Vida em Erebor
42 Estado de emergência
Notas iniciais
Estado de emergência
Bag End vira quartel-general de Hobbiton
A noite era de lua negra, que era o nome pelo qual os habitante da região chamavam a lua nova. As pessoas do local achavam que a lua cheia atraía lobos, wargs e outras feras, então a lua negra tranquilizava um pouco.
Foi com isso em mente que o trio de Bag End se mobilizou naquela noite. Era madrugada quando Anna acordou Bilbo só para avisar que Darin estava adormecido e ele não teria trabalho. O hobbit ficou tenso, mas aquiesceu.
Anna saiu voando, na pele de uma coruja até o ponto indicado: o Bosque Bindbole, ao norte de Além da Colina. Ninguém cortava lenha naquele lugar, portanto ela deveria estar a salvo de olhares indiscretos.
Tudo começou bem: a coruja pousou, e um urso mostruoso começou a colocar abaixo árvores robustas. Apenas meia dúzia delas deveriam ser o bastante: não formariam nenhuma clareira suspeita e haveria chance de ajudar hobbits mais idosos, como mãe Adaldagrim, ou com famílias grandes até para o padrão dos hobbits, caso dos Gamgee e seus 12 filhos.
Meia dúzia de árvores foi ao chão a partir da raiz, e o urso então levou-as para Além da Colina e pôs-se a partir os troncos em pedaços menores.
Foi aí que eles atacaram.
Hobbits ficariam de cabelo em pé se vissem como a alcateia de lobos famintos atirou-se contra o urso, surpreendendo-o. Eram pelo menos duas dezenas, todos atacando o urso em rodízio, para que a fera cinco vezes maior ficasse sem defesa.
Ao se ver ferida, Anna deixou o instinto tomar conta. Ela se deu conta que se estivesse pensando como um urso, teria sentido a aproximação dos lobos. Agora deveria se defender animalescamente, ou buscar algo que afugentasse os lobos.
Os ruídos eram pavorosos. Urros, latidos, rosnados, rugidos, tudo se misturava na noite, e de repente os latidos se tornaram ganidos de dor e terror.
Por puro instinto, Anna pensou em ataquefogochama, e Safira tomou conta de seu corpo. As escamas que surgiram repentinamente quebraram presas e mandíbulas caninas, as garras afiadas agarraram os lobos, atravessando-os, os dentes como lanças afiadas alcançaram os predadores no lombo, e a cauda fez uma meia dúzia de lobos voar longe. O fogo afastou os demais, e ela aproveitou a trégua para agarrar algumas toras entre as garras e levá-las até perto de Bag End. Safira repetiu a operação mais uma vez e então voou de volta à casa de Bilbo.
Ao retornar à sua forma humana, na porta de Bag End, de imediato Anna percebeu duas coisas: os ferimentos do urso em seu corpo humano e o choro desesperado de Darin.
Mal abriu a porta e entrou, Anna fraquejou e caiu no hall, desfalecida.
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— Por Eru! — exclamou Bilbo, com Darin no colo. O menino chorava, desolado. — Gandalf, socorro!
O mago (acordado pela mágica de Darin, que sentira a mãe em perigo) correu até ela e examinou-a. Viu o sangue e os cortes.
— Ela foi ferida!... Bilbo, afaste a mesa: vamos tratar dela aqui no chão mesmo.
O hobbit obedeceu, e Darin parecia cada vez mais nervoso. Gandalf se ajoelhou, virou Anna no chão e começou a afastar as roupas para examinar os ferimentos. Ele orientou:
— Bilbo, preciso de panos limpos e água. Deixe o menino ao lado da mãe e traga também os curativos.
O hobbit resistiu:
— Mas... Não, o menino vai atrapalhar!
Gandalf garantiu:
— Oh, meu caro Bilbo, o garoto é fundamental para a cura de Anna.
