanha e depois Anna caminhou até o acampamento. Darin chorava no colo de Gandalf.
— Tudo bem? — indagou o Maiar, ao vê-la chegar.
— Posso fazer a mesma pergunta — disse ela. — Tem alguém ferido? Precisam de médico?
Gandalf disse:
— Estamos todos bem. Só o nosso rapazinho aqui parece estar impaciente.
Anna foi direto aos elfos:
— Já trato dele. Deixe-me observar você, Eldrin.
Ele garantiu, mostrando o braço:
— Foi apenas um arranhão.
— Garras de warg têm veneno — argumentou ela, pegando o braço. — Deixe-me ajudá-lo, meu amigo.
Anna usou a mágica para curar Eldrin e um outro guarda. Recomendou tratarem de outros pequenos ferimentos e então voltou-se para Gandalf.
— Tudo pronto. Venha, meu amor — disse ela, pegando o bebê e fazendo-o soltar a barba comprida do mago. — Pronto, meu querido, mamãe já voltou. Pode largar a barba do tio Gandalf agora.
Eldrin quis saber:
— Está bem, Erulissë?
— Sim, tudo bem. Sem sinal de wargs nas redondezas. Mas estou com frio. Será que é isso que está irritando Darin?
Gandalf convidou:
— Venha esquentar-se à fogueira. E conte-me mais sobre isso.
Os demais elfos estavam espantados. Contudo, eles não se atreviam a fazer perguntas. Eldrin se dirigiu a eles:
— Acabamos de testemunhar um fato raro, amigos. Nosso Lord Elrond conta com sua discrição sobre as habilidades de nossa parente.
Eles prontamente assentiram e curvaram-se com a mão no coração. Anna fez uma mesura:
— Agradeço, amigos. Agora é melhor tentarmos descansar. Há uma longa estrada adiante.
A estrada se mostrou realmente longa depois que saíram de Amon Sûl.
Levaram o dia inteiro até chegar a Bree, já quase de noite. A carroça ficou no lado de fora da estalagem chamada "O Pônei Saltitante". Ficar na famosa hospedaria imortalizada por Tolkien teria sido muito mais glamoroso, pensou Anna, se Darin não estivesse com as fraldas sujas e disposto a manter tamanho berreiro.
Além disso, a exemplo de Darin, Anna também estava cansada, com fome e com frio. Tomou uma caneca de leite com pão e queijo e subiu para o quarto. Tratou de Darin, que caiu na cama após tomar seu leitinho e logo pegou no sono. Com Anna não foi diferente.
Era o melhor para os dois. O dia seguinte seria cheio de emoções.
Palavra em Sindarin
helmahya = troca-peles
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