Vida em Erebor
33 Uma oferta inesperada
Notas iniciais
Uma oferta inesperada
Anna recebe um convite improvável
— Lord Elrond, estimado senhor. — Anna curvou-se. — Muito agradecida por nos receber mais uma vez em sua casa numa hora tão difícil.
O Senhor de Rivendell curvou-se, beijando a mão de Anna:
— Eruanna, Elvellonwen, você é família. Sempre será bem-vinda a esta casa, não somente nas horas difíceis. Fico muito feliz em vê-la bem, após os terríveis relatos que recebi. Fez boa viagem?
— Muito boa, obrigada, graças a Elladan e Elrohir. Ambos deixam seus ancestrais orgulhosos.
Os gêmeos curvaram-se para Anna, e Elrond convidou:
— Vamos à refeição. Conversaremos melhor depois.
Anna ajeitou Darin no colo com um sorriso, quando a voz de Lady Galadriel soou em sua cabeça: "Confie em sua mágica, Eruanna. Pode deixá-la guiar seus passos sem medo."
Anna manteve o sorriso e não comentou o fato.
Só depois que o jantar tinha sido recolhido é que Elrond levou Anna à biblioteca. Authiel recebeu ordens de ficar por perto.
— Oh, que saudades tive desse lugar — confessou Anna, olhando para os livros com afeição. — Mesmo sem conseguir ler em sua língua, eu sempre adorei uma biblioteca. Estel me ensinou alguma coisa, mas eu não podia prejudicar a educação dele.
— Fico feliz que aprecie a biblioteca. — Lord Elrond puxou a cadeira para perto dela. — E também fico feliz em vê-la de volta a Rivendell. Sua ausência é lamentada. Entenda que estou honrado que tenha se sentido confortável o suficiente para vir até nós no momento de necessidade. A mim, particularmente, é motivo de orgulho e alegria.
— Espero que perdoe a ousadia, mas considero Rivendell uma espécie de lar e refúgio.
— As portas deste vale sempre estarão abertas para você — garantiu. — Minha sogra mandou-me extensas recomendações para seu treinamento.
Anna concordou:
— Lady Galadriel identificou minha magia como ligada a poderes de cura. É possível que eu tenha salvado a vida de um guerreiro em Erebor por puro instinto.
Elrond tentou sorrir, mas a voz soou pesada:
— Normalmente, eu não questiono minha sogra. Contudo, um dos guardiães da Terra Média chamou para si a tarefa de treinar seus poderes. Ele conhece muito mais sobre seus poderes e acredita ser capaz de dar a eles completo desenvolvimento — talvez até ampliá-los. E não é sempre que um dos Istari se dispõe a tal tarefa.
Anna sorriu:
— Um Istari? Gandalf pediu para me treinar?
— Não, foi o maior de toda a ordem: Saruman.
O sorriso de Anna caiu. Ela tentou se recompor, gaguejando:
— S-saruman...? Mas... ele nem me conhece!
Uma voz grave soou atrás de Anna:
— Espero que esta ocasião possa corrigir tal negligência, minha cara Anna.
Anna se virou e a primeira coisa que viu foi um Lindir constrangido, curvado:
— Meu Lord Elrond, desculpe, mas Mestre Saruman preferiu entrar sem ser anunciado.
Estava claro que Lindir se sentia pessoalmente insultado com tal atitude. Anna, por sua vez, estava lívida, olhos arregalados, arrepiada, quase petrificada.
Saruman pouco se parecia com Sir Christopher Lee, que o retratara nos filmes de Peter Jackson. Sim, era alto, magro, um nariz grande, longa barba e robes brancos. Mas os pequenos olhos escuros pareciam malignos, e toda sua aura exalava a manipulação, desejo de poder e ganância.
Durante a Guerra do Anel, Saruman enganara Radagast, traíra Gandalf e a Sociedade do Anel, declarando sua lealdade a Sauron (a quem pretendia trair mais tarde). Ele aprisionara Gandalf, deixando Frodo em perigo e arriscando a destruição do Um Anel.
E agora ele estava ali, oferecendo-se para treiná-la?
Anna curvou-se, genuinamente intimidada.
— Grande Saruman, perdoe-me a surpresa. Muito ouvi falar de seus feitos e sua liderança entre os Istari. Estou verdadeiramente impressionada.
