Vida em Erebor
25 Lidar com desastres
Notas iniciais
Lidar com desastres
Anna põe em prática seus conhecimentos
Foi um incêndio, uma caldeira que explodiu. Cinco mineiros morreram no ato. As chamas, contudo, despertaram lembranças de Smaug e criaram pânico na montanha.
Dís e Anna dispensaram a guarda e foram direto à enfermaria. Os primeiros feridos já tinham chegado.
Pela quantidade de feridos que chegava, dava para ver que o fogo ainda não fora controlado. Anna ajudava Óin limpando feridas, fazendo curativos, aplicando unguentos. Se alguém se espantou por ver a Princesa de Erebor e a Consorte do Rei naquele local, Anna não percebeu e Dís nada falou.
Era grande a confusão na enfermaria, com gente entrando e gritando. Não era a primeira vez que Anna via um desastre daquele tipo, mas ela nunca parava de admirar a resistência dos khazâd. Feridas graves, que teriam ameaçado a vida de um homem, eram meros machucados nos corpos robustos do povo de Durin. Por isso, quando alguém chegava à enfermaria num estado lastimável, era quase certo que estava desenganado e sua sobrevivência era improvável. Felizmente, eram poucos que chegavam assim. Mas um deles, um especial, deixou Anna pálida.
— Dwalin...! Não!
Ela correu até ele, trazido numa maca improvisada, coberto de fuligem, uma ferida aberta que sangrava profusamente no abdômen. Óin veio logo atrás, examinando-o.
Anna indagou aos homens que o trouxeram:
— O que aconteceu com ele?
— Foi uma coluna que esmagou sua barriga, senhora — respondeu um deles, de nariz largo e batatudo. — Ele ajudou a resgatar meu primo. Salvou a vida dele.
Óin se virou para Anna:
— Faça pressão sobre o ferimento, procure estancar o sangue. — Virou-se para Dís: — Princesa, pegue água e panos limpos. Será preciso limpá-lo muito bem.
Anna obedeceu imediatamente, aflita ao ver que Dwalin mal estava consciente. Ela apertava as mãos na ferida, sujando-se de sangue sem se importar. Ficou preocupada que o guerreiro entrasse em choque volêmico e chamou sua atenção:
— Aguente firme, Dwalin. Está me ouvindo? Aguente aí.
Ela viu o rosto dele se virar e os olhos adquirirem alguma cognição. Em voz fraca, ele sussurrou:
— Minha ra... inha...
— Dwalin, aguente firme que já vamos dar um jeito em você. Fique comigo!
— Acho que... Mandos me chama...
Anna se alarmou:
— Não se atreva a me deixar, Dwalin! Você é o único irmão que tenho! Como ficarei sem você? A quem poderei recorrer quando precisar cortar o cabelo para me disfarçar de hobbit? Quem vai ensinar meu filho a erguer o machado dos anões? — Anna chorava enquanto indagava. — Como Thorin vai suportar sua ausência?
— Pe...quena... — foi o que ele sussurrou.
— Você ainda tem muito a fazer aqui. Eu preciso de você! Sim, você tem uma rainha egoísta e fraca, mas eu preciso de você! Dwalin, me escute!
Dís, que o limpava, ajudou:
— Seu anão bruto e estúpido, não ouse desobedecer minha cunhada! Caso contrário, eu nunca vou perdoar você, Dwalin, filho de Fundin!
Entre as lágrimas, Anna viu a luz nos olhos começar a se apagar. Chamou:
— Dwalin? Dwalin, não!
Ele estava imóvel, olhos fechados. Dís sussurrou:
— Ele está indo...
Anna se revoltou:
— Não! Não irá assim tão fácil! Mandos pode chamá-lo, mas eu o quero aqui. Vamos lá, Dwalin!
Foi quando Anna se concentrou na vontade de ver Dwalin saudável e sorrindo que aconteceu a coisa mais extraordinária. De algum lugar dentro de si, Anna pôde ver um raio luminoso dourado muito intenso que parecia viajar até suas mãos. De suas mãos, o raio parecia ir para dentro de Dwalin, soldando costelas, remendando músculos e costurando pulmões. Os olhos de Anna nada mostravam além de suas mãos ensanguentadas fazendo pressão sobre a ferida, mas ela sabia que ele estava salvo.
— O sangramento... — disse ela a Dís, admirada. — Acho que parou.
— Como sabe?
— Não sinto mais.
— Será que ele...?
Anna apontou:
— Não é isso, veja: a respiração dele está mais forte!
Dís reparou e viu que Anna tinha razão: Dwalin estava melhor.
— Mas como...?
Anna sorriu:
— Óin é um gênio!...
Um dos ajudantes de Óin chegou para verificar os ferimentos de Dwalin e constatou que ele estava fora de perigo, embora precisasse de tempo para se recuperar. Aliviada, Anna sorriu, mas por dentro estava intrigada: o que tinha acontecido? Ela sentia que algo se passara dentro dela, embora ela não pudesse explicar o quê. Contudo, ela não tinha sequer tempo para se deter naquilo: os feridos continuavam a chegar.
