Vida em Erebor

29 A tristeza infinita


Notas iniciais
Erebor cai em luto, e seu rei fica cego de dor

A tristeza infinita

Erebor cai em luto, e seu rei fica cego de dor

Durante cinco dias, dezenas de homens vasculharam o rio e seguiram seu curso até o lago. Homens da Cidade do Lago também ajudaram as buscas. A melhor chance de encontrar os corpos era no rio, já que os dois eram tão pequenos.

O máximo que acharam foi a manta azul de Darin, enroscada num galho que se prendeu numa pedra antes das corredeiras. Dos corpos, em si, nenhum sinal.

Os homens do Lago usaram grandes pedras para tentar mexer a água e fazer qualquer corpo preso ao fundo boiar à superfície. Nada funcionou. Após duas semanas, quando todas as chances de encontrar os corpos se esgotaram, eles decidiram encerrar as buscas.

Anna e Darin foram declarados mortos.

Era imensa a tristeza em Erebor. A perda da Consorte foi devastadora no Rei Sob a Montanha (maior até que a morte do filho) e em todos os heróis da retomada da Montanha Solitária. Parecia que o verão se tornara frio, que o sol parara de brilhar, que as flores perderam seu viço.

Os autores do ato vil foram presos no ato. Dias mais tarde, Fendar foi encontrado enforcado em sua cela. Os outros dois foram julgados e condenados à morte.

A princesa Dís assumiu o trono temporariamente, pois o luto ameaçava arrasar Thorin Oakenshield. O Rei Sob a Montanha mandou construir uma lápide sem túmulo, com a inscrição "Thoringhivasha".

O tesouro de Thorin.

O monumento (chamado cenotáfio) ficava perto do Portão Principal, à direita, bem à vista de todos os visitantes. As canções diziam que a pedra da construção fora retirada de um dos mais puros veios de ouro da montanha. Aliás, as canções sobre Anna traziam o título de Sanamad (mãe perfeita), que se sacrificou para tentar salvar o filho.

Durante semanas, Thorin mal aceitava a presença de outros que não da sua família e da companhia. Muitas vezes nada era dito: a mera presença era o suficiente para tentarem se consolar mutuamente pela ausência de Anna. Mesmo Dís, que convivera por pouco tempo com a pequena, sentia a dor que assolava o irmão e os filhos. Ela também acompanhou o impacto da perda em guerreiros como Dwalin e Balin, e em toda a Companhia. Governantes de Esgaroth, Mirkwood e Valle vieram prestar respeitos.

Internamente, sem a presença de estrangeiros, houve uma cerimônia de despedida emocionante, para encomendar mãe e filho aos Portões de Mandos, a deidade que reinava sobre a terra dos mortos. Na mesma cerimônia, Anna foi batizada com o título de Joia de Erebor. Anões de outros reinos compareceram a esta cerimônia.

Óin foi chamado a tratar do rei no auge de sua prostração. Mas o velho curador pouco podia fazer além de receitar chás calmantes e caldos nutritivos. Uma coisa, porém, alertou o irmão de Glóin. O rei comentou, em voz fraca:

— Óin, os presságios estavam certos...

— Meu senhor?

— Morte sem sangue... Um trono vazio... E e um rei que não é mais...

— Por favor, meu rei, durma um pouco. Está tudo bem, fique sossegado.

— Sossego? Humpf! — Thorin soltou um som de puro ceticismo. — Sossego eu nunca mais terei enquanto viver...

O trono, na verdade, estava literalmente vazio. O reino estava aos cuidados de Dís, com ajuda de Fíli e Balin. Thorin desinteressou-se de tudo, imerso em seu luto. A irmã temeu que, com a perda da pequena que tanto amava, Thorin fosse enlouquecer.

Várias vezes o enlutado soberano partia sozinho rumo ao leito do rio, como se assim ele pudesse estar perto de sua amada novamente. O fiel Dwalin o acompanhava à distância, temendo que ele tentasse se juntar a Anna em sua última morada no rio. Por horas Thorin percorria as margens, ora silencioso e solene, ora ajoelhado, chorando de modo desconsolado, supondo não haver testemunhas.

Duas vezes Thorin visitara os campos de cultivo, observando os primeiros brotos que tanto alegraram Anna. Os homens que os cultivavam vieram falar com ele, dizer que se dedicavam com o dobro do afinco em homenagem à senhora. A dor por ver tamanha bondade em estrangeiros tocou Thorin mais fundo do que ele imaginara.

Ao longo de seus quase 200 anos, Thorin passara por várias perdas: o lar, a mãe, o avô, o irmão, o pai... Mas a perda de Anna era uma imensa ferida aberta em seu peito. Havia um vazio tão imenso que ameaçava engoli-lo.

