Notas iniciais
Anna ganha o apoio de Dís

Mulheres

Anna ganha o apoio de Dís

Não demorou muito para a montanha se habituar a seus novos habitantes. Anna é que ainda não estava acostumada aos corredores cheios de gente e ao burburinho animado.

— Era assim animado quando morava aqui, Dís? — indagou à cunhada, no caminho para a enfermaria. — Lembra-se de como era?

— Muito pouco — confessou. — Eu ouvia meus irmãos falando sobre Erebor, mas eram coisas que uma menina não prestava atenção. Eu jamais imaginei que estaria de volta. Que emoção estar aqui com meus filhos!

Anna concordou:

— A vida é mesmo cheia de surpresas. Eu também jamais imaginei metade das coisas pelas quais passei e ainda estou vivendo.

— Tornar-se rainha? Viver numa montanha?

— Tudo isso também. O que Thorin lhe disse a meu respeito?

— Não muito, na verdade. Esperava que pudesse me contar mais sobre você, e sobre como conseguiu colocar um sorriso no rosto de Thorin. Nunca o vi sorrir tanto desde a morte de Frerín.

— Posso fazer uma pergunta constrangedora? Quero que seja sincera, responda sem medo.

— Pergunte.

— Você tem restrições por eu ser da raça dos homens? Sei que seu povo não confia facilmente, e isso me preocupa por Thorin.

— Bem... Sim, confesso que me preocupou, assim que soube. Deve entender que desposar estrangeiros não se faz entre nosso povo. Mas, acima de tudo, eu estava surpresa. Jamais imaginei que Thorin pensaria em se casar, ter família. Ele nunca pareceu se interessar por ninguém e ele não é mais jovem. Foi mesmo uma surpresa.

— Eu temo que o povo comece a duvidar dele por minha causa.

— É por isso que não usa o título de rainha? Você tem direito a ele. Não só é a mulher do rei: será mãe do herdeiro.

Anna garantiu:

— Fíli é o herdeiro.

Dís lembrou:

— Seu filho é o primogênito do rei. O trono é dele, é o que diz a lei.

— Não, isso já está decidido. Thorin concorda. Fíli é o príncipe herdeiro e Kíli depois dele. — Anna interrompeu a bela anã antes que ela protestasse. — Dís, como um mestiço pode se sentar no trono de Durin? Meu filho será somente o primogênito de Thorin Oakenshield e nada mais. Não pode ser diferente.

Dís a encarou longamente antes de observar, sorrindo:

— Thorin escolheu sua mulher bem. Mas não soube me dizer de onde você vem. Quando perguntei, ele apenas disse que você veio de longe e sua família ficou lá. Fiquei com a impressão que Thorin me escondia alguma coisa.

— Tem razão. Sou mais estranha ainda do que pareço.

— Que quer dizer?

— Não é algo que eu queira espalhar, mas Thorin e os meninos sabem que eu venho do futuro. É um mundo muito diferente.

— Futuro?

— Exato. Por isso tenho dificuldades em fazer coisas básicas do dia a dia. Óin, por exemplo, foi quem me ensinou a acender fogo.

Dís a encarou, abismada. Anna deu de ombros.

— Pode perguntar a Fíli ou Kíli. Quando me encontraram, eu tinha medo de praticamente tudo que se mexia.

— E agora? Ainda tem medo de tudo?

— Melhorou — mas não tanto quanto eu gostaria. Ainda sou muito covarde.

— Não foi o que ouvi.

As duas finalmente estavam no local onde ficava a enfermaria. Anna mostrou:

— Chegamos. E agora me dei conta que eu não deveria estar sem escolta.

Dís indagou:

— E eu sou o quê?

— Oh, não quis dizer isso. Geralmente Madame Hila é gentil para me acompanhar. Thorin faz questão que eu ande com alguém que conheça a montanha. Na verdade, ele ordenou.

— Por quê?

— Faz umas poucas semanas eu me perdi. Fiquei horas sumida. Thorin ficou preocupado.