Sua voz grave e agradável soou novamente, e ele estendeu a mão.
— Também ouvi muito a seu respeito, pequena, e confesso que duvidei da maior parte daquilo que chegou a meus ouvidos. Mas agora, ao vê-la em pessoa, entendo o motivo de tanto alvoroço.
Lord Elrond convidou:
— Venha, Saruman, sente-se conosco.
Ele obedeceu, encarando Anna por um longo instante.
— Nunca vi ninguém como você, senhora.
— Eldarinossë — disse Elrond. — É a única palavra na minha língua que descreve seu povo, Erulissë.
Esse nome era novo. Saruman comentou:
— Ah, você começa a ser conhecida por vários nomes. Essa é uma prova de sua importância.
Anna procurou manter-se simpática:
— Não tenho muita certeza sobre isso. Quem diz que já não cumpri a maior parte de minha missão aqui?
Elrond indagou:
— Que quer dizer? Que não quer ser treinada?
Anna apressou-se em dizer:
— Oh, não, claro que não. Desculpe se passei esta impressão. Meu objetivo é ser treinada nas artes de cura, verdadeira natureza de minha magia.
— Mas você veio até aqui com uma missão — objetou Saruman. — Você veio do futuro!
Anna argumentou:
— Se está sugerindo que vim do futuro para mudar a história, senhor, então já fiz isso. Ao contrário do que aprendi nos livros, Thorin Oakenshield não morreu em batalha. Ele está no trono de Erebor e a linhagem de Durin sobrevive em seus sobrinhos e em seu filho.
Saruman ponderou:
— Se você já conquistou tudo isso, imagine com treinamento sob minha supervisão. Em Isengard, tenho certeza que seu poder florescerá e atingirá seu potencial pleno. Quem poderá dizer?
Anna sorriu e lembrou, calma:
— Milord, lembro-me quando Lord Elrond apresentou-me uma proposta semelhante, durante minha gravidez. Na verdade, quem se ofereceu para treinar-me foi Senhora de Lothlórien.
— Lady Galadriel — concordou o Branco. — Ela me relatou.
Anna lembrou:
— Talvez ela tenha mencionado que minha resposta foi não. Ela presumiu que, sem Thorin (pois a morte era o destino escrito dele, que eu mudei) — ela enfatizou as palavras para o mago —, minha opção seria deixar meu filho para trás e me instalar com ela para dedicar minha vida a proteger a Terra Média do terrível mal que tenta se reerguer.
— Isso — disse Saruman. — Você recusou naquela ocasião.
— Sim. Optei por uma vida mundana, sem poderes, sem um grande destino, sem planos grandiosos. Escolhi uma vida de mulher casada, escolhi cuidar do meu marido e de meu filho. Fiz uma escolha por minha família. Na minha terra, temos um ditado: “Ohana significa família, e família significa que ninguém será abandonado”. Eu estava disposta a abrir mão de meus poderes para isso.
— Mas não foi o que aconteceu.
— Não, não mesmo. — Anna sorriu. — Foi justamente Darin quem despertou os meus poderes. Eventualmente, ele também salvou minha vida.
— Posso ver que seu filho também é abençoado — disse Saruman.
— Meu treinamento exigiria me afastar de meu filho. Isso é uma coisa que jamais aceitarei.
O mago garantiu:
— Fique certa que isso jamais acontecerá se vier comigo para Isengard. Pois ofereço também treinamento completo para a criança. Ela poderá ser ainda mais poderosa do que a mãe! Um líder e um guerreiro, como o pai.
Estranhamente, a insistência de Saruman não irritou Anna. Ela sorriu, pensando em seu filho:
— Sim, ele pode se tornar mais poderoso que eu. Também pode ser um grande guerreiro, como seu pai. Mas sua magia nada terá a ver com isso.
— Que quer dizer?
— A natureza da magia de Darin e da minha própria magia é a mesma: cura. Por ser metade anão, Darin poderá desenvolver as habilidades guerreiras do povo khazâd. Com treino, poderá ser um soldado excepcional. Mas a magia dele não foi feita para o campo de batalha.
Elrond a encarava, tentando suprimir um sorriso:
— Erulissë, está me parecendo que você pretende declinar mais um convite para ser treinada.