E quanto Bilbo soltou Darin ao lado da mãe, o menino engatinhou até ela e imediatamente um escudo dourado translúcido envolveu os dois.
Bilbo arregalou os olhos ao ver aquilo e Gandalf apressou-o:
— Os panos! Rápido!
O hobbit correu para dentro de sua toca, e o mago tentou continuar a tratar os ferimentos de Anna. Contudo, o escudo não o deixava chegar a ela — ao tocar, algo parecido a uma descarga elétrica o atingia.
— Darin?
O bebê chorava, debruçado na mãe desacordada. Gandalf tentou de novo:
— Darin, por favor, abaixe o escudo.
Nada. Gandalf insistiu, com urgência na voz:
— Eu preciso tratar de sua mãe, menino. Deixe-me chegar até ela!
Darin não parou de chorar. Na verdade, a criança ignorou Gandalf solenemente. Bilbo voltou à sala e quis saber:
— Mas o que houve?
Gandalf estava impaciente:
— Darin está tão assustado que isolou a mãe. Não consigo penetrar o escudo! Agora não posso tratar dela!...
Passando os panos para Gandalf, Bilbo alertou:
— Nervoso assim, vocé assusta ainda mais o pobrezinho. Deixe-me tentar.
— Ele é teimoso, não sei se vai conseguir.
Bilbo lembrou:
— O que você esperava? Ele é filho de Anna e Thorin. É claro que é teimoso!
Gandalf resmungou algo, mas o hobbit não prestou atenção. Bilbo se agachou e dirigiu-se ao menino, com voz suave:
— Darin, meu rapaz, eu sei que está assustado. Mamãe está dodói, está tudo escuro, você deve estar com sono, talvez com fome. — O menino encarou Bilbo, rostinho vermelho de tanto chorar, mas agora ele só soluçava quieto, olhos vidrados no hobbit. — Queremos cuidar de sua mãe. Você sabe que não vamos machucá-la, não sabe? Queremos ajudá-la a ficar boa, mas se você não deixar o tio Gandalf chegar até ela, mamãe vai continuar dodói.
Os grandes olhos azuis encaravam Bilbo, pedindo ajuda. Gandalf encarava a cena, sobrancelhas erguidas. O hobbit não tirou os olhos de Darin, esticando os braços, oferecendo colo:
— Venha, Darin, venha comigo. Já sei! Vamos cantar para fazer sua mãe ficar boa? Vem, vem comigo para a gente cantar aquela música.
E Bilbo começou a cantar uma música que prendeu atenção do garoto. Em minutos, Darin engatinhou para o colo de Bilbo, e o escudo ao redor de Anna se desfez.
Gandalf não teve tempo de se admirar, apressando-se a verificar os ferimentos de Anna. Bilbo continuou a cantar, agora querendo fazer Darin voltar ao sono.
Durante muito tempo, a canção de Bilbo era o único som da casa. Darin aninhou-se no colo de seu hobbit favorito e ajeitou-se para dormir, enquanto Gandalf limpava os ferimentos de Anna. Em pouco tempo, o garoto dormia no colo de Bilbo, com o corpinho eventualmente sacudindo em soluços esparsos.
Bilbo viu Gandalf erguer Anna em seus braços, e cochichou, ainda ninando Darin:
— Como ela está?
— Suas feridas se curaram. Vou colocá-la na cama. O menino deve ficar com ela.
Gandalf levou Anna a seu quarto e ajudou-a a beber um pouco de miruvor, mesmo inconsciente. Como instruído, Bilbo pôs Darin ao lado dela. Instintivamente, o garoto se aninhou junto à mãe.
Bilbo não gostou de ver que Anna praticamente não se mexeu desde que praticamente desabara no chão da entrada de Bag End. Mas então ele viu mãe e filho juntos na cama, e notou uma luz fina dourada a envolver os dois. Não era como o escudo protetor de antes: essa luz era suave e benfazeja, quase como se fosse um véu a envolvê-los. O hobbit estava tão maravilhado com a visão que quase se assustou quando Gandalf o puxou suavemente, indicando que deveriam deixar os dois descansarem.
