Vida em Erebor
8 Uma mancha na mão
Notas iniciais
Uma mancha na mão
Problemas inesperados
Não é porque Anna não via problemas que eles não existiam. Ela sabia que o mar de rosas tinha hora para acabar.
Mas precisava ser tão cedo?
Enquanto Thorin estava em mais uma reunião do Conselho, Anna resolveu dar uma passada na biblioteca de surpresa e matar as saudades de Ori, já que as obras na ala real iam a todo vapor. Ela pensou em procurar companhia, pois não era uma ala que ela visitava com frequência. Contudo, a reunião do Conselho Real provavelmente estava ocupando muitos de seus amigos, então Anna foi sozinha mesmo.
Mesmo com sua boa orientação (Anna dificilmente se perdia), ela não conseguiu reconhecer nenhum dos corredores ou túneis próximos à biblioteca. Felizmente, havia gente no caminho. Anna parou dois anões e indagou:
— Por favor, senhores, com licença. Será que algum de vocês poderia me indicar o caminho da biblioteca, por gentileza?
Um dos anões a olhou longamente antes de responder:
— Lamento, senhora, mas não sei informar.
O outro disse:
— Sei que fica para aquele lado, mas não sei exatamente onde é.
— Para aquele lado? — repetiu Anna. — Já ajuda. Obrigada, bom senhor.
Saiu na direção indicada, mas nada de ver um caminho conhecido. Além disso, não havia pessoas, e o local parecia escuro. Não era ali.
Anna deu a volta e tentou achar o mesmo local por aonde tinha vindo. Nem isso ela conseguia: os corredores pareciam todos iguais e escuros!
Antes que ela começasse a ficar nervosa, ouviu vozes ao longe. Foi na direção dos ruídos, esperançosa. Os ecos chegavam até ela.
Mas o que ela ouviu não era nada animador. Eles falavam em Khuzdul.
— [Era ela mesmo?]
— [Sim, a chamada consorte do rei. Humpf. Vagabunda do rei, isso sim.]
— Malihn!
— [E fica se mostrando por aí com aquela barriga. Só Mahal sabe quem é o pai da criança.]
— [Parece que ela passou de mão em mão, pela companhia toda que chegou a Erebor. Talvez ainda durma com todos!]
— [Bruxa! Pode vir a ser a ruína de nosso rei.]
Anna parou, chocada. A moça sentia como se houvessem lhe desferido um golpe diretamente em suas entranhas. Ela ouvira o tom de desprezo e asco nos anões, que não sabiam de seu dom de entender Khuzdul.
Era o tipo de preconceito que ela imaginara encontrar. Só não imaginara que fosse doer tanto. Não era apenas pelos insultos. Havia a questão de Thorin sair politicamente desgastado. Sua autoridade podia ser enfraquecida. Isso era o que Anna mais temia: que sua presença prejudicasse o reinado de Thorin.
O golpe foi tamanho que Anna se sentiu tonta e enjoada. Desorientada, ela se embrenhou pela montanha, tentando achar o caminho, tentando conter suas emoções.
Mais e mais fundo Anna ia, chorando em silêncio, mal olhando para onde ia, pois as lágrimas atrapalhavam a visão. Ela se sentia abafada, como se o ar contivesse pouco oxigênio.
Anna ficava cada vez mais tonta. Não era de se estranhar, portanto, que ela tivesse dado um passo em falso e caído num abismo de uma área remota.
Era grande a chance de seu grito de susto ao cair sequer tivesse sido ouvido. Despreparada, Anna teve outro susto ao sentir o impacto do chão. Em seguida, o mundo escureceu e ela não viu mais nada.
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— Dori, você viu Anna?
— Não, Balin. Acho que ela está com Ori, na biblioteca.
— Não, eu já verifiquei. Sabe quem a acompanharia hoje?
— Pensei que fossem Fíli e Kíli.
— Não, eles estão com Dwalin verificando a guarda perto da sala do tesouro.
— E Óin? Ela costuma visitar os enfermos.
— Ele também não a viu hoje. — O anão sem bigode suspirou. — Thorin não vai gostar disso.
— E quanto aos outros? Bifur e Bofur não estão fazendo móveis para o herdeiro? Eles podem tê-la visto.
— Não viram, eu chequei. Nem Bombur.