— Lord Elrond — disse Anna com cuidado —, um convite de Saruman, o Branco, não é leviano. Mestre Istari, por favor, não pense que sua oferta não me impressiona. Sei que é uma pessoa de grande poder e grande importância. Sinto-me honrada apenas que tenha me considerado como aprendiz. Sua oferta em me acolher e me treinar está além de qualquer coisa que eu poderia imaginar. Eu só não vejo como aceitar. A natureza de minha mágica exige de mim que eu fique em Rivendell para ser treinada por Lord Elrond, meu parente. Pois esta energia é de cura, saúde e conforto — não de guerra, poder e estratégia.
Houve uma breve pausa. Saruman encarou Anna, os olhos tornando-se duros. Sua voz, contudo, jamais perdeu os tons doces para comentar:
— Temo que haja outros fatores a considerar além do mero treinamento. Precisa entender que sou um guardião da Terra Média, designado por um Vala em pessoa. É minha atribuição cuidar da segurança dessa terra. Pessoalmente, não acredito neste mal terrível que você mencionou e que Gandalf tanto teme. — Anna fez menção de interromper, mas Saruman ergueu a mão, interrompendo-a: — Contudo... Contudo, é meu dever estar pronto para lidar com esta ameaça. Você diz que seus poderes não a qualificam a entrar nessa batalha, e que seu filho seria apenas um guerreiro como outro qualquer. Entendo isso. Mas não posso ignorar o fato que você é Eldalinossë. Um poder como o seu não é visto há uma eternidade nessa terra. Ele pode despertar a cobiça do Senhor do Escuro, que poderá tentar desvirtuar seu poder, roubá-lo ou ainda pior: corrompê-lo. Eu preciso protegê-la, você e seu filho. Temo não poder permitir que fique em Rivendell. Nada poderá ameaçá-los em Isengard, por isso devem vir comigo.
Anna perdeu a cor:
— O quê...?
Pela primeira vez, Anna viu Lord Elrond se alterar. Ele bateu na mesa e levantou-se, erguendo a voz:
— Nenhum mal se aproximará de Erulissë em Rivendell! O Vale Escondido é um dos lugares mais protegidos de toda a Terra Média!
Saruman ergueu as mãos, contemporizando:
— Paz, Lord Elrond. Rivendell é um lugar seguro, mas seriam necessárias legiões de orcs para tomar a fortaleza de Ortanc. Lady Anna e seu primogênito estariam protegidos lá.
Anna interveio:
— Meus lordes, não há necessidade disso. Agradeço a preocupação, mas a discussão é irrelevante. Sauron jamais sairia vitorioso. Ele já tentou uma vez e falhou.
Os dois a encararam, surpresos. Elrond indagou:
— Já tentou? Onde? Por que não contou?
— Foi aqui mesmo, em Rivendell. Fui vítima de uma maldição. Uma ferida orc que parecia ser envenenada era uma tentativa de se apropriar de minha magia antes mesmo que ela desabrochasse.
Elrond assentiu:
— Eu estava aqui. Então foi isso que aconteceu. Era uma ferida bizarra, se me lembro. Não consegui explicar o que era aquilo.
Anna completou:
— Foi necessária a interferência de Lady Galadriel, que identificou a maldição. Portanto, isso me dá a certeza que Sauron jamais poderá se apropriar de minha magia ou a de meu filho. Elas não são compatíveis. O máximo que pode acontecer é minha morte.
Saruman arregalou os olhos:
— Isso não a perturba? Parece que deseja isso.
— Sim, posso morrer, mas não é o que desejo. Ainda assim, é preferível morrer a ser de alguma ajuda a Sauron, mesmo contra a minha vontade. Eu já tinha pedido a amigos que me matassem antes de Sauron me usar para seus fins. — Anna fez uma pausa antes de destacar: — Claro, isso foi antes de Darin. Agora não posso me dar ao luxo de dispor de minha vida sem antes pensar em proteger meu filho.
O mago líder da Ordem dos Istari parecia não ter completado sua missão em desestabilizar Anna:
— É uma pena que prefira não ficar em Isengard. É convenientemente próximo a Erebor, caso escolha fazer visitas esporádicas a seu marido. Eu não faria oposição a essas visitas. Deveria considerar essa opção. Fui informado que Thorin Oakenshield caiu em luto tão profundo que sua irmã assumiu o reino como regente até ele se recuperar.