Só quando estava no corredor é que Bilbo perguntou, ainda em voz baixa:
— Gandalf, o que eu acabei de ver?
O mago sorriu:
— Você acabou de ver, meu caro Bilbo, o milagre que é Anna, e também Darin. Seres maravilhosos que estão entre nós, os dois. Têm o dom da cura, talvez outros.
— Então ela pode curar pessoas? Por que não fez isso antes, durante a viagem a Erebor?
— Ela não tinha o poder então e ninguém sabia que ela poderia ter — explicou Gandalf. — Darin foi fundamental para ativar os poderes de Anna, pois ele também é portador. Ele curou a mãe do ataque que sofreu. Ficou assustado ao sentir que ela estava ferida e curou-a por puro instinto.
Bilbo comentou:
— Pobrezinho, estava tremendo tanto!... Ele não é muito pequeno para fazer esse tipo de coisa?
Gandalf concordou:
— Sim, e é por isso que precisamos ficar de olho nos dois. Sugiro que descanse, meu rapaz. Eu farei a vigília.
— Sim, boa ideia. Chame-me se precisar de alguma coisa.
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Tanto Anna quanto Darin se recuperaram rapidamente da aventura noturna. Ela teve que explicar as feridas e Bilbo ficou apavorado ao ouvir a história toda. Fez Anna prometer que só faria algo semelhante de novo em caso de extrema necessidade.
Infelizmente, porém, a grande necessidade logo se apresentou.
Era hora do jantar quando bateram à porta. Bilbo foi atender, alarmado que alguém tivesse saído apesar das recomendações do Thain.
— Primo Rory?
— Bilbo, por favor! — O jovem hobbit estava transtornado. — Precisa nos ajudar! O Thain disse que sua hóspede conhece essas coisas.
Anna veio correndo, Gandalf logo atrás. Bilbo indagou:
— Que houve?
— Mamãe está com febre muito alta e já fizemos de tudo. Agora minha irmãzinha também caiu! Essa febre pode se espalhar! Não sabemos o que fazer.
— Entre, Rory, vamos! — pediu Bilbo. — Venha se esquentar.
O jovem disse:
— Estão vindo logo atrás de mim: papai está carregando mamãe, e Asfodélia está com Prim.
— Mas por que vieram? É perigoso.
— Papai não quis ouvir a história de perigo de Algernon Grubb, de que há ursos e dragões na floresta, além dos lobos! São só mentiras para assustar crianças!
Anna ficou nervosa, mas Gandalf urgiu, desviando a atenção:
— Melhor arrumar tudo para eles. Anna, do que precisa?
Ela disse:
— É melhor que os pacientes fiquem juntos. Aquele quarto de hóspedes pode servir. Bilbo, eu cuido desses arranjos e você coloca duas chaleiras grandes de água para ferver. E eu também vou precisar de uma garrafa vazia ou de uma moringa.
O hobbit observou:
— Mas você nem sabe o que eles têm!...
— O rapaz falou em febre, então trata-se de uma infecção — disse ela. — Vamos precisar manter todos hidratados. Chás e infusões vão ajudar. Mas vocês podem ajudar fazendo uma infusão forte com alho (de preferência aquele bem roxo), mel, raízes de gengibre e cravo. Vou colocar Darin no canguru para começarmos.
Todos se puseram a trabalhar e logo os pacientes chegaram. Mirabella Brandybuck veio carregada pelo marido Gorbadoc, chamado Gordy, que parecia muito abatido. Anna se certificou que Mirabella estivesse deitada e aquecida. Então se virou para uma jovem hobbit com uma criança no colo.
— Olá, você é Asfodélia? — virou-se Anna. — E esta é minha paciente?