Balin parecia inquieto. — Este é o problema. Ninguém parece tê-la visto.
Dori o encarou, alarmado.
— Você acha que...?
— Acho que devemos comunicar Thorin o quanto antes — respondeu Balin, com o semblante grave. — Ele vai querer mandar grupos de busca o quanto antes.
Balin estava correto. Thorin ficou lívido.
— Que quer dizer?indagou o rei.
— Ninguém consegue localizar Anna há mais de uma hora — explicou Balin. — Ela estava sozinha, ao que tudo indica, e se perdeu.
Thorin resmungou um palavrão em Khuzdul, antes de cuspir ordens:
— Mande Dwalin organizar grupos de busca. Vasculhem os caminhos para os locais remotos, talvez as minas onde estivemos há poucos dias.
Balin disse:
— Dori, Bifur e Bofur já estão procurando.
— Concentrem as operações em Dwalin e chamem Nori para ajudar — ordenou Thorin. — Tenho certeza que Fíli e Kíli vão querer se juntar às buscas. Quero relatórios assim que possível. E selem a montanha. Ninguém entra e ninguém sai sem minha permissão pessoal.
— Sim, Thorin.
Um guarda entrou correndo.
— Milord, há uma mulher khuzd na porta. Ela procura pela Lady Anna.
— Quem é? — quis saber Thorin.
— Disse ser costureira — respondeu o guarda. — Seu nome é Hila.
Thorin reconheceu o nome.
— Mande-a entrar.
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A primeira coisa que Anna sentiu quando se deu conta de que estava acordada foi dor. Era uma dor difusa, que parecia permear todo seu corpo. Na verdade, tudo parecia doer.
Em seguida, ela tentou se levantar, e uma ardência se estabeleceu no braço esquerdo. Provavelmente ela tinha se arranhado ao cair. Era a mesma dor de seus 12 anos, quando tivera uma queda feia de bicicleta e ralara os joelhos no cimento.
Com os músculos doloridos, Anna se ergueu e olhou em volta. Não havia nada a ver, estava tudo escuro como um breu. Ela tentou chamar:
— Olá! Tem alguém aí?
Nenhuma resposta. Ela tentou de novo.
— Ei! Alguém pode me ajudar? Por favor!
Nada de novo.
Anna resolveu se aventurar e estendeu os braços para frente. Deu cinco passos e encontrou rocha. Apalpando-a, sentiu ser uma parede. Virou-se, ainda tateando em busca de um caminho.
Após encontrar novas paredes em outras direções, Anna chegou à conclusão que tinha caído numa espécie de buraco. E era pequeno: se ela abrisse os braços, tocaria em uma das paredes. Era como se fosse uma bolsa de ar na montanha.
Ótimo, pensou. Primeiro perdida, agora presa.
Uma das primeiras coisas que lhe ocorreu foi a sorte de ter saído da queda com não mais do que meia dúzia de arranhões. Eram grandes os riscos de uma fratura séria ou de alguma complicação para o bebê. Se bem que a complicação para o bebê poderia ser a qualquer momento.
Agora entendo mais a lógica de confinar as grávidas.
Um calafrio começou a percorrer o corpo de Anna, de medo e frio. Aquele buraco úmido estava longe de locais por onde passavam pessoas. Se quisesse sair dali, ela ia ter que chamar a atenção de alguém.
— Oi! Aqui embaixo! Socorro! Alguém! Por favor, me ajude!
Seus ecos foram sua única resposta, de novo.
Anna calculou que talvez fosse cedo para alguém notar a falta dela. Ela não dissera a ninguém aonde ia, então podia demorar até alguém perceber sua ausência. Mas alguém certamente notaria.
Thorin ficaria furioso com ela, e teria toda razão. Nem Kíli seria tão inconsequente para sair pela montanha sem conhecer direito o caminho. Como ela pudera cometer tal insânia?
O importante era não entrar em pânico, pensou. Já que ela não podia fazer mais nada, o jeito era chamar por socorro enquanto pudesse.
Anna não se iludia: ela estava numa encrenca danada. Ninguém sabia onde ela estava, e ela viera parar numa parte longínqua da montanha, onde as chances de um transeunte ouvir seus gritos eram remotas. Ela poderia ficar muito tempo ali.
Felizmente ela tinha espaço bastante para deitar no chão, e não precisaria cortar um braço ou coisa assim, como vira num filme certa vez. E por que ela pensava nessas coisas horríveis?
