Vida em Erebor

14 Surpresa na noite


Notas iniciais
O inconcebível acontece

14.

Surpresa na noite

O inconcebível acontece

Nos dias que se seguiram, a movimentação só aumentou. Encarregada das relações com os estrangeiros, Anna começou a mandar corvos com os convites para todos os reinos indicados por Balin e Ori. E os corvos foram voltando com as respostas, todas positivas. A coroação de Thorin seria um sucesso.

Para fazer a festa virar memorável, Dís e os demais se desdobravam em todas as tarefas. Não queriam deixar nada para a última hora.

Thorin também se dedicava ao trabalho por longas horas, às vezes ausentando-se dos jantares, muitas vezes só indo dormir de madrugada. Anna tentava ficar acordada, mas nem sempre conseguia, pois a gravidez a deixava sonolenta. Quando conseguia manter-se acordada, seu marido ralhava pois ela deveria descansar e cuidar do bebê. Depois, cuidadoso como sempre, Thorin se dedicava a matar saudades de Anna, com carinho e paixão.

Hila tinha se esmerado ao máximo nas roupas para a cerimônia, com tantas provas que Fíli e Kíli já se desanimavam ao vê-la. Além de acompanhar Anna, a moça tomou para si até tarefas como limpar couros e peles.

Ao lado de Anna, Hila notava os comentários sussurrados enquanto passava, de censura à consorte do rei. Na opinião da dama de companhia, as frases maldosas e insultuosas não só eram injustas como podiam ser perigosas. Ela disse isso a Balin enquanto preparavam a coroação.

— Mas o que tem ouvido? — indagou o sábio anão.

— Coisas muito, muito feias, Mestre Balin. Dizem que a senhora é uma aberração, xingam, cospem no chão depois que ela passa... O rei não devia fazer alguma coisa?

— Thorin teme que uma atitude possa ter o efeito contrário e aumentar o ressentimento contra Anna. Além disso, são uns poucos descontentes. A maior parte da montanha ou não ousa questionar o rei ou acha que ele fez por merecer alguma excentricidade.

— Mas Dona Anna é uma pessoa tão gentil. Ela cuida de todos da montanha. Tenho medo que alguém se exalte.

— Notou algum sinal de que alguém pudesse usar de violência?

— Não, não, Mestre Balin.

— Acha que devemos reforçar a segurança?

Hila garantiu, com ferocidade:

— Se alguém tentar atacar milady, terá que passar primeiro por mim!

Balin sorriu:

— Nesse caso, não gostaria de levar consigo uma proteção extra? Meu irmão Dwalin pode providenciar, se quiser.

— É muito gentil, Mestre Balin. Aceitarei se prometer deixar isso entre nós, para não aborrecer milady.

Balin assentiu, piscando.

— É claro. Não há necessidade de aborrecer Lady Anna.

Os dois sorriram entre si, conspirando a favor da companheira do rei.

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Naquela noite, Anna não conseguira esperar por Thorin acordada. Dormir já se tornava uma tarefa difícil, e o corpo de Anna aproveitava qualquer ocasião para se entregar ao sono.

Mas o sono de Anna foi interrompido quando um corpo quente chegou por trás dela e puxou-a para si. Sonolenta, ela se aconchegou ao toque sensual, com um sorriso.

— Oh, meu amor... — disse ela.

Mãos ansiosas ergueram sua camisola lilás e Anna sentiu o quanto seu marido parecia faminto por suas atenções, bem mais do que o normal. Ela tentou se virar, dizendo:

— Meu marido parece fogoso...

Seus movimentos foram restritos com força, e Anna teve que lembrar:

— Meu coração, devagar... Temos a noite toda...

Ele não parou de agarrá-la com força, o que era totalmente diferente de tudo que Thorin costumava fazer. Anna reclamou:

— Thorin, está me machucando...!

Mas foi só quando um cheiro ruim assaltou suas narinas é que Anna se deu conta: Thorin sempre se banhava antes de se deitar. Isso só podia significar uma coisa.

Aquele não era Thorin.

Num impulso, ela tentou se livrar dele, debatendo-se:

— Não! Me solta!

Ele tentou tapar a boca dela para abafar os gritos, e Anna fincou os dentes o mais fundo que podia na pele grossa do intruso. Ao mesmo tempo, ela corcoveava, tentando se livrar dele. Os movimentos dela conseguiram fazer a mão dele escapar de sua boca. A plenos pulmões, Anna gritou:

Socorro! Fíli! Kíli!

O agressor se enfureceu, batendo nela:

— [Maldita!]

Anna não parou de se debater, tentando atingi-lo de algum jeito. Isso já seria difícil em circunstâncias normais, mas sua barriga não facilitava em nada. Foi num desses movimentos que a camisola levantada se provou extremamente vantajosa. Pois ao tentar atingi-lo com chutes, Anna conseguiu alcançar um lugar extremamente sensível no meio das pernas dele, provocando dor lancinante.