Se suas emoções não estivessem tão cruas, Thorin provavelmente estaria surpreso ao notar que ele sentia muito pouca raiva dos homens responsáveis pelo seu inferno. Ao saber da morte de Fendar, Thorin não experimentara nem paz nem alívio. Condená-los à morte não lhe trouxera qualquer satisfação pessoal. A morte deles não traria Anna nem Darin de volta.

Mais do que tudo, o Rei Sob a Montanha não entendia por que Mahal lhe tirara toda a felicidade de uma vez só, e de maneira tão cruel. Por que seu povo odiara tanto sua amada? Anna fizera sacrifício após sacrifício por Erebor, para morrer diante da intolerância e do preconceito dos khazâd. A constatação entristecia Thorin tanto quanto a perda de Anna em si.

Foram semanas, meses, arrastando-se na dor e no choque. Todas as noites em que conseguia dormir eram povoadas pelos sonhos com sua amada. Normalmente eram pesadelos que reviviam aquele momento terrível em que Anna mergulhou no abismo atrás de seu filho. Thorin ainda podia ouvir o grito dela, seu rosto crispado de horror, suas súplicas pelo pequeno...

À noite, Thorin duvidava de sua sanidade. Se dormia, pesadelos o perseguiam. Se não dormia, as memórias de Anna o assolavam no quarto. O cheiro dela permeava todo o ambiente. Ele parecia sentir Anna no aposento. Por vezes, ele tinha a sensação de que a qualquer instante ela sairia do quarto de banho, com a camisola transparente, sorrindo para ele com a promessa de aquecer sua alma com o pequeno corpo macio e suave.

Uma vez Thorin tentara suavizar suas dores com a bebida. Nessa noite ele tivera alucinações de Anna circulando pelos corredores de Erebor com Darin. Dís foi acordada pelos gritos de Thorin e amparou-o em seus braços, sob os olhares assustados de Kíli e Fíli.

Muitas vezes Thorin sentia a mão pequena de Anna acariciando suas faces, como se pudesse amparar as lágrimas produzidas pela saudade de seu toque. Mas ao tentar tocá-la, a visão de Anna se esvanecia como fumaça diante de seus olhos. Nos dias em que os sonhos eram bons, Anna sorria para ele e o encorajava, dizendo que estava bem.

Então houve um dia frio de inverno, meses depois da morte de Anna, que Thorin pensou ter enlouquecido de vez. Um ruído suave despertou-o de seu sono leve e ele abriu os olhos. Lá estava ela, de pé ao lado da cama, sua silhueta definida pela janela aberta da sacada.

A visão de Anna nunca lhe parecera tão sólida e real. Ela estava suave na pouca luz do quarto, num vestido élfico parecido com aquele que usara em Rivendell — da primeira noite dos dois.

"Mahal, agora enlouqueci"

A voz dela era emocionada ao chamar, esticando a mão delicada:

Ukurduh...

Thorin ergueu a mão para tentar agarrar a pequena mão de Anna, embora internamente esperasse que seus dedos fossem encontrar o vazio. Mas sua mão encontrou a dela: pequena, quente e macia.

O sangue de Thorin gelou e ele recolheu a mão, assustado.

"Estou louco! O fantasma é real!"

Mas a aparição pegou a mão dele suavemente e garantiu:

— Meu amor, sou eu mesma. É Anna. Acredite em mim. Não é sonho. Estou aqui, meu amado...

Thorin não perguntou que alucinação era aquela. Ele abraçou a cintura de sua amada, explodindo em lágrimas.

Ghivashel...!

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Meses antes

Foi puro instinto. Em meros segundos durante a queda pelo precipício rumo ao rio e à morte atrás de seu filho, Anna sentiu seu corpo se esticar como uma águia gigante. Também por mero impulso, e num movimento contínuo, a águia que era Anna usou as garras para pegar Darin em pleno ar antes que caísse n'água e alçou voo baixo, seguindo o rio caudaloso até o Grande Lago e depois ganhando altura.

Não foi um voo tranquilo. Primeiro era preciso saber onde estava e traçar um curso até seu destino.

Mas para onde ir?

Ainda sem fôlego depois de ser atacada por opositores, Anna tentou tomar pé da situação: ela só pensava em salvar a si e a seu filho. Ainda estava em choque, mas continuava a bater suas asas.

"Pense à frente, Anna. Pense no que fazer."

Anna seguiu o único caminho que conhecia: o oeste. Com cuidado para não assustar Darin ainda mais, ela traçou um objetivo e rezou aos céus para aguentar até lá.

Esperava apenas estar no caminho certo.

