Vida em Erebor

16 O dia seguinte


Notas iniciais
Ainda abalada, Anna retoma a vida

O dia seguinte

Ainda abalada, Anna retoma a vida

A recomendação de Óin foi de comidas leves para evitar irritar o estômago e descanso. Thorin foi vê-la na sala da família, e Anna assegurou-lhe que estava bem fisicamente. O rei tinha o semblante pesado.

— Sinto muito, ghivasha, por tudo.

— Já falei que não foi sua culpa, meu amor. — Anna acariciou-lhe o rosto com carinho. — Sempre soubemos que isso poderia acontecer. Bom, não isso, mas algo desse tipo.

— Tenho vergonha de meu povo — disse ele pesadamente. — Eles não a conhecem, ghivasha.

— Mas eu estava pensando. E se fôssemos falar com a família?

— Família?

— A família de Bendar. Poderíamos falar com eles, dizer que nada temos contra eles, dizer que sentimos muito...

Thorin encarou-a, intrigado. Depois ele olhou para Hila, entretida com um dos bordados, antes de indagar:

— Por que isso?

— Porque eu me sentiria melhor — respondeu Anna. — E porque não devemos nos mostrar ao povo como sedentos de sangue. Assim você só será temido, Thorin, mas não será respeitado. Devemos verificar se uma família não ficou desamparada depois desse episódio.

— Mas o que você acha que podemos dizer? E por quê?

— Podemos dizer o quanto lamentamos a perda de um khuzd, que as faltas deles não recaem sobre a família e que eles em nada serão discriminados pelas atitudes de Bendar.

Hila balançou a cabeça, resmungando algo baxinho. Thorin indagou a Anna:

— Acha que vão querer nos ouvir? Provavelmente não queiram nos receber, ou acham que vamos ameaçá-los. O parente deles está morto por ordem minha. É a lei, não havia nada a ser feito.

— Mas é por isso mesmo que devemos ir, marido. Se eles sabem que é inevitável, então talvez fosse bom ao menos oferecer assistência.

— Posso fazer uma pergunta?

— Claro.

— Por que pediu que cortassem o cabelo e a barba dele? Pensei que não se importasse com cabelos.

— Eu não me importo, você sabe, mas sei que era importante para ele. Ele se achava superior a mim, achava que eu era fraca e indefesa. Desrespeitou a mim e, por extensão, o rei. Eu tinha que me reafirmar e provar que não era fraca nem indefesa, que eu podia machucá-lo onde dói e que o rei não se casou com uma estrangeira tonta.

— Parece tão... calculado.

— Eu sei. Odiei fazer aquilo, Thorin, tanto que até fiquei doente, mas eu preciso ser capaz de me impor junto ao povo. Só não quero que pensem que sou contra eles. Espero não ter exagerado.

Thorin deu de ombros:

— Sem dúvida causou o efeito desejado. Quem quiser ameaçá-la vai pensar duas vezes. Mas não concordo em procurar a família. Não sabemos que consequências isso pode trazer.

— Mas...

Thorin não a deixou terminar:

— E isso pode ameaçar todo o trabalho que teve em fortalecer sua posição. Isso pode ser visto como fraqueza e desfazer tudo que fez. Eu sou contra.

— É sua palavra final, meu rei?

— Estou falando como seu marido — disse ele. — Como rei, eu a proíbo de falar com eles.

Anna pensou em discutir e bater pé, mas Thorin podia ter razão. Ela tinha dificuldade de entender outros khazâd que não os da companhia.

De qualquer forma, ela ainda tinha o plano B.

Nori iria verificar como estava a família de Bendar e oferecer assistência. O que Thorin não sabia não iria magoá-lo.

Nesse momento, Dís entrou na sala, indagando:

— Você está bem, minha cunhada? Fíli disse que foi preciso chamar Óin.

— Tive uma ligeira indisposição, mas já passou, obrigada — disse Anna. — Fíli e Kíli foram muito gentis.

Atrás de Dís, vieram os dois filhos. Eles logo cercaram Anna:

— Como se sente, minha tia?

— O que Óin disse?

