Vida em Erebor

26 A terrível verdade


Notas iniciais
Anna percebe o perigo que correu

A terrível verdade

Anna percebe o perigo que correu

— Acho que ela está acordando.

As vozes finalmente começavam a fazer algum sentido para Anna. Ela se mexeu, e o corpo inteiro reclamou.

— Ai...

— Calma, senhora — disse uma voz conhecida. — Não deve se mexer.

A visão continuava nublada, e Anna teve dificuldade em reconhecer:

— Hila...? Dís?

— Está tudo bem agora, minha senhora — disse a criada, erguendo a cabeça de Anna. — Aqui, beba isso.

Ela obedeceu, aliviada pelo líquido fresco em sua garganta. Sua boca parecia ter sido cheia de areia. Ela olhou em volta, indagando em voz quebrada:

— O que houve? O incêndio! Thorin-

Hila a interrompeu:

— O rei investiga a tentativa contra sua vida. Deve voltar a qualquer momento.

— Minha vida? Mas o homem disse que Thorin-

Dís rosnou:

— Estão procurando por esse uznâl, que Mahal lhe dê uma morte sofrida, desonrosa e lenta!

Anna ainda estava confusa:

— Mas... Thorin...

— O homem mentiu, milady — insistiu Hila com gentileza. — Sua Majestade, seu marido, nada sofreu. Está quase louco de preocupação.

— E Darin?

— Dormiu, mas chorou muito — disse Dís. — O pobrezinho sentiu sua falta.

Havia um aperto no peito de Anna, que pediu:

— Pode trazê-lo? Só quero segurá-lo um pouco.

— É claro.

Só o ato de segurar Darin pareceu ser suficiente para Anna clarear um pouco sua mente embaçada. O pequeno acordou e olhou para a mãe, abrindo um sorriso sem dentes. Anna sorriu de volta para seu filhinho, sentindo o coração transbordando de emoções.

E foi quando aconteceu.

Mais uma vez ela mais sentiu do que viu a luz dourada, a mesma que deu a Anna condições de ajudar Dwalin. A luz dourada, desta vez, parecia desanuviar a mente e a alma de Anna. E, percebeu, admirada, que a luz emanava de Darin. Não era visível aos olhos, mas sim ao coração.

"Meu menino especial", pensou ela, embevecida, com os olhos cheios de lágrimas.

As emoções não paravam, pois Anna olhou para o lado e viu ninguém menos que Thorin, sorrindo. Ela cochichou:

Ukurduh...

Ghivashel.

Thorin a abraçou, beijando-lhe a fronte.

— Minha pequena, minha vida!... Agora você está bem. Eu estava fora de mim.

Anna beijou o marido, ainda com o filho nos braços, antes de indagar:

— Meu amor, o que houve, afinal? Primeiro recebo um aviso que você estava envolvido num acidente, depois o homem saiu, e ele falou algo estranho...

O rosto de Thorin se fechou como poucas vezes Anna vira e ele respondeu:

— Pelo que pudemos entender, aquele homem usou meu nome para atraí-la e drogá-la. Ele queria levar você para fora da montanha.

Anna se apavorou:

— Oh! Ele ia me raptar? Eu nem posso imaginar quanto pediriam de resgate!

— Não — respondeu o rei, em voz grave e pesada. — Eles não queriam resgate. Eles obteriam lucro vendendo você para mercadores de escravos.

Anna ficou quase sem fala.

— Mas... Não...! Aqui não existe isso...!

Thorin concordou:

— Erebor não tolera escravidão, mas há outras raças e cidades que abrigam esse tipo de aberração. Que houvesse khazâd envolvidos nesse comércio é motivo de vergonha e revolta para mim.

Anna sentiu um tremor percorrer seu corpo.

— Thorin... Isso é horrível.

— Quando penso que você estava na mira dessa escória, sinto uma fúria capaz de devastar um campo de batalha inteiro.

Ela beijou a cabeça de Darin, confessando:

— Eu estou chocada... Quase perdi Darin... E você...