Suas esperanças aumentaram depois que ela viu Mirkwood ficar para trás. Ela entreteve a ideia de se refugiar no reino de Thranduil por um breve momento, mas seu instinto lhe dizia para desistir dessa ideia. Havia razões lógicas também: aquela floresta oferecia perigos demais para Darin. Ela não se perdoaria se algo acontecesse a seu filho.

Portanto, Anna voou durante horas, até conseguir deixar Mirkwood totalmente para trás e sobrevoar uma floresta verde antes das Montanhas Sombrias.

O cansaço começava a ficar maior do que o desejo de escapar quando Darin irrompeu em berreiro que alertou Anna. A tarde começava a cair, e o sol se poria em breve. Como ela, o pequeno também deveria estar cansado e faminto. Ao menos, ele tinha forças para gritar: bom sinal.

Com cuidado, Anna circundou um campo muito verde antes de depositar Darin no chão com carinho e pousar a seu lado, enrodilhando-se em volta da criança para aquecê-la. Lá ela ficou um tempo, tentando acalmar seu filho, protegendo-o debaixo de sua asa.

Anna não queria transformar-se de volta tão cedo porque sabia que isso a enfraqueceria. Ela precisava proteger Darin. Talvez ela pudesse caçar um pequeno animal para se fortalecer.

Um zumbido chamou sua atenção. Uma abelha passou por ela: grande como um pássaro. Anna olhou em volta e viu outras abelhas. Os insetos a encheram de alegria e esperança.

Se havia abelhas daquele tamanho ali, Beorn estava por perto.

Não demorou muito e outros animais apareceram. Cavalos vieram trotando até ela, observando-a com cautela. Anna percebeu que eram animais de Beorn e pediu:

— Por favor, ajude-nos.

Os cavalos saíram a galope e Anna se alegrou.

A ajuda estava a caminho.

Sem se mexer, Anna esperou Beorn vir até ela, no campo. O homenzarrão chegou acompanhado de seus animais e indagou:

— Esquilinho? É você?

Angustiada, Anna pediu:

— Beorn, ajude-nos, por favor.

— Esquilinho, o que foi?

— Se eu me transformar, vou enfraquecer. Proteja meu filho. — Anna abriu a asa e revelou Darin, que choramingava. — Por favor, Beorn.

O troca-peles deu ordens aos animais numa língua estranha e alguns deles saíram correndo. Beorn garantiu a Anna:

— Pode se transformar, esquilinho. Cuidaremos de vocês.

Ao ouvir isso, Anna voltou à forma humana. E, como temia, enfraqueceu tanto que nem pôde abraçar Darin, desmaiando ao lado de seu bebê.

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Sua estada com Beorn foi povoada de altos e baixos. Anna ficou muito fraca por muito tempo, e agitada por causa de Darin. Beorn tinha improvisado uma cabaça para servir de mamadeira, e enchido com leite de ovelha. Segundo ele, Darin até tinha aceitado bem o novo leite e começava a conhecer Beorn, mas chorava muito se ficasse longe de Anna.

Anna só recuperou minimamente a consciência dois dias após chegar à casa do troca-peles. Ela se ergueu da cama, cambaleando, e viu que Darin estava a seu lado, dormindo, confortavelmente acomodado num bercinho esculpido em madeira e muito bem coberto. Ela suspirou, aliviada, e sentou-se na cama, olhando o filho.

E agora?

A figura de Darin dormindo em segurança era uma cena que não tinha preço para Anna. Ela sentiu uma dor infinita ao se lembrar de Hila, querida amiga, caindo perante aqueles facínoras. Sentiu angústia ao lembrar as palavras ferinas de Fendar, ou de outros ao falar dela.

O preconceito deles magoava Anna, que tentava entender a atitude deles: era uma sociedade fechada e desconfiada. Ela sempre soubera que ela e Thorin encontrariam esse tipo de problema, mas jamais podia supor que chegasse a tamanho ódio. Seu filho, uma criança inocente, fora chamado de aberração, como se fosse algum tipo de monstro ou criatura abominável. Darin fora arremessado em um precipício, com a intenção de ser exterminado como uma praga.

Isso era algo que Anna não conseguia aceitar. Muito menos perdoar. Ela esperava ser chamada de espiã, prostituta, rameira ou seja lá o que mais a xingassem. Mas ela jamais esperara ataque contra seu filho.

Agora tudo mudara.

Anna pensou de novo em Hila, sua grande e fiel amiga, e uma dor perpassou-lhe o coração. Lágrimas brotaram em seus olhos.

Lembrou-se de Thorin, do sorriso suave que ele parecia guardar só para ela, dos olhos que pareciam guardar amor infinito. A dor no coração se aumentou. Ukurduh, fukurduh...

"Meu amor..."

"Minha vida."