— Olá! Alguém pode me ouvir? Socorro! Ajudem, por favor!
E nenhuma resposta se ouviu.
Anna se perguntou quanto tempo dormira. Contudo, em seu coração, ela tinha certeza de que pouco importava quanto tempo se passasse: Thorin não iria descansar até encontrá-la. Ela sorriu diante daquela certeza.
Era desanimador não poder trocar de pele. Se ela pudesse virar uma salamandra ou um camundongo, sairia dali em três tempos, escalando as paredes. Ou, se virasse um passarinho, poderia voar.
Mas Anna não queria arriscar seu bebê na transformação. Ela já tinha sido suficientemente inconsequente ao cair naquele buraco. Arriscar complicações para o bebê seria aumentar o erro.
Anna imaginou que poderia chegar a um ponto em que ela não teria mais escolha e teria que se transformar. Mas esse ponto ainda estava longe. Até lá, ela evitaria ao máximo arriscar seu filho.
Contudo, pensou ela, se fosse possível transformar apenas uma parte do corpo, uma que não arriscasse o bebê... Nesse caso, ela poderia sair daquele buraco e nada aconteceria a seu filho. Mas Anna não sabia nem se aquilo era possível. Ela podia estar alucinando ou delirando. Será que haveria mesmo algum tipo de gás naquele lugar?
A ideia, porém, não queria deixar Anna em paz. Como ela poderia fazer o que queria? Ela imaginou que alternativas poderiam estar à sua disposição. Criar asas nas costas? Mesmo que ela pudesse fazer isso, teriam que ser asas grandes para aguentar seu peso. Não caberiam dentro daquele buraco.
Anna continuava dando corda àquela louca ideia. Mas parecia não ser muito prática. Ela poderia escapar daquele lugar com o corpo de um animal pequeno justamente por causa do tamanho e do peso. Por isso o plano de conseguir transformar apenas uma parte do corpo parecia rapidamente ser uma ideia inútil.
Ainda assim, Anna não conseguia deixar de imaginar que talvez isso fosse possível. Ela imaginou, por exemplo, que poderia criar asas, mesmo assim. E bem assim que Anna imaginou que seu braço viraria uma asa, penas apareceram de repente no seu antebraço.
Anna levou um susto tão grande que gritou, sacudindo o braço:
— AAHH!
Ergueu o braço e lá estava ele normal de novo. Mas Anna ainda estava com o coração acelerado, sem saber direito o que pensar.
— [...lá?]
Foi um ruído abafado, vindo de suas costas, mas Anna teve certeza de tê-lo ouvido. Seu coração disparou. Ela se virou para a direção da voz e se pôs a gritar mais alto:
— Oi! Está me ouvindo? Eu estou presa! Tem alguém aí?
A voz respondeu:
— [Eu consigo ouvir você. Onde está?]
Anna achou melhor não responder em Khuzdul.
— Oi! Não entendo o que está dizendo! Não sei onde estou! Me ajude, por favor!
Uma pausa se seguiu, e Anna receou que o anão não falasse Westron. Ela ia tentar falar em Khuzdul quando ouviu:
— E agora? Está me entendendo?
— Sim! Sim! Pode me ajudar a sair? Eu caí num buraco!
— Como chegou até aqui? Está só?
— Sim, estou só! Eu me perdi, caí neste buraco e agora eu não sei onde estou! Por favor, me ajude.
— Você veio sozinha, nith?
Anna não gostou da pergunta e fingiu estar angustiada:
— Meu tio Bilbo estava comigo. Ele deve estar procurando por mim! Por favor, senhor!
— Como chamam você, nith?
— Anni. Meu tio Bilbo me chama de Anni.
— Anni, me responda: você está perto da Sala do Tesouro?
Aquilo fez Anna gelar. Aquele homem era um ladrão buscando uma maneira de chegar ao tesouro por dentro da montanha. Certamente não estava sozinho. Ela tinha que pensar rápido. Era preciso avisar Thorin!
— Eu não sei! Quero meu tio Bilbo!
O homem ainda falava como se ela fosse uma criança:
— Escute: se você disser para que lado fica o tesouro, eu chamo seu tio até aqui. Que tal?
Anna insistiu na verdade:
— Mas eu não sei nada sobre isso! Eu me perdi! Por favor, me ajude!