Com o passar das horas, Óin e seus ajudantes se viram cada vez mais cheios de paciente. Anna e outros voluntários cuidavam deles, e Dís coordenava recursos materiais, tratando para que não faltassem panos e água limpa.
Finalmente chegou a notícia que o incêndio tinha sido controlado, o que levantou o moral de todos, pois o volume de trabalho tendia a diminuir dali para frente. Após algumas horas, o fluxo finalmente se reduziu.
— Anna, não quer descansar um pouco? — sugeriu Dís. — Está aqui há muito tempo.
Anna retorquiu:
— Mas há tanto a fazer. Como posso simplesmente sair?
Óin interveio e disse severamente para Anna:
— Já está aqui há muito tempo, minha senhora. Deve comer alguma coisa, dormir ou ficar com seu pequeno, mas primeiro lave-se bem.
Olhando para suas roupas com fuligem, sangue e outras sujeiras, Anna teve que concordar com a higiene. Dís quis saber:
— Quer que eu a acompanhe?
— Não será necessário. Voltarei assim que puder.
Óin garantiu:
— O pior já passou. Podemos nos virar bem daqui para frente.
— Volto logo.
Anna deixou a enfermaria, mas viu muitos khazâd do lado de fora, esperando notícias de parentes ou meramente observando as consequências da catástrofe. Muitos se curvaram diante dela. Anna tentou animá-los:
— Fiquem firmes. O pior parece ter passado.
Enquanto houve murmúrios de agradecimento, uma voz cochichou para ela:
— Senhora, precisa vir comigo discretamente para não alarmar o povo.
Assustada, Anna virou-se e viu um khuzd encapuzado, que reiterou:
— É o rei. Ele sofreu um acidente em meio ao fogo. Precisa vir comigo, rápido!...
O coração de Anna estava acelerado quando assentiu:
— Leve-me até ele.
— Use isto no nariz — disse o anão, dando a ela um pano molhado. — Vai ajudar a minimizar a irritação com a fumaça.
Sem hesitar, Anna pôs o pano no rosto, sentindo na hora o cheiro pungente do antídoto contra gases. Era tão forte que ela chegou a se sentir tonta. Ao vê-la cambaleando, o anão a puxou, um senso de urgência na voz:
— Não há tempo para isso!
Anna começou a se sentir realmente tonta e pesada. A realidade parecia diferente — fluida.
— Desculpe — disse ela. — Eu não me sinto bem...
O anão a amparou, dizendo:
— [Não me faça carregá-la, meretriz. Os mercadores de escravos nem estão me pagando tanto assim!]
Anna estava confusa, tonta e pesada. Seu corpo parecia incapaz de obedecer, e agora ela não entendia o que o anão tinha dito. Que escravos? Thorin estava em poder de comerciantes de escravos? E por que raios o mundo não parava de girar?
Então uma voz indagou:
— Senhora Consorte?
Anna virou-se e sentiu a língua enrolar ao responder ao anão recém-chegado que a encarava de maneira desconfiada:
— Sim, sou eu, senhor... Senhor... Eu conheço o senhor, não é? Esqueci seu nome...
— Gildail é o nome.
— Sim! — lembrou-se Anna. — Nas minas! Você viu Thorin? Ele está bem?
Mestre Gildail, chefe da Liga dos Mineradores, olhou o anão e cheirou o pano, antes de indagar:
— O que está acontecendo aqui? Você está drogando a Consorte!
O outro anão rosnou:
— [Fale baixo! Se esquecer o que viu, pode ganhar uma boa soma em ouro!]
Com a voz enrolada, Anna indagou:
— Gildail, pergunte por que ele falou em mercadores de escravos. Essa parte eu não entendi.
Para Anna, a confusão só aumentou. O anão que a carregava simplesmente jogou-a para Gildail, que a amparou enquanto o outro fugia no meio da multidão barulhenta dentro da montanha.
— Ops — fez Anna, perdendo o equilíbrio.
Mestre Gildail a ajudou a caminhar:
— Fique firme, senhora. Vou levá-la a Mestre Óin.
Anna disse:
— Ih, ele vai ficar muito bravo comigo. Ele disse que eu deveria descansar. Mas e Thorin? Mestre Gildail, aquele homem disse que Thorin sofreu um acidente!...
Anna ouviu o mestre anão falar um palavrão baixinho em Khuzdul e sussurrar:
— Aquele homem devia ser pendurado por suas tripas...
Anna enrolava a língua, mas disse:
— Isso não é... uma coisa simpática...
— Milady, quando estiver se sentindo melhor, vai concordar comigo.
— Só vou me sentir melhor quando eu vir Thorin... Oh... Mestre Gildair, eu...
Não completou a frase, finalmente sucumbindo à droga que inalara.
Palavras em Khuzdul
khazâd = anões, povo anão
khuzd = anão
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