Como que sentindo a aflição da mãe, Darin começou a se mexer e chorar, e Anna o pôs em seus braços, tentando acalmá-lo. Ela o ninou com um balanço suave, mas ele continuava inquieto. Anna então ofereceu-lhe o seio, e o pequeno sugou com sofreguidão, reconhecendo a mãe. Não mamou muito nem voltou a dormir, mas estava calmo e esperto.

— Ele é bonzinho, seu pequenino.

Anna virou-se para Beorn, que entrara no quarto sem que ela visse. Ela sorriu, dizendo, mesmo entre lágrimas:

— Beorn! Seu homem maravilhoso... Você nos salvou.

— Não, esquilinho. Você salvou você mesma e seu filhinho. Como se sente?

— Essa sua geleia real faz milagres. Sinto-me bem melhor.

— Bom, bom, muito bom. — Ele se sentou numa grande cadeira. — Agora me conte o que aconteceu.

— Antes disso, posso lhe fazer uma pergunta? Por que saiu tão depressa de Erebor? Eu gostaria que estivesse no meu casamento.

— Achei melhor ir atrás dos orcs e goblins que conseguiram escapar. As Águias me ajudaram. Hoje restam uns poucos desgarrados. As estradas estão bem seguras agora. Por favor, responda. Por que estava fugindo, esquilinho?

Anna respondeu, com uma dor esmagando seu peito:

— Tentaram nos matar, a Darin e a mim. Eles não nos aceitaram. — Ela não pôde segurar as lágrimas. — Mataram minha criada. Jogaram meu filhinho num penhasco... Como alguém pode ter tanto ódio de uma criança?

— E você o salvou? Trocou a pele, não foi?

— Sim — Anna balançou Darin, que começou a choramingar. — Mas a transformação me enfraqueceu: eu não trocava de peles fazia mais de um ano e ainda para um bicho tão grande...

— Por que não trocou mais de pele?

— Tenho receio que alguém descubra meu segredo. Ele pode despertar cobiça e raiva. Já me chamavam de bruxa gratuitamente, imagine se descobrissem que tenho mesmo poderes. Podem tentar me obrigar a fazer o que não quero ou ameaçar aqueles a quem amo.

Beorn olhou para o pequeno e assentiu.

— Esquilinho, agora que está melhor, posso lhe dizer. Chamei aquele sujeito, Radagast, para levá-la até sua família.

Anna empalideceu.

— Não...! Beorn, não posso voltar para Erebor!... Os anões não me aceitaram. Sei que não foram todos que se opuseram a mim, mas tenho medo. Mesmo que seja um grupo pequeno, eu não me sentiria segura. E Darin... Ele é pequeno e indefeso. Não me perdoaria se algo acontecesse com ele.

O homenzarrão esclareceu:

— Pois é justamente para protegê-lo que deve sair deste lugar. Aqui é perigoso para ele por muito tempo. Por alguns dias eu não me importo, mas por mais tempo...

Anna se angustiou:

— Para onde eu irei, então?

— Rivendell — respondeu Beorn. — Lord Elrond é seu parente. Vai poder ajudar. Posso ver que precisa se recolher.

— Recolher?

Beorn explicou:

— Vocês dois passaram por um grande trauma e precisam de limpeza, pode-se dizer. Sua mágica está embaçada. Quem sabe você passa um tempo por lá até ficar boa? Pode deixar que me encarrego de avisar o rei, seu marido.

Ela pediu:

— Não! Por favor, Beorn, não conte a ninguém. Todos pensam que morremos, e acho que devem continuar a pensar assim.

O troca-peles a encarou, pensativo. Comentou:

— Ele vai sofrer. É seu marido.

Anna lembrou, tentando conter as lágrimas:

— Ele é Rei Sob a Montanha! O povo não me aceitou, e isso vai enfraquecer seu reinado. Eu vou enfraquecê-lo. Não deixarei isso acontecer.

— Thorin Oakenshield não será o mesmo rei sem você, Esquilinho. Eu vi como ele ficou na batalha pela montanha, quando pensou que estava morta. Ele pode ficar pior ainda, imaginando que perdeu a mulher e o filhinho.

Anna suspirou. Sentia-se dividida e angustiada. Ela achava arriscado voltar a Erebor, mas sabia que Beorn tinha razão: deixar Thorin pensar que morrera era cruel.

— Beorn, não sei o que fazer. Mas sei que não posso voltar.

O homenzarrão disse:

— Descanse. Pense no que vai fazer, sem pressa. O Castanho não está em Rhosgobel e vai demorar uns dias até chegar. Você tem tempo.

Mas Anna sabia que não tinha tanto tempo como gostaria.

Palavras em Khuzdul

fukurduh = minha vida

ghivashel = tesouro de todos os tesouros

khazâd = anões, o povo anão

ukurduh = meu coração