Vida e Obra de uma História Ruim
1 Vida e Obra e de uma História Ruim
Era uma vez uma história ruim. Não era uma história fraquinha ou uma história sem graça. Era uma história realmente ruim. Ruim mesmo!
Sua escrita era truncada, estava repleta de personagens sem atrativos, parte dela era arrastada, outra parte, muito corrida, e seu final, totalmente óbvio. Enfim, era ruim em todos os sentidos. Tudo indicava, portanto, que teria uma vida bem curta.
Quer dizer, as boas histórias vivem bastante tempo e as Grandes Histórias são, até onde se sabe, imortais; mas as histórias ruins geralmente morrem muito cedo. São contadas umas poucas vezes, não agradam, e as pessoas acabam as esquecendo. O esquecimento é a morte das histórias.
A história ruim de quem falamos tinha uma boa noção do que era, e já havia se conformado com seu destino. Às vezes tentava trocar ideias com alguns best-sellers da moda, a quem encarava como semelhantes, mas estes eram orgulhosos demais para aceitar sua efemeridade, e seu infundado ar de superioridade acabou por cansar a história ruim, que preferiu se isolar para aguardar, sozinha, por seu desaparecimento.
Mas este não veio. A coitada era tão ruim, que para sua surpresa e desolação, acabou se tornando um exemplo.
Nenhuma história gosta de se tornar exemplo. Presas a manuais acadêmicos, sendo analisadas, interpretadas, reinterpretadas, esquadrinhadas. Histórias existem para serem saboreadas, não dissecadas. De modo que muitas das boas histórias tem verdadeiros chiliques quando, de repente, se veem em uma turma de universitários ou na boca de críticos que jamais as conheceram de fato, tendo sua estrutura desmembrada camada por camada, sua verossimilhança averiguada, sua temática esmiuçada, o tamanho de seus parágrafos comentado... é muito constrangedor. Ódio profundo, então, nutrem pela Semiótica. Quando começam a encaixá-las naqueles quadros pavorosos sentem-se como se estivessem despidas frente a montes de desconhecidos.
As Grandes Histórias até não se incomodam tanto. Acreditam que esse é o preço da fama (de um modo um tanto pedante, devo dizer). Mas, para as histórias ruins, virar um exemplo é um verdadeiro martírio. Ter as pessoas incessantemente apontando suas falhas, exibindo seus defeitos, jogando luz sobre detalhes que até então nem tinham sido percebidos... tudo isso acaba as tornando motivo de chacota até entre as outras histórias. Além disso, as impedem de morrer.
Depois que se tornou um exemplo, nossa história ruim não teve um único instante de paz.
Não aguentava mais ouvir piadinhas das outras histórias. “Pra quê todas essas vírgulas? Tá fazendo coleção?” “Isso é mesmo uma metáfora ou é só uma ênclise mal colocada?” “ Se eu já sei o seu final desde o começo, você começou do fim ou está do lado do avesso?” “Seu narrador já decidiu se está na ativa ou na passiva?” Há há há. Nessas horas até as histórias dramáticas bancavam as engraçadinhas.
Decidiu, então, que queria ser esquecida, a qualquer custo. Buscou conselhos com as sábias histórias clássicas; tentou se juntar às descartáveis crônicas diárias; até meteu com fake news e debates raivosos de redes sociais pra ver se era deturpada até virar outra coisa totalmente diferente. Tentou de todas as formas, mas nada adiantava. Sempre havia alguém a exibindo a algum pretenso escritor, para mostrar-lhe o que “não fazer”. Começou a achar que viveria para sempre.
Mas o pior ainda estava por vir.
Sua trajetória era tão triste, que as outras histórias começaram a contar a história da história ruim. De sua desgraça, nasceu, assim, uma história, que era uma história trágica. E uma boa história trágica! Para seu desespero, a história de sua história logo alcançou prestígio entre as outras histórias, passando a ser muito respeitada. Assim, enquanto a história ruim continuava passando por toda sorte de humilhações, sua história era ouvida com atenção e consternação, começando até a frequentar bons salões literários. A história ruim passou a ser olhada por sua história com soberba, e até ela começou a proferir gracinhas para sua genitora. E isto apenas tornou sua vida ainda mais trágica... dando ainda mais valor a sua história!
Chegara ao fundo do poço. Passou a frequentar os bares mais decadentes, convivendo com as histórias e piadas de bêbados que, em sua desorientação, a deixavam em paz. Ela mesma começou a beber muito e, em seus devaneios, quando perdia a própria noção de si, acreditava que era uma história sem pé nem cabeça. E ficava feliz, porque melhor ser uma história sem sentido do que uma história ruim. Mas quando a bebedeira passava, era obrigada a se confrontar com a realidade. Uma história ruim era apenas o que continuava a ser, e era o que para sempre o seria.
Não sei precisar por quanto tempo durou seu sofrimento. Para ela, uma eternidade. As noites ébrias se alternavam com dias de total prostração, largada, imunda, em alguma sarjeta. Dias intermináveis. Noites perpétuas. Tinha medo de ter se tornado imortal e nunca conseguir fugir daquele ciclo de dor.
Um dia, porém, algo estranho aconteceu. Começou a ser contada sem ser em exemplos. Narradores a contavam, e interlocutores, paradoxalmente, comentavam: “Nossa, essa é péssima! Muito boa!” Por alguma razão inexplicável as pessoas passaram a encarar seus defeitos como uma qualidade! Havia se tornado uma história trash, cult. Iniciava-se uma nova etapa em sua vida. Passou a andar acompanhada de histórias verdadeiramente horrorosas, cada uma se gabando de ser mais canhestra do que a outra. Quanto pior, melhor. Divertiam aos outros e umas às outras. A história ruim achava-se revigorada e, pela primeira vez na vida, feliz.
Por essa época conheceu uma comediazinha romântica, toda fofa, toda graciosa. Se tivesse um rosto, lembraria bastante o da Julia Roberts. A história ruim se apaixonou quase imediatamente, mas tinha receio de se aproximar, de demonstrar o que sentia. Ela era tão linda enquanto a história ruim era tão malfeita... vivenciaram, então, vários clichês bem típicos, até chegarem ao corolário de que o amor supera qualquer barreira. Tiveram vários filhos, agradáveis histórias infantis que depois se tornaram romances infanto-juvenis e juvenis meio problemáticos, como qualquer adolescente. Andavam com companhias meio estranhas, como bruxos, semi-deuses e vampiros, mas que no fundo eram boa gente.
Casada e feliz, a história ruim teve seu merecido descanso e, salvo tropeços narrativos e licenças literárias comuns na vida de qualquer história, tinha uma boa vida.
E assim, pode-se dizer que a história ruim viveu feliz para sempre.
O mesmo só não pode ser dito de sua história. Com o “final feliz” de sua genitora, a tão trágica história da história ruim perdeu todo seu glamour e tornou-se apenas... uma história comum.
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