— Está tudo bem agora, zurmmuzmnâtîth.

Anna indagou:

— Do que está me chamando?

— Esquilinho. Era Beorn que a chamava disso, não?

Ela confirmou:

— Eu era Esquilinho, Bilbo era Coelhinho. Imagino do que ele chamaria Darin.

Thorin olhou para ela, um brilho divertido nos olhos azuis safira:

— Camundonguinho, talvez?

Pela primeira vez em dias, Anna riu alto, e com gosto. Thorin também sorriu, o que sempre deixava Anna feliz. Ela acariciou a farta barba do marido, sussurrando:

— Amo você, Thorin Oakenshield. E cada vez que você me olha, eu me apaixono de novo.

Thorin a beijou, desta vez demoradamente. Esfogueados, ambos sorriram como dois adolescentes ao se darem conta do que estavam pensando. Thorin comentou:

— Você me faz arder de paixão, pequena.

— Meu corpo também anseia pelo seu, mas temos que voltar à realidade. Como está o incêndio?

A expressão de Thorin fechou-se de novo.

— Finalmente foi apagado. Tivemos muitos feridos, mas poucas vidas se perderam, felizmente.

— E Dwalin?

Thorin respondeu:

— Ele está incrivelmente bem. Os mineiros não acreditavam que ele pudesse sobreviver, mas Óin parece confiante que ele voltará ao serviço antes mesmo que as minas voltem a funcionar.

Darin exigiu atenção de sua mãe, que brincou com ele um pouco, antes de indagar:

— Eu não sei se foi a droga, mas fiquei com a impressão que Mestre Gildail esteve comigo...

Thorin assentiu:

— Ele salvou você bem na hora. Segundo ele, você estava quase inconsciente, e o homem já estava a ponto de carregá-la.

— Thorin, essas lembranças... são como um sonho. Apenas imagens desconexas.

— Você pode reconhecer o agressor?

— Não, desculpe. Ele me drogou direitinho. Alguém sabe o que ele usou?

— Foi uma infusão forte. Óin tratou com vapores purificadores. Disse que você deveria acordar boa.

— E ele vai fazer isso de novo? Darin não foi exposto a esses vapores, foi? Ele é muito pequeno.

— Não, fique em paz. Vocês estão bem agora.

Anna beijou a cabecinha do filho, dizendo:

— Eu morreria por dentro se perdesse qualquer um de vocês.

— Mas isso não aconteceu — disse ele, pegando Darin. — Pequena, não sei o que vou fazer com você. Estou tão aliviado que minha zanga já passou, mas você me desobedeceu.

— Thorin...

— Eu lhe pedi que ficasse aqui e não saísse. Quando eu a encontrei, você estava coberta de sangue!... Se tivesse me obedecido, nada disso teria acontecido!

Anna tentou argumentar:

— Mas Thorin... Óin precisava de mim, o povo precisava de mim!...

— Eu ordenei que ficasse aqui!

O grito dele assustou Darin, que começou a chorar. Anna correu a tirar o filho dele, e disse:

— Por favor, fale baixo.

Anna pôde ver que Thorin tremia, vermelho. Parecia prestes a se descontrolar. Ela respirou fundo e disse, devagar:

— Não posso gritar com você, não quando Darin pode se assustar. — Envergonhado, ele abaixou a cabeça, e Anna ninou Darin, sem erguer a voz para dizer: — Mas eu não poderia ficar aqui, Thorin. Não quando minha ajuda era tão necessária para nosso povo. Procure entender isso, por favor.

— Mas, Anna... — A voz de Thorin, sempre tão segura e possante, agora estava miúda. — Eu só quero protegê-la.

O poderoso Rei Sob a montanha parecia prestes a cair em lágrimas, e Anna entendeu, naquele momento, que seu marido estava com medo. Ela se emocionou e chegou perto dele. Com uma mão, acariciou-lhe o rosto, dizendo:

— Oh, meu amor. Acha que se eu tivesse ficado aqui, nada teria acontecido? Você não tem como saber disso. Acha que se aquele homem tivesse me dito, lá ou em qualquer lugar, que você precisava de ajuda, acha que eu não iria ajudar você? Não importa onde, não importa o quê — eu iria até você, Thorin, meu amor.