Anna não pôde evitar enrubescer, coração acelerado, uma mistura de emoções: dor, culpa, saudade, ansiedade. De repente ela parecia sem ar.
Saruman continuou:
— Mas poucos esperam que ele se recupere. A maior parte aposta que ele sucumbirá à loucura pela perda de sua esposa e seu filho. Mas havia uma palavra... Como foi que chamaram? Ah! Ghivashel. Thorin sofre muito pela perda de sua ghivashel. Que lástima!
As palavras de Saruman começaram a virar um chiado na cabeça de Anna, que sofria com aquela estática em seu aparelho auditivo a ponto de se sentir sufocada, tonta e enjoada. Agora ela não mais distinguia as palavras, o chiado aumentando a tal ponto que sua mágica começava a se manifestar, mas numa cor vermelha raivosa e pestilenta que rapidamente se tornava insuportável, e Anna podia jurar que tudo só piorava, especialmente o enjoo, como se fosse um "boa noite cinderela" da pior espécie prestes a nocauteá-la, mas Saruman e sua diatribe odiosa não tinham clemência e Anna tentou se levantar, mas não podia respirar direito, e então sua mágica pareceu se expandir e-
CRACK!
A quebra de uma das prateleiras da biblioteca e a consequente queda de dezenas de livros provocaram um ruído tão alto que resultaram em vários efeitos ao mesmo tempo: Saruman parou de falar (surpreso), a chiadeira na cabeça de Anna cessou instantaneamente, ar parecia fluir em seus pulmões novamente, seu estômago se aquietou e sua mágica retomou a cor saudável de antes. Lord Elrond, olhos arregalados, encarou Saruman. O mago comentou:
— Pensei que estas prateleiras fossem firmes.
O Senhor de Rivendell garantiu, em voz firme:
— Nunca, em milhares de anos, tinham me falhado.
Os dois então se voltaram para Anna, que enrubesceu e abriu a boca, antes de ser interrompida pelo choro alto que quebrou seu coração. Ela sussurrou, angustiada:
— Darin...! Desculpem-me!
E saiu correndo rumo ao som, que parecia perto. Authiel tentava consolar Darin, que abrira uma choradeira formidável. Ao ver Anna, o berreiro aumentou. Ela pegou o filho e Authiel estava agitada — ou o máximo de agitação a que um elfo se permitia.
— Senhora, ele estava bem — dizia a elfa aflita. — Mas de repente começou a chorar, eu não sei por quê.
Anna o balançava, tentando acalmá-lo e garantiu:
— Tudo bem, Authiel. De vez em quando ele pode ficar irritado, especialmente se estiver longe de mim. Isso não é culpa sua. Mas preciso voltar até Lord Elrond.
Anna retornou à biblioteca, Darin nos braços ainda aos prantos. Ela disse:
— Desculpem-me, senhores, mas devo encerrar minha participação antes do previsto, por deveres maternais.
Saruman se adiantou:
— Nada que não se possa dar um jeito.
Ele pegou o cajado e apontou-o para Darin. Instantaneamente, porém, o menino ficou envolto numa espécie de globo dourado de luz, como um campo de força protetor. O escudo repeliu a luz prateada do cajado de Saruman com um estalido alto. Se não fosse todo o poder do maior dos Istari, ele teria sido jogado longe.
CRACK!
O mago virou-se para Anna, tentando conter a irritação:
— Madame, eu jamais iria machucar seu filho!...
Genuinamente admirada, Anna garantiu:
— Isso não tem nada a ver comigo. Acho que foi a mágica de Darin, por puro reflexo. Eu... nem sei o que dizer! Mestre Saruman, meu filho não fez por mal.
Elrond foi irônico:
— Ao atrair abelhas, Saruman, é preferível usar mel a vinagre.
O grande mago parecia não saber se ficava espantado ou ofendido, mas Anna não prestou atenção nele. Encheu Darin de beijinhos, orgulhosa de seu pequeno milagre, que mostrara ser capaz de fazer outros milagres nem tão pequenos.
Palavras em Khuzdul
ghivashel = tesouro de todos os tesouros
khazâd = anões, povo anão
Palavras em Sindarin e Quenya
Eldalinossë = kin (parente) dos elfos
Elvellonwen = amiga dos elfos
Eruanna = graciosa (significado de Anna)
Erulissë = presente, graça (significado de Anna)
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