O agressor soltou um grito e Anna conseguiu escapar de seus braços. Rolou para fora da cama e correu para o baú ao lado do armário, enquanto o homem se contorcia na cama. Atabalhoada, Anna vasculhou o baú até encontrar o que procurava: Orcrist, a Fende-Orc, a Mordedora.

Era uma espada pesada demais para Anna, que usou as duas mãos para erguê-la, tremendo e ameaçando-o:

— Fique longe de mim!

O khuzd de cabelos castanhos encrespados ergueu-se da cama e sorriu, malévolo:

— Acha que pode me atacar, pequena? Mal consegue segurar essa espada!...

Anna gritou, vendo que ele vinha até ela:

— Para trás!

Então tudo de repente ficou confuso, pois parecia acontecer tudo ao mesmo tempo. O intruso a atacou, e Anna ergueu a espada e tentou golpeá-lo, mas ele era forte e os dois se engalfinharam pela posse de Orcrist. Num impulso, os braços dela se mexeram para se livrar dele, e Anna poderia ter jurado que suas mãos viraram garras que perfuraram a pele dele. O homem urrou de dor e a confusão aumentou.

Após alguns segundos, Anna viu-se livre do homem, e estava no chão, enquanto uma gritaria se instalava em Khuzdul. Ela reconheceu as vozes de Fíli e Kíli e relaxou, apoiando-se no chão, ofegante. Ouviu Hila, preocupada:

— Madame está ferida? Pode se levantar?

Anna precisou da ajuda de Hila para se colocar de pé, ainda trêmula. Fíli e Kíli estavam com o anão detido, um de cada lado. Foi quando chegaram Dwalin e Thorin, trazidos por Dís.

Ghivashel...!

Anna jogou-se nos braços do marido, chamando:

— Oh, Thorin...!

Ele a abraçou, indagando:

— Você está bem? Está ferida?

Ela apenas negou com a cabeça, tentando sufocar um soluço. Thorin se dirigiu aos outros:

— O que houve?

Fíli rosnou:

— Esse uznâl invadiu os aposentos e atacou minha tia!

Mais palavrões em Khuzdul, e Anna escondeu o rosto no peito de Thorin, soluçando. O rei beijou sua cabeça. O anão preso tentou justificar:

— Meu rei, essa mulher é uma vadia! Aceitou meu toque como uma rameira-

Dwalin o esbofeteou, dizendo:

Atkât!

Balin (que Anna não vira entrar) deu um passo à frente e indagou:

— Quais são suas ordens, meu rei?

Thorin suspirou, sentindo o corpo frágil de Anna tremendo em seus braços. Um ódio frio se apoderou de seu coração e ele pronunciou:

— Este homem atacou a Consorte do Rei. Um ataque à Consorte é um ataque ao Rei. Dwalin, afie suas lâminas. Amanhã, no Manarbul (praça central), ele será executado em frente ao povo. Podem levá-lo.

O homem gritou, enquanto era arrastado para fora do quarto por dois guardas:

— Não! Isso é um engano! Eu não fiz nada errado! Nada errado!

Quando ele saiu dali, Anna indagou:

— E-executado...?

Balin garantiu:

— Ele cometeu um crime de alta traição contra o reino. A execução tem que ser pública.

Anna parecia perturbada:

— Mas por que matá-lo?

Thorin ficou abismado:

— Não quer puni-lo, depois do que ele fez?

Anna respondeu:

— Ele merece uma punição, mas não sei se merece morrer.

Dís se espantou:

— Veja o crime dele, cunhada. Morte é pouco!

Anna sugeriu:

— Não é possível apenas bani-lo de Erebor e avisar outras cidades de seu crime? Matar uma pessoa é grave demais.

Fíli comentou, com desgosto:

— Ele não é uma pessoa, Anna. É um animal!

Hila apontou:

— É bondosa demais, minha senhora. Ele não merece seu perdão.

Anna garantiu:

— Não me entenda mal, Hila. Eu não o perdoei. Mas em minha terra, consideramos toda vida como sagrada.

Balin lembrou, suavemente:

— Pequena, a lei diz que agredir um membro da família real é punível com a morte. O rei não pode deixar de cumprir a lei.

Aquele era um argumento definitivo. Anna suspirou, desesperada.

— Entendo...

Thorin completou, sombrio:

— A lei também diz que a parte ofendida deve estar presente à execução e pode se pronunciar para todos. Desta forma, após a execução, a ofensa desse uznâl aparecerá quando ele se apresentar nos Salões de Espera.

Anna estremeceu e indagou, em voz miúda:

— Então... eu terei que estar lá?

— Lamento, âzyungâl. — Thorin beijou sua fronte. — É a lei.