Ele a encarou profundamente, os olhos azuis faiscando, e acariciou o queixo dela:

Ghivashel...

A voz dele quebrou-se de emoção, e ele beijou a mão da esposa.

— Desculpe, minha joia. Você é meu ponto fraco e minha fortaleza ao mesmo tempo.

Anna sorriu:

— E você é a minha fortaleza, meu bem mais precioso. Você e Darin são a minha vida.

Ele beijou a cabeça dela e indagou:

— Você está bem agora? Quer se deitar?

— Não, estou bem.

— Então vamos à sala. Kíli e Fíli estão muito preocupados com sua saúde. Querem vê-la o quanto antes.

— Não, espere. Vou me banhar primeiro. — Anna passou-lhe o bebê. — Vamos, Darin, vai com o papai porque a mamãe precisa se limpar agora.

— Vamos esperar lá.

A noite passou muito agradável, com a família reunida. Anna reafirmou exaustivamente que estava ótima, e o susto fora maior do que o estrago.

— Só lamento não poder ajudar a reconhecer quem fez isto.

— Não se preocupe — disse Dís. — Quem fez isso já está longe.

Kíli acrescentou, de maneira sombria:

— Se ele sabe o que é bom para ele, está mesmo longe.

Anna disse:

— Vamos deixar isso para trás. Não é preciso buscar vingança.

Thorin interveio:

— Não se trata de vingança. Se há comércio de escravos perto de Erebor, devemos investigar. Essas pessoas devem saber que aqui não toleramos esta prática.

— E nossos vizinhos?

Balin respondeu:

— Rei Bard já foi avisado, bem como o Senhor da Cidade do Lago. O rei de Mirkwood não respondeu, mas elfos também não apoiam o comércio de pessoas.

Anna estremeceu, reavivando lembranças do que passara com Azog. Abaixou a cabeça, dizendo:

— É uma prática odiosa, que nunca deve ser tolerada. Ninguém merece ser escravizado.

Thorin pegou a mão dela e beijou-a, antes de prometer:

— Não deixarei isso acontecer enquanto eu for rei. Prometo a você, âzyungâl.

Anna sorriu e indagou:

— Balin? Que notícia me dá de Dwalin? Foi vê-lo?

O anão de barbas brancas sorriu:

— Estive com ele e ele reclamou muito, o que é um bom sinal.

Fíli brincava com Darin e comentou:

— Óin disse que você fez um curativo muito bom. Pode ter ajudado a salvar Dwalin.

Anna procurou minimizar o comentário, dizendo:

— Óin é gentil, mas eu acho que o mérito é de sua mãe, Fíli.

— Eu? — repetiu Dís, assustada. — Que quer dizer?

— Acho que você o assustou tanto que Dwalin nem ousou pensar em morrer! Ela o ameaçou, gente, vocês precisavam ver.

Kíli sorriu:

— Essa é minha mãe: incutindo o medo de Mahal no coração dos Durin!

— Cuidado com o que diz, menino. Ainda sou sua mãe.

Houve risos e Kíli fez cara de muxoxo, dizendo:

— Desculpe, mãe.

Anna virou-se para Thorin:

— Thorin, quando você for às minas, poderia me avisar para eu ir junto?

— Claro. Vão gostar de vê-la.

— Mas tenho que me preparar. Vai ser bom se eu levar aqueles biscoitos de Bilbo.

— Que tal levar também para a enfermaria? — sugeriu Kíli. — Se for mesmo receita de Bilbo, Dwalin vai gostar.

— Boa ideia, Kíli.

Palavras em Khuzdul

ghivashel = tesouro de todos os tesouros

ukurduh = meu coração

uznâl = mal-feitor

zurmmuzmnâtîh = esquilinho

âzyungâl = amada