Vida em Erebor

45 Mais uma vez, planos


Notas iniciais
Anna elabora projetos para a viagem

Mais uma vez, planos

Anna elabora projetos para a viagem

Episódios recorrentes de saudade irreprimível fizeram Anna acelerar os preparativos para a viagem até Erebor. Ficou acertado que a estação quente deveria ser a mais indicada para viajar, e eles poderiam voltar em meados do outono.

Era só a primavera chegar e passar, pensou Anna. Ela estava alegre que o tempo já estivesse melhorando, mesmo em pleno inverno.

O treinamento de Bilbo começou em seguida. Seria melhor que ele carregasse Darin, talvez no canguru, enquanto estivessem no ar. Mas a montaria de Bilbo provou ser uma complicação.

Primeiramente pensaram em usar uma sela de montaria, mas nenhuma era grande o suficiente para se adaptar ao corpo de uma águia gigante. Mesmo com correias, não havia garantias de estabilidade nas penas.

O passo seguinte foi tentar adaptar a mesma cela ao corpo de Safira, o dragão azul-esverdeado de quem Anna gostava tanto. Em pouco tempo viram o desastre da tentativa. Por mais que tentassem e se empenhassem, não era difícil concluir a inutilidade dos esforços. É que o corpo de um dragão simplesmente não era construído para ser usado como montaria por um cavaleiro.

A única alternativa restante era treinar Bilbo para montar em pelo. No caso, claro, seria montar em pena. Anna e o hobbit concordaram que montar a pelo nas escamas do dragão não era uma opção aceitável.

Mas os treinamentos começaram, em um lugar escondido que ficava atrás de Bag End e se chamava Colina Assustadora — perto de onde o urso gigante havia atacado os lobos e onde nenhum hobbit ousava se aventurar.

Para Anna, o mais importante é que a viagem começava a tomar forma. Ela falara com Adamanta Took sobre os planos, sobre como avisar os pais das crianças a respeito de sua ausência planejada. Adamanta reagiu bem, mas alertou que os pais poderiam não gostar.

Esse era um problema para resolver depois, decidiu Anna. Um problema de cada vez.

Mil planos passavam por sua mente, e o mais louco deles deixou Bilbo fora de si quando Anna demonstrou do que se tratava. Durante semanas ela trabalhava na solução de seu problema e nos detalhes de seu plano louco.

Chegara a hora de demonstrá-lo.

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A tarde caía e era hora de Anna chegar da creche, como ela chamava. Com efeito, de seu escritório Bilbo ouviu a porta se abrir, e a voz infantil de Darin balbuciar:

Ma-madad!

Bilbo sorriu, pensando: "Ele ainda não conseguiu perceber a diferença entre amad e adad, mas está chegando lá."

Foi até o átrio e viu Asfodélia Brandybuck tirando os sapatos de Darin. Bilbo estranhou e indagou:

— Olá, Asfodélia. Está tudo bem? Anna está com vocês?

A jovenzinha ia responder, mas Darin gritou, sorrindo ao ver Bilbo:

— Bibi!

Ele pediu colo e Bilbo o pôs nos braços, indagando:

— Que aconteceu? Onde está Anna?

Asfodélia respondeu:

— Fique calmo, Bilbo, está tudo bem.

— Mas por que ela não veio com vocês?

A adolescente respondeu:

— Na verdade, ela está bem aqui.

Num piscar de olhos, a imagem de Asfodélia Brandybuck se desfez para dar lugar a Anna de Erebor. Bilbo quase deixou Darin cair de seu colo, tamanho o susto.

O menino quase caiu, mas levou na brincadeira:

— Weeeee!

O pobre hobbit estava vermelho, parecia sem ar e Anna achou melhor pegar Darin e atendê-lo. Bilbo caiu sentado no chão, ofegando pesadamente, agitando as mãos.

— Ah...! Ar... Preciso... ar!... Ai, Eru...

Anna o socorreu:

— Tudo bem, Bilbo. Respire fundo. Fundo, vamos. Quer se deitar?