Óin foi receber as duas e completou:

— O que ela não lhe disse, princesa Dís, é que ela caiu num buraco tão pequeno que mal cabia uma toupeira! Foi preciso fazer um resgate. E ela machucou o braço.

Dís encarou Anna, alarmada, que enrubesceu e disse:

— Mas no final tudo deu certo e eu venho me comportando desde então, não é?

Ele sorriu:

— É verdade, graças a Mahal. Está tudo bem com o bebê, pequena?

— Sim, claro — disse Anna. — Só vim ver os nossos pacientes, e Dís foi gentil em me acompanhar.

Óin fez um gesto para o local:

— Como pode ver, temos cada vez menos pacientes, o que é bom.

— É ótimo, Mestre Óin. Ainda bem que o povo anão é resistente. Espero que meu filho puxe ao lado do pai, forte e saudável.

Dís quis saber:

— Não conseguiu saber mesmo quando o bebê chega, Óin?

O velho anão respondeu:

— Não, mas dá para ver que ainda vai demorar um pouco. Essa barriguinha está muito pequena.

— Óin, preciso lhe falar — disse Anna. — Mas primeiro deixe-me ver os nossos guerreiros.

Anna fez visitas rápidas aos doentes, e muitos se mostraram felizes em vê-la, perguntando sobre o bebê e relatando o progresso de seu quadro. Dís foi com ela e causou sensação entre os internados, como irmã do rei. Após terminar as visitas, Anna perguntou a Óin:

— Tem certeza que o bebê não vai nascer tão cedo?

— Sim — respondeu o curador. — Ele vai demorar.

— Então qual é a pressa em me confinar?

— Sinceramente, é mais por precaução. Nunca tratei da gravidez de uma humana e tudo pode acontecer. Além do mais, Lady Dís pode lhe dizer que o confinamento é tradicional após uma certa etapa da gravidez para assegurar que bebê e mamãe passem pelo nascimento com tranquilidade e saúde. Você já teve emoções demais na gravidez, pequena.

Dís concordou:

— Tenho a impressão de que nem eu, grávida de Kíli quando Fíli ainda era praticamente um bebê, tive tanta excitação.

— Está bem, está bem! Já entendi — disse Anna, derrotada. — Mas eu não terei que ficar de cama o tempo todo, não é?

— Cama? — repetiu Óin, entre abismado e divertido. — É isso que achava ser o confinamento?

Anna indagou:

— Estou errada?

Dís lançou um sorriso afetuoso para a mulher do irmão e garantiu:

— Você só seria obrigada a ficar de cama em caso extremo de saúde. É claro que pode andar. Durante o confinamento, você não deve sair da ala real, nem circular pela montanha ou comparecer a suas funções públicas. Normalmente começa três luas antes da data prevista do nascimento e termina com a cerimônia de apresentação pública e revelação do nome externo.

Anna suspirou, aliviada.

— Ah, bom. Então vou poder cuidar do jardim e de outras coisas?

Óin respondeu:

— Não deve fazer esforços desnecessários. Aproveite para descansar, já que isso ser difícil depois que o nenê nascer.

— Mas isso ainda demora, não é? — Anna quis confirmar. — Até lá, vou precisar muito de ajuda — sua ajuda, Dís.

— Com o quê?

— Coisas de mulher. Nossa, como eu precisei da companhia de uma mulher durante a vinda até Erebor!... — Ela assegurou a Óin: — Por favor, Mestre Óin, não me leve a mal. Vocês foram todos ótimos, mas tem certas coisas que só mulheres sabem.

Ele sorriu:

— Não se amofine, menina. Aquela companhia era feita de um bando de anões barulhentos e sem modos. Dificilmente companhia para uma pessoa delicada feito você. E teve sorte de só descobrir a gravidez aqui na montanha. Se tivesse sido antes, Thorin a teria deixado em um lugar seguro e só a traria a Erebor depois que tudo estivesse seguro.

Anna se indignou:

— Ele não ousaria!... Não uma segunda vez! Aí ele iria me conhecer realmente irritada!