Anna garantiu, tocada com a preocupação deles:

— Sobrinhos, como podem ver, eu estou bem. Só fiquei um pouco tensa.

Dís se mostrou entusiasmada:

— Mas você foi ótima! — Ela parecia maravilhada. — Pedir que o pelassem feito um frango antes do abate? Foi genial! De onde veio essa ideia?

Anna pediu:

— Dís, por favor.

Kíli, sempre animado, completou:

— Anna, eu quase não acreditei!... Nem parecia você!

Fíli concordou:

— Kíli tem razão. Como foi pensar nisso?

Anna disse, contrita:

— Sei que não faz diferença, mas tenham certeza de que o que fiz não me trouxe nenhum prazer. Aliás, nada me agradou em todo esse episódio. Podíamos mudar de assunto, por favor?

Thorin concordou, com um olhar de censura:

— Boa ideia. Esse assunto está encerrado daqui para frente. E para mudar de assunto, Dís, como ficou aquele jantar que você estava combinando com Bombur, como ficou?

— Podemos marcar para amanhã à noite, se tiver tempo, irmão.

— Excelente — disse Thorin. — Podemos usar a sala do conselho.

— Boa ideia — concordou Dís.

Thorin se virou para Anna e disse:

— Você virá.

Ela suspirou fundo:

— Marido, se eu não estivesse tão ruim neste momento, eu lhe diria por que me dar muitas ordens não é boa ideia. — Kíli e Fíli tentaram esconder o riso. — Mas nosso filho me deixa calma.

Dís sorriu:

— Pode ser a agitação com a coroação. Mas não se preocupe: em três semanas, tudo voltará ao normal.

Anna se espantou:

— Já? Nossa, parece que a reunião dos preparativos foi ontem. Eu esperava ter mais tempo.

— Tempo para quê?

— Esperava que Balin pudesse me ajudar a entender melhor negociação de tratados com elfos e homens. A coroação é uma boa oportunidade para marcar reuniões ou mesmo apenas medir a temperatura.

— Minha pequena sempre pensa adiante — disse Thorin, com um sorriso. — Vou falar com Balin sobre esse assunto agora mesmo.

Hila aproximou-se de Anna e indagou:

— Senhora, quer que lhe traga alguma coisa? Não comeu nada.

Thorin indagou, alarmado:

— Isso é verdade? Não se alimentou?

— Não conseguiria comer nada — garantiu Anna.

Thorin disse:

— Isso não é bom.

Dís reforçou:

— Quem sabe alguma coisa leve?

Hila sugeriu:

— Talvez um caldo ou uma tisana. Posso pedir que tragam.

— É muita bondade de todos — sorriu Anna. — Acho que mais tarde será melhor.

— Veja com que ela tome, senhora — ordenou Thorin a Hila, que fez uma mesura. — Agora Balin me espera.

Anna ergueu-se, abraçando-o e sussurrando:

— Obrigada, meu amor.

Ele sorriu, beijando a ponta de seu nariz:

— Não há nada que eu não faria por você, mizimel. — Virou-se. — Fíli, Kíli, venham. Vamos deixar as senhoras a sós.

Os três saíram e Dís indagou:

— Tem certeza de que está bem, cunhada? Às vezes esqueço que você é tão frágil.

— Fique sossegada, Dís. Foi só um mal-estar no estômago.

Hila sugeriu:

— Madame não gostaria de ver o quarto do nenê? Mestres Bifur e Bofur estão bem adiantados no móvel que pediu.

— Boa ideia — disse Anna. — Venha, Dís, diga o que acha.

Os dois as receberam com muita alegria, mostrando os móveis, mesmo os que ainda estavam longe de ficar prontos. Dís mostrou grande interesse na cômoda que Bifur estava terminando.

— Que engenhoso! — exclamou ela. — E isso é de sua terra?

— Não há nada de muito diferente — disse Anna. — As pequenas gavetas servem para colocar as pequenas coisas do bebê.

Dís comentou:

— Essa sua terra deve ser muito intrigante.

— Acredito que possa parecer assim, a princípio. Se as pessoas de lá soubessem como a vida pode ser diferente... É como me sinto todos os dias. Aqui sempre tem algo novo para mim, coisas que eu nunca vi.