Sempre prática, Dís lembrou:

— Então é melhor irmos todos descansar porque amanhã o dia promete. Anna, quer alguma coisa? Quer que chame Óin? Ou talvez queira tomar um chá?

Hila se adiantou:

— Posso trazer o que quiser, senhora.

Anna respondeu:

— Agradeço a preocupação, mas agora prefiro ficar com meu marido.

Eles começaram a sair, balbuciando palavras de apoio a Anna e Thorin. Quando todos foram embora, Thorin a encarou:

— Está mesmo bem?

Anna choramingou:

— Não, não estou. Mas seu toque me faz bem.

— Eu sinto muito, meu tesouro. — Ele se ajoelhou aos pés de Anna, encostando a cabeça na barriga dela. — Falhei com você, falhei com nosso filho. Por favor, ghivashel, perdoe-me.

Anna disse:

— Nada disso foi sua culpa, meu amor. Mas o que o povo diria se visse seu rei ajoelhado no chão?

— O povo saberia que nada é mais importante para o rei, em todo o reino, do que sua ghivashel. Eu deveria ter providenciado segurança para você.

— Bobagem — garantiu Anna. — Quem poderia imaginar que alguém seria tão ousado a ponto de invadir a ala real? Não, a culpa é desse homem, que me odeia apenas por ser de uma raça diferente.

Thorin ergueu-se e garantiu, sombrio:

— Ele vai ter o que merece. Garanto a você.

Anna levou Thorin a se sentar na cama e indagou:

— O que sua lei prevê exatamente em casos assim? Não me esconda nada.

— Em agressões como essa, após comprovada a culpa, a parte injuriada pode pedir reparações. Cabe ao rei sancionar as reparações em caso de disputa. Mas em se tratando da família real, o julgamento para essa agressão é sumário e a penalidade é a morte.

— E a execução em praça pública? É requerido?

— Sim, por se tratar da família real. Terei que presidir a cerimônia.

Anna arregalou os olhos:

— E você será obrigado a... sabe... executar a sentença?

— Não, é prerrogativa do chefe da Guarda Real.

— Dwalin?

— Isso mesmo. Você viu que ele queria executá-lo hoje mesmo. — Thorin rosnou. — Eu também.

Anna estremeceu:

— Minha sorte foi que ele não estava armado. Eu não teria como resistir.

Thorin abraçou-a, comentando:

— Ele nunca planejou forçá-la. O plano dele era enganá-la e acusá-la de trair o rei.

Anna tentou evitar o tremor que a acometeu, mas sussurrou:

— Ele nunca me enganaria. Seu toque é único, meu rei. Você me acalma, me dá força e coragem. A seu lado, poderei encarar aquele homem horrível de novo.

Thorin beijou seu cabelo:

— Queria poder poupá-la disso, ghivasha. Mas não será possível.

— "Pesada é a cabeça que carrega a coroa", escreveu um poeta da minha terra. — Anna aconchegou-se no peito do marido. — Eu preciso muito de você, Thorin. Mas tenho que me lembrar de também dar meu apoio a você. Prometi ajudá-lo a reconstruir Erebor.

— Você nunca me falhou, Anna. Ainda quando eu mesmo tropecei, você me ergueu e me apoiou. É minha segurança, minha constância nesta terra. Nada é mais precioso para mim que você e nosso filho.

Anna acariciou o rosto de Thorin, encarando os profundos olhos azuis com adoração.

— Você é a minha vida. Todos os dias eu agradeço aos deuses que a trouxeram para cá e me deram uma segunda chance. Porque só você poderia me fazer feliz, ukurduh. Depois que eu o conheci, passei a viver: antes eu apenas existia.

Thorin a apertou em seus braços e beijou-a profundamente. Depois abaixou-se e beijou a barriga dela, antes de dirigir a ela.

— Pequeno, você será amado. Seus pais amam você tanto quanto amam um ao outro.

— Acho que ele está agitado — comentou Anna. — Posso sentir.

— Filho — disse o rei sob a montanha à barriga. — Por favor, não incomode sua mãe. Olhe só, papai vai cantar para você.

Ele se pôs a cantarolar uma música que Anna nunca ouvira antes, a voz grossa reverberando pelo quarto. Anna sorriu, os dedos acariciando as fartas madeixas do cabelo de Thorin enquanto seu peito se enchia de um calor agradável. Ela se recostou à cabeceira da cama, desfrutando da sensação gostosa e da proximidade do marido. Thorin aconchegou-se a ela, sem parar de cantar. Em pouco tempo, a despeito de tudo que passara aquela noite, Anna conseguiu dormir.

Palavras em Khuzdul

atkât = (fique em) silêncio

khuzd = anão

uznâl = desgraçado

ghivasha = tesouro

ghivashel = tesouro de todos os tesouros

ukurduh = meu coração