Dís não prendeu o riso:

— Oh, você é um deleite, cunhada! Meu irmão encontrou alguém à sua altura!

— Aye — concordou Óin, também com um sorriso. — Essa aí é muito feroz. Thorin que se cuide.

Os dois se riram, e Anna não pôde resistir e também riu, mesmo envergonhada.

— Sempre fui independente — tentou explicar Anna. — Mas aqui tudo é tão diferente que eu me sinto inútil. Às vezes certas atitudes de Thorin me fazem sentir ainda mais deslocada e inadequada. Como um homem como ele foi se casar comigo, ainda mais ter um filho?

Dís garantiu:

— Vai dar tudo certo. Nós a ajudaremos no que você precisar. E você tem também aquela sua criada. Thorin havia me dito para ajudá-la a encontrar uma, mas vejo que cuidou disso você mesma.

Anna se espantou:

— Mas eu não tenho criada.

Dís indagou:

— E aquela moça que está ajudando Dori, Hila? Não é sua criada pessoal? Ela pareceu ser muito dedicada a você.

— Ela começou como uma costureira e terminou sendo uma amiga que me ajudou num momento de muita aflição. Hoje posso chamá-la de amiga.

Dís esclareceu:

— Mas é assim que deve pensar, que essa criada é sua acompanhante e sua companheira. Não é incomum que a dama de companhia seja, ela mesma, uma dama de posição nobre.

Anna admitiu:

— Nunca pensei nisso por este ângulo. Será que ela estaria interessada? Hila pode fazer algo que não quer apenas para me agradar.

Dís deu de ombros.

— É só dizer isso a ela e deixar claro que não ficará magoada ou decepcionada se ela recusar.

Óin opinou:

— Com sorte, talvez ela tenha ajudado algum bebê a vir ao mundo e poderá ajudar o seu também.

Dís acrescentou:

— Oh, isso me faz lembrar que Thorin perguntou por parteiras. Pode ficar tranquila, Anna. Uma das mais experientes das Montanhas Azuis veio em nossa caravana. Mas você parece que poderia esperar a segunda caravana. Ou a terceira.

Anna confessou:

— Fico angustiada por não ter uma data precisa para a chegada do bebê. E se ele chegar quando menos se espera?

Óin respondeu:

— É por isso que trabalhamos com o prazo mínimo de gestação, que é a gravidez de um homem. Se o bebê seguir a gestação humana, ele virá no fim da primavera. Mas se for um anão, pode ser no próximo Dia de Durin.

Anna suspirou:

— É muito tempo para se ficar grávida!... Como você aguentou, Dís?

— A gravidez de Fíli foi tão tranquila que nem senti — respondeu ela. — Kíli me deu um pouco mais de trabalho, então tive que ficar confinada mais tempo.

Óin brincou:

— E você pode imaginar como ela reagiu, pequena!

Foi a vez de Anna rir, imaginando a anã feroz irritada com tudo e com todos. Dís completou:

— Mas você não teve nenhuma complicação nem dificuldade, não é?

— Nada, nenhuma complicação.

— Nenhuma, só dois dragões e uma batalha com cinco exércitos — lembrou Óin. — Essa criança é um Durin digno de sua linhagem!

Era verdade, pensou Anna. Ela não costumava pensar em tudo por que tinha passado, mas sabia que dificilmente grávidas tinham um histórico de jornadas, fugas em rio, batalhas ou maldições orcs durante a gravidez. Sem mencionar enfrentar dragões, claro.

Naquele momento, porém, Anna pensava em tudo que deveria fazer até o momento de ser mãe. Não era pouca coisa. Toda a jornada não se comparava com a enormidade da tarefa à sua frente.

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Para alegria de Anna, Hila não só aceitou a posição de sua criada pessoal como disse já tê-la exercido em Ered Mithrin, para uma dama de nobre linhagem. Anna explicou que iria precisar mais de ajuda com o bebê do que efetivamente algo pessoal. Hila garantiu sua ajuda no que precisasse, e que também terminaria as roupas para a coroação.