Hila observou:

— Nunca vi uma pessoa como a senhora, milady. Até em aparência...!

Bofur sorriu, lembrando:

— Foi o que pensei, desde que a vi naquela caverna de trolls. Estava suja, ferida, assustada e tremendo mais que uma folha!...

Bifur fez gestos de tremer com os braços e todos riram, até Anna.

— É verdade, eu tinha medo de tudo. Aliás, acho que levou mais de uma semana para eu parar de tremer!

As risadas foram ainda mais altas. Hila indagou:

— Mas por que tanto medo?

Bofur respondeu por ela:

— Mal dona Anna chegou aqui, sem conhecer coisa alguma, ela foi capturada por orcs.

— Orcs! — repetiu Hila, admirada. — É difícil imaginar.

— E não foi qualquer orc, mas ninguém menos que Azog, o Profanador!...

Dís exclamou:

— O Profanador? O mesmo que matou meu avô e talvez meu irmão?

Anna disse, acariciando a barriga para evitar as más lembranças:

— Ele mesmo. Demorou um pouco, mas no fim ele foi morto por Thorin e Bilbo, meu tio.

Hila pediu:

— Madame precisa contar essa história do mesmo modo como contou a Mestre Gimli sobre a derrota de Smaug. Ou as crianças humanas.

— Esta é uma boa ideia, Hila — disse Anna. — Gimli deve gostar de ouvir isso.

Bofur repetiu:

— Crianças?

— Dori nos levou à plantação, pois eu queria ver como as famílias estavam instaladas. Uma das crianças quis saber sobre o dragão e eu contei um pouco sobre a retomada da montanha.

Bifur sorria de maneira comovida e Bofur comentou:

— Mahal seja louvado. Crianças na montanha...!

Anna passou a mão na barriga, lembrando:

— E mais uma chegará em breve.

— Um príncipe de Durin! — exclamou Bofur. — Que alegria nesse dia!

Dís apontou para um grande volume coberto com panos de tecidos crus e indagou:

— E o que é aquilo?

Bofur respondeu:

— Oh, aquilo ainda precisa de retoques, princesa.

Dís insistiu:

— Bobagem, deixe-nos ver.

Bofur ficou constrangido, e Bifur se agitou, gesticulando nervosamente para o primo. Bofur tentou explicar:

— Desculpe... É que... Juramos não deixar ninguém ver. Sinto muito, princesa, sinto muito, dona Anna.

Anna sorriu, entendendo:

— Acho que sei o motivo. É uma surpresa, não é?

— Isso mesmo — respondeu Bofur. — Como sabe?

Ela explicou:

— Thorin comentou que gostaria de fazer algo para o bebê, algo em madeira. Calculo que esteja ali embaixo.

Bofur garantiu:

— Ele nos fez prometer. Desculpe, dona Anna.

— Eu entendo. — Anna olhou em volta e sorriu. — Confesso que estou ansiosa para ver tudo limpo, pronto e com o bebê dentro do quarto.

— Calma — disse Dís. — Parece que ainda vai demorar algum tempo até isso acontecer.

— Até lá, vocês dois estão fazendo um trabalho maravilhoso — disse Anna, pegando a mão de Bifur com gratidão e dirigindo-se também a Bofur. — Muito, muito obrigada.

Eles expressaram agradecimentos, e as mulheres deixaram o aposento do bebê. Hila convidou:

— Dona Anna, que tal ir ver Bombur? Ele disse que gostaria de discutir sobre as cozinhas, se tivesse tempo. Poderia ser agora?

Dís disse:

— Excelente ideia! Preciso mesmo falar com Bombur sobre o jantar especial de amanhã.

— Sim, tem isso também — disse Anna. — Você sabe que jantar é esse e por que Thorin insiste que eu vá?

Dís garantiu:

— Anna, Thorin me pediu para fazer uma surpresa. Mas é uma tradição de nosso povo, e acho que você vai gostar.

E nada mais sobre o tal jantar foi dito.

Palavras em Khuzdul:

ghivasha = tesouro

khuzd = anão

khazâd = anões

mizimel = joia de todas as joias