— Não, eu sou Amaranta, aquela é Asfodélia. Prim é esta e está muito doente.
Anna sorriu para a menininha no colo da moça.
— Olá, Prim. Você está com sono, querida? — A criança estava mole no colo da irmã, mas respondeu com a cabeça. Anna continuou: — Bem, vamos arrumar um lugar bem quentinho e gostoso para você dormir, aqui bem juntinho da mamãe. Amaranta, pode me ajudar, por favor?
Anna decidiu colocar as duas juntas e orientou Amaranta:
— Agora chame seu pai aqui, por favor. Enquanto eu falo com ele, você e todos os seus irmãos devem lavar bem as mãos, com bastante sabão. Assim não ficarão doentes.
A mocinha saiu e Anna pôs-se a examinar as duas. Mirabella estava acordada, mas muito fraca. Prim se aninhou junto à mãe e adormeceu.
Gorbadoc entrou no quarto e quis saber:
— Elas vão ficar boas?
— Vão, sim, mas vai demorar um pouco. Diga-me, elas têm comido bem?
— Prim conseguiu tomar a sopa, mas Mirabella não consegue comer nada desde ontem. — O hobbit a encarou, devastado, pálido. — Ela normalmente é tão forte... Pode mesmo ajudar, Dona Anna?
— Certamente vou fazer o melhor que puder, Sr. Brandybuck. Agora preciso fazer umas perguntas, sobre alergias a comida, ervas e algo deste tipo.
— Não temos nenhum alergia.
— Ótimo. Preciso de sua ajuda: se for uma infecção de gripe, isso pode se espalhar rápido. A melhor maneira de deter essa doença é isolá-la. Isso quer dizer separar e lavar bem tudo que as duas usarem. Todos da família devem lavar as mãos sempre que puderem. Mas neste exato momento, peça a Bilbo para alojar sua família o melhor que puder. Precisam descansar. Eu cuido das duas.
— Sim, senhora. — Ele olhou Darin. — Seu menino não vai adoecer?
— É muito difícil a raça do pai dele ficar doente. Ele deve ficar bem.
— Certo — disse ele. — Mas se precisar de qualquer coisa, pode chamar.
— Depois que descansar, conversaremos.
Anna conseguiu tratar Mirabella e e a pequena Prímula, mas não pôde evitar que Asfodélia se infectasse. Mas aí os Tooks, parentes do Thain, apareceram com o vírus. E também os Gamgees.
Com discrição e muito apoio de Bilbo e Gandalf, Anna praticamente capitaneou uma minienfermaria em Bag End. Sua magia complementava o uso de ervas e raízes aprendidos com Lord Elrond. Ela notou que, ao contrário do que vira na aldeia dos homens, hobbits tinham poucos pensamentos sombrios. Eles tinham medo (ainda mais com um inverno rigoroso e doenças), alguma inveja de um parente mais afortunado, mas nada tenebroso, como ódio, ganância ou luxúria. A qualidade da energia individual dos habitantes do Shire facilitava imensamente o trabalho de Anna.
Apesar das circunstâncias, a reunião de hobbits foi muito prazerosa para Anna. Ela começou a conhecer melhor as famílias, pois todos adoravam explicar quem era primo de quem, e tio e tia, e de que grau. Havia parentes de cabelo claro e outros de cabelo escuro; famílias mais distantes fisicamente e geograficamente.
Darin já conhecia as crianças e teve seu primeiro contato com outras, e logo elegeu Prímula como uma de suas companheiras de brinquedo favoritas, bem como alguns outros Brandybucks. Mesmo um pouco mais velho, Odo Proudfoot também era do grupo dos ídolos de Darin. Entre os adultos, o primo de Bilbo, Falco Chubb-Baggins, e o tio Isembard Took.
Anna nem sentiu, mas ela já estava integrada à gente de Hobbiton.
Palavras em Sindarin
miruvor = tônico restaurador
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