Ele conseguiu inspirar uma vez bem forte, negando. Inspirou de novo, com os olhos fechados. Quando finalmente conseguiu manter a respiração regular, Bilbo abriu os olhos, encarou Anna severamente e comunicou com aspereza:

— Vamos para a sala e vamos conversar — agora.

Levantou-se e saiu. Foi a vez de Anna inspirar fundo, tensa, e segui-lo, Darin balbuciando em seu colo.

Bilbo sentou-se em sua poltrona favorita, as mãos se mexendo nervosamente, como ele fazia quando estava irritado. Com cuidado, ele indagou:

— Que diabo foi isso?

Anna pediu:

— Deixe-me explicar, Bilbo. Não sei o que está pensando, mas antes de gritar comigo, precisa entender o motivo.

Impaciente, ele ergueu as sobrancelhas com uma expressão de relutância, dizendo:

— Vamos, explique.

Anna respirou fundo e disse:

— Primeiro quero dizer que eu nem sabia que podia fazer isso até pouco. Mas é uma necessidade. Para ir até Erebor, eu preciso de um plano e de um rosto novo. Não posso aparecer lá: todos pensam que morri! Pensei em me disfarçar com roupas, cortar o cabelo: você sabe, como antes. Mas desisti.

Bilbo interrompeu, ríspido:

— Foi aí que optou por zombar de minha sobrinha?

— Zombar? — repetiu Anna. — Por que eu haveria de querer zombar de uma criatura doce como Asfodélia?

— Então por que disfarçar-se dela?

Ela explicou pausadamente, para fazer suas palavras serem entendidas, apesar da irritação de Bilbo:

— Preciso me disfarçar para poder entrar em Erebor, como disse. Porque antes já me chamavam de bruxa, imaginem o que fariam comigo se eu ressurgisse dos mortos! — Ela encarou Bilbo para ver se ele a ouvia, e ele assentiu. — Disfarçada como um hobbit, ninguém na montanha desconfiaria de minha verdadeira identidade. Foi aí que comecei a ter problemas Primeiro tentei me transformar em um hobbit genérico, mas não foi possível. Um animal é bem mais simples, mas uma pessoa é muito complexa. Então optei por me transformar numa pessoa conhecida, a quem eu poderia observar bem, conhecer expressões e trejeitos. Asfodélia foi minha escolha por vários motivos.

— E pode-se saber quais?

— O principal deles é que precisaria ser um rosto conhecido para Darin. Se fosse um hobbit diferente, ele poderia estranhar. Foi só por isso que eu a escolhi. Jamais passou pela minha cabeça desrespeitá-la ou causar qualquer mal. Eu juro, Bilbo.

A explicação pareceu acalmar um pouco a indignação de Bilbo. Ele quis saber:

— Mas qual é o plano? O que você pensou em fazer?

Ressabiada, Anna perguntou:

— Você quer saber tudo ou só-

Ele interrompeu, severo:

— Tudo, cada detalhe — especialmente se envolver minha família.

Anna assentiu antes de dizer:

— É justo. Meu plano é que saiamos normalmente daqui, passemos pela Curva do Rio para visitar Dona Edna e depois vamos de águia até Rivendell. Ficamos uns dias lá, depois vamos a Erebor. Podemos visitar Beorn ou Lord Gwaihir no caminho. Vamos a Valle, e aí nós nos apresentamos como uma família de hobbits. Você pode visitar o rei Bard, dizer a ele que se casou e está viajando com sua nova mulher Asfodélia e seu filho Belethiel para visitar seu amigo Thorin II na Montanha Solitária.

Bilbo empalideceu:

— O quê?

Anna acrescentou:

— Eu pensei em ir novamente como hobbit rapaz adolescente, mas Darin não foi totalmente desmamado, e seria embaraçoso na hora que ele ficasse com fome e quisesse mamar.

Bilbo continuava estupefato:

— Mas e depois? Quais são os planos para Erebor?

— Bom, eu veria Thorin e ele veria Darin. Em público, eu seria Asfodélia, mas em segredo, eu poderia voltar a ser Anna. Pensando bem, acho que Dís pode nos ajudar nisso. Você vai adorá-la, ela é ótima.