Foi nesse momento que o homem abandonou todo o ar amistoso e disse:
— Olhe aqui! Se você não nos ajudar, vamos abandonar você aí para apodrecer! Agora diga o que queremos saber!
Havia mais de um! Anna gritou mais alto:
— Mas eu não sei!!
Então, do lado oposto, do nível acima, ela ouviu algo que parecia estar muito longe:
— ...oi?
Aquilo renovou as esperanças de Anna, que sentiu o coração se acelerar. Ela encheu os pulmões e gritou ainda mais alto:
— Oi! Aqui! Eu estou aqui embaixo!!
Ela ainda pôde ouvir o ladrão xingar:
— [Maldita! Alguém a ouviu!]
Anna continuou gritando:
— Alguém pode me ouvir? Estou presa num buraco!
As vozes eram distantes, e ela só conseguia captar poucas frases:
— Acho que estou ouvindo alguma coisa!
— Shh! Silêncio! Nori, aqui!
Era a deixa para Anna berrar:
— Aqui! Estou aqui! Aqui embaixo, por favor! Socorro!
Uma das vozes gritou — e parecia Bofur:
— Agora eu ouvi! Era dona Anna!
Uma outra voz (talvez Nori) disse:
— Ela está lá embaixo!
Bofur comentou:
— Tem que haver um jeito de chegar até lá!
Anna gritou:
— Cuidado com o buraco! Estão me ouvindo?
— Dona Anna! — chamou Bofur. — Pode nos ouvir?
— Sim — respondeu Anna. — Bofur, é você?
— Está ferida?
— Estou bem, mas caí num buraco e não consigo sair. Podem me ajudar?
Ele respondeu:
— Fique calma que já vamos tirá-la daí. Não vai demorar nada.
Bofur tinha razão: tirá-la do buraco foi rápido, mas chegar até ela foi mais complicado. O tal buraco era, na verdade, um bolsão de ar formado pelos gases das minas abandonadas abaixo — por isso essas minas tinham sido abandonadas e as passagens até lá lacradas. Mas Smaug destruíra todas as obstruções para chegar à Sala do Tesouro.
Com uma corda e uma polia, Anna foi içada para fora do buraco por Bofur e Dwalin. Ao voltar à superfície, Anna viu Thorin acompanhando os trabalhos. Ela se livrou das cordas e jogou-se em seus braços, mesmo suja como estava:
— Thorin...!
Ele a apertou contra si:
— Ghivashel, você está bem? Está sangrando!
— Thorin, estou bem, foram só arranhões. Mas preciso avisar: ladrões estão tentando roubar o tesouro!
Todos os outros ficaram em alerta. Thorin indagou:
— Como sabe disso?
— Falei com eles! Quando pedi ajuda, eles ouviram minha voz. Disseram que me ajudariam a sair se eu os levasse até a Sala do Tesouro.
Dwalin quis saber:
— Como eles pretendiam fazer isso?
Anna respondeu:
— Pelo que pude deduzir, eles estão tentando cavar um túnel para dentro do tesouro e saqueá-lo.
— Malditos! — fez Dwalin. — Será que eram khazâd?
Ela confirmou:
— Acho que sim, porque falavam Khuzdul.
Thorin ordenou:
— Dwalin, investigue isso. Venha, âzyungâl, vou levá-la até Óin para tratar desses ferimentos.
— Podíamos ver Bombur primeiro? — indagou Anna. — Eu me sinto faminta.
— É claro, mizimel — disse Thorin. — Depois desse tempo todo, eu deveria ter previsto que estaria com fome.
Anna indagou:
— Quanto tempo?
Bofur respondeu:
— Deram por sua falta na manhã de ontem.
— E que horas são?
— Pouco depois do amanhecer.
— Tudo isso? Devo ter ficado desacordada mais tempo que calculei. Pensei que tivesse sumido apenas umas quatro horas!
Bofur disse:
— Deve ter despertado à noite.
Dwalin rosnou:
— Os ratos ladrões só devem cavar à noite, para não chamar atenção.
Thorin pôs seu casaco em volta de Anna e ergueu-a em seus braços, dizendo:
— Vamos, está mais do que na hora de você sair daqui.
— Thorin! — protestou ela. — Eu posso andar.