Portanto, Anna era vista frequentemente com Hila pelas ruas e corredores de Erebor. A consorte ouviu xingamentos sussurrados às suas costas e tentou ignorá-los. Hila, porém, dava olhares feios para os donos das más línguas, ao mesmo tempo em que poupava sua senhora de ouvi-los. Mas Anna tinha quase certeza que Hila relatava todos os incidentes para Dori ou talvez Balin.

As duas acompanhavam as obras na ala real, e Hila deu sua opinião a Bofur e Bifur, que faziam os móveis e outros serviços. Primeiro, Anna sentiu um pouco de rispidez dos dois irmãos ao tratar com Hila. Só mais tarde Anna entendeu o motivo. Foi Bofur que puxou o assunto, discretamente:

— Dona Anna, essa criada, Hila, ela é uma boa moça, não é?

— Claro que é — garantiu Anna. — Nori verificou, e ela é uma boa pessoa, sim. Tem me ajudado muito.

— Ah, bom. Porque ficamos preocupados. Ninguém a conhece, ela não é daqui.

— Ela me salvou de ladrões e é uma boa amiga, Bofur. Fique tranquilo.

Ele ficou vermelho:

— Oh, bem, é claro que Thorin não deixaria nenhuma pessoa má perto de você, dona Anna. Mas é bom ter certeza.

Anna sorriu:

— Hila é uma amiga, uma boa amiga. Mas você, Bifur e o resto da companhia... Bem, vocês são minha família. Sabe disso, não sabe?

Bofur sorriu:

— Aye. E você é família para nós, também.

Anna esticou-se para dar um beijo na bochecha dele. Bofur ficou ruborizado, e Anna disse:

— Tenho mesmo muita sorte. E você e Bifur pensaram no que eu sugeri? Sobre a cômoda com pequenas gavetas?

— Espere um pouco — disse ele. — Bifur decidiu fazer uma miniatura.

Então Anna deu continuidade aos seus esforços em mostrar aos irmãos o que era uma cômoda com minigaveteiro. Ela se maravilhou que Bifur tivesse entendido o conceito e agora estava a meio caminho de criar uma cômoda especial para o bebê.

— Lady Anna!

— Oh, olá, Mestre Dori. Como vão as coisas?

— Oh, andam corridas, senhora. O Conselho da Coroação gostaria de vê-la, se possível.

— Estão reunidos agora?

— Sim, minha senhora.

— Então vamos lá em seguida. — Anna se virou para Bifur, sorrindo. — Bom trabalho, meu amigo. Agora é preciso colocar os puxadores, os pés e um topo, para terminar. Amanhã eu volto, está bem?

Os dois concordaram, e Dori levou Anna e Hila até o salão do Conselho. Dori quis saber:

— Que caixa estranha era aquela na mão de Bifur?

Anna respondeu:

— Estou ensinando os dois a construir um móvel da minha terra, composto de um tipo de gaveta quadrada. Serve para guardar pequenos objetos e roupas delicadas: meias, lenços, toalhas, e roupinhas de bebê.

Dori quis saber:

— Não é mais fácil colocar num baú?

— Coisas grandes sim. Mas as pequenas coisas, como objetivos para um bebê, ficam perdidas.

Hila comentou:

— Milady deve vir de muito longe. Nunca vi nada parecido nem entre homens.

Anna lembrou:

— Por falar em homens, Mestre Dori, como estão nossos pioneiros da lavoura?

— Ainda preparam a terra, mas devem semear logo para conseguir colher no fim do verão — respondeu. — Vou fazer uma vistoria amanhã.

Anna pediu:

— Será que eu poderia acompanhá-lo? Gostaria de falar com as famílias.

Dori sorriu:

— É muita bondade, dona Anna. Acho que eles vão gostar. Bom, chegamos, senhoras.

E lá foi Anna ser informada sobre as cerimônias de coroação. Ela descobriu que o contrato de casamento requeria seu envolvimento nas festividades.