— E para a volta...?

— Voltaríamos no fim do outono. O percurso seria o mesmo, ou podemos voar direto até Bree, e de lá vir de carroça para casa. Passaríamos um inverno gostoso até pensarmos em fazer isso de novo. Ou poderíamos trazer Thorin para uma visita! Que tal?

Bilbo a encarou, agora sem o mínimo vestígio de irritação e com ar de pura admiração, antes de indagar:

— Você pensou mesmo nisso, não foi?

Anna adquiriu um ar de seriedade ao garantir:

— Não penso em outra coisa desde que saí de Rivendell. Se não quiser ir, Bilbo, se não concordar com isso, pode me dizer. Precisamos ser honestos. Mas eu não vou deixar de ir. Terei que arrumar um outro plano, mas eu vou conseguir. Não posso mais ficar sem ver Thorin.

Ele confessou:

— Tem razão, precisamos ser sinceros. Então vou ser bem sincero. Não gosto da ideia de usar a imagem de Asfodélia. Ou de nenhum outro hobbit, para ser honesto, seja ou não de minha família. Mas também não consigo oferecer uma alternativa.

Anna concordou:

— Também me parece... sei lá, errado. Mas não preciso dizer que não vou usar isso de maneira errada. Jamais passou pela minha cabeça prejudicar ninguém ou zombar de ninguém, muito menos Asfodélia, a quem quero como se fosse minha própria irmãzinha.

— Disso eu sei, Anna, estou tranquilo — falou o hobbit. — E se não fosse essa circunstância, eu estaria totalmente de acordo com seu plano. Caramba, na verdade, é um plano brilhante.

— Então o que você acha?

— Acabei de dizer que o plano é brilhante.

—Não, eu quis dizer sobre trazer Thorin, se ele quiser.

— É uma ótima ideia. Claro que concordo.

— Eu e ele poderíamos nos instalar em Bree. Isso devolveria sua privacidade.

— Nem pense nisso. Ele ficará bem instalado em Bag End, com vocês dois.

— Bilbo, é um abuso...

— Vocês são meus amigos. Insisto que fiquem aqui. Nada de ir para tavernas e estalagens quando aqui têm uma boa cama e comida caseira.

Anna sorriu, olhos cheios de lágrimas:

— Obrigada. De todo o coração. Você é um amigo precioso.

Bilbo sorriu de volta e disse:

— Por ser seu amigo é que eu preciso dizer: eu ficaria muito feliz se eu voltasse de Erebor sozinho.

— Sozinho? Como assim? Não nos quer mais aqui?

— Quis dizer que eu ficaria feliz se você fosse morar com seu marido em Erebor — disse ele. — Como uma família. Devem ficar juntos. Vejo você quase chorando cada vez que menciona Thorin, Anna. É muita dor. Sentir tanta dor não é saudável, assim como não está certo que vocês vivam em lados opostos do mundo. Vocês se amam tanto.

Anna já estava chorando. Darin se enroscou nela, preocupado. O menino era incrivelmente sensível. Ela conseguiu dizer:

— Bilbo, ninguém concorda mais com isso do que eu. Viver ao lado de Thorin é tudo que sempre sonhei. Mas não sei o que fazer. Você conhece a situação. Diga-me o que fazer.

Ele sugeriu:

— Converse com seu marido sobre isso.

— Ele é teimoso e cabeça-dura. Vai querer que eu fique e vai jurar me proteger. Droga, Bilbo, eu estava grávida e quase fui violada em minha própria cama!

Bilbo suspirou:

— Thorin sabe disso, ele sabe de tudo isso, Anna. Mas pense bem. Acha que durante todos esses meses Thorin não pensou essas coisas? Tenho certeza que sim, e talvez ele tenha achado uma solução que nem eu nem você tenhamos podido ver. — Anna o encarou, e pela primeira vez uma chama de esperança quis se acender em seu coração. — Ele é um anão, conhece sua raça melhor que nós. Talvez haja uma solução, talvez ele tenha encontrado uma resposta.