— É claro, mas assim economizamos tempo — respondeu ele, virando-se para Bofur. — Diga a Óin para nos encontrar nas cozinhas.
Anna foi levada nos braços de Thorin até a cozinha, onde tomou um desjejum reforçado, para alegria de Óin. Após um rápido exame e um curativo ali mesmo, Anna recebeu a recomendação de descansar. Thorin a acompanhou até o quarto.
— Quero me lavar um pouco — disse Anna. — Estou cheia de areia e terra. E essa areia não quer sair!
Thorin observou:
— Isso não é areia: é grafite. Deve haver algum veio naquele local.
— Por isso me sinto assim suja. Preciso me lavar.
— Não pode tirar o curativo.
— Vou tomar cuidado.
— Deixe-me ajudá-la.
Não foi fácil evitar que o curativo se molhasse numa época em que não havia plástico ou outros materiais impermeáveis, mas os esforços de ambos foram recompensados: mesmo com um banho de canequinha, ela se sentiu aliviada e mais limpa.
— Isso foi bom — sorriu ela, beijando a ponta do nariz. — Obrigada pela ajuda, ukurduh.
Ele quis saber:
— Quer deitar-se agora? Óin recomendou repouso.
— Sim, repouso me fará bem. E você precisa ir cuidar de Erebor.
— Não há nada neste reino mais importante que você, ghivashel. Por isso é que tomei uma decisão. Você não vai gostar, vai gritar comigo e me chamar de nomes, mas eu não vou abrir mão disso.
Anna se sobressaltou:
— Thorin? O que é?
— Você está proibida de andar sozinha pela montanha — decretou o rei, enfaticamente. — Daqui para frente você estará com um acompanhante em todas as ocasiões! Não importa o que vai fazer e onde vá, uma pessoa sempre tem que estar com você.
Anna suspirou, dizendo de maneira constrangida:
— Está bem. Tem razão.
Ele se exaltou, sem ouvi-la, dizendo enfaticamente:
— Sei que vai reclamar, porque você gosta de ser independente, mas não vou voltar atrás! Você viu o que aconteceu!
— Você está coberto de razão — disse Anna, constrangida. — Não vou me rebelar.
Thorin ainda estava no ritmo:
— Eu não quero ouvir reclamações nem- — Ele se interrompeu, surpreso. — Ah? Disse que não vai se rebelar?
Anna deu de ombros:
— Por que iria me rebelar? Você está certo. Andar a sós na montanha foi uma temeridade e uma idiotice de minha parte. Peço desculpas pelo transtorno que causei, marido, e acatarei suas ordens.
Thorin observou a atitude tristonha dela e indagou:
— O que foi, âzyungâl? Eu a magoei? Desculpe, só penso no seu bem.
— Não estou chateada com você, Thorin. Tomou a atitude certa, e sei que quer me proteger. Mas eu me sinto tão egoísta. E se tivesse acontecido algo mais grave? E se nosso filho estivesse em perigo? Thorin, eu não pensei nele. Será que eu sirvo para ser mãe? Já me sinto uma péssima mãe antes mesmo de nosso filho nascer!...
As últimas palavras foram ditas regadas por lágrimas de autorrecriminação. Thorin a abraçou, com suavidade:
— Ghivasha, deixe de pensar essas coisas. Você é uma das pessoas mais corajosas que conheço. E vai ser uma excelente mãe. Foi só um acidente. Você está bem, nosso filho está bem e a partir de agora vamos tomar mais cuidado. Não pense mais nisso. Agora descanse.
— Está bem, Thorin. — Anna viu os dedos dele limparem suas lágrimas, e pediu: — Podia ficar comigo um pouco antes de voltar aos deveres do trono?
— Erebor pode esperar até a rainha ficar bem. — Thorin ajeitou-se com ela na cama. — Vamos descansar juntos.
Os dois se ajeitaram na cama e, um nos braços do outro, foram descansar juntos. Anna realmente precisava daquilo, e adormeceu tão rápido que nem percebeu.
Palavras em Khuzdul
ghivasha = tesouro
ghivashel = tesouro de todos os tesouros
malihn = mulher de prazer, meretriz (e que surpresa foi achar isso no dicionário sem ter que inventar a palavra!)
khazâd = anões
mizimel = joia de todas as joias
ukurduh = meu coração
âzyungâl = amada
nith = menina
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