— Será, Bilbo? — Anna queria que aquilo fosse verdade. Ela queria muito mesmo. — Parece um sonho.

Bilbo advertiu, seriamente:

— Mas deixe-me dizer uma coisa: precisa estar pronta para a solução. Fale com ele e não seja teimosa. Deve aceitar que a solução dele pode não ser o que você quer nem o que você espera. E reconheça: você o acusa de teimosia, mas não fica atrás. Quando põe uma coisa na cabeça, não tem jeito de convencê-la a mudar de ideia.

— Isso não é verdade — protestou Anna. — Eu mudo de ideia quando as pessoas me convencem que sua ideia é melhor.

— Então se eu tiver uma solução para você desistir de mexer com Asfodélia, você vai aceitar?

— Claro que sim. Convença-me. Tem alguma ideia?

O esperto hobbit garantiu, piscando um olho:

— Ainda não, mas ainda temos tempo antes de partir. Só Eru sabe o que pode acontecer até lá.

Anna sorriu e a voz de Darin chamou:

Ma-madad!

Bilbo chamou:

— Parece que alguém está com fome. Venham, vamos jantar.

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O dia tinha sido realmente estranho, pois uma onda de frio fora de época passava pelo Shire, provavelmente uma das últimas que veriam, com a primavera já chegado. A inusitada massa fria trouxera neve, apesar dos campos estarem cheios de flores. A paisagem misturou um cobertor branco salpicado de pontos coloridos.

A circunstância fez Anna se lembrar de Radagast. No dia da coroação de Thorin (e do nascimento de Darin), o mago marrom disse que a neve florida sempre trazia coisas inesperadas, ou alguma coisa parecida. Engraçado que ela se lembrasse disso. Talvez alguma coisa inesperada pudesse acontecer, pensou ela, ajudando Darin a caminhar de volta a Bag End.

Ela olhou para o caminho estreito, desesperadamente tentando evitar pensamentos de Erebor e do dia da coroação, daquele dia tão marcante de sua vida. Porque pensar naquele dia era pensar em Thorin, e pensar em Thorin significava uma madrugada inteira de dor, saudades e lágrimas.

Anna ainda olhava o caminho estreito, no dia que morria e esfriava cada vez mais, e viu uma silhueta na penumbra do crepúsculo. Não reconheceu a figura de imediato, mas aquela silhueta lhe pareceu assombrosamente conhecida, como um fantasma.

Um arrepio percorreu todo seu corpo ao finalmente identificar a pessoa. Sua mente espiralou como um foguete acelerado e fora de controle na imensidão do espaço.

Thorin.

Não, não podia ser, era sua mente lhe pregando peças. Que poderia ele estar fazendo ali? Thorin estava a milhares de quilômetros, do outro lado da Terra Média, em seu trono, em seu reino, que era seu lugar, conquistado a duras penas. Era impossível que ele estivesse ali.

A figura vinha até ela, e Anna foi parando de respirar, sentindo a realidade mudar para uma atmosfera líquida que a envolvia num universo diferente. Ali não havia ar, as imagens pareciam dançar diante de seus olhos, e ela só via a pessoa que se aproximava contra a luz do sol poente, os sons distorcendo-se em seus ouvidos, seus braços perdendo a força.

Ela estava enlouquecendo.

No auge de sua loucura, quando a pessoa já estava perto, pois agora ele vinha correndo como em câmera lenta, Anna viu os cabelos, a barba, o rosto. E mesmo distorcida, a voz que tanto amava, a voz com a qual sonhara tantas noites, a voz que mais ansiava ouvir, soou em seus ouvidos para dizer uma única palavra:

Ghivashel!

Anna perdeu as forças nas pernas e um cobertor cinza pareceu cobri-la quando ela foi ao chão, desequilibrando Darin, afundando na neve e esmagando flores.

Neve florida sempre trazia coisas surpreendentes.

Palavras em Khuzdul

adad = pai, papai

amad = mãe, mamãe

ghivashel = tesouro de todos os tesouros